
Em 1973, três astronautas americanos passaram vinte e oito dias em uma estação do tamanho de uma casa e provaram que morar acima da atmosfera era possível. Todas as estações espaciais posteriores nasceram dessa aposta.
Acena começa em uma manhã quente de maio de 1973 no litoral da Flórida, com o Sol ainda baixo sobre o Atlântico e o ar úmido cortado pelo som metálico dos ventiladores da Vehicle Assembly Building. Sobre a plataforma 39A do Centro Espacial Kennedy, um foguete Saturno V está pronto para acender, mas dessa vez ele não vai levar ninguém para a Lua. No lugar do módulo lunar, no lugar dos assentos de tripulação, o gigante de trinta e seis andares carrega uma casa. Uma casa de metal, cilíndrica, do tamanho aproximado de uma residência térrea de médio porte, com quartos separados, um banheiro, um chuveiro, um freezer, oito telescópios e um pacote de cinco sensores voltados para o planeta. Aquela casa se chama Skylab, e a partir daquele momento a humanidade vai deixar de apenas visitar o espaço para começar, de verdade, a morar nele.
Passado meio século, a distância temporal ajuda a enxergar o que os contemporâneos daquele lançamento talvez tenham demorado a compreender. A Skylab não foi um capítulo isolado nem uma nota de rodapé do programa Apollo. Ela foi a primeira vez em que a espécie humana decidiu, deliberadamente, deixar de tratar o espaço como uma expedição e passar a tratá-lo como uma morada. Cada parafuso, cada pacote de comida congelada, cada saco de dormir preso à parede daquela estação carrega essa mudança de mentalidade. Antes dela, o espaço era um destino. Depois dela, o espaço passou a ser um endereço. E entender por que essa distinção importa é entender também por que a Estação Espacial Internacional existe, por que se fala hoje em bases lunares permanentes e por que missões tripuladas a Marte já não parecem tema de ficção, mas cronograma de engenharia.
A ideia parece hoje uma obviedade, quase um lugar-comum da era da Estação Espacial Internacional, mas em 1973 ela era uma aposta científica arriscada e sem precedentes. Nenhum ser humano jamais havia passado mais do que algumas semanas fora da Terra, e ninguém sabia, com dados de verdade, se o corpo humano era capaz de sobreviver por meses inteiros à ausência de gravidade. Todo o repertório acumulado pelos programas Mercury, Gemini e Apollo cabia em pequenas cápsulas apertadas, missões relâmpago de dias, no máximo poucas semanas, em que a fisiologia dos astronautas mal tinha tempo de reagir antes de o retorno para o solo apagar as evidências. A Skylab pretendia esticar esse experimento a limites até então impensáveis: vinte e oito, cinquenta e nove, oitenta e quatro dias em órbita, com três tripulações consecutivas passando pela mesma estação e transformando a órbita baixa da Terra em um laboratório permanente.
O projeto nasceu como um filho colateral do programa Apollo. Depois que Neil Armstrong e Buzz Aldrin caminharam sobre a Lua em 1969, a NASA se viu diante de uma pergunta política incômoda: e agora, o que fazer com toda aquela infraestrutura de foguetes gigantes, tecnologia de ponta e engenheiros treinados para uma corrida que havia terminado? A resposta veio na forma de uma reciclagem inteligente. O terceiro estágio de um foguete Saturno V, um cilindro imenso originalmente projetado para queimar combustível e empurrar cargas rumo à Lua, seria reaproveitado como estrutura habitacional. Aquele tanque metálico virou a chamada Orbital Workshop, a oficina orbital, o coração da futura estação. Ao redor dela foram acoplados um adaptador múltiplo de acoplamento, uma eclusa pressurizada, um módulo de comando Apollo já familiar aos astronautas e, apontado permanentemente para o Sol, um conjunto instrumental batizado de Apollo Telescope Mount. A montagem final ganhou quatro grandes painéis solares em cruz e ficou parecida com um moinho de vento cósmico girando lentamente sobre a Terra a uma altitude aproximada de quatrocentos e trinta e cinco quilômetros.
