O Sol vai engolir a Terra? O veredicto começou a mudar

Um novo cálculo com física de marés de última geração reabre a pergunta mais antiga sobre o fim do nosso planeta — e, pela primeira vez em décadas, a balança pende para a sobrevivência.


Daqui a cerca de oito bilhões de anos, um observador que pudesse contemplar o céu a partir da superfície calcinada da Terra veria um Sol irreconhecível. No lugar do disco amarelo e compacto que hoje aquece os oceanos, uma esfera avermelhada e dilatada ocuparia uma fração enorme do firmamento, pulsando devagar, expelindo camadas inteiras de si mesma para o espaço em ventos lentos e densos. Mercúrio já teria desaparecido, vaporizado milhões de anos antes. Vênus também. E a Terra? Durante mais de um século, a resposta dos livros-texto foi sombria e direta: o planeta seria devorado pela estrela moribunda, reduzido a vapor metálico dissolvido na atmosfera externa do Sol. Um trabalho recém-publicado por três pesquisadores da Bélgica e da França acaba de reabrir essa sentença de morte — e a conclusão preliminar é que, talvez, a Terra escape.

O estudo, assinado por Mats Esseldeurs e Leen Decin, do Instituto de Astronomia da KU Leuven, e por Stéphane Mathis, da Universidade Paris-Saclay, saiu como uma Carta ao Editor no periódico Astronomy & Astrophysics. A proposta central é direta e ambiciosa: refazer o cálculo do destino da Terra e dos demais planetas internos durante as fases finais do Sol usando física de marés mais moderna e taxas de perda de massa atualizadas. O resultado expõe uma verdade desconfortável para quem gosta de respostas fechadas. O futuro da Terra depende de dois processos físicos que ainda conhecemos mal, e conforme a hipótese adotada para cada um deles a mesma estrela ora engole o planeta, ora o poupa.

Para entender o que está em jogo é preciso situar onde o Sol se encontra hoje na sua biografia. Com aproximadamente 4,6 bilhões de anos de idade, a estrela vive a chamada sequência principal, o longo período de estabilidade em que converte hidrogênio em hélio no núcleo por fusão nuclear. Essa é a fase mais demorada e mais tranquila da vida de qualquer estrela parecida com o Sol, e dura algo perto de dez bilhões de anos. Estamos, em termos práticos, na metade do caminho. O equilíbrio entre a pressão da radiação produzida no centro e o peso das camadas externas mantém o astro com o tamanho e o brilho que conhecemos, dia após dia, há bilhões de anos.

O fim dessa estabilidade chega quando o hidrogênio do núcleo se esgota. Sem combustível para sustentar a fusão central, o caroço de hélio começa a contrair sob o próprio peso, e essa contração aquece as camadas vizinhas a ponto de acender uma casca de hidrogênio em fusão ao redor do centro inerte. A energia liberada por essa casca empurra o envelope da estrela para fora de maneira descomunal. O Sol incha, sua superfície esfria e adquire tom avermelhado, e ele ingressa no ramo das gigantes vermelhas, designado pela sigla RGB, do inglês red giant branch. Nessa etapa, o raio solar cresce de tal forma que passa a superar a própria órbita atual da Terra, alcançando algo da ordem de 1,2 a 1,5 unidade astronômica conforme a intensidade dos ventos estelares.

A história não termina aí. Quando a temperatura no caroço de hélio finalmente atinge o limiar necessário, o hélio começa a fundir em carbono e oxigênio num episódio abrupto conhecido como flash do hélio, e a estrela reage contraindo-se parcialmente. Esse período mais comportado, em que a gigante queima hélio no centro, corresponde ao ramo horizontal, ou HB. É uma trégua temporária. Esgotado o hélio central, o Sol volta a expandir, agora de modo ainda mais dramático, sustentado por duas cascas de fusão simultâneas, uma de hélio e outra de hidrogênio, dispostas em torno de um núcleo morto de carbono e oxigênio.

Essa segunda grande expansão define o ramo assintótico das gigantes, ou AGB, do inglês asymptotic giant branch, e é justamente o capítulo mais decisivo para o destino da Terra. Durante a fase AGB a estrela atinge seu tamanho máximo e perde massa num ritmo violento, soprando para o espaço o equivalente a uma fração substancial de si mesma a cada ano. Pulsos térmicos periódicos, episódios em que a casca de hélio entra em combustão instável, fazem o raio do astro oscilar bruscamente em intervalos de algumas centenas a alguns milhares de anos. É nesse cenário caótico, de uma estrela enorme, pulsante e em rápida dissolução, que se decide se a Terra terá sua órbita estrangulada ou preservada.

