Direto da Terrinha: Provas de Vida Extraterrestre na Estratosfera? Esperem Lá.

diatomacea


observatory_150105Não tarda nada a notícia estará em todo o lado: cientistas ingleses afirmam ter descoberto provas de vida extraterrestre na estratosfera.

As provas, como sugere o biólogo Martin Wainwright, professor na Universidade de Sheffield e líder do projeto, foram encontradas nos pinos microscópicos de um balão enviado para a estratosfera do planeta. Esses pinos só ficaram expostos à atmosfera quando o balão atingiu uma altitude entre os 22 e os 27 quilómetros.

Que encontraram eles quando o balão foi recuperado, são e salvo?

A frústula de uma diatomácea.

Sexy, não acham? Da próxima vez que desejarem impressionar uma rapariga, experimentem elogiar-lhe as frústulas. Aposto que ela não saberá como reagir ou responder, o que por si só é já um feito notável para nós.

Para um leigo, estes nomes bem podem parecer adequados a extraterrestres ou piadolas, mas na verdade têm uma origem bastante terrena: as diatomáceas são organismos unicelulares encontrados principalmente em rios ou mares; a frústula é o nome que se dá à parede celular que os cobre e protege.

Bem, então por que razão um professor de Biologia – não se trata de um daqueles pseudo-investigadores sobre quem nada se sabe – arriscaria a sua reputação científica afirmando ter descoberto vida extraterrestre?

Panspermie


Por uma questão de fé.

Segundo diz Wainwright, «95% convencido» da veracidade da sua descoberta, só existiriam duas maneiras pelas quais um organismo terrestre podia alcançar uma altitude de 27 quilómetros: lançado aos ares por uma erupção vulcânica ou por um processo qualquer ainda desconhecido.

Dado que Wainwright e a sua equipa não descobriram evidências de que uma erupção vulcânica tenha ocorrido nem imediatamente antes ou durante o período em que o balão esteve no ar e como são adeptos de uma hipótese centenária chamada Panspermia, escolheram acreditar que se trata de um organismo que veio do Espaço, possivelmente de um meteorito, e não da Terra.

Portanto aqui estão as «provas».

Panspermia é uma hipótese já muito antiga que defende que a vida pode ter tido origem no Espaço e trazida para cá. Sendo assim, os constituintes básicos da vida podem ter apanhado uma boleia dos cometas ou viajado desde Marte, quando este era ainda um planeta jovem mais quente e coberto de água, com um campo magnético protetor e uma atmosfera de jeito. O astrónomo e controverso Fred Hoyle, por exemplo, era um dos defensores da hipótese Panspermia.

Com a cabeça na estratosfera

Cá em baixo temos um planeta fervilhante de vida; lá em cima, no Espaço, independentemente dos meus desejos, encontrámos zero provas de que essa vida existe. Temos indícios, fezadas, boas argumentações, descobertas encorajadoras, mas nada de provas. Wainwright preferiu seguir os seus sonhos, em vez de considerar o que é mais plausível. Por mim tudo bem, desde que os sonhos não sejam apresentados como provas e os jornais ampliem uma protodescoberta.

Mas este não é o fim da história: Wainwright e os seus colegas, não obstante terem decidido publicar as suas conclusões no Journal of Cosmology – cujos artigos estão para a comunidade científica como a sua página online está para o web design – podem, de facto, ter descoberto qualquer coisa verdadeiramente importante.

Quem me dera! Mas até lá, antes de começarmos a falar na maior descoberta científica da história da Humanidade, vamos esperar por uma análise mais detalhada cujos resultados – e isto é muito importante! – possam ser verificados por outros cientistas. Esta malta da Ciência é mais desconfiada do que uma velhota alentejana pouco sociável, e normalmente tem boas razões para isso.

Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias – dá jeito evocar esta famosa frase do saudoso Carl Sagan. Porque é sempre atual.

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Fonte:

http://astropt.org/blog/2013/09/21/provas-de-vida-extraterrestre-na-estratosfera-esperem-la/

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Sérgio Sacani

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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