Não há prova de que existam, mas a biologia já sabe calcular quantas calorias um deles precisaria, por que a comida da Terra talvez fosse intragável e o que um visitante faminto realmente viria buscar no nosso planeta.
Há uma cena que o cinema repetiu tantas vezes que virou quase folclore: um pasto escuro, o gado parado sob a noite, e então um facho de luz que desce do céu e ergue um boi inteiro no ar, mudo, suspenso, levado para dentro de uma nave. A imagem voltou às telas neste mês com Disclosure Day, o novo filme de Steven Spielberg sobre o contato com inteligências de fora da Terra, que recoloca diante de milhões de espectadores a pergunta de sempre: se eles existem, vêm para nos conquistar, para nos estudar ou para nos destruir? Uma indagação mais simples, mais doméstica e quase nunca levada a sério escapa por entre essas três. Se uma criatura de outro mundo pousasse aqui amanhã, o que ela comeria?
Convém começar com um aviso que nenhuma bilheteria gosta de ouvir. Não existe prova científica alguma de que seres de outros planetas tenham visitado a Terra, e muito menos qualquer informação sobre o que eles comeriam. A NASA afirma não haver dado nenhum que sustente a ideia de que os fenômenos anômalos não identificados, os chamados UAPs, sigla que substituiu o antigo OVNI no vocabulário oficial, sejam tecnologia extraterrestre. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos, depois de revisar o material que tinha em mãos, também não encontrou evidência verificável de tecnologia ou atividade vinda de fora. O ponto de partida honesto, portanto, é o terreno firme da ausência de provas. E ainda assim a biologia permite fazer perguntas razoáveis até sobre organismos que talvez nunca existam.
O truque está no significado literal da palavra. Extraterrestre quer dizer apenas de fora da Terra, e nesse sentido amplo os únicos extraterrestres cuja dieta conhecemos de verdade somos nós mesmos. Mais precisamente, os astronautas que passam semanas ou meses fora do planeta. A experiência deles não diz o que um alienígena comeria, mas ensina algo concreto e mensurável: sair da Terra muda a maneira como um corpo come. Tirar um organismo do berço gravitacional em que evoluiu reorganiza, em poucos dias, processos que pareciam imutáveis.
Em microgravidade, quase tudo o que envolve o ato de se alimentar se altera. O apetite diminui. A percepção de sabor se embota. A massa muscular encolhe, a densidade dos ossos cai, o equilíbrio de líquidos no corpo se desloca e o gasto de energia muda de patamar. A causa imediata da perda de paladar é quase cômica de tão prosaica: sem a gravidade puxando os fluidos para baixo, o sangue e a linfa se acumulam na parte superior do corpo, o rosto incha, o nariz entope, e comer na Estação Espacial Internacional passa a lembrar comer com um resfriado permanente. Por isso o molho picante e o coquetel de camarão com raiz-forte estão entre os itens mais disputados a bordo, pois são alguns dos poucos sabores que ainda atravessam a barreira do congestionamento. Mesmo para a nossa própria espécie, alimentar-se fora do planeta exige adaptar dietas, nutrientes, texturas, métodos de conservação e até o controle metabólico do organismo.
A conta cobrada pelo espaço vai além do prato. Sem o peso constante puxando o esqueleto, os ossos perdem entre um e dois por cento de massa a cada mês, num processo que se parece com uma osteoporose acelerada, e os músculos que não precisam mais sustentar o corpo simplesmente murcham. A resposta da engenharia é brutal na sua simplicidade: cerca de duas horas diárias de exercício físico pesado, presas a máquinas que simulam a resistência que a gravidade dava de graça. A própria comida vira um problema de projeto. Nada pode soltar farelo, porque uma migalha flutuante não cai no chão, fica vagando pela cabine até entrar num olho, num pulmão ou num painel elétrico. Os alimentos precisam ser estáveis por meses sem refrigeração, reidratáveis com água quente, embalados para resistir à viagem. Quando se pensa numa missão a Marte, de quase três anos sem reabastecimento, o cardápio deixa de ser conforto e vira engenharia de sobrevivência.

