As cicatrizes que a água deixou em Marte

O radar do rover chinês Zhurong revelou, sob um terreno esburacado da Utopia Planitia, a assinatura de uma atividade ligada à água que persistiu até o Amazoniano tardio — o passado geológico mais recente do planeta vermelho.


Há um trecho do solo de Marte, no hemisfério norte do planeta, que não se parece com quase nada ao redor. Não são crateras de impacto, com suas bordas erguidas e seus fundos arredondados. São covas rasas, de poucos metros de diâmetro, com margens irregulares cobertas de pedras e interiores preenchidos por areia fina trazida pelo vento. Vistas de cima, parecem marcas de varíola gravadas na planície. Vistas de perto, pelas câmeras do rover chinês Zhurong, revelam uma textura esburacada que chamou a atenção da equipe da missão desde o instante em que o veículo se aproximou. A pergunta que essas covas impõem é simples de formular e difícil de responder: o que abriu esses buracos no chão de uma planície que se imaginava congelada e inerte há bilhões de anos?

Um grupo de pesquisadores liderado por Ling Zhang, da Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou, com colaboração de cientistas da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, da Universidade de Hong Kong e da Universidade Jilin, dedicou-se a responder essa pergunta. Em um artigo publicado no Journal of Geophysical Research: Planets, eles reuniram imagens de altíssima resolução, fotografias tiradas no solo pelo próprio rover e, sobretudo, dados de um radar capaz de enxergar abaixo da superfície marciana. O conjunto de evidências aponta para uma conclusão que, se confirmada por trabalhos futuros, reescreve um pouco do que se acreditava sobre a história recente do planeta vermelho. As covas seriam o registro de uma atividade ligada à água que persistiu até épocas geologicamente jovens, muito depois do período em que Marte teria perdido seus mares.

Para entender por que isso importa, é preciso voltar ao começo da missão. Em 15 de maio de 2021, a sonda chinesa Tianwen-1 depositou com sucesso o rover Zhurong no sul da Utopia Planitia, uma vasta bacia de impacto preenchida por sedimentos no hemisfério norte de Marte. A escolha do local não foi acidental. A Utopia Planitia fica numa zona de transição topográfica entre as terras altas do sul e as planícies baixas do norte, a fronteira que os geólogos chamam de dicotomia crustal marciana, uma das feições mais marcantes e ainda mal compreendidas do planeta. As coordenadas precisas do ponto de pouso são 25,066 graus de latitude norte e 109,925 graus de longitude leste, uma posição em latitude relativamente baixa, onde a luz solar é mais generosa e as condições para operar um veículo movido a energia solar são mais favoráveis.

Aquela região guarda um segredo antigo. A chamada Formação Vastitas Borealis, que recobre boa parte das planícies setentrionais, é interpretada por muitos cientistas como o leito de um oceano que teria existido durante o período Hesperiano, há bilhões de anos. Mapeamentos globais recentes mostram que cones esburacados, fossas poligonais, crateras tipo panqueca e crateras com muralhas pontilham essa formação, todos eles sinais possíveis de depósitos de voláteis enterrados, ou seja, de materiais que podem passar facilmente do estado sólido ao gasoso, como o gelo de água. A presença de gelo no subsolo marciano não é apenas uma curiosidade científica. É um recurso valioso e acessível para a futura exploração humana, especialmente nas latitudes médias e baixas, onde pousar e trabalhar é mais simples do que nos polos.

O Zhurong foi enviado justamente para investigar essa história. Entre seus objetivos estavam estudar a composição da superfície, a estrutura do regolito, a distribuição de água e gelo, o campo magnético local e as condições ambientais próximas ao solo. Para dar conta dessa tarefa, o veículo carregava seis instrumentos científicos. Havia um detector de composição da superfície que combinava um espectrômetro de plasma induzido por laser, um espectrômetro de infravermelho de onda curta e um micro-imageador; uma câmera multiespectral; uma câmera de navegação e terreno; um magnetômetro; uma estação meteorológica; e, no coração desta história, o radar de penetração montado no rover, conhecido pela sigla RoPeR, de Rover Penetrating Radar.

