
Existe algo perturbador em olhar para uma explosão que aconteceu há quase mil anos e perceber que ela ainda está em movimento. Não um movimento qualquer, desses que se medem em escalas geológicas ou astronômicas abstratas. Um movimento visível, documentável, que se manifesta na mudança de posição de filamentos de gás a cada ano que passa. A Nebulosa do Caranguejo, esse destroço luminoso de uma estrela que se despedaçou no ano de 1054, continua se expandindo a velocidades que superam dois mil quilômetros por segundo em algumas direções. E quando o Telescópio Espacial Hubble a fotografou novamente, em fevereiro e março de 2024, depois de mais de duas décadas sem registrar suas linhas de emissão com câmeras de alta resolução, a diferença era perceptível a olho nu nas imagens. Os filamentos tinham se deslocado. A nebulosa tinha crescido. E no meio de tudo isso, dois agrupamentos de filamentos que ninguém havia notado antes surgiram como um enigma novo em um dos objetos mais estudados de toda a astronomia.
O trabalho que descreve essas observações acaba de ser publicado no Astrophysical Journal por uma equipe liderada por William P. Blair, da Universidade Johns Hopkins, junto com Ravi Sankrit, Dan Milisavljevic, Tea Temim, J. Martin Laming, Patrick Slane, Ziwei Ding e Thomas Martin. O programa consumiu 36 órbitas do Hubble no Ciclo 31, usando a câmera Wide Field Camera 3 com filtros cuidadosamente selecionados para capturar linhas de emissão individuais de oxigênio, enxofre e hidrogênio, além do contínuo da nebulosa de síncrotron alimentada pelo pulsar central. O resultado é um conjunto de dados que não apenas permite comparações com as imagens clássicas obtidas entre 1999 e 2000 pela câmera WFPC2, mas que também, pela primeira vez, oferece imagens do Hubble quase contemporâneas às observações infravermelhas do Telescópio James Webb, obtidas entre o final de 2022 e o início de 2023. A janela temporal entre os dois telescópios se reduziu de mais de vinte anos para pouco mais de um, tornando possível o tipo de comparação multicomprimento de onda em escala fina que os pesquisadores esperavam há muito tempo.
Para entender por que esse intervalo de 24 anos importa tanto, é preciso voltar à natureza da própria nebulosa. A Nebulosa do Caranguejo ocupa um lugar especial na astrofísica. Ela é o remanescente da supernova que astrônomos chineses, japoneses e possivelmente árabes registraram em julho de 1054, quando uma estrela nova apareceu no céu perto da constelação de Touro, brilhando tão intensamente que podia ser vista durante o dia por semanas. A estrela que explodiu tinha provavelmente entre oito e dez massas solares, situando-se perto do limite inferior para que uma estrela consiga colapsar seu núcleo e produzir uma supernova. Sua distância é de aproximadamente dois quiloparsecs, o que equivale a cerca de 6.500 anos-luz. Essa proximidade relativa, combinada com uma extinção interestelar apenas moderada, transformou o Caranguejo num laboratório privilegiado para estudar como remanescentes de supernovas jovens se comportam e evoluem.
A história observacional do Caranguejo no Hubble começou nos anos 1990, quando a câmera WFPC2 foi apontada para o campo central da nebulosa em estudos liderados por Jeff Hester e colaboradores. Esses trabalhos revelaram pela primeira vez a estrutura detalhada da nebulosa de síncrotron e os filamentos de instabilidade Rayleigh-Taylor, estruturas em forma de dedo que se formam na interface entre a nebulosa de vento de pulsar e os ejecta circundantes. Trabalhos subsequentes de Blair, Sankrit e outros exploraram as propriedades de ionização e a estrutura química dos filamentos usando filtros estreitos em múltiplas linhas de emissão. Mas todos esses estudos iniciais cobriam apenas um campo da WFPC2, concentrado no pulsar e nos filamentos brilhantes ao norte e oeste. Só entre 1999 e 2000 o programa 8222 do Hubble, liderado por Hester, obteve cobertura completa da nebulosa em três linhas ópticas e uma banda de contínuo, produzindo o famoso mosaico colorido publicado por Andrea Loll e colaboradores em 2013. Essas imagens tornaram-se um marco visual e científico, mas os anos foram passando e nenhuma atualização comparável foi feita.