A história de como aprendemos a comer no espaço é curta e cheia de improvisos. O primeiro homem a orbitar a Terra, o soviético Iúri Gagárin, em 1961, sugou alimento de bisnagas parecidas com tubos de pasta de dente, porque ninguém sabia ao certo se um ser humano conseguiria engolir em ausência de gravidade. Conseguia. Nas décadas seguintes, o cardápio orbital evoluiu da pasta cinzenta para refeições liofilizadas, desidratadas a frio para durar meses e reconstituídas com um jato de água a bordo. Houve até um episódio revelador nos anos 1960, quando um astronauta levou clandestinamente um sanduíche de carne para uma missão e as migalhas flutuantes causaram tamanho incômodo que o pão acabou banido em favor da tortilha, que não esfarela. Cada detalhe do que se come lá em cima foi conquistado contra a física, e nada disso descreve um alienígena. Descreve o esforço hercúleo de manter vivo e alimentado um único humano longe de casa.
Tudo isso retrata humanos deslocados, não visitantes de outro sistema estelar. Para chegar aos verdadeiros alienígenas, é preciso reconhecer primeiro que alienígena não é uma categoria biológica. Na cultura popular, a palavra cobre um zoológico inteiro de invenções: os homenzinhos verdes, os seres reptilianos, os humanoides altos e pálidos, as criaturas luminosas e as inteligências mecânicas, não orgânicas, feitas de metal e circuito. Nada disso pertence à zoologia. São personagens do folclore dos discos voadores e da ficção, não espécies catalogadas. Pedir a um biólogo que descreva a dieta de um alienígena é como pedir a um zoólogo a dieta de um dragão.
A ciência tem, ainda assim, ferramentas para estimar o metabolismo de uma criatura. Em animais terrestres, uma regra serve de bússola: o gasto energético basal, a quantidade mínima de energia que um organismo precisa em repouso só para manter as funções vitais, cresce com a massa do corpo, mas não na mesma proporção. Dobrar o tamanho de um animal não dobra o seu consumo de energia. Essa relação tem nome e idade. Foi descrita em 1932 pelo fisiologista suíço Max Kleiber e ficou conhecida como lei de Kleiber: a taxa metabólica de um animal é aproximadamente proporcional à sua massa elevada à potência de três quartos. Em linguagem simples, quanto maior o bicho, mais energia ele gasta no total, e menos energia ele gasta por quilo.
Um camundongo é a prova viva disso. Para manter aceso o seu metabolismo veloz, ele queima uma quantidade enorme de energia para cada grama do próprio corpo e precisa comer quase o tempo todo para não morrer de inanição em questão de horas. Um elefante está no outro extremo. Gasta muito mais energia em termos absolutos, como seria de esperar de vários milhares de quilos de animal, mas cada quilo da sua massa é energeticamente barato. O motor do elefante é gigantesco e econômico; o do camundongo é minúsculo e voraz. Entre os dois cabe uma lei matemática que vale para quase toda a vida animal conhecida, das musaranhas às baleias, e é essa lei que dá ao cientista uma chance de calcular o incalculável.
Aplicada a um ser hipotético, a regra permite estimativas grosseiras, mas não arbitrárias. Imagine um organismo de sangue quente e ativo, cujo funcionamento básico se pareça com o de um mamífero ou de uma ave. Uma criatura de cerca de 30 quilos precisaria de aproximadamente 900 quilocalorias por dia apenas para se manter em repouso. Uma de 70 quilos exigiria por volta de 1.700 quilocalorias diárias, número quase idêntico ao de um ser humano adulto em metabolismo basal. E um visitante de 150 quilos poderia consumir mais de 3.000 quilocalorias por dia sem dar um único passo. Os números saem da física do corpo, não da imaginação.

É preciso entender o que essas cifras representam, porque elas dizem menos do que parecem. Elas medem só a energia mínima para sustentar o funcionamento básico: respirar, manter a temperatura interna, reparar tecidos, fazer os fluidos circularem e conservar o sistema nervoso ligado. Não incluem o gasto de se mover, de enfrentar estresse, de se reproduzir, de regular a temperatura num ambiente hostil, de digerir o que foi comido nem de manter um cérebro pensando. Tudo aquilo que um visitante interplanetário de fato faria fica de fora da conta basal. Um alienígena que caminha, corre, cava, voa ou cruza meio planeta para sequestrar uma vaca gastaria muito mais do que o seu mínimo vital. A pergunta deixa de ser quanto ele pesa e passa a ser o que ele faz, como se move e quanta energia precisa para sobreviver no nosso ambiente.