A jornada do Zhurong sobre a superfície durou 325 sols, como são chamados os dias marcianos, ligeiramente mais longos que os terrestres. Ao longo desse período, o rover percorreu 1.784 metros, avançando do norte para o sul em uma trajetória sinuosa, marcada ponto a ponto pelas paradas de navegação. Foi no trecho final dessa caminhada, entre os sols 244 e 266, que o veículo encontrou o terreno esburacado e coletou, na borda dele, os dados de radar que viriam a se tornar o centro do estudo. A trajetória completa, com a posição do sítio de pouso registrada já no sol 11 e a aproximação gradual da estrutura covada na altura dos sols 244 a 266, traça um retrato de paciência geológica: quase um ano marciano de viagem para chegar a algumas dezenas de metros de chão que carregavam uma pergunta.

A travessia de 325 sols
A travessia de 325 solsA trajetória de 325 sols — dias marcianos — percorrida pelo rover Zhurong na Utopia Planitia, do sítio de pouso até o terreno esburacado alcançado entre os sols 244 e 266. No detalhe à direita, a posição do sítio em Marte, próxima ao monte Elísio e ao ponto de pouso do rover Perseverance.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

O que o rover viu ao chegar lá merece descrição cuidadosa. A estrutura esburacada cobre uma área de aproximadamente dez mil metros quadrados e é formada por covas com poucos metros de diâmetro cada. O Zhurong se aproximou da feição duas vezes, uma pelo lado norte, no sol 166, e outra pelo lado leste, no sol 255, fotografando o terreno com a câmera de navegação a partir de ângulos diferentes. As imagens revelam bordas ásperas, cobertas por blocos de rocha, e uma diferença de altura entre as margens de apenas algumas dezenas de centímetros. São depressões discretas, de relevo baixo, nada parecidas com a violência de uma cratera de impacto. Por dentro, as covas estão preenchidas por depósitos finos de areia carregada pelo vento, o que indica que elas são feições antigas o bastante para terem sido parcialmente reaterradas pela ação eólica ao longo do tempo.

As covas vistas do solo
As covas vistas do solo(a) A estrutura esburacada, contornada pela linha tracejada, que o Zhurong cruzou, com as posições do rover entre os sols 244 e 266. (b) A mesma estrutura fotografada pela câmera de navegação a partir do norte, no sol 166. (c) A vista a partir do leste, no sol 255.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

A palavra que os autores escolheram para batizar essas formas, pockmark, vem da geologia terrestre. No fundo de oceanos e lagos da Terra, pockmarks são depressões abertas quando fluidos, em geral gases, escapam de um reservatório enterrado e atravessam uma camada de sedimento fechada, deformando-a e fraturando-a no caminho até a superfície. A escolha do nome carrega, portanto, uma hipótese embutida: a de que algo subiu de baixo para cima, rompendo o terreno. Mas o nome, por si só, não prova nada. Foi para testar essa ideia que entrou em cena o radar do rover, o único instrumento capaz de mostrar o que existe abaixo da casca visível do planeta.

O RoPeR é um radar de penetração de solo com duas frequências distintas, cada uma especializada em uma profundidade. O primeiro canal opera entre 15 e 95 megahertz e foi projetado para atravessar os materiais marcianos até profundidades de 10 a 100 metros, embora com uma resolução grosseira, da ordem de alguns metros. O segundo canal trabalha numa faixa muito mais alta, entre 0,45 e 2,15 gigahertz, e enxerga apenas a faixa rasa entre 3 e 10 metros, em compensação com uma resolução fina, medida em centímetros. Para investigar as covas, cuja escala é pequena e cujos detalhes importam, a equipe processou os dados do segundo canal, o de alta frequência. O método de processamento seguiu de perto os procedimentos desenvolvidos para o radar lunar das missões Chang’e, da própria China, adaptados às particularidades do terreno marciano.