No centro da nebulosa pulsa o Pulsar do Caranguejo, uma estrela de nêutrons que gira aproximadamente trinta vezes por segundo e que injeta uma quantidade colossal de energia no gás ao seu redor. Essa energia se manifesta na forma de uma nebulosa de vento de pulsar, um volume de partículas relativísticas e campos magnéticos que produz a radiação de síncrotron visível como um brilho difuso permeando toda a estrutura interna do remanescente. Os filamentos de gás ejetado pela explosão original estão imersos nesse banho de radiação, sendo ionizados e excitados por ele. A interação entre esses dois componentes, a nebulosa de síncrotron e os filamentos de ejecta, é o que dá à Nebulosa do Caranguejo sua aparência tão característica e tão complexa.
O problema prático que motivou o novo programa de observação é direto: como a nebulosa se expande, e como essa expansão é rápida o suficiente para ser medida em escalas de poucos anos, as imagens em alta resolução vão ficando obsoletas para fins de comparação com dados obtidos em outros comprimentos de onda. Filamentos que se movem predominantemente no plano do céu mostram movimentos próprios de cerca de 0,3 segundo de arco por ano, segundo medições de Richard Nugent e outros pesquisadores ao longo das décadas. Em vinte e quatro anos, isso se traduz em deslocamentos de mais de sete segundos de arco para as estruturas mais velozes, um valor enorme quando se tenta alinhar detalhes finos entre imagens obtidas por telescópios diferentes em épocas diferentes. A própria equipe de Blair destaca que, ao buscar no arquivo do Instituto do Telescópio Espacial, não encontrou nenhuma imagem do Caranguejo em linhas de emissão feita com as câmeras ACS ou WFC3 do Hubble desde o mosaico clássico da WFPC2 publicado por Andrea Loll e colaboradores em 2013, embora os dados em si datassem do período 1999-2000. Existiam imagens em contínuo mostrando mudanças na nebulosa de síncrotron perto do pulsar, mas nada nas linhas de emissão que revelam a física dos filamentos gasosos.
As novas observações cobriram seis campos parcialmente sobrepostos, mapeando toda a extensão da nebulosa com cinco filtros: F502N para captar a linha de oxigênio triplamente ionizado em 5007 ångströms, F631N para o oxigênio neutro em 6300 ångströms, F673N para a linha dupla de enxofre ionizado próximo a 6725 ångströms, e dois filtros de banda média, F547M e F763M, dominados pela emissão de síncrotron mas com alguma contaminação menor de linhas. Além desses, dois campos centrais foram observados com o filtro F487N para isolar a linha de hidrogênio beta, uma escolha que merece explicação. A linha de hidrogênio alfa, muito mais brilhante, seria a opção natural, mas a proximidade das linhas de nitrogênio ionizado com a H-alfa, combinada com a largura dos filtros disponíveis e a dispersão cinemática dos filamentos da nebulosa, torna impossível isolar o hidrogênio com os filtros de H-alfa tanto da WFPC2 quanto da WFC3. Esse foi o mesmo motivo pelo qual o grupo de Loll não obteve imagens em H-alfa no programa original. O H-beta é mais fraco e a nebulosa é moderadamente avermelhada por poeira interestelar, com valores de extinção entre 0,3 e 0,5 magnitudes, o que deprime ainda mais o sinal. Mesmo assim, com exposições totais de 7.800 segundos por campo, a equipe conseguiu dados razoáveis dos filamentos brilhantes.
Uma sutileza técnica que permeia toda a análise é a diferença nas larguras dos filtros entre as duas épocas. Os filtros da WFC3 são significativamente mais largos que os correspondentes da WFPC2. Para a linha de oxigênio ionizado em 5007 ångströms, por exemplo, o filtro da WFC3 tem 65 ångströms de largura contra apenas 27 da WFPC2. Na prática, isso significa que a WFC3 captura emissão de filamentos com velocidades de aproximação muito maiores, da ordem de 1.738 quilômetros por segundo para o azul contra apenas 480 na câmera anterior. O efeito visível é uma rede muito mais extensa de filamentos fracos em projeção contra as regiões centrais nas imagens novas, especialmente em oxigênio ionizado. Esses filamentos adicionais não são novos fisicamente; estavam lá o tempo todo, mas não eram capturados pelo filtro mais estreito. Para comparações de posição entre as duas épocas, isso é irrelevante, mas qualquer tentativa de comparar brilhos relativos exige uma avaliação cinemática cuidadosa.
