Introdução
Ao contemplarmos o céu noturno, somos naturalmente levados a imaginar o Sistema Solar como uma ilha solitária e imutável no vasto oceano do universo. Essa percepção, embora poética, está longe de capturar a verdadeira dinâmica do nosso entorno cósmico. Na realidade, o Sol e seus planetas, incluindo a Terra, são viajantes incansáveis, navegando a velocidades impressionantes — cerca de 828 mil quilômetros por hora — ao redor do centro da Via Láctea. Essa jornada nos conduz por regiões muito distintas do espaço interestelar, ambientes complexos compostos por gases, poeira, partículas carregadas e radiação, que moldam e influenciam o ambiente que envolve o nosso sistema planetário.
A trajetória do Sistema Solar não é apenas uma passagem através do vazio; é uma travessia por um território repleto de vestígios de eventos estelares cataclísmicos, como as supernovas — explosões finais e violentas de estrelas massivas. Essas explosões lançam ao espaço elementos pesados e isótopos raros, que viajam por milhões de anos-luz, impregnando as nuvens interestelares e, em certos momentos, alcançando a Terra. Assim, é possível encontrar nas camadas de gelo ou sedimentos terrestres verdadeiros arquivos cósmicos, registros que guardam a história mais recente do nosso ambiente galáctico.
Essa surpreendente conexão entre o cosmos e nosso planeta está no centro de um estudo inovador publicado em maio de 2026 na renomada revista Physical Review Letters. O artigo intitulado “Local Interstellar Cloud Structure Imprinted in Antarctic Ice by Supernova 60Fe” (“Estrutura da Nuvem Interestelar Local Impressa no Gelo Antártico pelo Ferro-60 de Supernova”) revela como pesquisadores liderados pelo astrofísico Dominik Koll e pelo físico nuclear Anton Wallner identificaram traços do isótopo radioativo Ferro-60 em camadas de gelo da Antártida com idade entre 40 e 81 mil anos. Essa descoberta não apenas confirma que o Sistema Solar está atualmente imerso na chamada Nuvem Interestelar Local (LIC), mas também que essa nuvem funciona como um relicário cósmico, preservando as assinaturas químicas e estruturais de supernovas antigas que marcaram a vizinhança galáctica do nosso sistema planetário.
Ao longo deste artigo, vamos aprofundar o significado dessa descoberta e o que ela revela sobre a complexa interação entre o espaço interestelar e a Terra. Discutiremos como quase 300 quilos de gelo antártico foram transformados em um arquivo minucioso, capaz de detectar átomos individuais do Ferro-60, o que torna esse isótopo um mensageiro tão especial das estrelas mortas. Além disso, exploraremos a estrutura e a dinâmica da Nuvem Interestelar Local e da Bolha Local, e refletiremos sobre as implicações dessa pesquisa para a astronomia, a física espacial e para a nossa compreensão do lugar que ocupamos no cosmos.
A Descoberta no Gelo Antártico
Imagine por um momento o cenário: uma equipe internacional de cientistas enfrentando as condições extremas e implacáveis da Antártida, no remoto Dronning Maud Land, para coletar amostras de gelo que guardam em suas camadas uma história que remonta a dezenas de milhares de anos. A estação Kohnen, situada em uma das regiões mais inóspitas do planeta, foi o palco dessa expedição heroica. Lá, os pesquisadores reuniram nada menos que 295 quilos de gelo, uma quantidade impressionante quando se considera o esforço logístico necessário para operar em temperaturas que podem cair abaixo de –50 °C, ventos cortantes e uma paisagem desolada.
Mas por que escolher o gelo antártico para essa investigação? O gelo polar é um dos melhores arquivos naturais que dispomos para estudar o passado da Terra e do ambiente que a envolve. Assim como as árvores guardam registros em seus anéis, o gelo acumula camadas ao longo do tempo, aprisionando bolhas de ar, partículas e elementos que refletem as condições atmosféricas e ambientais de diferentes épocas. Além disso, o gelo pode capturar partículas provenientes do espaço exterior — poeira estelar, micrometeoritos e isótopos raros — que caem lentamente sobre a Terra e ficam preservados por milhares de anos.