Transformar o eco bruto de um radar em uma imagem confiável do subsolo exige uma sequência longa e delicada de etapas. Os dados crus, distribuídos no formato usado pelo programa de exploração lunar e planetária chinês, foram convertidos para uma forma binária manejável. Em seguida, vieram a remoção dos traços de autoteste que o instrumento gera para verificar seu próprio funcionamento, a supressão do ruído branco, a retirada do ruído de fundo, a equalização da energia entre os traços, a filtragem de banda e a aplicação de ganho para compensar a atenuação natural do sinal à medida que ele penetra no solo. A etapa de remoção do ruído de fundo é particularmente importante e sutil. As reflexões mais fortes vêm da própria superfície, da onda que viaja direto pelo instrumento e da energia intensa dos primeiros instantes, e elas funcionam como um pano de fundo que abafa os sinais geológicos verdadeiros. Subtraindo a resposta média de cada canal, os pesquisadores conseguiram apagar essa cortina e preservar apenas os ecos que vêm das estruturas enterradas.

A conversão do tempo de viagem do sinal em profundidade real depende de um parâmetro chamado permissividade dielétrica, que mede como um material responde a um campo elétrico e, na prática, controla a velocidade com que as ondas de rádio o atravessam. A equipe adotou o valor de 4,0 para essa conversão, retirado de estimativas anteriores para o regolito raso de Marte. Eles também testaram o quanto o resultado mudaria se esse número fosse outro, e verificaram que, variando a permissividade dentro de uma faixa razoável, a profundidade estimada oscilava em torno de apenas 12,5 por cento, uma margem confortável que dá robustez às conclusões. Depois de todo esse tratamento, os dados coletados entre os sols 244 e 266 produziram um perfil de radar com mais de cem metros de extensão linear, no qual saltava aos olhos uma interface refletora a cerca de dois metros de profundidade.

Essa interface não é um detalhe técnico qualquer. Ela representa a fronteira entre dois materiais com propriedades físicas diferentes, exatamente o tipo de assinatura que se esperaria se uma camada de depósitos lançados sobre a superfície estivesse repousando sobre o terreno original. O perfil revelou ainda duas anomalias notáveis. A primeira, uma faixa de reflexão lateralmente contínua, aparece a dois metros de profundidade ao longo de um trecho de vinte a cinquenta metros da trajetória, correspondente aos sols 250 a 260, na margem de uma das covas, estendendo-se por aproximadamente 22 metros. A segunda, uma reflexão em forma de arco, surge mais fundo, entre 3,6 e 3,7 metros, no segmento de cinquenta a cinquenta e cinco metros, ponto que coincide com o momento em que o rover, no sol 255, se aproximava da depressão central da estrutura. A correspondência espacial entre o que o radar mostra embaixo e o que as imagens mostram na superfície é direta e difícil de atribuir ao acaso.

O subsolo revelado pelo radar
O subsolo revelado pelo radarResultado do radar de penetração RoPeR no trecho dos sols 244 a 266. Em cima (a), o perfil processado: as setas pretas marcam reflexões lateralmente contínuas e a caixa preta destaca uma reflexão em forma de arco. Embaixo (b), a inversão da permissividade dielétrica ao longo do mesmo perfil.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

A análise da permissividade dielétrica aprofundou o retrato. Usando um método baseado na decomposição de ondas planas, originalmente bem-sucedido com os dados do radar lunar, os pesquisadores calcularam como essa propriedade variava com a profundidade. O resultado mostrou valores entre 2,9 e 6,3, relativamente baixos no primeiro metro de solo e crescentes abaixo dessa marca. Em outras palavras, o subsolo se organiza em duas camadas: uma cobertura superior solta e porosa e, sob ela, um material mais compacto e denso. A camada de cima foi interpretada como um regolito superficial frouxo, enquanto a de baixo corresponderia a uma unidade sedimentar antiga e mais consolidada. Dada a coincidência entre as reflexões do radar e a forma das covas na superfície, os autores sugerem que essa unidade inferior pode conter, localmente, sedimentos finos mais compactados, possivelmente ricos em lama, intimamente ligados ao mecanismo que abriu as depressões.

