Mecanismo de Anticítera: a decifração do computador de 2.000 anos

Tomografia de raios X e novas leituras epigráficas revelaram como o calculador grego do século II a.C. previa eclipses e reproduzia em bronze a teoria lunar de Hiparco

No fundo do mar Egeu, a mais de quarenta metros de profundidade, um braço de bronze apontava para fora da areia. Os pescadores de esponjas que o avistaram, na virada do século XX, trabalhavam nas águas de Anticítera, ilha rochosa espremida entre o Peloponeso e Creta, e haviam tropeçado no naufrágio de um cargueiro romano afundado quase dois mil anos antes. Das profundezas subiram estátuas de mármore e de bronze, joias, moedas, vidros de luxo e ânforas — e também um bloco disforme de metal corroído que ninguém se deu ao trabalho de examinar com atenção. Aquele caroço esverdeado, ofuscado pelos tesouros ao redor, guardava o objeto mais desconcertante que a Antiguidade legou à ciência moderna: uma calculadora astronômica de engrenagens, mais complexa do que qualquer máquina construída no milênio seguinte.

O resgate daquele navio, conduzido entre 1900 e 1901 com apoio da marinha grega, figura entre os primeiros episódios de arqueologia subaquática da história — os próprios autores do estudo que este texto acompanha registram o pioneirismo da operação. O bloco corroído seguiu com o restante da carga para o Museu Arqueológico Nacional de Atenas e ali repousou até 1902, quando o arqueólogo Valerios Stais notou que o metal partido expunha rodas dentadas e letras gregas gravadas com delicadeza de ourives. A constatação beirava o absurdo: nada parecido deveria existir naquela época. O artefato recebeu o nome da ilha diante da qual naufragou e entrou para a história como o Mecanismo de Anticítera, um enigma que atravessaria todo o século XX resistindo às melhores tentativas de decifração.

A façanha do resgate teve preço alto. Trabalhando com escafandros rudimentares, em profundidade extrema para os equipamentos da época, os homens de Symi enfrentaram a doença descompressiva sem compreender direito o inimigo: um deles morreu, dois ficaram paralisados. Do porão do cargueiro saíram o Efebo de Anticítera, um dos grandes bronzes helenísticos que chegaram até nós, e dezenas de esculturas de mármore desfiguradas pelo mar. Saiu também, sem cerimônia alguma, o objeto que décadas mais tarde faria as estátuas parecerem coadjuvantes — e que transformaria aquele ponto do Egeu no sítio arqueológico submarino mais célebre do planeta.

Foi em 30 de novembro de 2006 que o enigma finalmente começou a ceder. Naquela data, a revista Nature publicou o estudo que redefiniu o que se sabia sobre o aparelho. Assinado por Tony Freeth, Mike Edmunds e colegas, o trabalho reuniu físicos e astrônomos da Universidade de Cardiff, no País de Gales, pesquisadores das universidades de Atenas e de Tessalônica, paleógrafos do Centro de História e Paleografia da Fundação Cultural do Banco Nacional da Grécia, conservadores do museu ateniense e engenheiros de duas empresas de tecnologia, a britânica X-Tek Systems e os laboratórios da Hewlett-Packard, na Califórnia. Combinando imagens de superfície e tomografia de raios X de alta resolução, o consórcio reconstruiu a função das engrenagens sobreviventes, dobrou o volume de inscrições decifradas e demonstrou que a máquina previa eclipses do Sol e da Lua — e que reproduzia, em bronze, a teoria mais sofisticada da astronomia grega sobre o movimento irregular da Lua.

Durante um século, saber com exatidão o que a máquina fazia foi tarefa maldita. As engrenagens estão incompletas, as inscrições sobrevivem em farrapos, e cada geração de estudiosos projetou sobre o bronze as próprias convicções. Houve quem enxergasse um astrolábio elaborado, quem apostasse num planetário, quem desconfiasse da datação e sugerisse que a peça teria caído no mar séculos depois do naufrágio. Ainda no ano 2000, um artigo de revisão resumia o estado da arte num título eloquente, perguntando se o aparelho continuava sendo um mistério da astronomia grega — e um dos autores daquela pergunta, o próprio Mike Edmunds, lideraria seis anos depois a equipe que a respondeu. O consórcio internacional, batizado de Antikythera Mechanism Research Project, propôs quebrar o impasse não com novas teorias, mas com dados novos, arrancados do interior do metal.

