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1 de fevereiro de 2026

Hubble Revela Estrutura Caótica em Berçário Planetário Gigante

Apelidado de “Xis-Tudo do Drácula”, o colossal disco de poeira IRAS23077+6707 desafia astrônomos com suas formas assimétricas e misteriosas, abrindo uma nova janela para a formação de planetas.

Introdução: Um Olhar Penetrante no Passado Cósmico

No vasto teatro do cosmos, onde novas estrelas e planetas nascem a partir de nuvens colossais de gás e poeira, os astrônomos buscam incessantemente por pistas que desvendem os segredos da nossa própria origem. Cada novo sistema estelar observado é como encontrar uma página perdida do grande livro da história universal, oferecendo um vislumbre dos processos complexos e, por vezes, caóticos que governam a criação de mundos. Recentemente, uma equipe internacional de cientistas, utilizando a visão aguçada do Telescópio Espacial Hubble, voltou suas lentes para um objeto particularmente intrigante: um disco protoplanetário colossal conhecido como IRAS23077+6707. Localizado a aproximadamente 300 parsecs de distância, na região de formação estelar de Cefeu, este sistema não é um berçário planetário comum. Visto de perfil (uma configuração que os astrônomos chamam de “edge-on”), ele se estende por mais de 4200 unidades astronômicas – uma escala monumental que o torna um dos maiores de seu tipo já observados.

As novas imagens do Hubble, publicadas no The Astrophysical Journal, revelam uma estrutura de complexidade espantosa, repleta de filamentos, sombras e assimetrias que desafiam os modelos teóricos atuais sobre a formação planetária. A descoberta, liderada pela astrônoma Kristina Monsch, do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, não apenas fornece dados cruciais sobre a dinâmica interna desses discos, mas também estabelece o IRAS23077+6707 como um laboratório natural indispensável para testar nossas teorias sobre como os sistemas planetários, incluindo o nosso, evoluem de um turbilhão de poeira cósmica para uma arquitetura ordenada de planetas. O estudo contou com a colaboração de instituições renomadas, incluindo o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL), o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), a Universidade do Havaí, e diversas outras organizações de pesquisa ao redor do mundo, demonstrando o caráter verdadeiramente global desta investigação científica.

Os discos protoplanetários são, essencialmente, os restos do processo de formação estelar. Quando uma nuvem molecular colapsa sob sua própria gravidade para formar uma estrela, nem todo o material é incorporado ao astro nascente. Uma fração significativa permanece em órbita, formando um disco achatado de gás e poeira. É neste disco que os planetas eventualmente se formam, através de um processo gradual de colisão e aglomeração de partículas. Compreender a estrutura, a composição e a dinâmica desses discos é, portanto, fundamental para entender não apenas como os planetas se formam, mas também que tipos de sistemas planetários podem surgir e quais condições iniciais podem levar à formação de mundos habitáveis como a Terra.

O “Xis-Tudo do Drácula”: Desvendando a Anatomia de um Gigante

A alcunha curiosa, “Dracula’s Chivito” (algo como “O Xis-Tudo do Drácula”, em uma adaptação cultural), foi atribuída ao sistema devido à sua aparência peculiar: uma densa faixa escura de poeira, o “recheio”, imprensada entre duas regiões brilhantes de luz espalhada, o “pão”. Esta visão de perfil é uma dádiva para os cientistas, pois permite estudar a estrutura vertical do disco – sua altura e a distribuição de material acima e abaixo do plano principal – com um detalhe sem precedentes. As observações, realizadas com a Câmera de Campo Largo 3 (WFC3) do Hubble em seis diferentes comprimentos de onda, do óptico ao infravermelho próximo, pintam um quadro de um ambiente dinâmico e turbulento. A imagem mais marcante é a de um disco vasto e achatado, mas com uma extensão vertical surpreendente. A luz da estrela central, uma jovem estrela do tipo Herbig Ae/Be com cerca de três vezes a massa do nosso Sol e uma temperatura efetiva de aproximadamente 7400 Kelvin, ilumina as camadas superiores e inferiores do disco, revelando uma morfologia que está longe de ser simples ou simétrica.

