A Dança de Dois Monstros Cósmicos

Há 480 milhões de anos-luz da Terra, no coração de uma galáxia que os astrônomos batizaram de Markarian 501, dois monstros cósmicos giram um ao redor do outro em uma dança de destruição silenciosa. Cada um deles é um buraco negro supermassivo com uma massa que pode chegar a um bilhão de vezes a do Sol. Durante décadas, os cientistas suspeitaram de sua existência. Propuseram modelos, calcularam probabilidades, encontraram indícios fragmentários. Mas nunca ninguém havia capturado, em imagens diretas de rádio, a assinatura inequívoca de ambos ao mesmo tempo: dois jatos distintos, emergindo de um único núcleo galáctico, cada um lançado por um dos membros de um par de buracos negros orbitando-se mutuamente a distâncias que tornam o sistema inteiro menor do que o diâmetro da órbita de Plutão em torno do Sol. Agora, uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Instituto Max Planck de Radioastronomia, em Bonn, na Alemanha, apresenta ao mundo o que pode ser a mais direta evidência já obtida de que o núcleo de Mrk 501 abriga exatamente isso: um binário de buracos negros supermassivos, revelado pela presença de um segundo jato relativístico nunca antes identificado como tal, curvando-se em espiral no sentido anti-horário ao redor do núcleo de rádio principal e, em pelo menos uma ocasião extraordinária, sendo distorcido pela gravidade do buraco negro primário em uma estrutura parcial conhecida como anel de Einstein.

O trabalho, publicado no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, é fruto de uma análise exaustiva de 83 conjuntos de dados observacionais obtidos entre setembro de 2011 e julho de 2023 com o Very Long Baseline Array (VLBA) — uma rede de dez antenas de rádio distribuídas pelo território norte-americano, das Ilhas Virgens ao Havaí, que funciona como um único radiotelescópio do tamanho de um continente. As observações foram realizadas na frequência de 43 gigahertz, o equivalente a comprimentos de onda de cerca de sete milímetros, que permite enxergar estruturas na escala de parsecs imediatamente ao redor do núcleo ativo da galáxia. A equipe também comparou seus resultados com dados anteriores obtidos em 15 gigahertz e 8 gigahertz, e essa comparação entre frequências revelou uma das descobertas mais intrigantes do estudo: o sistema de jatos observado em 43 GHz está sistematicamente deslocado, no sentido horário, em relação ao jato detectado em frequências mais baixas — uma assimetria que, à luz de tudo o mais que os pesquisadores encontraram, aponta com força crescente para a existência de dois buracos negros em órbita mútua.

Para compreender por que a descoberta de um segundo jato em Mrk 501 é tão significativa, é preciso primeiro entender o que são os blazares e por que esse objeto em particular acumulou décadas de enigmas sem resposta. Blazares são um subtipo de núcleos galácticos ativos — galáxias cujo centro alberga um buraco negro supermassivo devorando matéria em taxas prodigiosas. Nesse processo de acreção, uma fração do material não cai no buraco negro: é acelerada a velocidades próximas à da luz e ejetada em jatos bipolares perpendiculares ao disco de acreção. Esses jatos podem se estender por milhares de anos-luz e são visíveis em rádio, raios X e até em raios gama de altíssima energia. O que diferencia os blazares dos demais núcleos ativos é a geometria: um dos jatos aponta quase diretamente para a Terra, o que amplifica enormemente a emissão observada por efeitos relativísticos — o chamado boosting de Doppler. Mrk 501, situado a um redshift de 0,034 no espectro eletromagnético, pertence à subclasse dos blazares com pico de síncrotron em altas frequências, e é famoso por emitir raios gama com energias na faixa de TeV — trilhões de elétronvolts — além de ter uma estrutura de rádio notoriamente tortuosa e mal comportada.

