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31 de dezembro de 2025

Mistério de 130 Anos Resolvido: A Verdade Sobre a Estrela Fantasma de Barnard

Cientistas finalmente decifram o enigma por trás de uma misteriosa observação feita em 1892 pelo lendário astrônomo E. E. Barnard perto do planeta Vênus.

Introdução: Um Enigma que Atravessou Séculos

Em uma madrugada fria de agosto de 1892, o renomado astrônomo Edward Emerson Barnard, um dos observadores mais talentosos da história, apontou o poderoso telescópio refrator de 36 polegadas do Observatório Lick para o planeta Vênus. Enquanto buscava por um hipotético satélite venusiano, algo inesperado chamou sua atenção: uma estrela de sétima magnitude, um brilho considerável, onde nenhuma deveria estar. A observação, feita no crepúsculo matutino, tornou-se um dos maiores mistérios não resolvidos da astronomia observacional. Por mais de 130 anos, astrônomos e historiadores se perguntaram o que Barnard realmente teria visto. Teria sido uma nova, um cometa, um asteroide ou um mero reflexo fantasma no telescópio?

A resposta, no entanto, permaneceu oculta, enterrada em cadernos de anotações e na complexidade da percepção visual humana sob condições extremas. Agora, um novo estudo publicado no Journal of Astronomical History and Heritage por uma equipe de astrônomos e historiadores, incluindo William Sheehan, Tim B. Hunter, Bradley E. Schaefer e o famoso descobridor de cometas David Levy, finalmente lança luz sobre este enigma secular. Através de uma combinação de simulações computacionais modernas, análise de registros históricos e uma profunda investigação sobre os limites da visão humana, a equipe conseguiu recriar as condições daquela noite e propor uma solução definitiva.

A conclusão não envolve um fenômeno cósmico cataclísmico, mas sim uma fascinante interação entre a psicologia da observação, as limitações dos equipamentos da época e um erro de julgamento perfeitamente compreensível de um dos gigantes da astronomia. O estudo representa uma verdadeira viagem no tempo, combinando história, física, fisiologia e tecnologia moderna para resolver um dos casos mais intrigantes da astronomia do século XIX.

O Enigma da Estrela de Barnard: Contexto Histórico

Para compreender a magnitude deste mistério, é preciso mergulhar no contexto da astronomia do final do século XIX. Edward Emerson Barnard (1857-1923) era uma figura lendária, um homem que ascendeu da pobreza para se tornar um dos observadores mais respeitados do mundo. Nascido em circunstâncias humildes após a Guerra Civil Americana, Barnard começou sua vida trabalhando em uma galeria fotográfica aos nove anos de idade. Foi lá que ele aprendeu as técnicas que mais tarde revolucionariam a astronomia observacional.

Autodidata, Barnard possuía uma acuidade visual quase sobre-humana e uma paciência infinita, qualidades que o levaram a descobrir 16 cometas ao longo de sua carreira, o quinto satélite de Júpiter (Amalthea) em 1892, e a ser pioneiro na fotografia de longa exposição da Via Láctea, revelando sua complexa estrutura de poeira e estrelas. Sua reputação era tal que ele foi recrutado para a equipe original do Observatório Lick em Mount Hamilton, Califórnia, um dos observatórios mais avançados do mundo na época.

Naquela noite de 13 de agosto de 1892, Barnard estava empenhado em uma busca prestigiosa: encontrar uma lua orbitando Vênus. Tal descoberta o colocaria no panteão de astrônomos como Galileu Galilei, Christiaan Huygens e Giovanni Cassini, todos descobridores de satélites planetários. O planeta estava em uma posição ideal, brilhando intensamente no céu antes do amanhecer, em uma elongação de 38,5 graus do Sol. Por volta das 4h30 da manhã (horário padrão do Pacífico), enquanto examinava a área ao redor do crescente venusiano, ele notou um ponto de luz.

Em seu caderno de observações, preservado até hoje nos arquivos do Observatório Lick, ele o registrou como uma estrela de sétima magnitude, localizada a cerca de 14 segundos de arco de distância do planeta, aproximadamente um minuto de arco ao sul do crescente. O problema? Nenhum catálogo estelar conhecido listava uma estrela tão brilhante naquela posição exata. Barnard, um observador meticuloso, ficou intrigado, mas também cauteloso. Ele sabia que o brilho ofuscante de Vênus poderia criar todos os tipos de ilusões ópticas e reflexos internos no telescópio, os chamados “fantasmas” ou “ghost images”.