O desfecho de tudo é conhecido e estranhamente sereno. Depois de ejetar o envelope externo inteiro, o Sol expõe o caroço quente de carbono e oxigênio que sobrou, do tamanho aproximado da Terra mas com quase metade da massa que a estrela tem hoje comprimida nesse volume minúsculo. Esse remanescente é uma anã branca, um objeto degenerado e densíssimo que não produz mais energia por fusão e que apenas irradia o calor acumulado, esfriando lentamente ao longo de dezenas de bilhões de anos. A questão que o novo estudo ataca é o que acontece com a Terra entre o presente e esse epílogo de brasa.

O problema é, no fundo, uma disputa entre duas forças opostas que agem sobre a órbita de cada planeta enquanto a estrela se transforma. De um lado, a perda de massa trabalha a favor da sobrevivência. Quando o Sol expele matéria, sua atração gravitacional diminui, e os planetas, menos presos, respondem afastando-se em órbitas mais largas. De outro lado, as interações de maré puxam no sentido contrário. A enorme atmosfera distendida da gigante deforma-se sob a gravidade do planeta e cria um atrito que freia o corpo em órbita, drenando energia e momento angular do movimento orbital e arrastando o planeta para dentro, rumo à superfície estelar. Quem vence esse cabo de guerra define se há engolimento ou escape.

A disputa científica sobre quem vence é antiga e tem oscilado por décadas. O primeiro a calcular o efeito da perda de massa sobre as órbitas dos planetas do Sistema Solar foi a equipe de Sackmann, em 1993, que adotou a hipótese simples de conservação do momento angular durante a perda de massa, o que equivale a alargar progressivamente as órbitas. Sob essa premissa, a Terra escaparia com folga. O cálculo, porém, ignorava as marés, que viriam a complicar o quadro nos trabalhos seguintes.

Em 2001, a dupla Rybicki e Denis acrescentou ao problema uma lista de efeitos que Sackmann havia deixado de fora: as interações de maré, a captura de parte do vento estelar pelo planeta, a evaporação provocada pela radiação intensa da gigante e o arrasto exercido pelo próprio vento. A conclusão a que chegaram organizou o debate que persiste até hoje. Entre todos esses fatores, dois dominam de longe a evolução orbital, a perda de massa e as marés, e o resultado final depende de como cada um é modelado.

A partir daí, estudos sucessivos passaram a combinar perda de massa e marés e a chegar a veredictos opostos, dependendo dos números que alimentavam as contas. O trabalho de Schröder e Smith, de 2008, previu engolimento. O de Nordhaus e colaboradores, de 2010, previu sobrevivência. A diferença entre os dois nasceu de uma única escolha: Nordhaus supôs uma taxa de perda de massa mais alta durante o ramo das gigantes vermelhas, o que afasta mais os planetas e salva a Terra, enquanto Schröder trabalhou com uma taxa menor, que sela a destruição. Um mesmo planeta, duas equações de perda de massa, dois futuros incompatíveis.

A equipe de Guo, em 2016, levou essa dependência a sério e fez uma análise detalhada de como diferentes taxas de perda de massa durante o RGB afetam o destino orbital. O raciocínio físico é elegante: taxas baixas de perda de massa significam que a estrela não só permanece mais tempo na fase de gigante como também cresce mais, e uma estrela maior por mais tempo intensifica as marés que encolhem a órbita da Terra, levando ao engolimento. Calibrando o cálculo com taxas de perda de massa medidas em estrelas reais por McDonald e Zijlstra, em 2015, Guo concluiu que a Terra sobreviveria ao ramo das gigantes vermelhas.

Um ingrediente adicional entrou em cena com Lanza e colaboradores, em 2023, que introduziram o papel da excentricidade residual. Trata-se de um processo estocástico, isto é, governado pelo acaso, em que flutuações de densidade ao redor do planeta provocam pequenas variações na forma da órbita. Essas flutuações, da ordem de um centésimo de milésimo durante a sequência principal, ampliam-se para cerca de um centésimo durante a fase de gigante, e isso transforma a própria sobrevivência da Terra em algo parcialmente aleatório, que não se decide por uma conta única e definitiva, mas por uma distribuição de probabilidades.