O que restou do aparelho são 82 fragmentos, guardados no museu de Atenas. Os sete maiores receberam as letras de A a G; o principal deles, o fragmento A, mede cerca de 180 por 150 milímetros e concentra 27 engrenagens de bronze cortadas à mão, enquanto os fragmentos B, C e D abrigam uma roda dentada cada — trinta ao todo. Pedaços das escalas dos mostradores aparecem nos fragmentos B, C, E e F, e nem sequer há certeza de que todos os 75 fragmentos menores pertençam de fato à máquina. O conjunto original, provavelmente acionado à mão, ocupava uma caixa com moldura de madeira de dimensões estimadas em 315 por 190 por 100 milímetros, pouco maior que uma caixa de sapatos, com portas na frente e atrás cobertas de inscrições astronômicas — uma espécie de manual de instruções gravado no próprio instrumento.

Figura 1 do artigo original

Figura 1

Os 82 fragmentos sobreviventes do Mecanismo de Anticítera, mostrados em escala no Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Os sete maiores recebem as letras de A a G; o fragmento A, com cerca de 180 por 150 milímetros, concentra 27 das 30 engrenagens preservadas.

Crédito: T. Freeth et al., Nature 444, 587–591 (2006) · © 2006 Nature Publishing Group

Interrogar esses cacos exigiu levar o laboratório até eles, já que as peças não podem deixar Atenas. A equipe empregou três técnicas principais. A primeira foi a tomografia computadorizada tridimensional de raios X com microfoco, desenvolvida pela X-Tek: um aparelho construído sob medida para o projeto, batizado de Bladerunner, com cerca de oito toneladas, foi transportado até o museu para radiografar cada fragmento em fatias finíssimas, e se revelou crucial para tornar legível o texto escondido logo abaixo das superfícies corroídas. A segunda, criada pela Hewlett-Packard, foi o polynomial texture mapping, o mapeamento polinomial de textura: o objeto é fotografado sob dezenas de ângulos de iluminação, e um programa combina as imagens de modo que o pesquisador possa reiluminá-lo na tela, realçando relevos quase invisíveis a olho nu. A terceira foi a boa e velha fotografia em filme de alta qualidade, depois digitalizada.

Um dos primeiros resultados foi cronológico. O desenho das letras gravadas no bronze, analisado pelos paleógrafos, aponta para a segunda metade do século II a.C., o que situa a construção da máquina entre 150 e 100 a.C. — um pouco antes do que se supunha até então. A datação combina com a idade estimada do naufrágio, entre 80 e 60 a.C. O aparelho já teria, então, décadas de uso quando afundou, viajando num cargueiro que, segundo a interpretação mais aceita entre os historiadores, levava espólios e bens de luxo gregos rumo à Itália romana. Um instrumento de precisão embarcado como carga valiosa: o detalhe diz muito sobre o apreço que os antigos tinham por aquele bronze.

Para entender por que alguém construiria tal coisa, é preciso lembrar o lugar que o céu ocupava na vida antiga. Calendários confiáveis marcavam o ritmo da agricultura e fixavam as datas dos festivais religiosos, e a Lua era a régua natural dessas contagens. Eclipses e movimentos planetários eram lidos com frequência como presságios, capazes de adiar batalhas e abalar governos. E havia uma dimensão filosófica que os autores do estudo fazem questão de sublinhar: a regularidade serena dos ciclos astronômicos devia exercer atração poderosa sobre as mentes de um mundo incerto e violento. Uma máquina que domesticasse essa regularidade era, ao mesmo tempo, instrumento científico, objeto de prestígio e declaração de fé na inteligibilidade do cosmos.