Ele mesmo era um mestre em técnicas para minimizar esses efeitos, usando desde filtros coloridos até pequenas barras ocultantes de mica para bloquear a luz direta do planeta. A observação durou cerca de 20 minutos, terminando às 4h50m, e então o brilho crescente do Sol nascente (previsto para as 5h23m) encerrou o trabalho. O astrônomo não publicou sua descoberta imediatamente, talvez por incerteza ou por causa de sua conturbada relação com o diretor do observatório, Edward S. Holden, que frequentemente limitava seu acesso ao grande telescópio.

A Relação Turbulenta com o Diretor Holden

Um aspecto crucial para entender por que Barnard não publicou imediatamente sua observação reside na dinâmica política do Observatório Lick. Edward Singleton Holden, o diretor, tinha uma relação notoriamente difícil com Barnard. Holden frequentemente fechava a cúpula do telescópio de 36 polegadas às 22 horas, impedindo que Barnard realizasse observações durante toda a noite, uma prática essencial para a descoberta de cometas e o estudo de objetos fracos.

Barnard era regularmente banido do uso do grande refrator, sendo forçado a trabalhar com o telescópio de 12 polegadas, que, embora menor, ele dominava com maestria. A tensão chegou ao ponto em que Sherburne Wesley Burnham, amigo próximo de Barnard e também astrônomo do observatório, renunciou em junho de 1892, prevendo que Barnard eventualmente seria expulso. Burnham estava certo em sua previsão: o ambiente tornou-se tão tóxico que Barnard eventualmente deixou o Observatório Lick para assumir uma posição na Universidade de Chicago.

Foi apenas em 1 de julho de 1892 que Barnard finalmente assumiu o controle regular do telescópio de 36 polegadas, após uma série de conflitos com Holden. A observação misteriosa ocorreu pouco mais de um mês depois, em 13 de agosto. A anotação permaneceu em seu diário por 14 anos antes de ser mencionada publicamente em 1906, alimentando décadas de especulação entre historiadores e astrônomos.

As Hipóteses Investigadas: Descartando o Impossível

As hipóteses sobre o que Barnard poderia ter visto eram variadas e fascinantes. Poderia ter sido uma “nova”, uma estrela que subitamente aumenta seu brilho em milhares ou milhões de vezes devido a uma explosão termonuclear em sua superfície? A equipe de pesquisa investigou meticulosamente registros históricos de novas e não encontrou nenhuma relatada naquela região do céu em agosto de 1892.

Um cometa ou asteroide? Os pesquisadores consultaram catálogos modernos de órbitas cometárias e asteroidais, incluindo o banco de dados do JPL (Jet Propulsion Laboratory) da NASA. Cálculos orbitais mostraram que nenhum objeto conhecido passava por aquela posição específica naquele momento. Uma estrela variável que teve um pico de brilho? Novamente, nenhuma estrela variável catalogada correspondia à posição e ao comportamento descrito.

A possibilidade de um reflexo fantasma foi seriamente considerada e até testada em recriações modernas. O coautor Roger Ceragioli, em abril de 2025, realizou experimentos com um refrator de 12,5 polegadas, testando diversas oculares modernas e antigas para verificar se reflexões internas poderiam criar a aparência de uma estrela fantasma. Embora reflexos fossem possíveis, a descrição precisa de Barnard sobre a posição e o comportamento da estrela não se encaixava perfeitamente com as características típicas dessas ilusões ópticas.

Os pesquisadores também consideraram a possibilidade de uma explosão de raios gama, um fenômeno cósmico extremamente energético, mas a duração da observação (20 minutos) e a estabilidade do objeto descartaram essa hipótese. Cometas de curto período, asteroides troianos, e até mesmo a possibilidade de um satélite artificial (anacronicamente impossível em 1892) foram examinados e eliminados.