A partir desse alicerce, dá para examinar o metabolismo de três formas clássicas da imaginação extraterrestre. A primeira é o homenzinho cinza ou verde, aquele de corpo franzino, cabeça enorme e quase nenhuma musculatura aparente, que povoa relatos e cartazes desde meados do século XX. Pelo seu tamanho, ele pesaria entre 25 e 40 quilos. Se fosse um organismo de sangue quente, ativo e dono de um cérebro grande, seu metabolismo basal ficaria entre 800 e 1.100 quilocalorias por dia. O problema mora justamente na cabeça desproporcional.
Um cérebro grande é um órgão caríssimo de manter. No ser humano, esse aparelho de pouco mais de um quilo, que representa cerca de 2% do peso do corpo, devora algo em torno de um quinto de toda a energia gasta em repouso. Ele é movido quase exclusivamente a glicose e não admite pausa, pois não há jejum que o desligue sem consequências graves. Se os tais humanoides de cabeça avantajada tivessem cérebros proporcionalmente maiores que o nosso, sua dieta precisaria ser densa em energia e fornecida de forma quase contínua, a menos que tivessem desenvolvido mecanismos biológicos de eficiência muito superior à nossa, ou algum tipo de suporte tecnológico que fizesse pela máquina o que o corpo não dá conta. O crânio inchado dos cartazes seria, na prática, uma fornalha exigente.
Um cérebro capaz de construir naves e cruzar o espaço é, por definição, um órgão grande e custoso, e órgãos custosos cobram seu preço no resto do corpo.
Há uma ironia escondida nessa contabilidade cerebral. Um cérebro capaz de construir naves e cruzar o espaço é, por definição, um órgão grande e custoso, e órgãos custosos cobram seu preço no resto do corpo. Na evolução humana, a hipótese do tecido caro, proposta nos anos 1990, sugere que só conseguimos bancar um cérebro tão volumoso porque, em compensação, encolhemos o intestino e passamos a comer alimentos mais ricos e fáceis de digerir, como carne e raízes cozidas. Inteligência e dieta, nessa leitura, são duas faces da mesma moeda metabólica. Uma civilização alienígena avançada o bastante para nos visitar quase certamente pagaria, de alguma forma, uma conta energética parecida, pois teria de alimentar fartamente o órgão que tornou a viagem possível, ou ter inventado um modo de driblar essa exigência que a nossa biologia ainda desconhece.
A segunda forma é o reptiliano, e aqui o cálculo se complica. Se a criatura fosse de fato reptiliana no sentido fisiológico, seria ectotérmica, de sangue frio na expressão popular, e por isso não gastaria quase nada para manter uma temperatura interna constante, deixando essa tarefa para o ambiente. A diferença é enorme. Um animal de sangue frio consome uma fração da energia que um mamífero do mesmo tamanho precisa, justamente porque não paga a conta altíssima de se manter aquecido por dentro. Um reptiliano de 100 quilos vivendo num lugar suficientemente quente poderia exigir menos comida diária do que um mamífero de peso equivalente. A vida de sangue frio é, em termos energéticos, uma pechincha.
A conta vira, porém, se esse reptiliano for inteligente, bípede, musculoso e ativo, um predador de verdade em vez de um lagarto ao sol. Manter um corpo grande em movimento constante e um cérebro complexo funcionando custa caro, venha o calor de dentro ou de fora. Nesse caso, um reptiliano endotérmico de 150 quilos poderia precisar de 3.000 quilocalorias diárias só em repouso, e bastante mais se de fato se exercitasse. O mesmo molde anatômico, dependendo de como queima energia por dentro, descreve tanto uma criatura econômica e lenta quanto uma máquina de caça faminta. A fisiologia importa mais que a forma.
A terceira forma é o humanoide alto, e é a mais fácil de imaginar porque é a mais parecida conosco. Pesando entre 80 e 100 quilos, com uma fisiologia semelhante à humana, ele precisaria de 1.900 a 2.300 quilocalorias por dia em repouso, e algo entre 2.500 e 4.000 quando estivesse em atividade. Para uma missão pelo espaço, a conta de calorias é apenas o começo. Seria preciso somar o peso e o consumo dos trajes pressurizados, da nave, da adaptação a uma gravidade diferente, do conjunto de micro-organismos que esse corpo carrega consigo, das necessidades de hidratação e do desgaste fisiológico do estresse de uma viagem interestelar. O humanoide alto da ficção é o cenário em que a biologia alienígena mais se confunde com a nossa, e por isso o mais traiçoeiro, pois faz pensar que entendemos o problema quando apenas o vestimos com roupas conhecidas.