A face frontal do instrumento trazia um mostrador com duas escalas concêntricas. A interna representava o zodíaco grego, dividido em 360 partes. A externa, móvel, carregava o calendário egípcio de 365 dias — doze meses de trinta dias mais cinco dias complementares, os chamados epagômenos —, adotado como padrão pela astronomia grega justamente por sua regularidade. Como o ano solar dura cerca de um quarto de dia a mais, o anel podia ser girado em um dia a cada quatro anos para corrigir a defasagem, e sob a escala os pesquisadores observaram uma sequência de furos destinada a um pino de travamento. A contagem dos furos, medida no material sobrevivente, é compatível com um total de 365 posições, dentro de uma faixa possível de 363 a 365 — exatamente o que o calendário exige.

Sobre essas escalas, ponteiros indicavam a posição do Sol e da Lua no zodíaco. O ponteiro lunar provavelmente carregava consigo um pequeno dispositivo que exibia a fase da Lua, e as inscrições da porta dianteira mencionam uma “esferinha dourada” e uma “esferinha” — referências prováveis ao Sol e à Lua nesse mostrador zodiacal, incluindo a fase no caso da segunda. Não está claro se o ponteiro solar era separado de um ponteiro de data, nem se posições planetárias chegaram a ser exibidas ali. As letras gregas espalhadas pela escala do zodíaco remetiam ao parapegma, um almanaque que listava o nascer e o ocaso de estrelas e constelações ao amanhecer e ao entardecer ao longo do ano; a equipe acrescentou três letras de referência (Z, H e Θ) à descrição clássica desse texto, cuja forma também aponta para o fim do século II a.C.

Na prática, o usuário provavelmente girava uma manivela na lateral da caixa, e todo o resto acontecia por conta das engrenagens: dezenas de rodas dentadas repartiam o movimento entre os ponteiros, cada um avançando no próprio ritmo, todos amarrados pela aritmética dos ciclos celestes. Girar para a frente era viajar ao futuro — ver em que dia cairia a próxima lua cheia, quando o Sol entraria em determinado signo, se haveria eclipse dali a sete meses. Girar para trás era rebobinar o céu. Nenhuma tabela, nenhum cálculo, nenhum escriba: a resposta estava na posição dos ponteiros. É por isso que o aparelho costuma ser descrito como o primeiro computador analógico conhecido, uma máquina que não representa números com símbolos, mas os incorpora em grandezas físicas contínuas — no caso, ângulos de rotação.

Figura 2 do artigo original

Figura 2

Esquema do mecanismo com a posição dos mostradores e das inscrições: na frente, as escalas concêntricas do zodíaco e do calendário egípcio; atrás, as espirais do ciclo metônico (235 meses, com o auxiliar calíptico) e do saros (223 meses, com o auxiliar do exeligmos).

Crédito: T. Freeth et al., Nature 444, 587–591 (2006) · © 2006 Nature Publishing Group

É na parte de trás, porém, que a máquina revela o tamanho da ambição. Ali ficavam dois grandes mostradores em espiral, um sobre o outro, dedicados aos ciclos que os astrônomos da Babilônia haviam destilado de séculos de observação paciente. O superior seguia o ciclo metônico, nascido de uma coincidência preciosa: 19 anos solares equivalem, com margem mínima, a 235 meses sinódicos — e o mês sinódico é o intervalo entre duas fases iguais da Lua, de uma lua cheia à seguinte. Passados os 19 anos, Sol, Terra e Lua retornam praticamente à mesma configuração, e as fases voltam a cair nas mesmas datas do ano. Nesse mesmo período cabem 254 meses siderais, o tempo que a Lua leva para retornar ao mesmo ponto do céu em relação às estrelas: 235 voltas acompanhando as fases, mais 19 voltas extras que compensam o caminho anual do Sol.

Estudos anteriores já haviam sugerido que o mostrador superior traseiro exibia os 235 meses do ciclo metônico, talvez em cinco anéis concêntricos com 47 divisões por volta, e que um pequeno mostrador auxiliar acompanhava o ciclo calíptico — quatro ciclos metônicos menos um dia, ou 76 anos, refinamento que melhora a concordância entre anos solares e números inteiros de meses lunares. As novas imagens ópticas e de raios X confirmaram essas propostas e foram além: 34 marcações de escala inéditas foram descobertas no painel superior, e uma análise estatística validou o total de 235 divisões. O exame também mostrou que o mostrador auxiliar é de fato dividido em quadrantes, como um contador calíptico requer. E uma inscrição recém-lida na porta traseira cravou a arquitetura: “espiral dividida em 235 seções”.