Há, ainda, uma âncora observacional que pesa a favor da sobrevivência de planetas como o nosso. Astrônomos já detectaram corpos de tipo terrestre orbitando anãs brancas, os remanescentes finais de estrelas semelhantes ao Sol. O achado de Zhang e colaboradores, em 2024, é um exemplo recente. Se planetas rochosos são encontrados girando ao redor de cadáveres estelares, isso indica que ao menos parte deles atravessou intacta as fases de gigante vermelha e de gigante assintótica que precederam a formação da anã branca. A natureza, portanto, parece permitir o escape em pelo menos alguns casos.

O ponto fraco de quase toda essa literatura está no tratamento das marés. Os estudos ou ignoravam as interações de maré por completo, como fez Sackmann, ou recorriam a fórmulas simplificadas baseadas na teoria da maré de equilíbrio formulada por Zahn nos anos 1960 e 1970. Essas fórmulas partem do pressuposto de que a dissipação das marés é dominada pela chamada maré de equilíbrio, a deformação lenta e quase estática do envelope estelar, e usam parametrizações genéricas para as propriedades da estrela. Foi precisamente esse elo da corrente que o novo trabalho decidiu refazer com rigor renovado.

A novidade técnica que sustenta o estudo é o uso de prescrições de dissipação de maré derivadas de cálculos ab initio, expressão latina que significa, literalmente, a partir do princípio. Em vez de aplicar fórmulas prontas e calibradas em situações genéricas, esses cálculos modelam a dissipação de maré partindo da estrutura interna e da dinâmica das estrelas evoluídas, com base no entendimento mais atual de como o interior dessas gigantes se comporta. O método foi desenvolvido por Esseldeurs e colaboradores num trabalho de 2024, e incorpora também as marés dinâmicas associadas à propagação de ondas internas de gravidade dentro da estrela, um efeito ausente das prescrições antigas.

Sobre essa base, os autores acoplaram um modelo de evolução orbital construído num segundo trabalho da mesma equipe, publicado em 2026. A ferramenta calcula simultaneamente as duas contribuições que governam o destino de cada planeta, a variação da órbita causada pelos ventos estelares e a variação causada pelas marés, somadas numa única equação que descreve como a distância orbital muda ao longo do tempo. Cada planeta do Sistema Solar interno foi integrado de forma independente, sem considerar as interações gravitacionais entre planetas, uma simplificação que os próprios autores testam e justificam em apêndice.

A espinha dorsal estelar do cálculo veio do código de evolução estelar MESA, uma das ferramentas mais consolidadas da astrofísica moderna, configurado para acompanhar o Sol desde antes da sequência principal até a fase de anã branca. A estrela modelada tem massa inicial de exatamente uma massa solar e composição química com metalicidade de 0,0134, o conjunto de elementos mais pesados que hélio medido para o Sol. Toda a física de entrada foi escolhida para ser consistente com modelos de referência das fases evoluídas, garantindo que o esqueleto estelar sobre o qual as órbitas evoluem seja o mais realista possível.

Diagrama de Kippenhahn da evolução interna do Sol, mostrando como a estrutura do
Diagrama de Kippenhahn da evolução interna do Sol, mostrando como a estrutura do astro se reorganiza em cada fase. As regiões hachuradas em marrom indicam zonas convectivas, onde o material circula transportando calor; as regiões pontilhadas em amarelo indicam zonas radiativas. O eixo horizontal traz o tempo restante até o fim da simulação, em escala logarítmica, separando com clareza as fases de gigante vermelha (RGB), ramo horizontal (HB) e gigante assintótica (AGB).Crédito: Esseldeurs, Mathis & Decin (2026), Astronomy & Astrophysics · CC BY 4.0

As taxas de perda de massa receberam tratamento cuidadoso e separado para cada fase. Durante o ramo das gigantes vermelhas, os autores empregaram a prescrição clássica de Reimers com um parâmetro de eficiência de 0,477, valor calibrado por observações de estrelas reais. Para a fase AGB, recorreram à prescrição de Blöcker, cujo parâmetro de eficiência variaram deliberadamente entre 0,01 e 0,5, adotando 0,05 como valor de referência. Essa varredura ampla não é um detalhe técnico menor: é a admissão honesta de que a perda de massa na fase AGB permanece tão mal determinada que a única conduta científica responsável é testar todo o intervalo plausível.