A comparação entre as duas épocas de dados, separadas por 24 anos, revelou vários resultados. O mais imediato é a confirmação visual do movimento próprio dos filamentos, com o deslocamento outward esperado para uma nebulosa em expansão acelerada. A equipe escolheu regiões nas bordas leste e oeste da nebulosa, onde o movimento é predominantemente no plano do céu, e apresentou imagens bicolores em que os dados de 2000 aparecem em ciano e os de 2024 em vermelho. A separação entre as posições dos filamentos nas duas épocas é clara. Para filamentos movendo-se tangencialmente à linha de visada, os deslocamentos são da ordem de vários segundos de arco, consistentes com as taxas de expansão conhecidas.

Um achado que surpreende pela sua sutileza é a estabilidade dos filamentos ao longo dessas duas décadas. A equipe inspecionou extensivamente as imagens procurando mudanças na morfologia ou nas intensidades relativas de nós e filamentos vizinhos, tanto em oxigênio neutro quanto em enxofre ionizado. Não encontrou variações significativas que não pudessem ser atribuídas às diferenças de largura dos filtros. Os filamentos de instabilidade Rayleigh-Taylor, aquelas estruturas em forma de “dedo” que apontam para dentro da nebulosa e que foram descritas em detalhe nos estudos pioneiros de Jeff Hester na década de 1990, simplesmente se deslocaram para fora junto com o restante da estrutura, sem alongamento, sem deformação, sem alteração aparente em sua forma. Isso contrasta marcadamente com outros remanescentes jovens como Cassiopeia A e a Supernova de Kepler, onde nós e filamentos individuais mostram variabilidade em escalas de uma década. A diferença, argumentam os autores, está no mecanismo de ionização: enquanto em Cas A e Kepler os nós são aquecidos impulsivamente por encontros com ondas de choque, os filamentos do Caranguejo são banhados continuamente pela radiação de síncrotron, que oferece uma fonte de energia praticamente constante.
Essa estabilidade não se estende, porém, à nebulosa de síncrotron propriamente dita. Quando a equipe comparou as imagens de contínuo das duas épocas no filtro F547M, que é dominado pela emissão de síncrotron em ambas as câmeras, as diferenças foram evidentes. Manchas de cor na imagem bicolor revelam regiões onde a intensidade relativa do síncrotron mudou ao longo de 24 anos, sugerindo redistribuição de energia na nebulosa em escalas maiores do que as variações rápidas conhecidas nas vizinhanças imediatas do pulsar. Dentro do conjunto de dados de 2024, a equipe também comparou os dois filtros de banda média, F547M e F763M, e encontrou poucas variações no índice espectral do síncrotron entre esses dois comprimentos de onda ópticos, embora haja uma indicação sutil de que as bordas externas da nebulosa são ligeiramente mais vermelhas. Quando se estende a comparação para o infravermelho próximo usando a imagem do Webb no filtro F480M a 4,8 micrômetros, o efeito fica mais pronunciado: a emissão nas regiões externas é relativamente mais fraca no óptico do que no infravermelho. Esse comportamento é consistente com o resfriamento de síncrotron esperado, em que elétrons de energia mais alta, que produzem radiação em comprimentos de onda mais curtos, perdem energia mais rapidamente conforme se afastam do pulsar.
As novas imagens também permitiram um estudo detalhado das sombras de poeira. Filamentos situados do lado mais próximo do observador projetam sombras escuras contra o fundo brilhante da nebulosa de síncrotron, revelando a presença e a distribuição de grãos de poeira nos ejecta. A equipe utilizou dados de velocidade do espectrógrafo SITELLE, no Telescópio Canadá-França-Havaí, para confirmar que os filamentos que produzem sombras estão efetivamente deslocados para o azul e, portanto, no lado próximo da nebulosa. Um caso particularmente instrutivo é um conjunto de filamentos fracos a sudeste do pulsar, onde as sombras de poeira não se correlacionam necessariamente com os filamentos opticamente mais brilhantes. Um filamento brilhante na mesma região não mostra sombra alguma, e os dados do SITELLE revelam que ele está deslocado para o vermelho em cerca de 500 quilômetros por segundo, estando portanto atrás da maior parte da emissão de síncrotron. Esse exemplo ilustra a complexidade tridimensional da nebulosa e a armadilha de interpretar imagens bidimensionais sem informação cinemática.
Em outra região, a noroeste do pulsar, filamentos de instabilidade Rayleigh-Taylor com “cabeças” densas proeminentes produzem sombras de poeira impressionantes. Os dados de velocidade mostram que essas estruturas têm velocidades apenas modestamente deslocadas para o azul, entre zero e menos 300 quilômetros por segundo, sugerindo que não estão completamente à frente da nebulosa de síncrotron, mas parcialmente imersas nela. Que produzam sombras tão escuras nessas condições indica densidades de poeira muito elevadas em seus núcleos.