A coleta e o transporte dessas amostras demandam um cuidado extremo para evitar qualquer tipo de contaminação, especialmente por ferro terrestre, que poderia comprometer a análise do isótopo Ferro-60. Durante a expedição na estação Kohnen, os pesquisadores adotaram protocolos rigorosos: o gelo foi cortado com ferramentas feitas de materiais não ferrosos, envolto em embalagens estéreis e mantido em condições que impedissem a introdução de partículas externas. Cada etapa do processo foi meticulosamente planejada para garantir a pureza das amostras.
Após o retorno ao laboratório, o gelo foi derretido e submetido a um processo químico sofisticado para extrair o ferro presente, separando-o de outros elementos e possíveis contaminantes. Foi então que os cientistas aplicaram a técnica de Espectrometria de Massa com Acelerador (AMS) para identificar e quantificar os átomos de Ferro-60 entre uma vasta quantidade de ferro comum. O resultado foi a detecção de uma razão 60Fe para 53Mn (Manganês-53) de cerca de (8 ± 5) × 10^-4, uma evidência clara da origem extraterrestre desses átomos.
A taxa de deposição estimada, de 0,22 milhões de átomos por centímetro quadrado por ano, é surpreendentemente alta, considerando o quão raro o Ferro-60 é na natureza. Esses números indicam que o Sistema Solar atravessa atualmente uma região enriquecida por poeira estelar, que carrega as assinaturas químicas de supernovas antigas. Essa descoberta abre um novo capítulo na astrofísica, permitindo-nos literalmente ler a história da Nuvem Interestelar Local através do registro preservado no gelo da Antártida.
O Mensageiro Estelar: O que é o Ferro-60 e por que ele é especial
Para verdadeiramente apreciar a magnitude dessa descoberta, é fundamental compreender a singularidade do Ferro-60 (60Fe) como um mensageiro do cosmos. Átomos são formados por prótons, nêutrons e elétrons, e os isótopos são variantes de um mesmo elemento químico que diferem no número de nêutrons em seus núcleos. O Ferro-60 possui 26 prótons (como todos os átomos de ferro) e 34 nêutrons, configurando-se como um isótopo radioativo com uma meia-vida de aproximadamente 2,6 milhões de anos.
Essa meia-vida é crucial para que o 60Fe possa ser detectado na Terra como um registro de eventos cósmicos recentes, em termos astronômicos. Isótopos com meia-vida muito curta já teriam desaparecido há muito tempo, enquanto aqueles com meia-vida muito longa, como o ferro estável, não fornecem informações temporais precisas. O equilíbrio do Ferro-60, portanto, o torna um marcador ideal para estudar supernovas ocorridas nos últimos milhões de anos.
Mas de onde vem o Ferro-60? Sua origem está nas fornalhas nucleares das estrelas massivas, que, ao final de suas vidas, explodem em supernovas com uma energia tão colossal que sintetizam elementos pesados e os lançam para o espaço interestelar. O Ferro-60 é produzido em abundância nessas explosões, sendo praticamente inexistente em processos naturais terrestres.
Para entender o desafio que os cientistas enfrentam, imagine procurar uma única agulha muito específica — o Ferro-60 — em um palheiro do tamanho do Monte Everest. O gelo antártico contém trilhões de átomos de ferro estável e outros elementos, dos quais apenas uma fração infinitesimal corresponde ao Ferro-60 de origem cósmica. A analogia não para por aí: a quantidade de Ferro-60 detectada corresponde a poucos átomos por cada trilhão de átomos de ferro comum, uma busca que exige instrumentos capazes de identificar cada átomo individual sem erro.
É aqui que o Manganês-53 (53Mn) se torna um parceiro insubstituível. Esse isótopo radioativo, com meia-vida de cerca de 3,7 milhões de anos, também pode ser encontrado em amostras terrestres, mas sua origem pode ser ambígua, incluindo processos de deposição a partir de micrometeoritos. A razão entre as quantidades de 60Fe e 53Mn permite aos cientistas descartar a possibilidade de que o Ferro-60 detectado venha de micrometeoritos, reforçando que sua origem está ligada a supernovas antigas. Assim, o par 60Fe-53Mn atua como uma assinatura química dupla, fornecendo um filtro confiável para identificar material interestelar genuíno.
Essa combinação torna o Ferro-60 um mensageiro cósmico único, capaz de contar a história das estrelas que morreram próximas do Sistema Solar, deixando um legado que chega até nós em forma de poeira estelar, gravado nas camadas do gelo da Terra.