O lançamento da estrutura em si aconteceu no dia catorze de maio de 1973, e foi um voo sem tripulação. O Saturno V, na sua última missão, ergueu do chão sob uma coluna de fogo laranja e depositou a Skylab em órbita. A partir do solo, os controladores acionaram remotamente o desdobramento dos painéis, o descarte da coifa protetora e o posicionamento do telescópio solar. Aproximadamente vinte e três horas e meia depois, do lado ao lado da plataforma 39A, na 39B, decolou um foguete Saturno IB muito menor. Dessa vez, no topo, havia três homens.
O comandante Charles “Pete” Conrad, quarenta e dois anos, natural da Filadélfia, era o mais experiente dos três: veterano das missões Gemini V, Gemini XI e Apollo 12, ele já havia caminhado sobre a superfície da Lua em novembro de 1969. Ao seu lado ia Joseph Kerwin, quarenta e um anos, médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Northwestern, natural de Oak Park, Illinois, um oficial da Marinha que estava prestes a se tornar o primeiro profissional graduado em medicina a ir ao espaço. Fechando o trio, Paul Weitz, quarenta anos, natural de Erie, na Pensilvânia, era o piloto responsável pela operação dos experimentos de sensoriamento remoto da Terra. Depois de cinco revoluções orbitais completas, cerca de vinte e quatro horas de perseguição em órbita, a cápsula alcançou a estação e realizou o acoplamento. Um dia inteiro foi consumido apenas nas manobras finais de encontro e nos testes externos que confirmariam a integridade da conexão. A tripulação dormiu naquela primeira noite ainda dentro do módulo de comando, com a estação selada a poucos centímetros de distância, aguardando o amanhecer para começar a habitar de fato o novo endereço.
Ativar a Skylab não foi apertar um interruptor. Foi desmontar uma configuração de lançamento e transformá-la em uma configuração de habitação. Boa parte do equipamento a bordo estava parafusada ao chão e às paredes internas para resistir às vibrações brutais da subida atmosférica, e agora precisava ser realocada para os pontos onde seria efetivamente usada em órbita. Conrad, Kerwin e Weitz gastaram um dia inteiro apenas nesse trabalho de reconfiguração, transformando um contêiner de carga em um laboratório funcional. As duas tripulações seguintes, ao chegarem, encontrariam a casa já arrumada. A primeira tinha a responsabilidade de arrumá-la.
E que casa era essa. Pela primeira vez em toda a história do voo espacial humano havia três compartimentos privados para dormir, cada um com uma porta que se fechava de verdade. Havia um banheiro completo, com espelho, escova de dentes fixada por elástico, produtos de higiene ao alcance da mão. Havia um chuveiro cilíndrico feito de tecido de vinil impermeável, com mangueira flexível, que por limitações de gestão de água só poderia ser usado por cada astronauta uma vez por semana em um arranjo que Conrad batizou humoradamente de “banho de sábado à noite”, numa referência jocosa ao ritual das casas rurais americanas do início do século XX. Havia um freezer para comida congelada, um item que nunca havia voado ao espaço antes: nas missões Apollo e Gemini a alimentação era feita quase exclusivamente de rações desidratadas em saquinhos plásticos, e o simples fato de poder saborear uma refeição realmente congelada — sorvete, camarão, filé — era considerado uma inovação de conforto quase revolucionária. A tripulação faria a barba todos os dias, escovaria os dentes, se olharia no espelho. O propósito era claro: normalizar a vida em órbita, tornar aquele ambiente estranho o mais parecido possível com um lar terrestre.
O detalhe do dormir talvez fosse o mais visualmente perturbador para quem via as imagens pela primeira vez. Cada dormitório tinha cerca de dois metros de altura, mas era muito estreito, e o único jeito de acomodar um saco de dormir naquele volume era prendê-lo verticalmente contra a parede. Em microgravidade, dormir “de pé” é a mesma coisa que dormir deitado, porque o conceito de horizontal e vertical simplesmente se desfaz. O astronauta se enfiava no saco pelo pescoço da abertura, como se estivesse entrando numa garrafa térmica humana; ali dentro, prendia-se justo com uma manta, tinha uma pequena lâmpada de leitura à direita, um alto-falante retangular embutido na parede para receber chamadas do controle de missão. Não havia serviço de quarto. Se batesse fome no meio da madrugada, o próprio astronauta é que precisava ir buscar seu sanduíche flutuando pelo corredor. Os primeiros dias eram desorientadores, contava depois Kerwin, porque a mente insiste em procurar o chão e o teto onde eles não mais existem, e o cérebro leva alguns dias para se render à ideia de que agora paredes e teto também podem servir de superfície de apoio.