Duas camadas sob os buracos
Duas camadas sob os buracosReconstrução tridimensional do subsolo a partir do RoPeR, sem (a) e com (b) interpretação. A versão interpretada distingue o regolito superficial fino, a sedimentação de lama e a camada sedimentar antiga, o paleo-regolito, que repousa sob as covas.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

A faixa de permissividade encontrada conta uma história sobre a natureza do material, e essa história fica mais nítida quando comparada a outro ponto de Marte. No interior da cratera Jezero, do outro lado do planeta, o rover Perseverance, da NASA, mediu com seu radar uma permissividade média de 9,0, bem mais alta, com reflexões vindas de uma profundidade média de cerca de 1,9 metro. Aquele valor elevado é atribuído à abundância de rochas e fragmentos grosseiros expostos na superfície, que formam uma camada bastante alterada. As reflexões inclinadas observadas em Jezero foram interpretadas como camadas magmáticas de um corpo ígneo diferenciado ou como estratos sedimentares formados em ambiente aquoso, ambos os cenários sugerindo uma história geológica complexa. O contraste com o sítio do Zhurong é gritante. Permissividade mais baixa significa, aqui, um subsolo dominado por sedimentos finos e secos, com pouca rocha, e não pelo material grosseiro e rico em pedras de Jezero. As duas regiões trilharam evoluções geológicas distintas, e o terreno sob o Zhurong se mostra comparativamente homogêneo, seco e de granulação fina, sem o gelo abundante ou a rocha endurecida que algumas hipóteses anteriores admitiam.

Esse ponto é decisivo para o argumento, porque o gelo era um dos suspeitos naturais para explicar as covas. Se houvesse lentes de gelo enterradas que tivessem sublimado, passando direto de sólido a vapor, o terreno acima poderia ter desabado, criando depressões. A permissividade medida, porém, fala contra essa possibilidade no estado atual do subsolo: não há a assinatura de um material rico em gelo nas camadas rasas. Some-se a isso a latitude relativamente baixa do sítio, em torno de 25 graus norte, onde o ambiente térmico é desfavorável à preservação de gelo próximo à superfície por longos períodos, e a hipótese de que a sublimação de lentes de gelo seja a causa principal das covas perde força. O gelo pode ter participado da história em algum momento do passado, como veremos adiante, mas não está lá agora para ser apontado como o agente direto do colapso recente.

Encontrada a estrutura e mapeado seu subsolo, restava saber se ela era um caso isolado ou parte de um padrão. Para responder, a equipe vasculhou imagens da câmera HiRISE, a bordo da sonda Mars Reconnaissance Orbiter, capaz de resolver detalhes de poucas dezenas de centímetros a partir da órbita. Na área focal ao redor do sítio de pouso, foram identificadas mais de cinquenta feições do mesmo tipo. Numa região vizinha bem maior, porém, apenas dez covas apareceram, espalhadas por trinta e cinco imagens HiRISE. Essa escassez nas áreas mais distantes pode ter três explicações, todas plausíveis: a cobertura de imagens de alta resolução é irregular e descontínua, o que limita o que se consegue ver; as covas talvez realmente não existam em regiões mais afastadas; ou elas existiram e foram apagadas por processos posteriores de modificação da superfície. O mapa de distribuição revela que as covas convivem com cones esburacados, fossas e cristas elevadas, num mosaico de feições que sugere um subsolo carregado de voláteis em mais de um lugar.