A Vizinhança Cósmica: A Nuvem Interestelar Local e a Bolha Local
Para entender onde e como essa poeira estelar chega até nós, é preciso ampliar o olhar para o espaço além da Terra, explorando o meio interestelar — a região entre as estrelas repleta de gás, poeira, radiação e partículas carregadas. Nosso Sistema Solar não está isolado nesse vasto ambiente; ele reside dentro de uma complexa e dinâmica estrutura conhecida como Nuvem Interestelar Local (Local Interstellar Cloud, LIC).
A LIC é uma nuvem de gás quente, rarefeito e relativamente pequeno em escala galáctica, com aproximadamente 30 anos-luz de extensão, que envolve o Sistema Solar atualmente. Constitui-se principalmente de átomos de hidrogênio e hélio, mas também contém partículas de poeira e elementos mais pesados — muitos deles provenientes da poeira estelar e dos remanescentes de supernovas. O Sistema Solar atravessa essa nuvem a uma velocidade relativa de cerca de 25 quilômetros por segundo, o que significa que a composição e densidade do meio ao nosso redor estão em constante mudança.
Mais ampla que a LIC, e englobando-a, está a Bolha Local — uma cavidade gigantesca e de baixa densidade, com cerca de 300 anos-luz de diâmetro, formada por múltiplas explosões de supernovas ocorridas nos últimos 10 a 20 milhões de anos. Essas supernovas varreram o gás interestelar e aqueceram o meio ao seu redor, criando uma região de alta temperatura e baixa densidade que protege o Sistema Solar de partículas energéticas e radiação galáctica.
A estrutura da LIC dentro da Bolha Local é complexa, com variações de densidade, temperatura e composição química. A poeira interestelar que contém o Ferro-60 e outros resíduos de supernovas antigas está distribuída de forma não homogênea, formando filamentos, nuvens e regiões de maior concentração. O estudo das variações do Ferro-60 ao longo do tempo, registradas no gelo antártico, permite mapear essa estrutura, revelando que a LIC funciona como um relicário dinâmico e vivo, armazenando a história das explosões estelares que moldam o ambiente espacial imediato.
Historicamente, a compreensão da LIC e da Bolha Local tem evoluído a partir de observações astronômicas, simulações computacionais e estudos de partículas interestelares. Nos anos 1970, a primeira evidência da existência da LIC veio de observações espectroscópicas que mostraram absorção de luz estelar por átomos de gás interestelar a distâncias próximas. Mais recentemente, missões espaciais como a Voyager 1 e 2, e a New Horizons, têm fornecido dados diretos sobre as propriedades do meio interestelar que circunda a heliosfera.
Essas descobertas consolidaram a visão de que o Sistema Solar está imerso em uma bolha cósmica que é tanto um refúgio quanto um ambiente mutável, onde a poeira e o gás transportam as marcas das estrelas que um dia explodiram não muito longe de nós.
O Passado do Sistema Solar: A jornada da Terra através da nuvem nos últimos 80 mil anos
Quando pensamos na história do Sistema Solar em escalas de tempo astronômicas, 80 mil anos podem parecer um instante fugaz. No entanto, essa janela temporal é rica em eventos e transformações que impactaram diretamente o nosso planeta e seu ambiente.
Durante os últimos 80 mil anos, o Sistema Solar, junto com a Terra, embarcou numa jornada complexa através da Nuvem Interestelar Local. Essa passagem não é uma simples travessia estática, mas um movimento sinuoso e influenciado por múltiplas forças, incluindo a gravidade das estrelas vizinhas, a pressão do meio interestelar e ondas de choque geradas por eventos cósmicos como supernovas.
A análise das camadas de gelo da Antártida revelou que a deposição do Ferro-60 não foi constante, mas variou ao longo desse período. Essas flutuações indicam que o Sistema Solar passou por regiões com diferentes concentrações de poeira interestelar enriquecida por material supernovar. Essas variações atuam como um mapa temporal e espacial da estrutura da LIC, permitindo-nos “ler” a composição das nuvens interestelares enquanto o Sistema Solar as atravessa.
Ao mesmo tempo, essa jornada tem implicações profundas para a heliosfera — a bolha magnética e de partículas criada pelo vento solar que envolve todo o Sistema Solar e atua como um escudo contra a radiação cósmica. Quando o Sistema Solar entra em regiões mais densas da LIC, a heliosfera pode se contrair ou expandir, modulando o fluxo de partículas energéticas que atingem a Terra.