Não anéis separados, portanto, e sim uma volta contínua: a escala metônica é formada por arcos semicirculares traçados a partir de dois centros deslocados sobre a linha média vertical, compondo cinco espiras encadeadas. Na tomografia do fragmento B, a equipe encontrou a peça que explica essa escolha — um “seguidor de ponteiro”, pequeno dispositivo até então desconhecido que viajava pelo sulco entre as escalas. Preso ao ponteiro dos meses, ele deslizava ao longo dele à medida que um pino cativo percorria o sulco, indicando em qual das cinco voltas a leitura devia ser feita, como a agulha de um toca-discos que acompanha o sulco do vinil enquanto o braço avança. Um seguidor semelhante devia existir no painel inferior. Havia um preço: o mostrador metônico precisava ser rearmado a cada 19 anos, e o inferior, a cada 18; o pino do sulco parece ter sido fixado por um segundo pino frontal, removível justamente para permitir essa rearmação periódica.

Figura 3 do artigo original

Figura 3

O “seguidor de ponteiro” do mostrador metônico: à esquerda, cortes de tomografia em cores falsas do fragmento B; à direita, a reconstrução computacional do dispositivo. O pino cativo percorria o sulco da espiral e indicava em qual das cinco voltas o mês devia ser lido.

Crédito: T. Freeth et al., Nature 444, 587–591 (2006) · © 2006 Nature Publishing Group

O painel inferior era dedicado ao saros, o grande ciclo dos eclipses. A partir das 48 divisões de escala preservadas nos fragmentos A, E e F, os dados de raios X permitiram estabelecer 223 divisões numa espiral de quatro voltas, que começa na parte de baixo — e 223 é precisamente o número registrado na inscrição da porta traseira. Um mostrador auxiliar exibia o exeligmos, ciclo de 54 anos formado por três saros consecutivos, cuja utilidade ficará clara adiante.

O saros é uma das joias da astronomia babilônica. Quando ocorre um eclipse, solar ou lunar, outro eclipse muito parecido acontece 223 meses sinódicos depois, pouco mais de 18 anos. O ciclo nasce da coincidência de três relógios lunares distintos. Primeiro, os 223 meses sinódicos garantem que a Lua esteja de novo nova ou cheia, condição necessária para qualquer eclipse. Segundo, esse intervalo equivale a 242 meses draconíticos, o período entre duas passagens da Lua pelo plano da órbita da Terra em torno do Sol: eclipses só ocorrem perto desses pontos de cruzamento, os chamados nodos. Terceiro, cabem ali 239 meses anomalísticos, contados de um apogeu ao seguinte, o que devolve a Lua à mesma distância da Terra e assegura eclipses de magnitude semelhante. Com um registro de eclipses passados em mãos, era possível prever os futuros.

Há uma sutileza, e a máquina a conhecia. O saros não dura um número inteiro de dias, mas 6.585 dias e mais um terço de dia. Esse terço desloca cada repetição em cerca de oito horas — e, no caso dos eclipses solares, visíveis apenas de regiões limitadas do planeta, empurra a faixa de visibilidade 120 graus em longitude a cada ciclo. Repetições verdadeiras só retornam após três saros, os 54 anos do exeligmos, e ainda assim sem trajetórias solares idênticas. O mostrador auxiliar existia para aplicar exatamente essa correção, informando o ajuste de horário a cada volta do ciclo maior.

Entre as divisões da escala de saros, as novas imagens revelaram 16 blocos de caracteres, ou glifos, distribuídos em intervalos de um, cinco e seis meses. São previsões de eclipses: trazem a letra Σ, inicial de ΣΕΛΗΝΗ, a Lua em grego, para eclipses lunares; a letra Η, de ΗΛΙΟΣ, o Sol, para eclipses solares; ou ambas, quando o mês prometia os dois fenômenos. Cada glifo transformava o painel num oráculo aritmético — bastava girar o mecanismo até o mês desejado para saber se o céu escureceria.