Toda essa hospitalidade cuidadosamente projetada não era um capricho da NASA. Era uma condição científica. O objetivo mais urgente da Skylab, aquele que dava sentido a todos os outros, era descobrir com dados quantitativos precisos o que a ausência prolongada de peso faz com o corpo humano. Kerwin comparava sua missão a uma tarefa histórica de fundação. Os médicos da Skylab, dizia ele, estavam para a era espacial assim como os médicos que examinavam os primeiros pilotos aviadores em 1920 e 1921 estavam para a aviação. Ninguém sabia, naquela época remota, quais eram os limites do corpo humano em altitudes elevadas, no frio, na baixa pressão. Foi preciso alguém sentar, medir, cronometrar, criar padrões. A Skylab estava fazendo isso pela primeira vez na fronteira da microgravidade prolongada, e cada astronauta era ao mesmo tempo pesquisador e sujeito de pesquisa.
Duas experiências centrais examinavam o corpo em esforço. A primeira era uma bicicleta ergométrica calibrada, fixada ao chão por cintas para não flutuar durante o uso, na qual o astronauta pedalava com uma máscara conectada por mangueira transparente a um analisador de gases exalados. Eletrodos colados ao peito registravam o eletrocardiograma em tempo real, sensores mediam pressão arterial e ritmo cardíaco, e a análise minuciosa da composição dos gases — quanto oxigênio era consumido, quanto dióxido de carbono era liberado — fornecia aos médicos em terra uma medida direta, brutalmente honesta, da eficiência com que coração, vasos sanguíneos e músculos estavam se coordenando em microgravidade para realizar um trabalho físico intenso e comparável ao que os mesmos indivíduos haviam feito no solo antes do voo.
A segunda experiência era mais engenhosa e visualmente esquisita: o dispositivo de pressão negativa aplicada aos membros inferiores, conhecido pela sigla em inglês LBNP, de Lower Body Negative Pressure, ou seja, o dispositivo cria pressão abaixo da atmosférica na metade inferior do corpo. O astronauta entrava, com os pés, dentro de uma espécie de lata de lixo cilíndrica de metal que ia até a cintura. Um selo pressionava a borda superior contra a pele do abdômen para vedar a câmara, uma bomba sugava o ar de dentro e a pressão negativa fazia as veias das pernas se expandirem, deixando o sangue se acumular na metade inferior do corpo. Era exatamente o que acontece na Terra quando alguém fica muitas horas em pé de forma imóvel — como soldados em desfile ou pessoas em multidões apertadas — e acaba desmaiando porque o sangue “puxado” pela gravidade não retorna eficientemente ao coração. O LBNP era uma forma engenhosa de simular gravidade dentro de um ambiente que fisicamente não tinha nenhuma, e o modo como o corpo respondia a esse estresse controlado dizia muito sobre a saúde cardiovascular do astronauta e sobre como o sistema circulatório ia se adaptar a longas missões.
Enquanto o corpo humano era estudado por dentro, a Skylab olhava para fora com precisão inédita. Voltada para o Sol, ela carregava o Apollo Telescope Mount, um conjunto de oito instrumentos ópticos, entre telescópios e espectrógrafos, capazes de observar a estrela em comprimentos de onda que a atmosfera terrestre normalmente bloqueia — raios X duros e moles, ultravioleta extremo, a famosa linha H-alfa do hidrogênio. Pela primeira vez os astrofísicos tinham à disposição imagens do Sol como ele realmente é fora do filtro protetor do planeta, com todas as suas erupções, filamentos incandescentes, ejeções de massa coronal e detalhes de estrutura magnética escancarados diante das câmeras. Aquele acúmulo de dados solares mudaria de forma permanente o que se sabia sobre o comportamento da nossa estrela, com efeitos que reverberam até hoje na área da meteorologia espacial, aquela disciplina que estuda como os fenômenos solares afetam satélites, redes elétricas e comunicações terrestres.