A estrutura de ionização dos filamentos foi investigada em múltiplas escalas. Em escala global, a equipe produziu mapas comparando oxigênio ionizado com oxigênio neutro, revelando um contraste marcante. A emissão de oxigênio neutro em 6300 ångströms surge em nós compactos e densos, concentrados principalmente nos filamentos internos da chamada “gaiola” que envolve o pulsar. Já a emissão de oxigênio ionizado em 5007 ångströms tem aparência difusa, distribuída de forma muito mais ampla, estendendo-se até os filamentos externos da nebulosa. A diferença reflete a física da fotoionização: ionizar oxigênio de O+ para O++ requer 35,12 elétron-volts, enquanto a ionização de oxigênio neutro para O+ exige apenas 13,62 eV. Assim, o oxigênio neutro marca os núcleos mais densos e blindados dos filamentos, enquanto o oxigênio ionizado permeia o gás de menor densidade ao redor.
Na escala fina, a resolução da WFC3, com pixels de 0,04 segundo de arco, permitiu cortes transversais detalhados de filamentos individuais, revelando a estratificação de ionização dentro deles. Para um filamento do tipo “núcleo-halo”, por exemplo, a emissão de oxigênio ionizado atinge seu pico primeiro na borda do filamento, seguida pelo hidrogênio beta cerca de 0,04 segundo de arco mais para dentro, e pelo enxofre ionizado mais 0,07 segundo de arco adiante. O oxigênio neutro aparece ainda mais ao centro, a mais de 0,1 segundo de arco do pico de oxigênio ionizado. A distância de dois quiloparsecs, um pixel da WFC3 corresponde a 1,2 vezes dez elevado a quinze centímetros, ou cerca de oitenta unidades astronômicas. A estratificação de ionização observada está ocorrendo em escalas de poucas centenas de unidades astronômicas dentro de cada filamento, uma janela para a microfísica dos ejecta de supernova que poucos instrumentos conseguem abrir.
Um resultado que chamou particular atenção foi a comparação com dados do Telescópio James Webb. Como as observações do Hubble foram obtidas em 2024 e as do Webb entre o final de 2022 e início de 2023, a diferença temporal é de pouco mais de um ano, um intervalo durante o qual as mudanças nos filamentos de ejecta são imperceptíveis. A equipe comparou o mapa de emissão de enxofre duplamente ionizado em 18,7 micrômetros, construído a partir de dados do instrumento MIRI do Webb por Tea Temim e colaboradores, com o mapa de enxofre simplesmente ionizado da WFC3. Sendo ambos íons do mesmo elemento, a comparação é um diagnóstico limpo de estrutura de ionização, livre de confusão por variações de abundância. O resultado mostra diferenças marcantes: a emissão de enxofre duplamente ionizado não tem a aparência “fofa” e difusa do oxigênio triplamente ionizado, e a distribuição dos filamentos mais brilhantes nos dois íons de enxofre não coincide em detalhe. A diferença nos potenciais de ionização explica o padrão: são necessários 23,34 elétron-volts para criar enxofre duplamente ionizado, contra 35,12 eV para o oxigênio triplamente ionizado. O enxofre duplamente ionizado amostra, portanto, um componente de densidade intermediária que o oxigênio ionizado não captura.
A equipe também examinou em detalhe duas posições específicas observadas pelo espectrômetro MRS do MIRI no Webb. Para cada posição, montaram painéis comparativos mostrando as seis imagens disponíveis da WFC3 ao lado de cinco do Webb. A complexidade é impressionante: em cada posição, as morfologias e as posições dos filamentos mais brilhantes parecem diferentes em cada linha de emissão, refletindo uma mistura de componentes cinemáticas, variações de composição e mudanças de ionização. As comparações também evidenciaram que a imagem de ferro ionizado do Webb, obtida com o filtro F162M da NIRCam em 1,644 micrômetros, mostra nós brilhantes que não se alinham com nenhuma das outras bandas, exceto por uma correspondência inesperadamente boa com o oxigênio neutro da WFC3 em uma das posições. Variações significativas de intensidade relativa entre íons de diferentes elementos, como ferro e enxofre, podem refletir variações reais de composição química entre os filamentos, um eco das condições de nucleossíntese na estrela progenitora.