Esse último ponto merecia atenção há muito tempo. Desde as primeiras observações interferométricas dos anos 1980, os astrônomos notavam que a estrutura de rádio de Mrk 501 parecia mudar de direção de forma abrupta entre escalas de parsecs — as distâncias imediatamente ao redor do núcleo, perscrutadas pelo VLBI — e escalas de quiloparsecs, visíveis com instrumentos de menor resolução como o Very Large Array. Em 1986, van Breugel e Schilizzi demonstraram que o desalinhamento entre as estruturas grande e pequena escala de Mrk 501 era grosseiro e que devia ocorrer dentro de 40 parsecs do núcleo. Na escala de um parsec equivalem a 3,26 anos-luz — o que significa que a mudança de direção acontecia em uma região menor do que a distância entre o Sol e a estrela mais próxima, Alfa Centauri, multiplicada por cerca de doze. Conway e Wrobel, em 1995, propuseram que o jato deveria ser um fluxo helicoidal visto de frente, confinado a um cone de semi-abertura menor que 12 graus. Mas nenhuma dessas explicações era completamente satisfatória, e a pergunta sobre o que causava o desalinhamento permaneceu aberta por três décadas.

A resposta que o novo estudo propõe é ao mesmo tempo simples e vertiginosa: o desalinhamento existe porque nunca havia um único jato. Sempre foram dois.

A detecção do segundo jato, que os pesquisadores denominam Jet 2 em oposição ao Jet 1 previamente conhecido, não foi trivial. Os dados do VLBA na frequência de 43 GHz têm resolução angular suficiente para distinguir estruturas na escala de décimos de milissegundos de arco — unidades de medida angular inimaginavelmente pequenas: um milissegundo de arco equivale à largura aparente de uma moeda de um real vista a mais de quatro mil quilômetros de distância. Mesmo com essa resolução extraordinária, separar o Jet 2 do Jet 1 exigiu um trabalho meticuloso de modelagem gaussiana — o ajuste de componentes matemáticas às distribuições de brilho observadas — realizado independentemente para cada uma das 83 épocas do conjunto de dados, sem impor nenhum resultado prévio ao processo. A equipe utilizou o método de perfilamento de verossimilhança para estimar as incertezas nos parâmetros ajustados, uma técnica estatisticamente robusta que permite quantificar com precisão os limites de confiança nas posições e densidades de fluxo de cada componente.

O que emergiu desse processo foi uma revelação morfológica. Além dos componentes do Jet 1 — o jato extenso que aponta para sudeste, já bem documentado na literatura — havia um conjunto de estruturas dispostas do lado oposto do núcleo, precisamente onde nenhum jato deveria aparecer. Em objetos do tipo BL Lac, ao qual Mrk 501 pertence, os contra-jatos são praticamente invisíveis. Isso porque o ângulo de visada muito pequeno em relação ao jato principal cria uma assimetria relativística brutal: o jato que aponta para nós é amplificado pelo movimento em nossa direção, enquanto o contra-jato, que se afasta de nós, é suprimido pelo efeito Doppler inverso. Ver emissão do lado do contra-jato em Mrk 501 não era apenas incomum — era anômalo o suficiente para exigir explicação. A análise mostrou que essas estruturas não eram artefatos nem ruído: eram componentes reais, com densidades de fluxo que chegavam a até 0,3 janskys, distribuídos em uma configuração que primeiro aparece do lado do contra-jato e depois se curva no sentido anti-horário ao redor do núcleo de rádio, emergindo no lado do jato principal e seguindo paralelamente ao Jet 1 — apenas para, em observações subsequentes de dias depois, virar para o sul e se misturar às estruturas do Jet 1. Esse padrão de movimento relativo entre os dois jatos foi observado repetidamente ao longo de doze anos de dados.

O período estimado para o movimento orbital do Jet 2 ao redor do núcleo é de 146 ± 22 dias — o que, corrigido pelo redshift cosmológico de z = 0,034, equivale a 141,2 ± 21,3 dias no referencial de repouso da galáxia. Essa estimativa foi obtida identificando épocas de observação em que a configuração do jato se repetia, com os componentes do Jet 2 distribuídos nos mesmos ângulos de posição. A análise de luminosidade no tempo — a chamada curva de luz — do núcleo de rádio em 43 GHz também apresenta uma periodicidade de aproximadamente 121 dias, em notável consonância com esse período orbital estimado, embora com menor certeza estatística. A curva de luz total da fonte, somando todos os componentes, revela uma periodicidade de longo prazo ainda mais robusta, de 7,4 anos, confirmada pela função de auto-correlação discreta do conjunto de dados e visualmente conspícua nas oscilações da densidade de fluxo entre 2012 e 2023. O sistema emite, portanto, em dois ritmos simultâneos: um rápido, de cerca de quatro meses, ligado ao movimento orbital do binário; e um lento, de cerca de sete anos e meio, associado à precessão do plano orbital desse mesmo binário no espaço.

