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Delicie-se com a Nebulosa do Ovo Frito


Os astrônomos utilizaram o Very Large Telescope do ESO para obter imagens de uma estrela colossal pertencente a uma das mais raras classes de estrelas no Universo, as hipergigantes amarelas. Esta nova imagem é a melhor jamais obtida para uma estrela desta classe e mostra pela primeira vez uma enorme concha dupla de poeira a rodear a hipergigante central. A estrela e a sua concha parecem-se com a clara de um ovo em torno da gema central, o que levou os astrônomos a darem-lhe o nome de Nebulosa do Ovo Frito.

A estrela monstruosa, conhecida pelos astrônomos como IRAS 17163-3907 [1] tem um diâmetro de cerca de mil vezes maior do que o do nosso Sol. A uma distância de cerca de 13 000 anos-luz da Terra, é a hipergigante amarela mais próxima de nós encontrada até hoje e as novas observações mostram que brilha cerca de 500 000 vezes mais intensamente do que o Sol [2].

“Sabia-se que este objeto brilhava intensamente no infravermelho mas, surpreendentemente, ninguém o tinha ainda identificado como uma hipergigante amarela”, disse Eric Lagadec (Observatório Europeu do Sul), líder da equipa que produziu estas novas imagens.

As observações da estrela e a descoberta das suas conchas envolventes foram feitas pela câmara infravermelha VISIR montada no VLT. As imagens obtidas são as primeiras que mostram claramente o material que rodeia a estrela e revelam claramente duas conchas quase perfeitamente esféricas.

Se a Nebulosa do Ovo Frito fosse colocada no centro do Sistema Solar, a Terra ficaria bem no interior da própria estrela e o planeta Júpiter orbitaria mesmo por cima da sua superfície. A concha muito maior que envolve a estrela englobaria todos os planetas, planetas anões e ainda alguns dos cometas que orbitam muito além da órbita de Netuno. A concha exterior tem um raio 10 000 vezes maior que a distância da Terra ao Sol.

As hipergigantes amarelas estão numa fase extremamente ativa da sua evolução, sofrendo uma série de eventos explosivos –  esta estrela ejetou já quatro vezes a massa do Sol em apenas algumas centenas de anos [3]. O material ejetado durante estas explosões formou a extensa concha dupla da nebulosa, a qual é constituída por poeira rica em silicatos misturada com gás.

Esta atividade mostra igualmente que a estrela deverá sofrer brevemente uma morte explosiva – será uma das próximas explosões de supernova na nossa Galáxia [4]. As supernovas fornecem ao meio interestelar circundante muitos químicos necessários e as ondas de choque resultantes podem dar origem à formação de novas estrelas.

O instrumento VISIR montado no Very Large Telescope, que trabalha no infravermelho médio, obteve esta imagem da Nebulosa do Ovo Frito utilizando três filtros no infravermelho médio, coloridos na imagem a azul, verde e vermelho [5].

Notas

[1] O nome indica que o objeto foi inicialmente descoberto como sendo uma fonte de radiação infravermelha pelo satélite IRAS em 1983. Os números indicam a posição da estrela no céu, no centro na Via Láctea na constelação do Escorpião.

[2] A IRAS 17163-3907 é uma das estrelas mais brilhantes no céu infravermelho, observada pelo IRAS no comprimento de onda de 12 microns. No entanto, tem sido negligenciada porque a sua emissão visível é muito fraca.

[3] Estima-se que a massa total desta estrela seja aproximadamente vinte vezes a massa do Sol.

[4] Depois de queimarem todo o seu hidrogênio, todas as estrelas com dez ou mais massas solares tornam-se supergigantes vermelhas. Esta fase termina quando a estrela acaba de queimar todo o seu hélio. Algumas destas estrelas de grande massa passam então apenas alguns milhões de anos na fase de pós-supergigante vermelha como hipergigantes amarelas, um tempo relativamente curto na vida de uma estrela, antes de evoluírem rapidamente para outro tipo de estrela incomum chamada uma variável azul luminosa. Estas estrelas quentes e brilhantes variam constantemente em luminosidade e perdem matéria devido aos fortes ventos estelares que ejetam. No entanto, este não é o fim da aventura da evolução destas estrelas, já que em seguida podem transformar-se num tipo diferente de estrelas instáveis conhecidas por estrelas Wolf-Rayet (http://www.eso.org/public/images/wr124/) antes de terminarem as suas vidas numa violenta explosão de supernova.

[5] Os três filtros no infravermelho médio coletam radiação nos comprimentos de onda 8590 nm (a azul), 11850 nm (a verde) e 12810 nm (a vermelho).

Fonte:

http://www.eso.org/public/news/eso1136/


Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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