Desvendando o Mistério com Tecnologia do Século XXI

A chave para resolver o quebra-cabeça veio da aplicação de tecnologia moderna a um problema histórico. A equipe de pesquisadores, liderada por William Sheehan, utilizou softwares de planetário avançados, como o Stellarium e o SIMBAD (Set of Identifications, Measurements and Bibliography for Astronomical Data), para recriar o céu exatamente como Barnard o viu em 1892. Ao inserir a data, hora e local exatos (Observatório Lick, latitude 37,3° norte, altitude 1.290 metros), eles descobriram algo crucial.

Havia, de fato, uma estrela exatamente onde Barnard descreveu. Tratava-se da TYC 1348-1610-1 (também conhecida como HD 222860), uma estrela da sequência principal do tipo espectral B9. Contudo, havia um grande “porém”: sua magnitude visual não era 7, como Barnard anotou, mas sim 11,35. Isso significa que ela era aproximadamente 50 vezes mais fraca do que o registrado. Poderia um observador do calibre de Barnard cometer um erro tão grosseiro?

A resposta, surpreendentemente, é sim. E a explicação reside na fisiologia e psicologia da visão humana. O olho humano é excelente para detectar contrastes e diferenças relativas de brilho, mas é um péssimo “fotômetro” absoluto, ou seja, não consegue medir o brilho intrínseco de um objeto de forma precisa sem um ponto de referência. Naquela manhã, Barnard estava observando em condições extremamente difíceis. O céu estava clareando rapidamente, e o brilho avassalador de Vênus (magnitude -4,5) saturava sua visão. Não havia outras estrelas no campo de visão do telescópio que pudessem servir como comparação de brilho.

O Programa Computacional que Resolveu o Enigma

Para provar essa hipótese, o coautor do estudo, Bradley Schaefer, da Universidade Estadual da Louisiana, desenvolveu um programa de computador sofisticado para calcular a magnitude limite visível sob condições específicas de crepúsculo. O modelo levou em conta múltiplos fatores: o brilho do céu (medido em nanoLamberts), a altitude do observador, as características ópticas do telescópio (abertura, razão focal, qualidade das lentes), a sensibilidade do olho humano adaptado à escuridão, e até mesmo a extinção atmosférica baseada em dados de 310 locais ao redor do mundo.

Os cálculos mostraram que, no início da observação de Barnard (4h30m), o brilho do céu era de aproximadamente 18.900 nanoLamberts, aumentando para 504.000 nanoLamberts no final (4h50m). Para comparação, o brilho do céu no zênite ao nascer do Sol é de cerca de 30 milhões de nanoLamberts. Vênus estava a 67,8 graus de distância zenital no início e 96,6 graus no final da observação.

Os resultados foram reveladores. Nas condições em que Barnard observou, o limite de magnitude visível com o telescópio de 36 polegadas era de aproximadamente 13,8. Com o telescópio de 12 polegadas (que ele provavelmente usou para a maior parte da observação, sendo mais confortável e oferecendo um campo de visão mais amplo), o limite era de aproximadamente 11,9. A estrela TYC 1348-1610-1, com magnitude 11,35, estava, portanto, perfeitamente ao alcance de ser vista, ficando cerca de 2,5 a 3,0 magnitudes acima do limite de detecção.

O erro não foi na detecção, mas na estimativa. Sem uma referência, e com o olho adaptado à escuridão, mas sendo bombardeado pela luz de Vênus e do crepúsculo, um erro de 3 a 4 magnitudes na estimativa de brilho não é apenas possível, mas esperado. Barnard viu a estrela, mas seu cérebro a interpretou como sendo muito mais brilhante do que realmente era.

A Confirmação Observacional Moderna

Para validar completamente a hipótese, Tim Hunter, outro coautor do estudo, realizou uma observação moderna em 24 de abril de 2025. Usando um telescópio Celestron C-14 (abertura de 14 polegadas) e uma ocular TeleVue de 41mm (produzindo uma magnificação de 95x), ele observou Vênus às 5h10m MST (horário de verão das montanhas), cerca de 30 minutos antes do nascer do Sol às 5h44m.

Hunter conseguiu ver facilmente a estrela HD 2230096 (magnitude 7,15) a apenas 13,5 minutos de arco de Vênus. O fato de que dois observadores mais velhos, ambos com cataratas incipientes, conseguiram ver claramente estrelas de 7ª e 8ª magnitudes no mesmo campo que Vênus com telescópios de 12 e 14 polegadas forneceu forte evidência circunstancial de que Barnard, que era mais jovem (34 anos na época) e tinha olhos excepcionalmente aguçados, poderia facilmente ter visto uma estrela de magnitude 11 sob condições similares com seu telescópio maior.