O fenômeno da precessão pode ser visualizado por uma analogia com um pião que gira e, ao mesmo tempo, balança sua ponta em círculos ao redor da vertical. No caso do binário de buracos negros em Mrk 501, o eixo ao redor do qual os dois objetos orbitam não permanece fixo no espaço: ele próprio gira lentamente, completando um ciclo a cada 7,4 anos. Isso ocorre porque o espaço-tempo ao redor de um buraco negro em rotação é literalmente arrastado — um efeito previsto pela relatividade geral conhecido como precessão de Lense-Thirring — e a interação gravitacional entre os dois buracos negros amplifica ainda mais esse comportamento. A precessão do plano orbital explica a deriva geral de todo o sistema de jatos no sentido horário, observada nas imagens entre 2011 e 2024: o conjunto Jet 1 + Jet 2 move-se progressivamente em direção a valores maiores de declinação relativa, com um curioso retrocesso entre 2016 e 2017 que os autores denominam de back flip, antes de retomar a deriva northward.

A implicação mais dramática de toda a análise, e talvez a mais bela do ponto de vista estético da física, é a observação de uma estrutura parcial de anel de Einstein no núcleo de Mrk 501. Em 24 de junho de 2022, as imagens do VLBA em 43 GHz mostraram os componentes do Jet 2 dispostos em uma trajetória quase circular ao redor do núcleo de rádio, com um raio aparente de aproximadamente 0,15 milissegundos de arco. Um anel de Einstein é o resultado de um alinhamento quase perfeito entre uma fonte de luz, um objeto massivo que age como lente gravitacional e o observador. Quando esse alinhamento é exato, a luz da fonte é desviada igualmente em todas as direções ao redor da lente, formando um anel completo e brilhante. Quando o alinhamento é quase perfeito mas não exato, forma-se um arco — um anel parcial. A interpretação dos autores é que o buraco negro associado ao núcleo de rádio principal — o buraco negro primário — está atuando como lente gravitacional sobre a emissão do Jet 2, lançado pelo buraco negro secundário que se encontra, naquele momento, alinhado com suficiente precisão para que o fenômeno de lente ocorra. A precessão do plano orbital explica por que esse anel de Einstein é observado apenas ocasionalmente: o alinhamento necessário acontece apenas quando a geometria da órbita passa por uma configuração específica.

Para que um anel de Einstein da escala observada — cerca de 0,15 milissegundos de arco — seja produzido pela lente gravitacional do buraco negro primário sobre a emissão do Jet 2, a separação física entre a lente e a fonte deve ser da ordem de 10 a 100 parsecs. Essa escala é compatível com a extensão esperada de um jato relativístico ao longo de sua trajetória, o que torna o cenário geometricamente plausível. Os autores reconhecem que a interpretação alternativa — de que o anel seria produzido pela lente atuando sobre o núcleo de rádio do buraco negro secundário em si — implica uma separação muito maior entre lente e fonte do que a separação orbital estimada para o binário, tornando essa hipótese menos provável. Mas o anel parcial observado em 2022, qualquer que seja sua origem precisa, constitui uma evidência adicional poderosa para a presença de um segundo objeto massivo em órbita ao redor do núcleo principal.

Os cálculos que os pesquisadores apresentam para caracterizar o hipotético binário de buracos negros supermassivos são ao mesmo tempo impressionantes na escala e incertos na precisão — o que é honesto, dado o estado atual dos dados. Assumindo a estimativa de massa total de 7 × 10⁸ massas solares derivada por Ghisellini e colaboradores em 2010 a partir das propriedades da emissão de alta energia de Mrk 501, e o período orbital de 141 dias corrigido pelo redshift, o modelo binário prevê uma separação entre os dois buracos negros de 469 unidades astronômicas — para referência, a unidade astronômica é a distância média entre a Terra e o Sol, e 469 dessas distâncias correspondem a algo como onze vezes a distância do Sol ao planeta Netuno. Permitindo uma faixa de massa total entre 10⁸ e 10⁹ massas solares, a separação varia de 251,9 a 542,6 unidades astronômicas, equivalente a entre 27,4 e 127,4 raios de Schwarzschild — o raio de Schwarzschild sendo a medida fundamental de tamanho de um buraco negro, igual a aproximadamente 3 quilômetros por massa solar. Dois buracos negros de centenas de milhões de massas solares separados por apenas algumas dezenas de seus próprios raios de Schwarzschild: uma imagem que desafia qualquer intuição formada no mundo de escalas humanas.