Há ainda uma quarta possibilidade que escapa por completo da biologia: a entidade pós-biológica. Uma inteligência artificial, um organismo híbrido entre carne e máquina, um corpo sintético. Aqui a própria palavra comida perde o sentido. Não se trata mais de proteínas, gorduras ou carboidratos, mas de eletricidade, calor, combustível químico ou energia nuclear. Um robô alienígena não comeria arroz nem macarrão. Ele simplesmente recarregaria as baterias. E talvez seja essa a forma mais provável de um visitante que cruzou distâncias interestelares, já que máquinas suportam o tédio de viagens de milênios e o vácuo letal do espaço muito melhor do que qualquer corpo feito de água e carbono. O explorador que chega de longe pode não ter estômago algum.
Não é por acaso que a especulação séria sobre quem cruzaria o abismo entre as estrelas tende a apostar nas máquinas. As distâncias interestelares são tão vastas que mesmo uma viagem à velocidade de uma sonda atual levaria dezenas de milhares de anos para alcançar a estrela mais próxima. Nenhum corpo de carne e osso, com sua necessidade incessante de comida, água, oxigênio e reparo, atravessaria esse vazio sem morrer mil vezes pelo caminho. Uma inteligência sintética, capaz de se desligar durante séculos e de se sustentar com um punhado de energia, é uma viajante muito mais plausível. Se algo de outro mundo um dia pousar aqui, há uma chance real de que não precise de almoço algum, só de uma tomada.

Pode parecer brincadeira calcular o cardápio de seres que talvez não existam, mas o raciocínio por trás é o mesmo que move a ciência de verdade. Estimar quanta energia um organismo precisa, que elementos químicos consome e que marcas deixa no ambiente é exatamente o que os pesquisadores fazem ao planejar missões que procuram vida em Marte ou ao analisar a atmosfera de planetas distantes em busca de gases que só a biologia produziria. A especulação rigorosa não é o oposto da ciência, e sim o seu ensaio. Imaginar o impossível obedecendo às regras do possível é o treino para reconhecer o real quando ele finalmente aparecer.
Suponha, ainda assim, que o visitante seja orgânico, baseado em carbono, água e numa química parecida com a da vida terrestre. Mesmo nesse caso de máxima compatibilidade, o nosso planeta lhe ofereceria um bufê de risco considerável. Há aqui água líquida em abundância, sais, carbono orgânico, açúcares, gorduras, aminoácidos e minerais, a matéria-prima bruta da vida como a conhecemos. Mas há também toxinas, agentes patogênicos, alérgenos e uma infinidade de moléculas incompatíveis, prontas para envenenar um metabolismo que não evoluiu para lidar com elas. A Terra é, ao mesmo tempo, despensa e campo minado.

A comida terrestre não seria necessariamente comestível para esse hóspede. Uma proteína nossa não serviria de nada se o sistema digestivo dele usasse aminoácidos diferentes dos vinte que montam as nossas, pois bastaria que a vida dele tivesse escolhido outro alfabeto químico para que o nosso banquete virasse entulho. Os nossos açúcares seriam inúteis se o metabolismo alienígena não soubesse quebrá-los. E as nossas bactérias, onipresentes em cada bocado, poderiam devastar a vida desse visitante por completo, ou então, no extremo oposto, não infectá-la de forma alguma, simplesmente por não reconhecerem aquele organismo como alvo. Comer na Terra seria, para ele, um jogo de azar bioquímico a cada garfada.
Essa última possibilidade já foi imaginada com força há mais de um século. Em A Guerra dos Mundos, romance que H. G. Wells publicou em 1898, os marcianos invasores não são derrotados pelas armas humanas, que se mostram patéticas diante da tecnologia deles, mas pelos micro-organismos terrestres contra os quais não têm defesa evolutiva nenhuma. As bactérias mais banais do nosso planeta fazem o que exércitos inteiros não conseguiram. Wells inverteu a lógica da invasão e transformou a nossa fragilidade biológica em arma involuntária, numa intuição de que a barreira entre dois mundos talvez não seja feita de aço, mas de imunologia. Mais de um século depois, a astrobiologia leva essa intuição a sério.