Implicações Científicas: A Mente por Trás do Olho

A resolução do mistério da estrela de Barnard transcende a mera correção de um registro histórico. Ela oferece uma poderosa lição sobre a natureza da ciência e a importância do ceticismo, mesmo em relação às nossas próprias observações. O estudo reforça o conceito da “equação pessoal” na astronomia, a ideia de que cada observador tem vieses e particularidades em sua percepção que podem influenciar os resultados.

No século XIX, antes do domínio da fotografia e dos detectores digitais (CCD), o olho humano era a principal ferramenta de descoberta. Este caso ilustra vividamente como a percepção não é um registro passivo da realidade, mas uma interpretação ativa, moldada pelo contexto, expectativas e as limitações inerentes à nossa biologia. O cérebro humano processa imagens visuais em frações de segundo, selecionando o que considera importante e descartando o resto. Em condições de baixa luminosidade e alto contraste, como observar uma estrela fraca ao lado de Vênus no crepúsculo, esse processamento pode levar a erros sistemáticos.

A solução do enigma também destaca o poder da colaboração interdisciplinar, unindo historiadores da ciência, que investigaram os diários e a vida de Barnard, com astrônomos que aplicaram modelos computacionais e conhecimento de astrofísica. Essa sinergia permitiu construir um caso robusto que nenhuma das disciplinas poderia ter montado sozinha. O estudo utilizou desde documentos históricos preservados no Observatório Lick até simulações computacionais de última geração.

Além disso, o estudo serve como um tributo à meticulosidade de Barnard. Apesar de seu erro na estimativa de brilho, sua habilidade em registrar a posição precisa da estrela com os instrumentos da época foi o que permitiu, mais de um século depois, que sua observação fosse finalmente validada e compreendida. Longe de manchar sua reputação, a solução do mistério humaniza o lendário astrônomo, mostrando que até mesmo os maiores gigantes da ciência podem ser enganados por seus sentidos, mas sua dedicação ao método científico garante que a verdade, eventualmente, venha à tona.

A Estrela TYC 1348-1610-1: Uma Estrela Comum com História Extraordinária

A estrela que causou tanto mistério, TYC 1348-1610-1 (HD 222860), é, ironicamente, uma estrela perfeitamente comum. Trata-se de uma estrela da sequência principal do tipo espectral B9, o que significa que é uma estrela relativamente jovem e quente, com uma temperatura superficial de aproximadamente 10.000 a 11.000 Kelvin. Sua magnitude visual de 11,35 a torna invisível a olho nu, mas facilmente detectável com telescópios amadores de porte médio sob céus escuros.

A posição calculada por Barnard em 1892, quando corrigida para a precessão dos equinócios (o lento movimento do eixo de rotação da Terra), corresponde quase perfeitamente à posição moderna da TYC 1348-1610-1. Essa correspondência precisa foi o que finalmente selou o caso. Barnard, mesmo sem os catálogos estelares modernos ou o software Stellarium, conseguiu registrar com precisão a localização de uma estrela fraca no céu crepuscular, um testemunho de sua habilidade observacional.

Conclusão: O Fantasma que Era Real

O que começou como a busca por uma lua fantasma em torno de Vênus levou à observação de uma estrela que se tornou um fantasma na história da astronomia. Por 132 anos, a “estrela misteriosa” de Barnard foi um ponto de interrogação, um lembrete de que o universo sempre guarda surpresas. A conclusão do novo estudo é elegante em sua simplicidade: não houve nenhum evento cósmico exótico, nenhuma nova ou cometa. Houve apenas uma estrela comum, a TYC 1348-1610-1, e um observador extraordinário trabalhando nos limites da percepção humana.

O erro de Barnard em superestimar o brilho da estrela em aproximadamente 4 magnitudes é um erro perfeitamente desculpável e cientificamente explicável, um produto das condições desafiadoras da observação crepuscular. A solução deste antigo enigma não apenas fecha um capítulo fascinante da história da astronomia, mas também nos ensina valiosas lições sobre a importância de compreender as limitações de nossas ferramentas, incluindo nossos próprios olhos e cérebro.