O tamanho angular máximo dessa separação projetada no céu seria de apenas 3,6 microarcos de segundo — uma medida que expressa o abismo entre o que a física prevê e o que a tecnologia atual pode enxergar. A resolução efetiva do Telescópio do Horizonte de Eventos, o EHT que fotografou a sombra dos buracos negros de M87 e da Via Láctea, é de cerca de 20 microarcos de segundo. O Black Hole Explorer (BHEX), um telescópio espacial de rádio em desenvolvimento, deverá atingir cerca de 6 microarcos de segundo. Nenhum dos dois seria capaz de resolver diretamente a separação entre os dois buracos negros de Mrk 501: o sistema provavelmente permanecerá irresolvível por meios puramente interferométricos de rádio no futuro previsível. O que os pesquisadores propõem como caminho alternativo é detectar as ondas gravitacionais que o binário deveria emitir à medida que os dois buracos negros perdem energia orbital por irradiação e espiralizam lentamente um em direção ao outro. O sinal gravitacional esperado tem uma frequência de 8 × 10⁻⁸ hertz — um ciclo a cada quatro meses, correspondendo ao período orbital — que cai exatamente dentro da janela de detecção esperada para a técnica de pulsar timing array (temporização de pulsares), na qual o Square Kilometre Array (SKA), o maior rádiotelescópio da história em construção, poderá ser capaz de detectar. Para isso, contudo, seriam necessários mais de vinte pulsares observados com precisão de temporização adequada por mais de uma década — um programa científico ambicioso mas realizável com a infraestrutura do SKA.

A questão da vida do sistema binário também merece atenção. A equação que governa o tempo de coalescência de um binário compacto — o tempo que os dois objetos levam para espiralizar um até o outro e fundir-se — foi derivada por Peter Peters na década de 1960 e é uma das consequências mais diretas da teoria da relatividade geral de Einstein. Para o binário de Mrk 501, o tempo de inspeção calculado depende criticamente da razão entre as massas dos dois buracos negros. Se elas forem iguais, o sistema ainda tem bilhões de anos pela frente. Se o buraco negro secundário for muito menor que o primário — uma razão de massas M₂/M₁ próxima de 0,001 — o tempo de coalescência cai para a ordem de centenas de anos, o que tornaria o sistema em fase terminal de evolução. O modelo mais plausível, segundo os autores, é o de massas comparáveis, o que implica um binário robusto e duradouro, ainda longe de sua fusão final.

Antes de proclamar a conclusão do binário como certeza, os pesquisadores foram cuidadosos em examinar explicações alternativas para o conjunto de observações. Instabilidades de Kelvin-Helmholtz — perturbações hidrodinâmicas que se desenvolvem na interface entre um jato de plasma em alta velocidade e o meio ambiente mais lento ao redor — são conhecidas por produzir estruturas helicoidais e filamentos em jatos de rádio de núcleos ativos, como documentado em galáxias como 3C 273, M87 e 3C 279. Essas instabilidades poderiam, em princípio, mimetizar a aparência de um segundo jato. Os autores consideram o cenário com seriedade, mas apontam para uma diferença crucial: nenhum dos jatos de núcleos ativos conhecidos como exemplos de instabilidades de Kelvin-Helmholtz exibe o deslocamento assimétrico entre frequências observado em Mrk 501 — o fato de que o jato em 43 GHz está sistematicamente deslocado no sentido horário em relação ao jato em 15 e 8 GHz. Isso representa uma estratificação de frequência que não tem explicação óbvia dentro do paradigma das instabilidades. Da mesma forma, o deslocamento de posição do núcleo com a frequência — um efeito de auto-absorção de síncrotron previsto e observado em vários outros AGN — foi descartado: o deslocamento de núcleo entre 15 e 43 GHz em Mrk 501 é de apenas cerca de 0,05 milissegundos de arco e aponta na direção do jato, não no sentido perpendicular onde o deslocamento observado se manifesta. Choques internos em jatos contínuos explicam parte da variabilidade, mas não a dinâmica do Jet 2. O carregamento não uniforme de massa na base do jato também é insuficiente para dar conta da totalidade dos dados. Eliminadas as alternativas mais plausíveis, o sistema binário de buracos negros supermassivos emerge como a explicação mais parsimoniosa e coerente para o conjunto completo de observações.