O primeiro grande resultado emerge do quadro completo da evolução orbital do Sistema Solar interno, da pré-sequência principal até a anã branca. Conforme o Sol perde massa durante o RGB, as órbitas de todos os planetas se alargam, e o alargamento é tanto maior quanto mais distante da estrela está o planeta. Mercúrio e Vênus, próximos demais, não conseguem recuar com rapidez suficiente para escapar da fronteira da estrela em expansão e são engolidos ainda no ramo das gigantes vermelhas. A Terra e Marte, mais afastados, ganham essa corrida por uma margem confortável e sobrevivem à fase RGB.

A sequência seguinte reproduz a coreografia das fases estelares com fidelidade. Durante o ramo horizontal, quando a estrela se contrai após o flash do hélio, as distâncias orbitais se estabilizam, congeladas enquanto o astro recupera o fôlego. Com a chegada da fase AGB e a retomada da perda intensa de massa, as órbitas voltam a se expandir, e mais uma vez a Terra e Marte conseguem recuar depressa o bastante para não serem alcançados. Quando o Sol finalmente ejeta o envelope e se reduz a anã branca, as órbitas se estabilizam pela última vez. Sob a física adotada como referência, a Terra termina a jornada inteira a salvo.

A evolução da distância orbital dos quatro planetas internos ao longo das fases
A evolução da distância orbital dos quatro planetas internos ao longo das fases finais do Sol, da pré-sequência principal (PMS) até a anã branca (WD). Cada cor é um planeta — Mercúrio em laranja, Vênus em verde, Terra em vermelho e Marte em roxo — e a linha azul acompanha o raio do próprio Sol. As linhas pontilhadas marcam o lóbulo de Roche, o limite a partir do qual o planeta seria capturado. A linha vertical tracejada indica a idade atual do Sol. Mercúrio e Vênus são engolidos durante o ramo das gigantes vermelhas; Terra e Marte recuam a tempo e sobrevivem.Crédito: Esseldeurs, Mathis & Decin (2026), Astronomy & Astrophysics · CC BY 4.0

Esse desfecho favorável, contudo, está longe de ser garantido, e o coração do artigo é demonstrar exatamente quão frágil ele é. Os autores isolam primeiro o efeito da escolha de prescrição de maré comparando seu modelo moderno com uma prescrição antiga baseada na teoria de Zahn, na versão empregada por Mustill e Villaver em 2012. A diferença fundamental entre as duas reside no tratamento de como a viscosidade turbulenta do envelope estelar depende da frequência da maré, e é justamente na órbita da Terra que essa diferença atinge seu valor máximo, tornando a escolha da fórmula um fator decisivo para o nosso planeta em particular.

A consequência dessa divergência é direta e perturbadora. As prescrições antigas preveem uma dissipação de maré mais intensa, o que reduz o alargamento da órbita e faz a Terra deixar a fase de gigante vermelha numa órbita bem mais apertada. Começando a fase AGB já tão perto da estrela, o planeta acaba sendo engolido durante esse estágio final. Os modelos novos, ao prever marés mais fracas, permitem que a Terra se afaste mais e sobreviva tanto ao RGB quanto ao AGB, supondo o valor de referência para a perda de massa. A mesma Terra, sob duas físicas de maré diferentes, recebe dois destinos opostos, e a única coisa que mudou foi o detalhe de como se modela o atrito interno da estrela.

A trajetória orbital da Terra calculada com duas físicas de maré diferentes. Em
A trajetória orbital da Terra calculada com duas físicas de maré diferentes. Em laranja, a prescrição moderna baseada em cálculos ab initio; em verde, a prescrição antiga derivada da teoria de Zahn. A linha azul mostra o raio do Sol. A física antiga prevê marés mais fortes, que deixam a Terra numa órbita mais apertada ao fim do ramo das gigantes vermelhas e culminam em engolimento na fase AGB; a física nova permite que o planeta se afaste mais e escape.Crédito: Esseldeurs, Mathis & Decin (2026), Astronomy & Astrophysics · CC BY 4.0

O motivo de a órbita terrestre ser tão sensível a esse detalhe é sutil e elegante. O sistema Terra-Sol situa-se quase exatamente na transição entre dois regimes físicos distintos de maré, o regime de maré rápida e o de maré lenta, uma fronteira em que o produto entre a frequência da maré e o tempo característico da convecção no envelope estelar se aproxima da unidade. É bem nessa transição que as duas prescrições mais divergem, podendo discordar por um fator de até dez. A Terra teve o azar de orbitar o Sol justamente na distância em que nossa ignorância sobre a física das marés cobra seu preço mais alto.

