Biografia de Outro Asteróide: Ida

Já foi mostrado a pouco que a sonda Galileu surpreendeu a todos quando mostrou as primeiras imagens em close de um asteróide, no caso o Gaspra. Continuando sua rota até Júpiter, a sonda visitou outro asteróide, o fantástico Ida, que se converteu então no segundo asteróide visitado por um artefato humano, e, além disso, ele revelou ser o primeiro asteróide a possuir uma pequena lua, ou seja, um asteróide menor que o orbita. Na época os cientistas não podiam acreditar no que estavam vendo. Pensaram eles, se apenas um segundo asteróide visitado por uma sonda apresenta um satélite, quantos mais com um pequeno companheiro existem no nosso sistema planetário?

Essa feição tão interessante do asteróide Ida não podia ser visto da Terra. O companheiro de Ida, Dactyl é muito pequeno para ser observado pelos telescópios na Terra. O descobridor do asteróide Ida, jamais poderia imaginar que ele tivesse um satélite. O asteróide 243 Ida foi descoberto pelo astrônomo austríaco Johann Palisa em Viena em 29 de Setembro de 1884. Situado no cinturão principal de asteróides, ele possui uma órbita relativamente circular (2.99 por 2.73 unidades astronômicas no seu momento mais distante e mais próximo do Sol), que leva 4.8 anos para ser completada.

Ida é considerado um asteróide do Tipo S, pertencente à família Koronis. Suas dimensões confirmadas durante o sobrevoou da Galileu são 53 x 24 x 15 km, ou seja, um corpo irregular. A sonda passou pelo asteróide em 28 de agosto de 1993 tirando fotografias e realizando outras medições com seus instrumentos. Da análise dessas imagens pôde-se determinar o período de rotação de 4.6 horas e um albedo de 0.23, isso significa que se trata de um objeto relativamente escuro, que reflete pouca luz que recebe do Sol. Foi calculada uma temperatura superficial de -73 graus Celsius.

Comparação dos asteróides e cometas já vistados por sondas espaciais.

A influência gravitacional do asteróide sobre a trajetória da sonda Galileu ajudou a calcular a sua massa e sua densidade. Embora seja um dos maiores asteróides, não possui metais na sua composição. Sua forma estranha sugere que poderia se tratar da fusão de dois asteróides menores. As fotografias mostram uma superfície repleta de crateras. Esse tipo de asteróide, Tipo S, poderia ser a origem dos asteróides do tipo condritos que freqüentemente caem na Terra.

Foi possível ter uma boa impressão do asteróide Ida na maioria dos ângulos possíveis devido ao seu rápido período de rotação. Desde que a sonda Galileu começou a fotografá-lo a uma distância de 240000 km, até que alcançou sua máxima aproximação a 2400 km o corpo havia girado muito sobre seu eixo e apesar da velocidade do sobrevôo, 45000 km/h, foi possível obter imagens de 95% de sua superfície.

Imagens coloridas de Ida.

As fotografias do asteróide não foram enviadas de imediato, pois a antena principal da Galileu não tinha se aberto e teve que se esperar por um momento mais propício. Foi Ann Harch do projeto Galileu que revisando as fotografias recebidas posteriormente descobriu em 17 de Fevereiro de 1994 a existência de Dactyl. A imagem que deu vida a sua existência foi tirada a aproximadamente 10800 km de distância de Ida, apenas quinze minutos antes do momento de máxima aproximação. E ali estava uma pequena lua de 1.6 x 1.4 x 1.2 km situada a 90 km do asteróide principal. Sua órbita não se conhece ao certo. Se for circular esse satélite deve completar uma órbita a cada 20 horas ao redor de Ida.

Surpreendentemente, Dactyl mostra também um bom número de crateras, uma delas com mais de 80 metros de diâmetro. Não se descarta que certos impactos contra Ida podem ter produzido escombros que então caíram sobre essa lua. Há aproximadamente 100 milhões de anos, Dactyl podia ter sofrido um choque que reduziu seu tamanho até o atual. Ambos os corpos são essencialmente parecidos, confirmando o fato de que devem ter a mesma origem. A maior gravidade de Ida o deixou com características únicas, como a presença de uma capa de rególitos superficial. Os astrônomos acreditam também que Ida muda pouco a pouco de cor, deixando sua superfície mais avermelhada devido aos efeitos degradantes do ambiente espacial.

Mapa da superfície de Ida.

Ida não possui um campo gravitacional uniforme devido a sua forma irregular. O alto número de crateras dificulta a visualização do seu solo primário. Alguns impactos podem ter ocorrido nas crateras de outros já existentes. Por outro lado, os rególitos com uma espessura de quase um metro ocultam a e preservam as rochas inferiores. Sua origem está nos detritos arredondados pelos impactos, que acabou depositando de forma lenta material sobre a superfície do asteróide criando assim uma capa compacta. A maior cratera possui 12 km de diâmetro.

A família Koronis, a que pertence Ida, é um grupo de asteróides que podemos considerar  como os restos de um corpo muito maior, de aproximadamente 120 km de diâmetro. Com esse tamanho, poderia se tratar de um objeto diferenciado  com um núcleo contendo minerais metálicos. Porém Ida não contém esses metais e poderia, portanto pertencer a uma zona superficial da Koronis. Sua idade, apesar de tudo não é clara. Pelo número de crateras que apresenta, sugere que tenha mais de 1 bilhão de anos, mas não parece que a família Koronis se criou a tanto tempo.

Ida e Dactyl.
Sérgio Sacani

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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