As estrelas Herbig Ae/Be são objetos estelares jovens de massa intermediária, mais massivas que o Sol, mas não tão massivas quanto as estrelas gigantes azuis. Elas são conhecidas por seus intensos ventos estelares e alta luminosidade, características que têm um impacto profundo na estrutura e evolução de seus discos circunstelares. No caso do IRAS23077+6707, a radiação intensa da estrela central aquece as camadas superiores do disco, fazendo com que elas brilhem em luz espalhada, enquanto o plano médio denso permanece opaco, criando a característica faixa escura que define a aparência de perfil do sistema. As observações foram conduzidas em 8 de fevereiro de 2025, utilizando seis filtros de banda larga que cobrem comprimentos de onda de 0,4 a 1,6 micrômetros, permitindo aos cientistas dissecar a estrutura do disco em diferentes “cores” de luz e, assim, sondar diferentes populações de grãos de poeira e diferentes alturas dentro do disco.

Uma das características mais intrigantes é a profunda assimetria entre os lados leste e oeste do disco. O lóbulo oeste brilha com uma intensidade que chega a ser 14 vezes maior que a do seu correspondente oriental, uma disparidade que é ainda mais pronunciada em comprimentos de onda ópticos. Tal disparidade de brilho sugere diferenças significativas na densidade do material, na sua composição ou na forma como a luz estelar o ilumina, possivelmente devido a uma inclinação ou torção no disco. Os cientistas mediram cuidadosamente as razões de brilho pico a pico entre os dois lóbulos em cada filtro, encontrando valores que variam de 6,5 em comprimentos de onda mais longos (infravermelho próximo) até 14,3 em comprimentos de onda mais curtos (óptico). Esta tendência sugere que o espalhamento de luz por grãos submicroscópicos, que é mais eficiente em comprimentos de onda mais curtos, desempenha um papel crucial na criação do contraste observado.

Como se não bastasse, uma análise mais detalhada revela uma segunda assimetria, desta vez na direção norte-sul. Do lado norte, emergem estruturas etéreas e filamentares, como gavinhas de fumaça cósmica, que se estendem por mais de 10 segundos de arco acima da borda do disco, o que corresponde a alturas verticais extremas de 750 a 1850 unidades astronômicas, assumindo a distância de 300 parsecs. Estas “gavinhas” (wisps, em inglês) são proeminentes em todas as cores observadas pelo Hubble, mas sua contraparte ao sul é notavelmente ausente. Em vez disso, o lado sul apresenta um corte abrupto na luz espalhada, criando um contraste dramático que clama por uma explicação física. A ausência de estruturas similares no hemisfério sul sugere que não se trata de um efeito simétrico de extinção ou iluminação, mas sim de uma característica intrínseca da distribuição de material ao redor do disco. Uma possibilidade é que o lado norte esteja sendo iluminado por material de um envelope de infall, enquanto o lado sul permanece obscurecido ou simplesmente não possui material em altitudes comparáveis.

Os cientistas propõem várias hipóteses para explicar esta arquitetura caótica. Os filamentos do norte poderiam ser rastros de material caindo sobre o disco a partir de um envelope gasoso circundante, um processo conhecido como “infall”. Durante as primeiras fases da formação estelar, a estrela e seu disco ainda estão envoltos em uma nuvem molecular maior, da qual continuam a acretar material. Este material, ao cair sobre o disco, pode criar estruturas filamentares e assimétricas, especialmente se o infall não for perfeitamente esférico ou se houver rotação residual no envelope. Alternativamente, os filamentos poderiam ser o resultado de instabilidades dinâmicas dentro do próprio disco, como turbulência ou agitação gravitacional causada pela formação de planetas ou pela presença de uma estrela companheira ainda não detectada. Instabilidades gravitacionais podem surgir em discos massivos, levando à formação de braços espirais e fragmentação, processos que podem ejetar material para altitudes elevadas.

A própria faixa escura central, que parece mais estreita em comprimentos de onda mais longos, oferece pistas sobre a “sedimentação” da poeira. Em teoria, os grãos de poeira maiores e mais pesados deveriam assentar-se gradualmente em direção ao plano médio do disco devido à gravidade da estrela central, deixando as camadas superiores povoadas por grãos menores e mais leves. A mudança na espessura da faixa escura com a cor da luz observada é consistente com essa ideia: em comprimentos de onda mais longos, a luz pode penetrar mais profundamente no disco, revelando uma estrutura mais fina, enquanto em comprimentos de onda mais curtos, a opacidade é dominada por grãos menores nas camadas superiores, resultando em uma faixa aparentemente mais espessa. Os cientistas mediram a espessura do plano médio em cada filtro, encontrando valores que variam de 3,1 segundos de arco no filtro mais azul (F438W) a 2,1 segundos de arco no filtro mais vermelho (F160W), uma tendência clara de estreitamento com o aumento do comprimento de onda.