A comparação com a imagem de ferro ionizado do Webb merece atenção particular. O filtro F162M da NIRCam é centrado na linha de ferro simplesmente ionizado em 1,644 micrômetros, uma linha que é amplamente utilizada em outros contextos astrofísicos como traçadora de ondas de choque. A equipe de Temim subtraiu o contínuo usando o filtro F480W para isolar a emissão de linha, obtendo um mapa relativamente limpo da distribuição de ferro ionizado na nebulosa. Blair e colaboradores compararam esse mapa com as imagens de oxigênio neutro e enxofre ionizado da WFC3. As variações na intensidade relativa com a posição são substanciais. Cada íon pertence a um elemento diferente, e todos têm potenciais de ionização baixos, o que os faz amostrar os núcleos densos dos filamentos. Ferro se ioniza a 7,90 eV, enxofre a 10,4 eV, e o oxigênio neutro existe apenas abaixo de 13,6 eV. Como todos mapeiam regiões de condições físicas similares, grande parte da variação observada pode refletir diferenças reais de abundância química entre os filamentos, um registro fossilizado das condições de nucleossíntese nas camadas da estrela progenitora antes da explosão.
A descoberta mais intrigante do estudo, porém, envolve dois agrupamentos de filamentos que a equipe descreve como “anteriormente não reconhecidos”. Esses dois conjuntos de filamentos estão localizados em posições quase diametralmente opostas em relação ao pulsar, um a noroeste e outro a sudeste, ambos a grande distância do centro. O agrupamento noroeste está a 125,1 segundos de arco do pulsar, enquanto o sudeste está a 127,9 segundos de arco. Ambos se destacam de seus arredores por mostrarem morfologias complexas de nós compactos, filamentos e emissão difusa, com características de emissão que os fazem sobressair quando os dados são exibidos em composição colorida. A equipe examinou os dados da primeira época e confirmou que essas estruturas já estavam presentes nas imagens de 1999-2000, mas não foram identificadas por investigadores anteriores.
O que torna esses dois grupos particularmente notáveis é sua posição simétrica em relação ao pulsar e seu comportamento cinemático contrastante. Medições do movimento próprio entre as duas épocas mostram que o agrupamento noroeste se afastou do pulsar por 3,7 segundos de arco ao longo de 24 anos, enquanto o sudeste se moveu 2,8 segundos de arco na direção oposta. Os dados de velocidade do SITELLE revelam, contudo, que a simetria aparente na posição não se reflete na cinemática tridimensional. O agrupamento noroeste se move quase no plano do céu, com velocidade radial de apenas 68 quilômetros por segundo, e um componente secundário mais fraco a menos 260 quilômetros por segundo. Já o agrupamento sudeste tem pelo menos dois componentes, ambos com velocidades significativamente negativas, de menos 590 e menos 840 quilômetros por segundo, indicando que se move em grande parte para fora do plano do céu, na direção do observador.

Esses filamentos também se destacam na imagem de ferro ionizado em 1,644 micrômetros do Webb, e uma verificação em dados mais antigos mostrou que o agrupamento noroeste era visível em observações de rádio do VLA e em dados do Spitzer em 5,6 e 8 micrômetros, enquanto o sudeste era apenas fracamente detectado. A emissão forte em ferro ionizado é frequentemente associada a aquecimento por ondas de choque, pois choques com velocidades acima de cem quilômetros por segundo podem destruir grãos de poeira e liberar ferro na fase gasosa. Os autores consideram a possibilidade de que esses agrupamentos estejam relacionados a alguma atividade pretérita do pulsar, mas não descartam outras explicações. Não há reforço local evidente na emissão de síncrotron nessas posições, o que enfraquece, mas não elimina, a conexão com o pulsar. A natureza desses filamentos permanece em aberto, e os autores indicam que estudos adicionais serão necessários para esclarecer sua origem.
O aspecto que talvez melhor resuma o significado deste novo conjunto de dados é sua utilidade futura. A resolução da WFC3, com pixels de 0,04 segundo de arco, é cerca de duas vezes melhor que a da WFPC2 usada nas observações originais. A maioria dos nós e filamentos de ejecta do Caranguejo parece estar resolvida nessa escala, com relativamente poucos mostrando aparência de fonte pontual. Combinando essas novas imagens com os dados do Webb e com a informação cinemática tridimensional do SITELLE, os pesquisadores têm agora um conjunto de ferramentas sem precedentes para dissecar a física de um dos remanescentes de supernova mais ricos em informação que conhecemos.