A teoria das marés não vive isolada de testes, e o estudo discute o que as observações têm a dizer. A dissipação de maré em estrelas evoluídas pode ser sondada pela circularização de sistemas binários, o processo pelo qual as marés tornam circulares as órbitas de pares de estrelas inicialmente elípticas. Trabalhos recentes da equipe de Beck, entre 2018 e 2024, e de Dewberry e Wu, em 2025, mostraram que durante o ramo das gigantes vermelhas a maré de equilíbrio realmente domina, mas que a circularização observada é mais forte do que a prevista pelos cálculos. Na fase AGB, a própria equipe do novo estudo havia constatado, em 2026, que a circularidade do sistema binário batizado de π¹ Gru é inesperadamente alta diante das previsões correntes.

Esse conjunto de evidências aponta numa direção incômoda: as marés em estrelas evoluídas podem ser mais fortes do que os modelos calculam, e marés mais fortes tornam o engolimento da Terra mais provável, não menos. Os autores não escondem essa tensão. Há, porém, uma ressalva técnica importante. As observações de circularização envolvem marés de frequência mais alta do que aquelas em jogo na lenta migração circular de um planeta como a Terra em direção à estrela, de modo que a comparação pode não ser diretamente transferível. A honestidade em registrar uma evidência que enfraquece a própria conclusão é uma das marcas mais sólidas do trabalho.

Resolvido o primeiro fator, o estudo volta-se para o segundo grande regulador do destino terrestre, a taxa de perda de massa. Aqui há uma assimetria reconfortante e um abismo de incerteza, lado a lado. A perda de massa durante o ramo das gigantes vermelhas é relativamente bem conhecida: o parâmetro de eficiência de Reimers foi medido em 0,477, com margem de erro de apenas sete centésimos. A equipe de Guo havia mostrado que valores abaixo de 0,46 levariam ao engolimento da Terra já no RGB. Como o valor observado fica acima desse limiar, a Terra deve sobreviver ao ramo das gigantes vermelhas, ainda que o engolimento permaneça tecnicamente dentro da margem de incerteza.

O abismo aparece na fase AGB. Diferentes prescrições para a perda de massa nesse estágio produzem taxas que discordam entre si por mais de uma ordem de magnitude, ou seja, por um fator superior a dez. E mesmo dentro de uma única prescrição, autores distintos adotam valores diferentes para o parâmetro livre que regula a intensidade do vento. Essa indeterminação é o calcanhar de Aquiles de todo o cálculo, porque a perda de massa na fase AGB é, ao mesmo tempo, o fator mais decisivo e o pior conhecido de toda a equação que rege o futuro da Terra.

Para escapar desse impasse teórico, os autores recorreram a uma estratégia engenhosa: usar uma estrela real como bola de cristal. O objeto escolhido foi L₂ Pup, uma gigante assintótica relativamente próxima cuja massa inicial estimada, de 0,98 massa solar, é quase idêntica à do Sol. Isso faz dela algo raro e precioso, uma prévia observável do futuro do próprio Sol na fase AGB, uma estrela que está fazendo agora aquilo que o Sol fará daqui a bilhões de anos, e que pode ser medida com telescópios em vez de apenas simulada em computador.

L₂ Pup é ainda mais sugestiva pelo que a cerca. A estrela está envolvida por um disco de poeira, e dentro desse disco os astrônomos detectaram um possível planeta com massa estimada em torno de doze massas de Júpiter, com larga incerteza. Um planeta orbitando uma gigante assintótica de massa quase solar é, em essência, o espelho da situação que a Terra enfrentará, e seu estudo oferece pistas concretas sobre quanto material uma estrela como o Sol realmente perde durante essa fase, com um corpo planetário sobrevivendo ali ao lado para contar a história.