Três dias antes do fim de cada missão, dois astronautas vestiam os trajes pressurizados brancos, colocavam capacetes com viseiras douradas anti-radiação e saíam para uma caminhada espacial cuja função era estritamente utilitária: recolher os cartuchos de filme fotográfico das câmeras solares e recarregá-las com filme novo para as tripulações seguintes. A imagem virou clássica: um homem em traje EMU branco com listras azuis, umbilical laranja preso à cintura, flutuando ao lado do cilindro instrumental do telescópio contra o pano de fundo da curvatura azul-turquesa da Terra e da faixa fina e brilhante da atmosfera. Era rotina de missão. Era também uma daquelas cenas em que a espécie humana se olha no espelho e não acredita que chegou até ali.
Voltada para baixo, a Skylab tampouco descansava. Um pacote de cinco sensores diferentes, chamado Earth Resources Experiment Package, cuja tradução aproximada seria pacote de experimentos de recursos terrestres, foi acionado quinze vezes durante os voos para varrer sistematicamente a superfície do planeta. Ele mapeava saúde de florestas e plantações — que espécies estavam vigorosas, quais mostravam sinais de doença ou seca —, media profundidade e ritmo de derretimento de neve em cordilheiras para prever cheias de rios e ajudar estações hidrelétricas a manejar a abertura das comportas com antecedência, rastreava correntes térmicas no Golfo do México e em outros oceanos, localizava concentrações de fitoplâncton e cardumes de peixes, ajudava a identificar fontes subterrâneas de água doce em regiões áridas. As fitas magnéticas com todos esses dados retornavam à Terra em cada cápsula tripulada e eram analisadas em terra durante meses depois. Sem que muita gente percebesse na época, a Skylab estava inventando na prática o sensoriamento remoto orbital para uso civil, um campo que hoje sustenta desde a previsão do tempo até o monitoramento de desmatamento na Amazônia.
A ciência a bordo não era só de adultos com doutorado. Numa das iniciativas mais bonitas do programa, a NASA convidou estudantes de ensino médio de todo os Estados Unidos para propor experimentos que voariam junto com os astronautas. Mais de três mil e quatrocentos jovens submeteram ideias, e dezenove propostas foram efetivamente selecionadas para o espaço. Uma delas, apresentada pela estudante Judith Miles, investigava se aranhas seriam capazes de tecer teias em microgravidade — a aranha “Anita” e sua colega “Arabella” viraram celebridades científicas ao construírem, depois de alguns dias de confusão, teias assimétricas mas funcionais em gravidade zero. Outros experimentos exploraram o comportamento de bactérias e esporos bacterianos no ambiente espacial, a formação de cristais em ausência de peso e uma série de fenômenos físicos difíceis de estudar em terra. Além disso, uma esfera selável chamada Metals Processing Facility podia ser exposta ao vácuo real do espaço, e dentro dela os astronautas realizaram testes de soldagem e tentaram formar rolamentos esféricos perfeitos aproveitando o fato de que, na ausência de gravidade, um metal derretido tende naturalmente a assumir a forma de uma esfera por causa exclusivamente da tensão superficial — uma pista para o que hoje se conhece como manufatura espacial.
A observação da rotina a bordo revelava aos poucos que morar no espaço era muito mais do que resistir a ele. Kerwin passava boa parte do dia registrando dados fisiológicos dos colegas, monitorando padrões de sono através de gorros com sensores capazes de captar ondas cerebrais sem fios visíveis presos ao couro cabeludo, uma inovação que evitava o incômodo de dormir com equipamento amarrado à cabeça. Conrad, com o humor sempre à flor da pele, servia de teste para o dispositivo de mobilidade interna, uma espécie de propulsor manual manejado pelo astronauta para transitar de um ponto a outro do interior da estação com o mínimo de esforço. Weitz coordenava os alvejamentos precisos dos sensores voltados para a Terra, garantindo que a passagem sobre uma cordilheira nevada ou sobre uma bacia oceânica coincidisse com o momento certo do calendário orbital. A cada refeição, a cada exercício, a cada olhada pela janela, a Skylab confirmava a hipótese fundamental por trás de todo o projeto: sim, é possível trabalhar, produzir ciência séria e conviver em ambiente pressurizado com outros seres humanos por longos períodos fora da Terra.