O programa observacional teve seus percalços. As exposições nos filtros de contínuo F547M e F763M para um dos campos centrais falharam duas vezes por perda de rastreamento das estrelas-guia, e a janela de observação do Caranguejo se fechou antes que uma terceira tentativa fosse possível. Cerca de metade da área afetada é coberta por campos vizinhos sobrepostos, minimizando o impacto, mas a região mais externa do Campo 1 não possui imagens de contínuo. É o tipo de revés mundano que lembra que mesmo a ciência orbital está sujeita a caprichos mecânicos, e que a elegância dos resultados finais esconde horas de engenharia operacional e resolução de problemas.
Os resultados publicados por Blair e seus colaboradores confirmam algo que os astrônomos já sabiam intuitivamente, mas que agora está demonstrado com resolução sem precedentes: a Nebulosa do Caranguejo é ao mesmo tempo extraordinariamente dinâmica em sua expansão e de uma estabilidade marcante na física de seus filamentos. Os ejecta se movem, mas sua estrutura interna não muda de forma apreciável em duas décadas. A nebulosa de síncrotron, por outro lado, se redistribui em escalas maiores do que as variações rápidas já conhecidas perto do pulsar. A poeira nos filamentos mantém suas sombras inalteradas. E num canto da nebulosa que ninguém havia olhado com atenção suficiente, dois conjuntos de filamentos sussurram uma história que ainda precisa ser decifrada.
A ideia de que um objeto tão estudado ainda guarda surpresas genuínas é, por si só, uma informação valiosa. O Caranguejo tem sido observado por praticamente todos os observatórios importantes já construídos, em praticamente todos os comprimentos de onda acessíveis à tecnologia humana. Que um novo conjunto de imagens possa revelar estruturas não notadas por décadas de investigação reforça uma lição que a astronomia ensina repetidamente: ver não é o mesmo que observar, e observar não é o mesmo que compreender. A combinação específica de filtros, escalas, cores e contexto cinemático é que faz certas estruturas saltarem do fundo. Mude uma variável, e o que era invisível se materializa.
O Hubble, que completou sua terceira década em órbita e cujo futuro operacional é tema de discussão constante na comunidade astronômica, mostra com este programa que ainda possui capacidades únicas. A resolução angular estável e previsível no óptico, a possibilidade de usar filtros estreitos que isolam íons individuais, e a base de dados comparativa que se acumulou ao longo de décadas fazem do Hubble uma ferramenta insubstituível para este tipo de ciência. O Webb enxerga mais longe no infravermelho e com sensibilidade superior, mas é no casamento entre os dois que a física do Caranguejo se revela em toda a sua complexidade. A equipe de Blair demonstrou isso de forma concreta ao colocar lado a lado as imagens dos dois telescópios para as mesmas regiões, mostrando que cada íon conta uma parte diferente da história, e que a história completa emerge apenas quando essas partes são reunidas.
Nos próximos anos, os dados apresentados neste trabalho servirão como a referência óptica de alta resolução para qualquer comparação multicomprimento de onda envolvendo a Nebulosa do Caranguejo. Com os dados cinemáticos tridimensionais do SITELLE em mãos, será possível modelar filamentos individuais com um nível de detalhe que era impraticável com as informações anteriores. A combinação de posição, velocidade, estrutura de ionização e distribuição de poeira, filamento por filamento, abre caminho para testes rigorosos de modelos de fotoionização e de formação de poeira em ejecta de supernovas. E os dois agrupamentos simétricos recém-descobertos representam um quebra-cabeça adicional que pode conter pistas sobre a história do pulsar ou sobre a dinâmica tridimensional da explosão original.
Há algo profundamente satisfatório em saber que um remanescente de supernova observado por astrônomos chineses há 970 anos continua revelando novidades para astrônomos equipados com os melhores telescópios que a espécie humana já construiu. A Nebulosa do Caranguejo não é um retrato estático de uma catástrofe distante. É um sistema vivo, no sentido astrofísico do termo: alimentado pelo pulsar em seu centro, moldado pela interação entre partículas relativísticas e gás ejetado, marcado pela formação de poeira no mesmo ambiente hostil que deveria destruí-la. Cada vez que apontamos um instrumento novo ou revisitamos o objeto com olhos renovados, o Caranguejo responde com algo que não esperávamos. E isso, mais do que qualquer número ou medição, é o que faz uma nebulosa de quase mil anos permanecer jovem.



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