O problema é que medir a perda de massa de L₂ Pup também esbarra na incerteza, e de maneira reveladora. Existem duas estimativas independentes, obtidas por métodos diferentes, e elas discordam por quase duas ordens de magnitude. A medida baseada na emissão da poeira indica uma taxa de perda de massa de um milionésimo de massa solar por ano. A medida baseada na emissão de monóxido de carbono aponta uma taxa muito menor, de pouco mais de um centésimo de milionésimo de massa solar por ano. A própria distância entre os dois números é a melhor ilustração possível de quão pouco se sabe sobre a perda de massa nessa fase.

A discrepância não é arbitrária e tem uma explicação física plausível. A estimativa pela poeira tende a refletir o movimento do material próximo à estrela, dentro do disco, ao passo que a estimativa pelo monóxido de carbono capta melhor o movimento do gás nas regiões mais externas do ambiente circundante. Traduzidas para o parâmetro de eficiência da prescrição de Blöcker, a medida pela poeira corresponde a um valor de 2,5, enquanto a medida pelo gás corresponde a apenas 0,03. O valor de referência de 0,05 adotado no estudo foi escolhido por ficar dentro da faixa de incerteza da estimativa pelo monóxido de carbono, deslocado na direção da estimativa pela poeira.

A varredura completa de valores de perda de massa na fase AGB revela onde mora o perigo. Para os valores mais baixos do parâmetro, de 0,01 e 0,02, o raio do Sol chega a ultrapassar o limite a partir do qual a gravidade da estrela vence a do planeta, o chamado lóbulo de Roche. Em circunstâncias normais isso significaria a destruição da Terra. A sutileza é que essa ultrapassagem ocorre durante um pulso térmico, um soluço de combustão que dura apenas algumas centenas de anos, e não está claro se um episódio tão breve é suficiente para de fato arrastar o planeta para dentro da estrela.

O exame fino das fronteiras é onde o estudo mostra sua cautela. Para o valor de 0,01, o raio solar cresce a ponto de quase igualar a órbita da Terra, e o engolimento torna-se provável. Para o valor de 0,02, e também para 0,03, o raio supera o lóbulo de Roche apenas ligeiramente, com um fator de preenchimento de apenas sete por cento, deixando o desfecho genuinamente indefinido. A partir de 0,04, o raio do Sol permanece abaixo do lóbulo de Roche durante toda a fase, e a Terra sobrevive. Modelar com precisão os casos de fronteira exigiria simulações de evolução estelar que incorporassem diretamente a interação entre estrela e planeta, um nível de detalhe que os autores reconhecem estar além do escopo deste trabalho.

A órbita da Terra durante a fase de gigante assintótica (AGB) para seis valores
A órbita da Terra durante a fase de gigante assintótica (AGB) para seis valores do parâmetro de perda de massa de Blöcker. As linhas tracejadas representam o raio do Sol e as pontilhadas, o lóbulo de Roche. Quando o raio solar ultrapassa o lóbulo de Roche, a linha da distância orbital passa a tracejada para sinalizar a incerteza do modelo a partir dali. Taxas baixas (valores de 0,01 e 0,02) levam o Sol a cruzar o limite crítico; a partir de 0,04 o planeta sobrevive.Crédito: Esseldeurs, Mathis & Decin (2026), Astronomy & Astrophysics · CC BY 4.0

O balanço sobre a perda de massa é, então, de uma sinceridade rara na literatura. Como as taxas de perda de massa na fase AGB permanecem observacionalmente mal determinadas, o destino final da Terra continua sem resposta fechada. Os valores extraídos de L₂ Pup, contudo, a melhor referência observável disponível para o futuro do Sol, inclinam a balança para o lado da sobrevivência. Não se trata de uma certeza, mas de uma aposta informada, ancorada na única estrela que conhecemos suficientemente parecida com o que o Sol será.

Convém registrar uma camada extra de rigor que o estudo acrescenta num apêndice dedicado às ressonâncias de movimento médio, as configurações em que os períodos orbitais de dois planetas formam uma razão de números inteiros e amplificam mutuamente suas perturbações. Ao se afastarem durante as fases evoluídas, os planetas podem cruzar essas ressonâncias e ter suas órbitas alteradas. A verificação mostrou que a Terra não cruza nenhuma ressonância de primeira ordem com Vênus ou Marte, embora o par Vênus-Terra atravesse uma ressonância de segunda ordem, na razão de cinco para três, durante o ramo das gigantes vermelhas. O efeito das interações entre planetas pode importar nessa fase, mas é provavelmente desprezível durante a fase AGB.