A metáfora com a qual Joseph Kerwin resumia o significado profundo da Skylab talvez seja o melhor jeito de compreender o que estava em jogo naquele ano. Os astronautas do programa Apollo, dizia ele, tinham sido os Lewis e Clark da era espacial — em referência aos exploradores Meriwether Lewis e William Clark, que entre 1804 e 1806 percorreram, a mando do presidente Thomas Jefferson, o vasto território a oeste do rio Mississippi, cartografando rios, cordilheiras e povos indígenas em regiões até então mais lenda do que mapa. Aquele havia sido o momento de explorar, de ver, de trazer relatos. A Skylab não era mais isso. A Skylab era o começo do assentamento, do homesteading — palavra americana que designa o ato de reivindicar e cultivar terra virgem para fixar moradia. Não se tratava mais de ir, plantar bandeira e voltar. Tratava-se de morar, trabalhar, produzir ciência de forma regular, útil e economicamente sustentável. Tratava-se de demonstrar que o ser humano tem, no espaço, uma função irrepetível como observador, cientista, técnico, alguém que traz de volta informações que máquinas sozinhas não conseguiriam colher.
A missão inaugural da Skylab durou vinte e oito dias e retornou à Terra em vinte e dois de junho de 1973, com a cápsula caindo no oceano Pacífico e sendo recuperada pelo porta-aviões USS Ticonderoga. A segunda tripulação, comandada por Alan Bean e composta ainda pelo cientista Owen Garriott e pelo piloto Jack Lousma, subiu em vinte e oito de julho e permaneceu cinquenta e nove dias em órbita, batendo todos os recordes anteriores de duração de voo espacial. A terceira e última tripulação — Gerald Carr, Edward Gibson e William Pogue — decolou em dezesseis de novembro de 1973 e ficou impressionantes oitenta e quatro dias no espaço, retornando apenas em oito de fevereiro de 1974. Ao todo, foram cento e setenta e um dias de habitação humana efetiva distribuídos entre três voos, uma quantidade de tempo em órbita que jamais tinha sido acumulada por qualquer país e que estabeleceu um novo patamar para tudo o que veio depois.
A estação em si, uma vez que a terceira tripulação partiu, ficou girando vazia ao redor da Terra. Ela havia sido projetada para receber uma missão do então futuro ônibus espacial que teria a tarefa de elevar sua órbita e mantê-la em uso por muito mais tempo, mas atrasos no cronograma do ônibus e uma atividade solar mais intensa do que a esperada aceleraram o declínio orbital da Skylab. Em onze de julho de 1979, sob os olhos preocupados de meio mundo, ela reentrou na atmosfera e se desmanchou em pedaços que caíram parte no oceano Índico, parte sobre uma região pouco povoada da Austrália ocidental. Não houve feridos. A cidade de Esperance, no litoral sul australiano, chegou a multar simbolicamente a NASA por lixo espacial atirado em domínio público — uma multa que só seria paga décadas depois, em 2009, pela arrecadação de um DJ americano em favor da comunidade.
Nenhuma queda, porém, apagou o que a Skylab ensinou. A cada experimento médico, a cada foto solar em ultravioleta, a cada refeição servida no primeiro freezer orbital, a cada saco de dormir preso verticalmente contra uma parede, a cada teia tecida por Arabella em gravidade zero, aquela primeira casa de metal foi provando, com a paciência que só as boas pesquisas têm, que o espaço podia ser habitado. Tudo o que veio depois herdou dessa fundação uma certeza discreta mas indispensável. O ônibus espacial, que começou a voar em 1981; a estação soviética Mir, colocada em órbita em 1986 e habitada por quinze anos ininterruptos; a Estação Espacial Internacional, cujo primeiro módulo subiu em 1998 e que desde novembro de 2000 abriga tripulações humanas continuamente — todos esses projetos são herdeiros diretos da lógica que a Skylab inaugurou.