Há hipóteses sugerindo que essas variações na radiação cósmica podem influenciar o clima terrestre, afetar o ciclo de formação de nuvens e até provocar mutações genéticas em organismos vivos. Embora esses efeitos ainda estejam em estudo, a conexão entre a jornada do Sistema Solar pela LIC e as condições ambientais na Terra é um campo promissor que une astronomia, geologia e biologia.
Para os nossos ancestrais — os Neandertais e os primeiros Homo sapiens que caminharam pela Terra naquela época — essa poeira estelar silenciosa caía sobre o planeta, uma chuva cósmica que ligava o fim violento de estrelas distantes ao frágil equilíbrio da vida na Terra pré-histórica. Cada floco de neve que caía na Antártida guardava, em sua estrutura, vestígios desses acontecimentos estelares, como se o passado cósmico se condensasse no silêncio branco do gelo.
O Enigma da Origem: De onde veio essa nuvem? É um remanescente puro de supernova ou poeira antiga varrida?
Um dos aspectos mais fascinantes e desafiadores da descoberta do Ferro-60 no gelo antártico é o mistério sobre a verdadeira origem da Nuvem Interestelar Local. Será que ela é um remanescente direto e não misturado de uma ou poucas supernovas recentes? Ou seria uma mistura complexa, uma poeira interestelar antiga reprocessada e varrida por múltiplos eventos ao longo de milhões de anos?
O meio interestelar é um ambiente dinâmico e multifacetado, onde gás e poeira de diferentes origens se combinam e interagem. A LIC contém material ejetado por estrelas em diferentes fases de suas vidas, fragmentos de supernovas, e matéria interestelar aquecida e turbulenta. Esses componentes se misturam, criando uma composição heterogênea que representa uma espécie de “caldeirão cósmico”.
A presença do Ferro-60 em camadas de gelo datando de até 81 mil anos atrás indica que a nuvem contém material produzido por supernovas ocorridas dentro de uma escala de tempo compatível com a meia-vida do isótopo. Contudo, as variações na razão 60Fe/53Mn e as flutuações na taxa de deposição sugerem que o material não é resultado de um único evento, mas sim de um acúmulo e mistura de partículas provenientes de múltiplas fontes.
Algumas hipóteses propõem que o Sistema Solar esteja atravessando uma interface complexa onde diferentes estruturas interestelares convergem — uma zona de transição entre o meio quente e rarefeito da Bolha Local e nuvens frias e densas vizinhas. Nesse espaço, a poeira e os elementos radioativos podem ser acumulados e transportados, formando um mosaico químico que reflete a história de múltiplas supernovas e processos estelares.
Desvendar esse enigma é fundamental para a astrofísica, pois determina como interpretamos os dados sobre a história cósmica imediata e como as condições do meio interestelar evoluem ao redor do Sistema Solar. Novas medições, simulações detalhadas e análises químicas complementares serão essenciais para avançar nesse entendimento.
O Trabalho Detetive no Laboratório: Como os cientistas contam átomos individuais usando Espectrometria de Massa com Acelerador
Se a expedição na Antártida representou uma verdadeira odisseia em um dos ambientes mais extremos da Terra, o trabalho que se segue no laboratório é uma obra-prima da ciência de precisão e da tecnologia avançada. Detectar átomos de Ferro-60 em quantidades quase inimagináveis exige o uso da Espectrometria de Massa com Acelerador (AMS), uma técnica que combina física nuclear, química e engenharia para contar átomos únicos em meio a trilhões de outros.
A AMS é, em essência, uma busca por agulhas cósmicas em um palheiro astronômico. Imagine um palheiro do tamanho do Everest, cheio de agulhas muito parecidas entre si, e a tarefa é encontrar aquelas poucas agulhas que têm uma assinatura única e diferente. A AMS consegue isso ao ionizar os átomos da amostra, acelerá-los a velocidades próximas à da luz e separá-los por massa e carga elétrica em campos magnéticos e elétricos controlados com extrema precisão.
O processo começa com a preparação química da amostra: o gelo derretido é tratado para extrair o ferro, removendo impurezas e contaminantes. O ferro extraído é convertido em óxidos sólidos, que são introduzidos no acelerador. No interior da máquina, os íons de ferro são acelerados, passando por filtros que eliminam íons interferentes e partículas que poderiam gerar falsos positivos.