Um padrão espalhado pela planície
Um padrão espalhado pela planície(a) Mapa de distribuição das covas e das feições associadas — cones esburacados, fossas e cristas elevadas — encontradas perto da zona de pouso. (b) Área de busca: em cinza, a cobertura das imagens HiRISE; o círculo tracejado delimita a região vasculhada pelos pesquisadores.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

Ao examinar essas mais de cinquenta formas com cuidado, os pesquisadores perceberam que elas se dividem em dois tipos bem distintos. O primeiro grupo, que eles chamam de distribuição em blocos, reúne covas mais ou menos aglomeradas, distribuídas de modo aleatório e situadas em terreno topograficamente mais baixo que o entorno. O segundo grupo, a distribuição linear, alinha as covas em faixas alongadas, em forma de cinturão, quase sempre associadas às margens de canais e cristas. A própria geometria já insinua uma diferença de origem entre os dois tipos, e a análise estatística confirmou que essa diferença é real e medível.

Dois tipos de cova
Dois tipos de covaExemplos das covas mapeadas em imagens HiRISE. Os painéis (a) a (c) mostram a distribuição em blocos, mais aglomerada e aleatória; (d) e (e), a distribuição linear, alinhada às margens de canais e cristas.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

Como as covas individuais costumam ser pequenas e muitas vezes se fundem umas nas outras, medir cada uma separadamente é impraticável. A solução foi analisar a morfologia do conjunto de forma estatística, definindo o relevo de cada unidade como o valor absoluto da diferença de altura dentro dela. As covas em blocos variam em área de 2.332 a 11.044 metros quadrados, com média em torno de 6.300, o que revela uma boa dose de heterogeneidade e um predomínio de tamanhos pequenos a médios. O relevo dessas covas fica entre 2,01 e 5,6 metros, com média de 3,73, sinal de que a maioria é rasa e de encostas suaves. Ao todo, trinta e duas unidades em blocos tinham orientações de eixo bem definidas, e a estatística mostrou que essas orientações se concentram em duas direções principais, entre 40 e 60 graus, no sentido nordeste-sudoeste, e entre 280 e 300 graus, no sentido oés-noroeste a lés-sudeste, formando uma distribuição claramente bimodal.

As covas lineares contam uma história aparentada, porém em escala maior. Elas se apresentam como morfologias alongadas, em forma de cinturão, com comprimentos que vão de 265 a 1.682 metros e média ao redor de 620. Seu relevo oscila entre 1,28 e 12,49 metros, com média de 6,8, bem mais acentuado que o das covas em blocos. O relevo máximo, de quase 12,5 metros, ocorre em formas desenvolvidas ao longo de cristas, o que sugere que algum soerguimento ou deformação local pode ter realçado o relevo nesses pontos. As orientações dominantes das covas lineares, entre 60 e 80 graus no sentido nordeste-sudoeste e entre 280 e 300 graus no sentido oés-noroeste a lés-sudeste, acompanham de perto as direções principais das covas em blocos. Essa coincidência de orientações entre dois tipos de feição tão diferentes em tamanho é a pista mais forte de que ambas obedeceram a um mesmo comando subjacente.

A assinatura estatística da tensão
A assinatura estatística da tensãoEstatística da morfologia das covas. (a) Área e diferença de elevação das covas em blocos. (b) Comprimento e diferença de elevação das covas lineares. (c) e (d) Diagramas de rosa com as orientações — zero grau aponta para o norte verdadeiro —, revelando a distribuição bimodal que aponta para o controle de um campo de tensões.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

Esse comando, segundo os autores, vem do campo de tensões da região, ou seja, das forças que esticam e comprimem a crosta marciana ao longo de direções preferenciais. Quando dois conjuntos de feições, um aleatório em blocos e outro alinhado em faixas, compartilham as mesmas orientações dominantes, a explicação mais econômica é que eles surgiram sob o mesmo regime de tensão tectônica, como expressões diferentes de um único processo geológico atuando em escalas distintas. As covas não estariam espalhadas ao acaso; estariam obedecendo, sem saber, ao desenho de fraturas e zonas de fraqueza traçado por esforços que atuaram na crosta antes mesmo de elas se formarem.