Há também um aspecto raramente lembrado que faz da Skylab um marco quase invisível de política tecnológica. Quando o programa Apollo foi encerrado em 1972, com a missão Apollo 17, os Estados Unidos se viram diante de um dilema estratégico embaraçoso. Toda a infraestrutura industrial construída ao longo da década de 1960 — as fábricas da Boeing em Michoud, da North American em Downey, os laboratórios de propulsão da Rocketdyne, os complexos de montagem do Kennedy Space Center, os corpos técnicos formados por Wernher von Braun em Huntsville — corria o risco de se desmontar por falta de missão. A Skylab foi, entre outras coisas, uma forma sofisticada de manter viva essa infraestrutura enquanto o próximo grande projeto americano de voo espacial, o ônibus espacial, não estivesse pronto. O terceiro estágio Saturno V que virou oficina orbital seria de outra forma sucata em algum hangar. Os foguetes Saturno IB usados nas três missões tripuladas eram sobras do estoque original do programa Apollo. Nada foi desperdiçado, tudo foi convertido. Em uma agência que costuma ser criticada pelos custos de suas ambições, a Skylab foi um exercício raro de reciclagem industrial em escala planetária.
Convém também situar o momento em que tudo aconteceu. Em 1973, os Estados Unidos ainda saíam de uma década politicamente conturbada. A guerra do Vietnã se aproximava do fim melancolicamente, o presidente Richard Nixon estava atolado nos escombros do escândalo Watergate, a crise do petróleo desencadeada em outubro daquele mesmo ano fazia longas filas se formarem nos postos de gasolina do país inteiro. A URSS já havia lançado sua própria estação espacial, a Salyut 1, dois anos antes, em abril de 1971, embora com um destino trágico: a tripulação da Soyuz 11, que passara vinte e três dias a bordo dela, morreu no retorno por uma despressurização súbita da cápsula. A Skylab, portanto, era também uma resposta americana simbólica, uma demonstração de que o país ainda tinha fôlego para inovar mesmo em meio ao caos doméstico e internacional. O sucesso das três missões tripuladas, todas retornando com vida e com resultados científicos, foi um sopro de otimismo em um dos períodos mais opressivos da vida americana no século XX.
O legado mais delicado da Skylab talvez esteja em outro lugar, contudo. Ele está no jeito como aquela missão, pela primeira vez, começou a mostrar que a exploração espacial não era só sobre chegar em algum lugar mais longe, plantar uma bandeira e voltar. Era sobre construir a possibilidade de permanecer. Era sobre demonstrar, com dados de fisiologia, com fotografias solares, com sensoriamento remoto do planeta, com experimentos de estudantes do ensino médio, que o ser humano tem no espaço uma função útil, criativa, científica, insubstituível. A Skylab foi a primeira reportagem escrita a bordo da nossa própria estrada rumo a virar uma espécie multiplanetária. E se hoje se fala com naturalidade em bases lunares permanentes, em missões tripuladas a Marte, em fábricas orbitais de fibra ótica e órgãos artificiais, é porque em algum ponto do calendário de 1973, três homens em um cilindro metálico do tamanho de uma casa provaram que morar acima da atmosfera não era mais ficção científica. Era só uma questão de engenharia, coragem e paciência para escrever, com cuidado, cada linha da primeira página.
Meio século depois, quando os astronautas atuais da Estação Espacial Internacional acordam com o alarme do controle de missão em Houston, escovam os dentes em cubículos com portas, se prendem em sacos de dormir verticais fixados às paredes, pedalam bicicletas ergométricas monitoradas por sensores fisiológicos e olham através de janelas curvas para uma Terra em movimento perpétuo, eles estão executando gestos cujos protótipos foram desenhados em Huntsville, Alabama, no início da década de 1970 e testados pela primeira vez, com toda a incerteza do pioneirismo, por Conrad, Kerwin e Weitz. O manual de vida em órbita que hoje se lê como rotina foi escrito, página por página, naquele voo inaugural de vinte e oito dias. E é por isso que a Skylab, mesmo caída no oceano Índico em 1979, mesmo espalhada em fragmentos por uma remota região da Austrália, continua girando sobre a memória de todos os que ainda olham para o céu noturno esperando ver, entre as estrelas, o brilho súbito de uma casa humana passando por cima do horizonte.


Comente!