O legado de E. E. Barnard, o mestre observador, permanece intacto e até fortalecido. Sua anotação precisa, embora com uma estimativa de brilho falha, continha a semente da verdade, pacientemente esperando que as ferramentas do futuro pudessem fazê-la germinar. O fantasma que assombrou os astrônomos por mais de um século era, afinal, real, apenas mal interpretado. Esta história nos lembra que na ciência, mesmo os mistérios mais antigos podem ser resolvidos quando combinamos paciência, tecnologia moderna e uma profunda compreensão da natureza humana.

FAQ – Perguntas Frequentes sobre a Misteriosa Estrela de Barnard

1. Quem foi Edward Emerson Barnard?

Edward Emerson Barnard (1857-1923) foi um dos mais brilhantes astrônomos observacionais da história. Nascido em circunstâncias humildes após a Guerra Civil Americana, ele começou a trabalhar aos nove anos em uma galeria fotográfica. Autodidata, Barnard possuía uma acuidade visual excepcional que o levou a descobrir 16 cometas, o quinto satélite de Júpiter (Amalthea) em 1892, e a ser pioneiro na fotografia astronômica de longa exposição da Via Láctea. Ele trabalhou no Observatório Lick na Califórnia e mais tarde na Universidade de Chicago, deixando um legado imenso na astronomia observacional.

2. O que Barnard estava procurando quando fez a observação misteriosa?

Na madrugada de 13 de agosto de 1892, Barnard estava procurando por um hipotético satélite de Vênus. Na época, a descoberta de luas planetárias era considerada um dos maiores feitos astronômicos, colocando o descobridor no mesmo patamar de gigantes como Galileu, Huygens e Cassini. Embora hoje saibamos que Vênus não possui satélites naturais, essa era uma busca legítima e prestigiosa no final do século XIX. Durante essa busca, ele acidentalmente registrou a presença de uma estrela que não conseguiu identificar.

3. Por que a observação de Barnard ficou sem explicação por tanto tempo?

Vários fatores contribuíram para que o mistério permanecesse sem solução por 130 anos. Primeiro, Barnard não publicou sua observação imediatamente, esperando 14 anos para mencioná-la publicamente, provavelmente devido a conflitos com o diretor do observatório. Segundo, os catálogos estelares da época eram limitados e não incluíam estrelas tão fracas quanto a magnitude 11. Terceiro, a tecnologia necessária para recriar precisamente o céu de 1892 e calcular os limites de visibilidade sob condições de crepúsculo simplesmente não existia até recentemente. Foi necessário o desenvolvimento de softwares de planetário avançados e modelos computacionais sofisticados para finalmente resolver o enigma.

4. Qual estrela Barnard realmente viu?

Barnard viu a estrela TYC 1348-1610-1, também catalogada como HD 222860. Trata-se de uma estrela perfeitamente comum da sequência principal, do tipo espectral B9, com magnitude visual de 11,35. É uma estrela relativamente jovem e quente, com temperatura superficial entre 10.000 e 11.000 Kelvin. Embora seja invisível a olho nu, ela pode ser facilmente detectada com telescópios amadores de porte médio sob céus escuros. A posição que Barnard registrou em 1892, quando corrigida para a precessão dos equinócios, corresponde quase perfeitamente à localização moderna desta estrela.

5. Por que Barnard errou tanto na estimativa do brilho da estrela?

Barnard estimou a estrela como tendo magnitude 7, quando na verdade ela possui magnitude 11,35 – um erro de aproximadamente 4 magnitudes, o que significa que ele a viu cerca de 50 vezes mais brilhante do que realmente é. Esse erro ocorreu porque o olho humano é um péssimo “fotômetro absoluto”. Sem estrelas de comparação no campo de visão (devido ao brilho ofuscante de Vênus e ao céu crepuscular), o cérebro de Barnard não tinha referência para calibrar o brilho. Estudos modernos mostram que erros de 3 a 4 magnitudes são perfeitamente esperados nessas condições extremas de observação, especialmente ao observar objetos fracos próximos a objetos muito brilhantes.