Finalmente, detectores altamente sensíveis registram a passagem de cada átomo de Ferro-60, permitindo uma contagem precisa, mesmo quando esses átomos são raríssimos — um para cada trilhão ou mais de átomos de ferro comum. Essa capacidade transforma uma amostra aparentemente comum em um testemunho direto dos eventos estelares que ocorreram milhões de anos atrás e a milhões de anos-luz de distância.
O rigor desse método é fundamental para garantir que os resultados sejam confiáveis e que o Ferro-60 detectado não seja fruto de contaminação ou processos terrestres. É um exemplo brilhante da interseção entre diferentes campos científicos, que juntos desvendam os segredos do universo a partir de uma amostra de gelo.
Implicações Futuras: O que isso significa para o nosso entendimento da heliosfera e do clima espacial
A confirmação da presença e variação do Ferro-60 na Nuvem Interestelar Local abre novas fronteiras para a pesquisa científica e para a compreensão do ambiente que envolve o Sistema Solar. Uma das áreas diretamente impactadas é o estudo da heliosfera — a bolha protetora formada pelo vento solar, que atua como escudo contra a radiação cósmica galáctica.
A heliosfera é um sistema dinâmico, que responde às condições do meio interestelar. Quando o Sistema Solar atravessa regiões densas ou ricas em poeira interestelar, como as nuvens carregadas por resíduos de supernovas, a heliosfera pode encolher, alterando sua capacidade de proteger o Sistema Solar contra partículas de alta energia.
Essas mudanças influenciam a quantidade de radiação cósmica que chega à Terra, o que pode afetar a atmosfera, os ciclos climáticos e até a biologia do planeta. Por exemplo, aumentos na radiação cósmica podem alterar a formação de nuvens, influenciar o clima global e até causar mutações genéticas. Embora essas hipóteses ainda estejam sob investigação, a evidência do Ferro-60 fornece um elo concreto entre o espaço interestelar e o clima espacial.
Além disso, o estudo do Ferro-60 ajuda a calibrar e validar modelos computacionais que simulam a interação entre o vento solar e o meio interestelar. Isso é crucial para prever o ambiente espacial que afeta satélites, missões espaciais tripuladas e tecnologias na Terra, como redes de comunicação e sistemas de navegação.
Mais amplamente, essa pesquisa reforça a ideia de que a Terra e sua biosfera não são sistemas isolados, mas estão intrinsecamente conectados a processos galácticos. Somos parte de uma rede cósmica dinâmica, onde a morte violenta de estrelas distantes e a poeira que delas resulta influenciam diretamente o ambiente terrestre.
A Conexão Humana: O Céu que Nossos Ancestrais Observavam
Há cerca de 80 mil anos, enquanto uma tênue chuva de poeira estelar — rica em Ferro-60, um raro isótopo produzido nas profundezas das supernovas — depositava-se silenciosamente sobre as vastas camadas de gelo da Antártida, nossos ancestrais humanos caminhavam sob um céu noturno que, para eles, era ao mesmo tempo familiar e misterioso. Homo sapiens e Neandertais, ainda jovens na longa jornada da evolução, erguiam os olhos para um firmamento que, embora hoje nos pareça imutável, era palco de fenômenos cósmicos em escala e ritmo inimagináveis.
A poeira que agora detectamos nos confins gelados do planeta é um vestígio tangível da morte cataclísmica de estrelas massivas, eventos que moldaram não apenas o ambiente galáctico local, mas também, indiretamente, o contexto no qual a vida humana floresceu. Essas explosões estelares deram origem à chamada Bolha Local — uma cavidade de gás rarefeito com cerca de 300 anos-luz de extensão — e à Nuvem Interestelar Local, uma densa região de poeira e gás que o Sol e seu sistema planetário hoje atravessam. Embora as supernovas que criaram essa vizinhança cósmica tenham ocorrido há milhões de anos, é possível que outras explosões, talvez no grupo estelar Scorpius-Centaurus, tenham iluminado o céu de nossos ancestrais com brilhos fugazes e intensos, marcando o firmamento com pontos de luz temporários e espetaculares.