No campo da astrobiologia, costuma-se dizer que a vida precisa de três coisas para existir: uma fonte de energia, um meio líquido onde as reações químicas aconteçam e os elementos químicos adequados para montar as suas estruturas. Carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre formam o esqueleto da biologia terrestre, e a água é o solvente em que tudo isso se dissolve e se combina. O carbono é versátil porque faz quatro ligações estáveis e monta cadeias longas e complexas; a água é líquida numa faixa ampla de temperaturas e dissolve quase tudo. São escolhas que funcionam, mas não há garantia de que sejam as únicas possíveis no universo.

Atender a esses três requisitos, porém, não obriga todos os seres vivos do cosmos a partilhar a mesma dieta. Especula-se há décadas sobre bioquímicas alternativas: vida baseada em silício em vez de carbono, organismos que usassem amônia líquida como solvente no lugar da água, criaturas adaptadas aos lagos de metano e etano que cobrem a superfície gelada de Titã, a maior lua de Saturno, onde a química orgânica acontece a quase 180 graus negativos. Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada, e cada uma esbarra em obstáculos sérios. Mas todas apontam para a mesma lição: a vida pode resolver o problema de existir de maneiras que o nosso único exemplo conhecido nem sequer sugere.
O mais curioso é que os ingredientes brutos da vida estão longe de ser raros no universo. Aminoácidos, as peças com que se montam as proteínas, já foram encontrados dentro de meteoritos que caíram na Terra, como o célebre meteorito de Murchison, que tombou na Austrália em 1969 carregando dezenas dessas moléculas formadas no espaço. Nuvens de gás entre as estrelas contêm álcoois, açúcares simples e compostos de carbono em quantidade. A água é uma das substâncias mais comuns do cosmos, presente em cometas, luas geladas e na poeira que flutua entre os sistemas estelares. A matéria-prima da biologia parece estar espalhada por toda parte. O que muda de um mundo para outro, ao que tudo indica, não é a despensa, e sim a receita: a maneira específica como cada forma de vida aprendeu a juntar esses tijolos comuns num organismo capaz de comer, crescer e se reproduzir.
Não é preciso ir a Titã para encontrar dietas radicalmente distintas. Na própria Terra, um coala depende quase exclusivamente das folhas de eucalipto, tóxicas para quase todos os outros animais, e seu corpo se especializou tanto nessa única fonte que ele mal sobrevive fora dela. Uma vaca não consegue digerir sozinha a celulose do capim que come o dia inteiro, pois depende de uma população específica de micro-organismos no estômago para quebrar o que seus próprios sucos não dão conta. A dieta de um ser vivo não é só uma questão de energia. É uma questão de bioquímica, de microbioma e de história evolutiva, de qual caminho aquele organismo trilhou ao longo de milhões de anos para chegar ao que come hoje.
A diversidade de cardápios da vida terrestre vai a extremos que parecem ficção. No fundo dos oceanos, longe de qualquer raio de sol, ecossistemas inteiros prosperam ao redor de fontes hidrotermais, sustentados não pela fotossíntese, mas por bactérias que extraem energia da oxidação do gás sulfídrico que jorra das fendas vulcânicas. Microbiologistas já encontraram organismos como a Deinococcus radiodurans, capazes de sobreviver a doses de radiação que matariam um ser humano milhares de vezes, e fungos crescendo nas paredes do reator destruído de Chernobyl que parecem usar a melanina para capturar energia da radiação gama. A vida, mesmo num só planeta, já come luz, enxofre, ferro e radiação. Imaginar que um visitante de outro mundo se sentaria à nossa mesa para repartir o mesmo pão é, no mínimo, ingênuo.
No fundo, existem apenas duas maneiras de ganhar a vida no universo conhecido. Ou um organismo fabrica o próprio alimento a partir de fontes brutas de energia, como as plantas fazem com a luz do sol e as bactérias das profundezas fazem com substâncias químicas, ou ele come outros organismos que já realizaram esse trabalho. Os primeiros são os autótrofos, os fabricantes; os segundos são os heterótrofos, os consumidores, grupo a que pertencemos junto com todos os animais. Um visitante alienígena poderia ser de qualquer um dos dois tipos, e a diferença mudaria tudo. Um autótrofo talvez só precisasse de luz, calor e alguns minerais, e nos olharia como olhamos uma pedra, matéria inerte e desinteressante. Um heterótrofo precisaria comer algo, e a única questão seria se esse algo, na Terra, seria capim, bactéria, rocha ou nós.