Antes de propor uma origem, porém, era preciso descartar com método as alternativas mais óbvias. A erosão pelo vento é uma das forças geológicas dominantes em Marte hoje, e suas marcas típicas são bem conhecidas: dunas, yardangs e estrias de vento, feições com bordas suaves, formas aerodinâmicas e orientações alinhadas com a direção predominante do vento. As covas do sítio do Zhurong não se parecem com isso. Elas têm bordas difusas e assimétricas, sem as encostas graduais e os fundos lisos que caracterizam as depressões esculpidas pelo vento, e as imagens de alta resolução não mostram campos de dunas, estrias nem estruturas em forma de cauda ao redor delas. A atividade eólica, portanto, pode ter retocado as covas com o tempo, depositando areia em seu interior, mas não foi quem as abriu.

A sublimação de lentes de gelo, segundo suspeito, também não resiste ao escrutínio, pelos motivos já mencionados e por mais alguns. Esse processo costuma ocorrer em altas latitudes, em regiões ricas em gelo, e não numa planície de latitude baixa como a Utopia Planitia, onde o ambiente térmico não favorece a preservação de gelo raso por muito tempo. As covas estão restritas ao subsolo raso, o que reduz ainda mais a chance de acúmulo estável de gelo, e a permissividade derivada do radar de alta frequência confirma a ausência de gelo nas camadas superiores. A subsidência causada pela sublimação de lentes isoladas de gelo fica, assim, eliminada como mecanismo principal de formação dessas depressões.

Com os suspeitos mais simples afastados, a investigação se voltou para feições parecidas em outros mundos, em busca de um modelo de origem. Marte oferece análogos próprios. Em mais de duzentas crateras de impacto recentes do planeta, observa-se uma morfologia esburacada semelhante no piso ou no manto de ejeção, e os modelos para explicá-la incluem o colapso por sublimação de gelo após o impacto ou a liberação rápida de voláteis a partir de uma mistura de brecha derretida e aquecida pela colisão. Há também as covas sem borda identificadas nas margens de fluxos de lama no sudoeste da Utopia Planitia, formadas quando bolhas de vapor que não conseguiram escapar da crosta gelada do fluxo finalmente romperam a superfície. Mais longe, o asteroide Vesta, fotografado pela sonda Dawn, exibe depressões irregulares e sem borda em torno de algumas de suas crateras, atribuídas igualmente à liberação de voláteis aquecidos pelo impacto. E na própria Terra, como já dito, os pockmarks são depressões comuns no fundo de oceanos e lagos, abertas pela infiltração de fluidos através de uma camada sedimentar fechada.

A comparação com esses análogos é útil porque todos compartilham um mesmo enredo de fundo, o de um colapso da superfície ligado ao escape de voláteis. Mas nenhum deles encaixa perfeitamente no caso do Zhurong, e os autores fazem questão de marcar essa distância. O ambiente em que essas covas marcianas se encontram, uma antiga região costeira ou marinha no sul da Utopia Planitia, difere de modo importante dos cenários dos análogos. A origem das covas, portanto, precisa ser analisada à luz desse contexto sedimentar específico e de sua interação com os voláteis enterrados ali, e não apenas por semelhança superficial com buracos parecidos em outros lugares.

Reunindo morfologia, distribuição e dados de radar, a equipe propõe que as covas são, muito provavelmente, o resultado de um desgaseamento envolvendo voláteis, com a água no papel principal. Esse não é um palpite solto. Os instrumentos do próprio Zhurong, o espectrômetro de plasma induzido por laser e o de infravermelho de onda curta, já haviam detectado minerais portadores de água na superfície do material solto da região, e outros estudos mostraram que a modificação da superfície durante o período Amazoniano mais recente esteve associada à presença de água. A pista linear reforça o quadro. As covas alinhadas se associam fortemente ao desenvolvimento de sulcos e cristas em suas margens, num padrão que destoa da aleatoriedade de um simples manto de detritos lançados por impacto. A razão para esse alinhamento é que, durante a formação de sulcos e cristas, surgem mais fraturas e camadas frágeis em certas bordas, e são justamente essas zonas de fraqueza que o material volátil enterrado encontra para romper, abrindo as depressões ao longo das linhas de menor resistência.

