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24 de fevereiro de 2024

Sombras na Cratera Egede A na Lua


Como na Terra, quando o Sol acaba de se pôr abaixo do horizonte oeste belas sombras, e uma iluminação única é produzida, na Lua acontece a mesma coisa, quando o Sol está baixo no horizonte, uma iluminação única é produzida e sombras espetaculares são geradas acentuando de forma decisiva as rugosidades e relevos da superfície lunar. Pelo fato da Lua não ter atmosfera, as sombras geradas são muito mais bem definidas e o contraste entre as áreas iluminadas e as regiões que se mantêm na escuridão é muito alto. Os astronautas da Apollo relataram com uma certa frequência a dificuldade de julgarem a distância correta de um determinado objeto pois sem o ar para dar uma borrada nos objetos mais distantes, na Lua, aparentemente, feições próximas e distantes se apresentam de forma similar. Por isso as sombras são importantes, com elas os cientistas planetários fazem investigações via sensoriamento remoto, pois através da investigação do comprimento das sombras eles podem determinar o tamanho dos objetos responsáveis por elas.

Por exemplo, na imagem principal desse post, estamos vendo um conjunto familiar de pedaços de rochas descansando no interior da cratera Egede A, que fica nas coordenadas 51.56 graus de latitude norte e 10.45 graus de longitude leste. Como os pedaços de rocha estão numa superfície horizontal, o comprimento da sombra do maior pedaço presente na imagem indica que a altura dele é de aproximadamente 61 metros. O cálculo é feito conhecendo o ângulo de incidência do Sol e usando um pouco de trigonometria básica. Na verdade, embora, a superfície onde eles estão depositadas não seja totalmente horizontal, a altura desses pedaços de rocha fica um pouco exagerada. Assim sendo,  a altura verdadeira do maior pedaço de rocha é algo um pouco menor que 61 metros. Isso significa que o ângulo do Sol é errado para se usar no cálculo da estimativa do tamanho de um pedaço de rocha. Isso também significa que nós teríamos que saber a inclinação do talude onde os pedaços estão depositados em combinação com o ângulo do Sol e com o comprimento da sombra para aí então fazermos a conta de maneira correta. Os cientistas planetários nos ensinam a termos cuidado nas interpretações do que nós achamos que vemos nos outros objetos celestes. Mas vamos lá, alguém teria uma sugestão de como determinar a inclinação do talude da cratera?

Imagine que você está de pé no anel dessa cratera. O Sol ainda estaria relativamente alto acima do seu horizonte. Note como a superfície além da cratera está totalmente iluminada pelo Sol. Alto no seu céu está a Terra com um diâmetro quatro vezes maior do que a Lua tem no céu aqui na Terra. Se você então esticar a sua mão e tampar o Sol, o resto do céu ficaria completamente escuro e preenchido com estrelas. Todas as suas constelações estariam lá, sem nenhuma mudança visível em suas posições com relação ao que você conhece aqui da Terra, isso porque a distância entre a Terra e a Lua não é grande o suficiente para causar uma mudança visível nos padrões que observamos no céu. Toda essa história serve para mostrar que os mesmos métodos que usamos aqui na Terra se encaixam perfeitamente na Lua.

Na Lua, porém ainda existem outras indicações que podem ajudar. Por exemplo, pode-se notar o  padrão do material ejetado mais ou menos apagado ao redor da cratera Egede A. Isso mostra que a cratera é relativamente nova, visto que não houve tempo suficiente ainda para apagar os raios de material ejetado. A tendência WNW – ESE das correntes de crateras para norte e para sul da Egede A são impactos secundários produzidos pelo material ejetado de uma cratera de impacto muito maior que não aparece na imagem.

A imagem completa feita pela câmera NAC da sonda LRO mostra essas feições adicionais que precisam logicamente de um estudo mais aprofundado. Se olharmos com cuidado entre os pedaços de rochas podemos encontrar rastros que indicam o movimento à medida que esses pedaços rolaram pelo talude da cratera. Com essas informações é possível assim calcular a inclinação desse talude e que pode nos ajudar na definição mais precisa do tamanho desses pedaços de rochas.

Fonte:


http://lroc.sese.asu.edu/news/index.php?/archives/507-Shadows-in-Egede-A.html

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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