A equipe submeteu esses glifos a um teste implacável, uma análise de correlação que os autores comparam ao alinhamento de sequências de DNA. O padrão de eclipses marcado pelos 16 blocos foi confrontado com o registro moderno de eclipses históricos compilado pela NASA, ao longo do intervalo de 400 a.C. a 1 a.C. O resultado: exatamente 121 datas de início possíveis reproduzem a sequência observada, e a correspondência só funciona se o mês lunar da máquina começar no primeiro crescente, o fino arco visível logo após a lua nova — o que confirma a convenção adotada pelo construtor. Com o padrão validado, foi possível prever onde os glifos apagados deveriam estar em todo o painel: 35 glifos hipotéticos foram posicionados segundo o critério de que 99% das 121 sequências compatíveis exibem eclipse naquele mês. A escala, calculam os autores, começava e terminava com um eclipse. E embora Ptolomeu registre que os gregos anotavam eclipses no século II a.C., a única fonte conhecida com dados suficientes para construir uma tabela dessas é o cânone babilônico de saros — sinal de que a ciência acumulada entre o Tigre e o Eufrates alimentou diretamente as engrenagens gregas.

Figura 4 do artigo original

Figura 4

Reconstrução dos mostradores traseiros sobre um mosaico dos fragmentos A, B, E e F, com o calendário metônico no alto e a espiral do saros abaixo. Os 16 glifos de eclipse observados aparecem em turquesa; os 35 glifos hipotéticos, previstos pela análise estatística, em violeta.

Crédito: T. Freeth et al., Nature 444, 587–591 (2006) · © 2006 Nature Publishing Group

Perto do painel inferior, o texto decifrado inclui a palavra “Faros” e um trecho lido como “do sul (cerca de)… Espanha (ΙΣΠΑΝΙΑ) dez”. Somadas a leituras anteriores como “em direção ao leste”, “oés-noroeste” e “oés-sudoeste”, essas referências geográficas e de ventos reforçam a função de previsão de eclipses do mostrador: os solares só são visíveis de locais restritos, e na Antiguidade era comum registrar os ventos junto com as observações do fenômeno. É possível que essas anotações tenham sido acrescentadas ao aparelho durante o uso — vestígio comovente de um instrumento vivo, manuseado e atualizado pelo dono, e não de uma peça de vitrine.

Decifrar os mostradores era metade do problema; a outra metade girava, literalmente, lá dentro. As funções da máquina são determinadas pela contagem de dentes de cada engrenagem, e foi aí que a varredura de raios X se tornou insubstituível. Muitas rodas estão incompletas, então os pesquisadores mediram ângulos dos restos de pontas de dentes a partir de um centro nominal e ajustaram modelos de dentes regularmente espaçados, minimizando o desvio quadrático entre modelo e medida — deslocando o centro no software quando a posição real era incerta — até encontrar a melhor contagem para cada roda. O grupo adotou uma nomenclatura sistemática: letras minúsculas para o eixo, números crescentes da frente para trás, itálico para as engrenagens hipotéticas, aquelas que se perderam mas cuja existência é exigida pela lógica do conjunto.

Vários modelos de trens de engrenagens haviam sido propostos ao longo das décadas. O novo estudo concorda com a hipótese de quatro rodas perdidas, chamadas n1n2p1 e p2, necessárias para mover os contadores metônico e calíptico. Para o resto, propõe uma reconstrução inédita que emprega todas as engrenagens existentes — com exceção de uma única roda avulsa, a r1, isolada no fragmento D — e exige supor apenas uma engrenagem adicional, batizada de m3, cujo eixo aparece visivelmente quebrado nas imagens. É um modelo de economia rara: em vez de multiplicar peças imaginárias, ele explica o artefato quase inteiro com o que sobreviveu.

Figura 5 do artigo original

Figura 5

O novo esquema dos trens de engrenagens, visto de cima e alongado ao longo dos eixos principais. Elementos em vermelho são hipotéticos; o número sobre cada roda indica sua contagem de dentes, medida ou presumida.