É importante situar essa descoberta na história da astrofísica dos buracos negros binários supermassivos. Há décadas, os teóricos preveem que quando duas galáxias se fundem — um processo extremamente comum no universo em expansão, especialmente em épocas anteriores — os buracos negros supermassivos de cada uma delas devem eventualmente se aproximar, formar um par ligado gravitacionalmente e começar a orbitar um ao outro. A fusão final desses pares deveria produzir algumas das ondas gravitacionais mais intensas do universo, detectáveis por telescópios de ondas gravitacionais de baixa frequência. A dificuldade está em que há uma fase intermediária conhecida como “o problema do parsec final”: quando os dois buracos negros chegam a separações da ordem de um parsec, os mecanismos de extração de momento angular que os aproximaram até esse ponto perdem eficiência, e a teoria ainda debate como eles superam essa barreira para continuar a espiralizar. Encontrar um binário em atividade, com dois jatos emitindo simultaneamente, a uma separação de centenas de unidades astronômicas, fornecerebbe um caso de estudo empírico concreto para essa fase.

Não é que nunca tenham sido propostos sistemas binários em blazares antes. Vários autores aplicaram modelos de precessão a dados cinemáticos e argumentaram que diversas fontes poderiam albergar binários — trabalhos de Qian e colaboradores ao longo da última década exploraram esse terreno com modelos de jato helicoidal. Mas o que distingue o trabalho de Britzen e colaboradores sobre Mrk 501 é crucial: a detecção por imagens diretas de dois jatos distintos coexistindo no mesmo núcleo galáctico ao mesmo tempo, observados nas mesmas imagens VLBA das mesmas épocas, sem precisar de inferência indireta ou modelagem cinemática. Os próprios autores sublinham isso nas conclusões: até onde se sabe, esta é a primeira vez que um sistema de jato duplo em um núcleo de blazar é detectado por imagem direta. Não modelagem. Não inferência. Imagem.

O que torna Mrk 501 um objeto particularmente belo para este tipo de investigação é a sua proximidade relativa. Com um redshift de apenas 0,034, ela está a uma distância de aproximadamente 480 milhões de anos-luz — perto o suficiente para que o VLBA consiga resolver estruturas na escala de parsecs dentro do núcleo, mas longe o suficiente para ser um representante típico dos blazares em atividade. Além disso, ela emite em TeV — raios gama com energias de trilhões de elétronvolts — e tem sido monitorada em múltiplos comprimentos de onda há décadas, o que significa que há um contexto extraordinariamente rico de dados históricos para contextualizar qualquer nova descoberta. A periodicidade de 7,4 anos encontrada na curva de luz de rádio em 43 GHz é consistente com variações de longo prazo observadas em raios gama e em raios X por outros grupos em anos anteriores, somando mais uma camada de coerência ao quadro emergente.

Uma observação especialmente elegante é que a estrutura denominada pelos autores como limb brightening — o brilhamento das bordas do jato — que tinha sido relatada em observações anteriores em 43 GHz como uma característica da morfologia de Mrk 501, pode na realidade ser um artefato causado pela sobreposição do Jet 2 ao Jet 1 em imagens com menor qualidade de dados. Quando o segundo jato não era reconhecido como tal, suas estruturas se confundiam com as bordas mais brilhantes do jato principal, criando a ilusão de um jato com emissão aumentada nas margens. Isso implica que observações anteriores de Mrk 501 e, potencialmente, de outros blazares similares, possam ter interpretado erroneamente estruturas de duplo jato como configurações de espinha-bainha ou brilhamento de bordas — o que abre uma perspectiva metodológica interessante para a releitura do acervo de dados históricos de VLBI de outros núcleos ativos.