O papel da tectônica, aqui, é de coadjuvante de luxo, não de protagonista. A liberação de voláteis é considerada o motor principal da abertura das covas, mas a tensão da crosta foi quem organizou onde e como elas apareceriam. É razoável supor que o campo de tensões regional tenha gerado, antes de tudo, fraturas e zonas de fraqueza no subsolo. Essas fraturas serviram depois como caminhos preferenciais para a migração e o escape dos voláteis. O desgaseamento concentrado ao longo dessas rotas controladas pela estrutura teria provocado subsidência localizada e deformação da superfície, resultando nas covas alinhadas que o mapeamento revelou. A tensão tectônica não cavou diretamente os buracos; ela ditou a geometria do processo, controlando o desenvolvimento das fraturas por onde a água e os gases acabaram saindo. O efeito combinado da deformação tectônica e do colapso movido a voláteis explica de maneira plausível por que as covas se agrupam segundo direções tão definidas.

O modelo de formação que amarra tudo isso tem um parente terrestre e marciano conhecido: o vulcão de lama. Os cones esburacados que cercam a zona de pouso já foram interpretados, em estudos anteriores do sul da Utopia Planitia, como produto de uma gênese explosiva do tipo vulcão de lama, pequenas estruturas formadas por erupções de lama, possivelmente quando a água de um aquífero subterrâneo se mistura a material fino e é liberada pela pressão da superfície, num processo associado a gelo, sais minerais e outras substâncias voláteis no subsolo. A formação das covas seguiria uma lógica parecida, ainda que em versão mais branda. O enredo, contado em etapas, começa com uma camada sedimentar rasa que guarda gelo de água e voláteis sob a superfície. Em seguida, um aumento de temperatura, vindo do ambiente externo ou de calor interno por magmatismo, derrete o gelo e evapora os voláteis, formando uma pasta de lama e elevando a pressão interna, que empurra essa lama para cima.

Na etapa seguinte, os voláteis carregam a lama através das zonas frágeis da cobertura, rompem o terreno e, ao escapar, aliviam a pressão. A lama então se deposita na superfície e, ao evaporar os voláteis que a acompanhavam, deixa para trás o refletor que o radar detectaria milênios depois, a tal interface enterrada a poucos metros. É esse o gesto que abre a cova. Diferentemente dos vulcões de lama, que são mecanismos de liberação de pressão isolados e de grande escala, a formação dessas covas é mais rasa, energeticamente mais suave e geologicamente mais recente em relação ao local onde ocorre. Já num estágio tardio, uma nova camada de intemperismo de granulação fina se forma sobre a estrutura, cobrindo as covas e suavizando sua expressão na superfície, o que ajuda a explicar por que elas hoje aparecem tão discretas, parcialmente preenchidas e fáceis de passar despercebidas.

Como uma cova nasce
Como uma cova nasceModelo de evolução das covas em quatro estágios. (a) Gelo de água e voláteis sob a camada superficial. (b) O aquecimento derrete o gelo e evapora os voláteis, que empurram a lama para cima. (c) A lama rompe a cobertura, escapa e se deposita, formando a cova e o refletor enterrado. (d) Uma nova camada de intemperismo fino recobre a estrutura.Crédito: Zhang et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Planets · Creative Commons (acesso aberto)

A consequência mais provocativa desse modelo está na sua datação relativa. Se a leitura dos autores estiver correta, esse episódio de lama e voláteis representa a atividade ligada à água mais recente da zona de pouso, seguida de um período seco e frio que aos poucos depositou a camada de intemperismo mais superficial. Em outras palavras, a água não teria desaparecido da Utopia Planitia num passado remoto e único; ela teria voltado a se manifestar, ainda que de forma modesta e localizada, em tempos geologicamente jovens, dentro do período Amazoniano tardio, a era atual da história marciana. Processos relacionados à água, possivelmente líquida, teriam persistido por mais tempo do que se supunha naquela região, deixando como assinatura essas covas rasas que o Zhurong cruzou por acaso em sua trajetória.