Crédito: T. Freeth et al., Nature 444, 587–591 (2006) · © 2006 Nature Publishing Group

A peça-chave dessa reconstrução é a grande engrenagem e3, no fundo da máquina, que não desempenhava função alguma nos modelos anteriores. Na nova proposta, ela trabalha em dose dupla. Movida pela hipotética m3, integra um trem de eixos fixos que aciona os painéis de saros e de exeligmos, o setor de previsão de eclipses. E, ao mesmo tempo, serve de “mesa epicíclica” para duas rodas menores, k1 e k2, montadas sobre sua face: uma plataforma giratória que carrega outras engrenagens enquanto ela própria gira, arranjo que os engenheiros chamam de epicíclico e que reaparece, dois milênios depois, no câmbio automático dos carros modernos.

Essas duas rodinhas executam a parte mais alta da astronomia da época: a teoria da primeira anomalia lunar, desenvolvida por Hiparco em algum momento entre 146 e 128 a.C. A Lua não cruza o céu em ritmo constante; ora apressa o passo, ora se demora, porque sua órbita em torno da Terra é elíptica — ela acelera perto do ponto mais próximo e desacelera nas vizinhanças do apogeu, o ponto mais distante. O período dessa respiração é o mês anomalístico, contado de um apogeu ao seguinte. Hiparco descreveu o vaivém com modelos geométricos de excêntricos e epiciclos, e o construtor do mecanismo encontrou um jeito de traduzir a geometria em metal.

A tradução começa nos eixos c, d, e, cujas engrenagens calculam o movimento sideral médio da Lua, o ritmo uniforme de referência. Esse movimento é então injetado no sistema epicíclico sobre a e3. Ali, as imagens de raios X flagraram com nitidez um dispositivo de pino e fenda (pin-and-slot, na literatura em inglês): a roda k1 traz um pino saliente na face, que se encaixa numa fenda radial da roda k2, e os eixos das duas são levemente descentrados um em relação ao outro. Quando a e5 aciona a k1 e esta arrasta a k2 pelo pino, o encaixe ora se aproxima, ora se afasta do centro da roda movida, que acelera e desacelera num vaivém quase senoidal antes de devolver o movimento à e6 — exatamente o soluço que a órbita elíptica impõe ao deslocamento lunar. O par já havia sido identificado anos antes, mas fora descartado como mecanismo lunar.

Figura 6 do artigo original

Figura 6

O mecanismo lunar de Hiparco montado sobre a engrenagem e3, em corte de tomografia do fragmento A. Os círculos primitivos de e5 e k1 aparecem em turquesa; os de e6 e k2, em rosa. O pino de k1, encaixado na fenda de k2, gera a variação quase senoidal do movimento.

Crédito: T. Freeth et al., Nature 444, 587–591 (2006) · © 2006 Nature Publishing Group

O golpe de mestre está no lugar da montagem. Se k1 e k2 girassem sobre eixos fixos, a variação se repetiria a cada mês sideral — período errado. Montadas sobre a e3, as rodas são transportadas em bloco enquanto a plataforma gira, e a cadência da variação passa a ser a diferença entre os ritmos sideral e anomalístico: precisamente a rotação do apogeu da Lua, que completa uma volta em cerca de nove anos. O construtor fez a plataforma girar nesse compasso e converteu o período da anomalia sem acrescentar uma única roda ao cálculo. A saída do sistema retorna da e6 através da própria e3 e segue, via e1 e b3, até a escala do zodíaco no mostrador frontal e ao exibidor de fase lunar — e a estrutura complexa do eixo e, exigida por esse trajeto, aparece confirmada nas imagens.

Os números medidos fecham a conta com folga honesta. A distância entre os eixos das rodas k é de cerca de 1,1 milímetro, e o pino fica a 9,6 milímetros do centro, o que produz uma variação angular de 6,5 graus. Segundo Ptolomeu, Hiparco fez duas estimativas do parâmetro da anomalia lunar a partir de dados de eclipses, que exigiriam aqui variações de 5,9 ou de 4,5 graus — e as estimativas babilônicas eram, em geral, maiores. A diferença provavelmente não é significativa, dada a dificuldade de medir com precisão a posição de eixos corroídos em cortes de tomografia. Um detalhe segue sem explicação: há um pentágono regular gravado no centro da engrenagem e5, geometria solitária cuja função, se houve, ninguém decifrou.