A razão entre o período orbital da Terra e o dos planetas vizinhos ao longo das
A razão entre o período orbital da Terra e o dos planetas vizinhos ao longo das fases evoluídas do Sol — em verde, a relação com Vênus; em roxo, a relação com Marte. As linhas horizontais marcam as ressonâncias de movimento médio, configurações em que os períodos formam razões de números inteiros. A Terra não cruza nenhuma ressonância de primeira ordem, mas o par Vênus-Terra atravessa a ressonância de segunda ordem 5:3 durante o ramo das gigantes vermelhas.Crédito: Esseldeurs, Mathis & Decin (2026), Astronomy & Astrophysics · CC BY 4.0

A conclusão honesta do trabalho é que o destino da Terra não está robustamente determinado e depende de modo crítico do tratamento da dissipação de maré e da perda de massa estelar. Dependendo das hipóteses adotadas para esses dois processos mal conhecidos, o mesmo Sol ora devora o planeta, ora o preserva. Essa indeterminação não é fraqueza do estudo, mas seu achado mais valioso: a pergunta sobre se a Terra será engolida pelo Sol, tratada por gerações como assunto encerrado, na verdade continua em aberto e dependente de física de fronteira que só agora começa a ser dominada.

Ainda assim, quando se combina a física de marés mais atualizada com a melhor referência observacional disponível, a balança pende para a sobrevivência. A sentença de morte que figurava nos livros didáticos deixou de ser a resposta óbvia. A Terra, ao que indicam os dados disponíveis, tem boas chances de atravessar inteira as fases de gigante do Sol e emergir do outro lado, orbitando em silêncio a brasa branca e minguante em que a estrela terá se convertido. O veredicto, é claro, segue dependente de medidas futuras que ainda precisam ser feitas.

O caminho para fechar essa lacuna já está traçado. Será preciso combinar dados interferométricos espacialmente resolvidos, capazes de fotografar a estrutura ao redor de estrelas em perda de massa, com as mais recentes simulações hidroquímicas dos ventos estelares, para finalmente amarrar as taxas de perda de massa da fase AGB. E há um reforço a caminho: a missão espacial PLATO, da Agência Espacial Europeia, deve aumentar substancialmente o número de planetas conhecidos ao redor de gigantes vermelhas nos próximos anos. Com uma população estatística desses sistemas em mãos, será possível estudar diretamente como órbitas planetárias evoluem ao redor de estrelas moribundas e, com isso, refinar a previsão para o próprio sistema Terra-Sol.

Resta ainda uma ironia que nenhum cálculo de marés ou de perda de massa consegue dissolver, e que talvez seja a parte mais sóbria desta história. Mesmo que a Terra sobreviva orbitalmente a todas as fases de gigante do Sol, ela sobreviverá como uma lápide, não como um mundo vivo. Muito antes de o Sol virar gigante vermelha, seu brilho aumenta de forma lenta e inexorável, cerca de dez por cento a cada bilhão de anos, e em aproximadamente um bilhão de anos esse aquecimento crescente terá fervido os oceanos e esterilizado a superfície terrestre. Quando a grande questão do engolimento finalmente se decidir, lá na fase AGB, a Terra já será há bilhões de anos uma rocha morta e calcinada. O que eventualmente escapar do abraço do Sol não será um planeta azul, mas seu esqueleto carbonizado, girando ao redor de uma anã branca cada vez mais fria e mais escura. A sobrevivência, nesse sentido, é uma tecnicalidade. E, ainda assim, há uma beleza estranha em saber que o pequeno mundo rochoso onde tudo isso foi calculado pode permanecer ali, fiel à sua órbita, muito depois que a última testemunha tiver desaparecido.

Fonte original

M. Esseldeurs, S. Mathis & L. Decin. “The fate of Earth during the Sun’s giant phases: New constraints from ab initio tidal modelling and AGB mass loss”. Astronomy & Astrophysics, vol. 710, L26 (2026).

DOI: 10.1051/0004-6361/202660576  ·  Recebido em 23 abr. 2026, aceito em 31 maio 2026.

Artigo de acesso aberto publicado pela EDP Sciences sob a licença Creative Commons Attribution 4.0 (CC BY 4.0). As cinco figuras reproduzidas foram extraídas do PDF original e acompanham as legendas e os créditos correspondentes. Instituições: Instituut voor Sterrenkunde, KU Leuven (Bélgica) e Université Paris-Saclay / CEA (França).

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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