A estrutura da análise também merece reconhecimento. Os pesquisadores utilizaram o conjunto de dados do programa VLBA-BU-BLAZAR, mantido pela Universidade de Boston, que fornece monitoramento regular de blazares em 43 GHz com o objetivo de estudar a cinemática de seus jatos. Ao reprocessar 83 épocas independentemente — sem forçar nenhum vínculo entre as épocas ou impor nenhuma hipótese sobre o resultado — e ao empregar um método rigoroso de estimativa de incertezas baseado em perfilamento de verossimilhança, a equipe garantiu que as estruturas encontradas fossem robustas contra artefatos de modelagem. A comparação com dados independentes em 15 GHz do programa MOJAVE e com uma única época em 8,1 GHz reforçou a interpretação ao mostrar que o deslocamento entre frequências é sistemático e não pode ser explicado por efeitos banais de resolução ou absorção.

O horizonte futuro para Mrk 501 é rico de possibilidades. As ondas gravitacionais que o binário supostamente emite poderiam, em princípio, ser detectadas pela técnica de pulsar timing com o SKA — embora o número de pulsares necessários e a duração do programa de monitoramento tornem isso uma aposta de longo prazo. A precessão do plano orbital, se corretamente caracterizada, poderia ser usada para derivar o spin do buraco negro primário, uma das grandezas mais difíceis de medir em astrofísica de buracos negros. Futuras observações com o próprio VLBA em cadência ainda mais densa do que a disponível nos dados atuais — que sofrem de amostragem não uniforme, com lacunas que podem ter perdido passagens rápidas do Jet 2 em configurações diagnosticamente importantes — poderiam refinar o período orbital e a geometria da órbita. E se o BHEX for lançado e operar com sua resolução de 6 microarcos de segundo, Mrk 501 certamente será um dos alvos prioritários: mesmo que o binário não seja resolvido, a imagem de alta fidelidade da estrutura imediatamente ao redor do núcleo poderia revelar detalhes do fluxo de matéria que alimenta cada um dos dois buracos negros e da forma como seus jatos interagem entre si logo ao emergir da região de acreção.

Em escala mais ampla, o que o caso de Mrk 501 demonstra é que os núcleos de galáxias ativas são ambientes muito mais complexos do que os modelos mais simples sugeriam. A ideia de um único buraco negro supermassivo, rodeado por um disco de acreção e lançando um par de jatos perpendiculares ao disco, é uma aproximação útil mas insuficiente quando olhamos com resolução suficiente para o centro das galáxias mais próximas e brilhantes. As fusões galácticas — onipresentes na história do cosmos — deveriam produzir binários de buracos negros como etapa natural de evolução, e esses binários deveriam existir em grande número, aguardando detecção. O fato de que até agora nenhum havia sido confirmado por imagem direta em um blazar era, em retrospecto, mais um reflexo das limitações observacionais do que da raridade do fenômeno. Agora que os pesquisadores sabem onde e como procurar — e quão cuidadosamente precisam separar as estruturas sobrepostas em dados de alta resolução — é provável que outros casos sejam identificados nos acervos já existentes de VLBI de outros objetos.

O universo guarda seus segredos com paciência. Por quarenta anos, dois buracos negros giraram um ao redor do outro no coração de Markarian 501, cada um lançando seu jato de plasma aquecido a temperaturas impossíveis em jatos que viajam a velocidades de mais de noventa e nove porcento da velocidade da luz. E por quarenta anos, os astrônomos olharam para esse núcleo e viram apenas um jato — porque era o que esperavam ver, porque os instrumentos eram insuficientes, porque o segundo jato se escondia misturado às estruturas do primeiro. Foram necessários um radiotelescópio do tamanho de um continente operando por mais de uma década em modo de monitoramento, uma equipe de pesquisadores em quatro continentes e uma análise cuidadosa de 83 imagens individuais para finalmente discernir os dois fios distintos que formam essa trança cósmica. O que a ciência ganhou com isso não é apenas a confirmação de um sistema binário específico em uma galáxia específica: é a certeza de que o universo continua mais complicado, mais violento e, paradoxalmente, mais belo do que qualquer modelo que tenhamos construído para descrevê-lo.

Fonte:  Britzen, S. et al. (2026). “Detection of a second jet within the nuclear core of Mrk 501.” Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS), manuscrito original não editado, publicado pela Oxford University Press em nome da Royal Astronomical Society. DOI: 10.1093/mnras/stag291. Dados observacionais provenientes do programa VLBA-BU-BLAZAR (Boston University) e do programa MOJAVE (Monitoring Of Jets in Active galactic nuclei with VLBA Experiments).

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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