A confirmação mais elegante do modelo veio de um número primo incômodo. Duas engrenagens do conjunto, f1 e l2, têm 53 dentes cada — e 53 é uma contagem trabalhosa de riscar num disco de bronze, sem construção geométrica simples. O mais estranho é que os efeitos das duas se cancelam mutuamente no trem que leva ao painel de saros; um projetista preocupado apenas com aquele mostrador jamais escolheria tal número. A explicação está na plataforma: o trem foi desenhado para que a e3 gire exatamente na cadência da rotação do apogeu lunar, e o fator 53 emerge quando esse ritmo é calculado a partir dos ciclos metônico e de saros — os dois ciclos que fornecem, aliás, todos os fatores primos das contagens de dentes da máquina. Encontrar o 53 gravado duas vezes no bronze é a assinatura aritmética da teoria de Hiparco dentro do mecanismo, e os autores tratam o achado como confirmação poderosa do modelo proposto.

A varredura ainda liquidou reconstruções antigas com um detalhe minúsculo: um pino atravessa o eixo e entre as engrenagens e1 e e2. Sua função provável é reter no lugar a e1, de cubo quadrado, mas a simples passagem da peça pelo interior do eixo derruba os modelos anteriores em que e1 e e2 eram unidas por um tubo externo girando em torno dele — não sobra espaço para o tubo se o pino atravessa tudo. Tampouco se achou vestígio das rodas intermediárias que propostas passadas imaginavam entre a e5 e a k1 ou entre a k2 e a e6. Peça por peça, o quebra-cabeça foi ficando mais simples e mais coerente.

O exame fino das escalas expôs até a rotina de trabalho do artesão. As divisões mensais do painel metônico não foram riscadas de uma vez através das cinco voltas da espiral, como faria quem buscasse apenas rapidez; há pequenos desalinhamentos sistemáticos que sugerem uma tentativa deliberada de distinguir meses cheios, de trinta dias, de meses vazios, de 29 — a alternância que mantém um calendário lunar alinhado com as fases reais. Os dados incompletos permitem pouco mais que um indício de bimodalidade nos intervalos, mas abrem uma possibilidade vertiginosa: se a marcação da escala foi feita com as próprias engrenagens da máquina, o artefato anteciparia em muitos séculos as chamadas dividing engines, as máquinas divisoras de precisão que a instrumentação científica europeia só conheceria na era moderna.

As inscrições recém-decifradas funcionam ainda como pistas do que se perdeu. O texto da porta traseira mistura vocabulário de oficina — munhões, gnômon, perfurações — com períodos astronômicos, entre eles o 223 do saros e a espiral de 235 seções. Já a porta dianteira, preservada sobretudo no fragmento G, é toda astronômica e traz numerosos valores que podem se referir a movimentos planetários. Nela aparece a palavra grega sterigmós, traduzida como “estação” ou “ponto estacionário”: o momento em que um planeta parece frear no céu e inverter o sentido da marcha aparente. Somada a propostas antigas de um planetário embutido, a inscrição sustenta a hipótese de que a máquina exibia também as posições dos planetas conhecidos na Antiguidade, num módulo hoje desaparecido — o esquema dos autores reserva espaço, na frente do aparelho, para engrenagens epicíclicas perdidas e para um possível mecanismo solar e planetário na linha de Hiparco.

Nada disso nasceu no vácuo. Nos anos 1950, o historiador da ciência Derek de Solla Price começou a estudar os fragmentos; em 1971, radiografias de raios gama feitas com o físico grego Charalambos Karakalos revelaram pela primeira vez o interior das rodas; e em 1974 Price publicou a monografia Gears from the Greeks, que descrevia o aparelho como um computador de calendário de cerca de 80 a.C. e propunha o primeiro esquema completo de engrenagens, incluindo um diferencial que depois se mostraria desnecessário. O trabalho fixou de vez a natureza computacional do objeto, ainda que errasse em pontos importantes da reconstrução.