Tudo isso reorganiza a pergunta original. Se um alienígena chegasse à Terra, talvez não estivesse atrás de comida no sentido humano, e sim de matéria-prima. Água, nitrogênio, fósforo, ferro, sais, lipídios, biomassa microbiana, moléculas orgânicas simples, os tijolos químicos com que a vida se constrói, independentemente da forma final que ela assuma. Sob essa luz, a imagem clássica do disco voador erguendo uma vaca no facho de luz ganha outra leitura. O sequestro de gado, tema recorrente do folclore dos discos voadores desde os relatos do oeste americano nos anos 1970, poderia ser reinterpretado não como crueldade cósmica, mas como simples coleta de amostras nutricionais. Uma forma de vida desconhecida testando a bioquímica local. Não que a diferença faça muita diferença para a vaca, é verdade.

Se há um item nessa lista de compras cósmica que se destaca acima dos demais, é a água. Na busca por vida fora da Terra, o lema dos astrobiólogos há décadas é seguir a água, porque ela é o solvente onde a química da vida acontece e o recurso mais provável de interessar a qualquer organismo parecido conosco. Um planeta coberto por oceanos líquidos, como o nosso, seria para um visitante sedento muito mais valioso do que qualquer rebanho. Talvez o verdadeiro tesouro que a Terra ofereceria a uma forma de vida de fora não estivesse nos pastos nem nas cidades, mas nos mares, vastos, líquidos e mornos, exatamente o tipo de recurso que é escasso no espaço e abundante por aqui. A vaca, no fim das contas, seria apenas uma amostra de passagem.
Esse exercício especulativo, levado a sério, ilumina algo sobre a própria ideia de nutrição. Alimentar-se nunca foi apenas escolher itens de uma lista. É uma ciência de troca de energia entre um organismo e o ambiente que o cerca. Comer significa resolver, a cada dia, um conjunto de problemas físicos encadeados: como obter energia, como construir e reparar tecido, como eliminar os resíduos do processo e como evitar o envenenamento por aquilo que se ingere. Todo ser vivo, do coala ao astronauta ao alienígena hipotético, é uma solução particular para essa mesma equação. A vida é, em certo sentido, química resolvendo o problema de continuar existindo.
Entre os humanos, nutricionistas e dietistas cumprem o papel de traduzir essa ciência em conselho prático de saúde. Eles ajustam a ingestão de energia, de proteínas, de micronutrientes, de líquidos e os hábitos de vida às necessidades de cada pessoa. Ninguém consome calorias no abstrato. Cada um come dentro do contexto da sua cultura, da sua flora intestinal, das suas condições médicas, da sua idade, do seu orçamento e da sua história de vida. O número que aparece numa tabela nutricional é a ponta visível de uma rede de fatores biológicos, sociais e pessoais que nenhuma fórmula resume sozinha.
Se algum dia houvesse contato real com seres biológicos de fora da Terra, não bastariam diplomatas, linguistas e engenheiros para mediar o encontro. Seriam necessários especialistas capazes de descobrir quais moléculas essas formas de vida toleram, de quanta energia precisam, o que as envenena, que micro-organismos carregam e quais recursos do planeta poderiam usar sem destruir os ecossistemas que nos mantêm vivos. Seriam necessários, em outras palavras, nutricionistas alienígenas. O primeiro contato não seria só um problema de comunicação ou de defesa. Seria, antes de tudo, um problema de metabolismo, de descobrir o que cabe e o que não cabe no estômago de dois mundos que nunca compartilharam uma refeição.
E talvez aí esteja a última lição terrestre que um visitante teria de aprender, a mais difícil de todas porque não está em nenhuma tabela. Se os alienígenas um dia chegarem, é possível que não venham roubar nada, nem nos conquistar, nem revelar segredos do cosmos. Talvez venham apenas comer melhor. Mas se quisessem de fato compreender a nossa dieta, descobririam que aqui, neste planeta pequeno e azul, comer quase nunca foi só uma questão de obter energia. Foi sempre, também, uma forma de passar o tempo junto: de sentar à mesa e transformar a necessidade bruta de sobreviver num gesto social. Essa é a parte do cardápio que nenhum cálculo de calorias consegue capturar, e a que talvez nem o visitante mais inteligente do universo soubesse traduzir.



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