Vale separar, com o rigor que o tema exige, o que é dado confirmado do que é interpretação. É medida direta a interface refletora a cerca de dois metros, a faixa de permissividade entre 2,9 e 6,3, a estrutura em duas camadas, a existência de mais de cinquenta covas com dois padrões morfológicos e suas orientações bimodais. São observações sólidas, ancoradas em instrumentos e em estatística. Já o mecanismo de desgaseamento de voláteis com participação da água, o papel organizador da tectônica e a datação como o último episódio aquoso da região são inferências, construídas a partir do conjunto de evidências e da comparação com análogos, mas ainda sujeitas a teste e refinamento. Os próprios autores tratam o modelo como a explicação mais consistente diante dos dados disponíveis, não como uma sentença final. A ciência planetária avança assim, propondo o cenário que melhor costura as pistas e deixando a porta aberta para que novas observações o confirmem, corrijam ou substituam.

As conclusões do trabalho podem ser resumidas em poucas linhas de peso. As imagens de alta resolução e os dados do RoPeR revelaram um aglomerado de covas no sul da Utopia Planitia, agrupáveis em tipos em blocos e lineares, com orientações preferenciais consistentes que apontam para o controle de um campo de tensões regional. Os perfis de radar mostraram refletores rasos e estruturas em camadas sob as covas. A permissividade dielétrica estimada indica sedimentos secos e finos, e não materiais ricos em gelo, no subsolo raso, o que descarta a sublimação de gelo como processo dominante. No lugar dela, o conjunto das evidências morfológicas e geofísicas sustenta um mecanismo movido pela liberação de voláteis e pelo colapso subsequente da superfície, guiado por fraquezas estruturais preexistentes. E essas covas, em sua aparente humildade, guardam o registro de uma atividade geológica rasa e de baixa intensidade ocorrida no Amazoniano tardio, indício de que os fluidos seguiram moldando a superfície de Marte em épocas mais próximas de nós do que a imaginação costuma admitir.

Há algo de comovente na ideia que se forma quando se junta tudo isso. Durante décadas, o planeta vermelho foi descrito como um mundo que viveu sua juventude úmida e morreu cedo, deixando apenas crateras e poeira como herança. As covas que o Zhurong atravessou contam uma versão menos definitiva dessa morte. Elas sugerem que, sob a casca aparentemente inerte da Utopia Planitia, a água e os voláteis continuaram a se mover, a fraturar, a empurrar a lama para cima e a desabar de volta, num último suspiro geológico cujas marcas sobrevivem rasas demais para serem grandiosas e recentes demais para serem ignoradas. Um robô movido a luz solar, ao percorrer 1.784 metros de uma planície distante, encontrou no chão a prova de que Marte, mesmo velho, ainda não tinha parado completamente de respirar. E talvez seja essa a lição mais duradoura que essas marcas de varíola deixam: a de que o fim de um mundo é sempre mais demorado, mais sutil e mais cheio de água do que se gostaria de acreditar.

Fonte do estudo
Zhang, L., Fang, X., Xu, Y., Liu, J., Lu, S., Huo, Z., et al. (2026). Subsurface structure of pockmarks around the Zhurong landing site revealed by RoPeR: Implication of the final water activity. Journal of Geophysical Research: Planets, 131, e2026JE009721.
As oito figuras foram reproduzidas do artigo original, publicado em acesso aberto sob licença Creative Commons. Dados do rover Zhurong: CNSA / Ground Research and Application System (GRAS) do Programa Chinês de Exploração Lunar e Planetária. Imagens orbitais: HiRISE / NASA / Mars Reconnaissance Orbiter.

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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