Depois vieram o australiano Allan Bromley e, sobretudo, Michael Wright, curador do Museu de Ciência de Londres, que participou de uma tomografia linear pioneira dos fragmentos nos anos 1990 e passou a década seguinte refazendo contagens de dentes com paciência de relojoeiro. Foi Wright quem propôs que a escala metônica era uma espiral de cinco voltas, quem sugeriu o contador calíptico, quem reconstruiu o exibidor de fase da Lua e quem defendeu um planetário na face frontal — chegando a construir, ele próprio, modelos funcionais em latão para demonstrar a viabilidade das ideias. O estudo de 2006 confirmou várias dessas propostas, corrigiu outras e completou o que faltava: a leitura em massa das inscrições, a previsão de eclipses do painel de saros com seus glifos e a teoria lunar de Hiparco incorporada ao trem epicíclico.

O veredicto dos autores é direto: o mecanismo exibe grande economia e engenhosidade de projeto, e um grau de sofisticação técnica inesperado para o período. A comparação histórica dá a medida do espanto. Dispositivos de complexidade equivalente só reapareceriam com os relógios astronômicos da Europa medieval, mais de um milênio depois — o artigo é taxativo ao afirmar que nada tecnicamente comparável é conhecido nesse intervalo. O aparelho, escrevem os pesquisadores, é testemunha do extraordinário potencial tecnológico da Grécia Antiga, aparentemente perdido dentro do Império Romano. Saber construir algo assim não bastou para que a habilidade sobrevivesse: técnicas morrem quando param de ser transmitidas, e o bronze afundado de Anticítera é o lembrete mais eloquente de que o progresso técnico não é uma estrada de mão única.

Os autores encerraram o artigo com um compromisso que moldaria as duas décadas seguintes: constituir um arquivo de dados aberto, capaz de permitir pesquisas futuras não invasivas, com acesso a partir de 2007 pelo site do projeto. A aposta rendeu. Em 2008, o mesmo consórcio publicou na Nature uma segunda leva de decifrações, mostrando que um dos mostradores auxiliares traseiros acompanhava o ciclo de quatro anos dos grandes jogos pan-helênicos, Olimpíadas incluídas, e que os nomes dos meses gravados no aparelho pertencem à família de calendários de origem coríntia — pista de que a máquina pode ter sido feita para uma cidade do noroeste grego ou para Siracusa, a pátria de Arquimedes. Nos anos seguintes vieram novas leituras das inscrições, modelos cada vez mais completos do provável planetário frontal e réplicas funcionais construídas por pesquisadores e relojoeiros mundo afora.

O próprio naufrágio voltou a ser escavado. Desde 2014, o programa de pesquisas que reocupou o sítio vem recuperando estátuas, âncoras, cerâmica e até restos humanos do cargueiro, agora com equipamento de ponta e no ritmo cuidadoso que a arqueologia moderna exige — um contraste eloquente com os escafandros de 1901. Nenhum fragmento novo do mecanismo apareceu até aqui, mas a esperança de encontrar as engrenagens planetárias perdidas segue viva a cada temporada de trabalho. Vinte anos depois de publicado, o artigo de 2006 permanece como o divisor de águas dessa história: o momento em que o objeto deixou de ser mistério para virar documento, legível linha a linha, dente a dente.

Resta o que nenhuma radiografia responde. Não sabemos o nome de quem desenhou o trem de engrenagens, nem em que oficina o pino de 9,6 milímetros foi cravado na face da k1, nem para quem o instrumento girava suas espirais antes de o navio adernar. Não sabemos por que há um pentágono no coração da e5. Sabemos, agora, o essencial: há mais de vinte e um séculos, alguém olhou para o céu, compreendeu suas engrenagens invisíveis e as recriou em bronze, dente por dente, com a aritmética da Babilônia e a geometria de Hiparco. O mar guardou essa resposta por dois mil anos, e coube a um feixe de raios X atravessar a ferrugem para devolvê-la — junto com a suspeita incômoda de que a pergunta sobre os limites da inteligência antiga sempre esteve mal formulada. A questão nunca foi se eles eram capazes de construir um computador. É quantos outros o tempo desmanchou sem deixar nem o caroço.

Fonte: Freeth, T. et al. “Decoding the ancient Greek astronomical calculator known as the Antikythera Mechanism”. Nature, vol. 444, p. 587–591, 30 de novembro de 2006. DOI: 10.1038/nature05357.

Arquivo de dados do projeto: www.antikythera-mechanism.gr (Antikythera Mechanism Research Project).

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

Veja todos os posts

Comente!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Arquivo