Imagine-se naquela noite pré-histórica, longe das luzes artificiais que hoje banham nossas cidades. O céu era um manto profundo, pontilhado por incontáveis estrelas, constelações ainda reconhecíveis, e, ocasionalmente, por um “visitante” brilhante e efêmero — uma supernova. Esses flashes de luz, potencialmente visíveis a olho nu, teriam sido fenômenos notáveis para grupos humanos que dependiam do céu para orientação, calendário e mitologia. Ainda que não possamos afirmar com certeza que nossos ancestrais testemunharam tais explosões, a possibilidade nos conecta diretamente a um passado em que a escala temporal da evolução humana e a escala temporal dos processos cósmicos se entrelaçam.
A poeira que agora analisamos é mais do que um registro científico; é uma ponte entre o microcosmo da história da vida na Terra e o macrocosmo da dinâmica galáctica. Cada grânulo de Ferro-60 depositado no gelo antártico carrega a marca de eventos que transcendem gerações humanas, lembrando-nos que nossa existência está inserida em um universo vivo, pulsante, onde estrelas nascem, vivem e morrem em ciclos que ecoam através do tempo. Enquanto Homo sapiens e Neandertais traçavam seus caminhos nas paisagens antigas, o céu acima deles era moldado por forças cósmicas que, silenciosamente, influenciariam o ambiente planetário e, talvez, até os próprios rumos da vida.
Assim, a descoberta da poeira de supernova não é apenas um achado arqueológico do cosmos, mas um convite para contemplarmos a profunda conexão entre o céu e a humanidade. É um lembrete poético e científico de que, ao olhar para as estrelas, nossos ancestrais não apenas buscavam significado, mas estavam, inconscientemente, observando os ecos de estrelas que haviam explodido milhões de anos antes — estrelas cujos restos ainda hoje chegam até nós, entrelaçando histórias de fogo, gelo e vida em uma única narrativa cósmica.
Conclusão
A extraordinária descoberta do Ferro-60 em camadas profundas de gelo antártico nos oferece uma janela sem precedentes para a história recente da vizinhança cósmica do Sistema Solar. Por meio do esforço meticuloso de coleta, análise e interpretação, a equipe liderada por Dominik Koll e Anton Wallner transformou quase 300 quilos de gelo em um arquivo vivo que registra a passagem da Terra pela Nuvem Interestelar Local e a presença palpável de partículas oriundas de supernovas antigas.
Essa conexão entre o espaço interestelar e o nosso planeta é um lembrete poético e científico de que somos parte de um universo em constante transformação. As estrelas que morreram em explosões violentas deixaram seus legados na forma de minúsculas partículas de ferro radioativo que, ao longo de dezenas de milhares de anos, caíram silenciosamente sobre a Terra, depositando-se no gelo da Antártida. Cada átomo de Ferro-60 é, portanto, um fragmento do passado estelar, uma história gravada na matéria que compõe nosso mundo.
Metaforicamente, podemos imaginar que os flocos de neve que caíam na Terra pré-histórica — na época dos Neandertais e dos primeiros Homo sapiens — eram portadores silenciosos de uma mensagem cósmica, conectando o fim dramático de estrelas distantes a um tempo e espaço muito próximos da experiência humana. Essa teia de conexão entre o micro e o macro, entre o gelo e as estrelas, nos convida a refletir sobre nossa posição no cosmos, não como espectadores passivos, mas como participantes ativos em uma narrativa que transcende gerações e galáxias.
À medida que avançamos na exploração do universo, descobertas como essa nos instigam a olhar para o céu com um senso renovado de admiração e humildade. O arquivo cósmico guardado no gelo antártico é uma prova tangível de que, mesmo nas regiões mais remotas e aparentemente estáticas da Terra, está escrito o pulsar do universo — uma tapeçaria cósmica que podemos decifrar, camada por camada, átomo por átomo, revelando a história da nossa existência entre as estrelas.
Referência Científica
Artigo original: Koll, D., Rolofs, A., Adolphi, F., Fichter, S., Hoerhold, M., Lachner, J., Pavetich, S., Rugel, G., Tims, S., Wilhelms, F., Zwickel, S., & Wallner, A. (2026). Local Interstellar Cloud Structure Imprinted in Antarctic Ice by Supernova ⁶⁰Fe. Physical Review Letters, 136, 192701.
DOI: 10.1103/nxjq-jwgp
Licença: Creative Commons Attribution 4.0 International
Instituições: Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf (Alemanha) · Australian National University (Austrália) · TUD Dresden University of Technology · Alfred-Wegener-Institut · Universidade de Bonn · Universidade de Bremen · Universidade de Göttingen.
Comente!