6. Como os cientistas modernos resolveram o mistério?

A equipe liderada por William Sheehan utilizou uma abordagem multidisciplinar. Primeiro, usaram softwares de planetário como Stellarium e SIMBAD para recriar o céu exato de 13 de agosto de 1892. Depois, o astrônomo Bradley Schaefer desenvolveu um programa computacional sofisticado que calculou a magnitude limite visível sob as condições específicas de crepúsculo, levando em conta o brilho do céu, a altitude, as características do telescópio e a fisiologia da visão humana. Por fim, realizaram observações modernas de Vênus em condições similares para validar suas conclusões. A combinação dessas técnicas permitiu identificar a estrela TYC 1348-1610-1 como o objeto que Barnard observou.

7. Barnard realmente conseguiria ver uma estrela de magnitude 11 naquelas condições?

Sim, absolutamente. Os cálculos mostraram que, com o telescópio de 12 polegadas que Barnard provavelmente usou, o limite de magnitude visível era de aproximadamente 11,9 nas condições de crepúsculo daquela manhã. A estrela TYC 1348-1610-1, com magnitude 11,35, estava cerca de 2,5 a 3,0 magnitudes acima do limite de detecção, tornando-a perfeitamente visível. Observações modernas confirmaram isso: em 2025, Tim Hunter conseguiu ver facilmente estrelas de magnitude 7 e 8 no mesmo campo que Vênus com um telescópio de 14 polegadas. Considerando que Barnard tinha apenas 34 anos na época e possuía visão excepcionalmente aguçada, ele certamente poderia ter detectado a estrela.

8. Quais outras hipóteses foram consideradas antes de chegar à conclusão?

Os pesquisadores investigaram exaustivamente todas as possibilidades. Consideraram que poderia ter sido uma nova (estrela em explosão), mas nenhuma foi registrada naquela região em 1892. Verificaram se poderia ser um cometa ou asteroide, mas cálculos orbitais descartaram essa hipótese. Testaram a possibilidade de ser uma estrela variável em pico de brilho, mas nenhuma correspondia. A teoria de reflexo fantasma (ghost image) no telescópio foi testada experimentalmente por Roger Ceragioli em 2025, mas as características não correspondiam. Também descartaram explosões de raios gama, satélites artificiais (anacronicamente impossíveis) e outros fenômenos transitórios. Apenas a hipótese da estrela TYC 1348-1610-1 com erro de estimativa de brilho se encaixou perfeitamente.

9. O que este caso nos ensina sobre a ciência e a observação astronômica?

Este caso oferece lições profundas sobre a natureza da ciência. Primeiro, demonstra que a percepção humana não é um registro passivo da realidade, mas uma interpretação ativa moldada por contexto e limitações biológicas. Segundo, mostra a importância da “equação pessoal” – cada observador tem vieses que podem influenciar resultados. Terceiro, ilustra o poder da colaboração interdisciplinar entre história, física e tecnologia moderna. Quarto, humaniza até mesmo os maiores cientistas, mostrando que erros são parte natural do processo científico. Por fim, reforça que a dedicação ao método científico e o registro meticuloso de observações garantem que a verdade, eventualmente, venha à tona, mesmo que leve mais de um século.

10. Por que Barnard não voltou a observar a estrela nas noites seguintes?

Existem várias razões prováveis. Primeiro, Barnard tinha acesso limitado ao telescópio de 36 polegadas devido aos conflitos com o diretor Holden, que frequentemente fechava a cúpula cedo. Segundo, ele estava focado em sua busca por satélites de Vênus e pode ter considerado a estrela como um objeto de campo não relacionado à sua pesquisa principal. Terceiro, sem catálogos estelares adequados disponíveis imediatamente, ele não tinha como confirmar rapidamente se a estrela era conhecida ou não. Quarto, as condições de observação (crepúsculo com Vênus brilhante) eram extremamente específicas e difíceis de replicar. Por fim, é possível que ele tenha tentado observar novamente mas não conseguiu localizar o objeto, o que o levou a questionar sua própria observação original – daí a demora de 14 anos para publicar o relato.

Fontes: Sheehan, W., Hunter, T. B., Schaefer, B. E., Ceragioli, R. C., McGaha, J. E., Briggs, J. W., & Levy, D. (2025). Barnard’s Mysterious Star Near Venus: A Strange Interloper Noted During a Satellite Search. Journal of Astronomical History and Heritage, 28(3), 612-647.

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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