No entanto, os dados do Hubble, por si sós, não conseguem confirmar definitivamente se a sedimentação está ocorrendo. Para isso, seria necessário observar a emissão térmica dos grãos de poeira em comprimentos de onda milimétricos e submilimétricos, que são sensíveis aos grãos maiores no plano médio. Felizmente, observações complementares foram realizadas com o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) e o Northern Extended Millimeter Array (NOEMA), revelando que a emissão de continuum de poeira em comprimentos de onda de 1,3, 2,7 e 3,1 milímetros está estreitamente confinada ao plano médio do disco, sem a morfologia estendida ou achatada observada nas imagens do Hubble. Esta discrepância entre a luz espalhada (Hubble) e a emissão térmica (ALMA/NOEMA) é intrigante e sugere que os grãos grandes e pequenos têm distribuições espaciais diferentes, o que é consistente com algum grau de sedimentação.

A complexidade é tamanha que os modelos atuais de transferência radiativa, que simulam como a luz viaja através do disco, lutam para reproduzir simultaneamente todas as características observadas. A equipe de Monsch realizou uma série de simulações usando o código Monte Carlo RADMC-3D, explorando diferentes cenários de sedimentação e distribuição de tamanho de grãos. Embora os modelos consigam capturar as tendências gerais, como o aumento da razão de brilho e o estreitamento do plano médio em comprimentos de onda mais longos, eles sistematicamente subestimam a espessura do plano médio nos comprimentos de onda ópticos mais curtos. Esta discrepância sugere que as suposições simplificadoras dos modelos – como axissimetria, espalhamento isotrópico e uma estrutura de disco idealizada – não capturam toda a complexidade da realidade. O IRAS23077+6707, portanto, não é apenas um objeto de beleza estonteante; é um quebra-cabeça cósmico que está forçando os teóricos a refinar e expandir seus modelos sobre a física dos berçários planetários.

Implicações Científicas: Uma Nova Peça no Quebra-Cabeça da Formação Planetária

A descoberta e a análise detalhada do IRAS23077+6707 representam um avanço significativo para a astrofísica, com implicações profundas para a nossa compreensão da formação de planetas. Este sistema se junta a um seleto grupo de discos protoplanetários vistos de perfil, mas sua escala e complexidade o destacam como um exemplar único e de valor inestimável. A principal importância reside no fato de que ele serve como um laboratório natural para estudar a estrutura vertical e as assimetrias nos discos, que são aspectos cruciais, mas difíceis de observar na maioria dos sistemas, que vemos de cima. Discos vistos de perfil, embora raros, oferecem uma perspectiva única: eles permitem que os astrônomos meçam diretamente a altura do disco e observem como a poeira e o gás estão distribuídos verticalmente, informações que são impossíveis de obter em discos vistos de frente.

As assimetrias pronunciadas, tanto em brilho quanto em estrutura, desafiam a noção simplista de discos como estruturas lisas e axisimétricas. Elas sugerem que processos dinâmicos vigorosos estão em ação, moldando ativamente o ambiente onde os planetas nascem. A interação com o meio interestelar, a queda de material, a influência de companheiras estelares ou mesmo a presença de planetas jovens e massivos podem esculpir o disco, criando as características complexas que o Hubble revelou. Estudar essas assimetrias em detalhe pode nos ajudar a inferir a presença e as propriedades de planetas em formação, mesmo que eles não possam ser vistos diretamente. Por exemplo, um planeta gigante pode criar ondas espirais, lacunas e vórtices no disco, que por sua vez afetam a distribuição de poeira e gás, resultando em padrões de iluminação assimétricos como os observados. No caso do IRAS23077+6707, a forte assimetria leste-oeste poderia, em princípio, ser causada por um planeta massivo orbitando a estrela, embora outras explicações, como a geometria do disco ou a presença de uma companheira estelar distante, também sejam plausíveis.

Além disso, o IRAS23077+6707 preenche uma lacuna observacional crítica. Enquanto o Hubble nos dá uma visão espetacular da luz espalhada por pequenos grãos de poeira nas camadas superficiais do disco, e os radiotelescópios terrestres como o ALMA mapeiam a emissão de grãos maiores no plano médio frio e denso, existe uma lacuna em nosso conhecimento sobre os grãos de tamanho intermediário. São esses grãos, do tamanho de seixos e rochas, que representam a ponte entre a poeira microscópica e os núcleos planetários. Eles emitem principalmente em comprimentos de onda do infravermelho médio, uma janela do espectro que tem sido historicamente difícil de observar com alta resolução espacial. O IRAS23077+6707, com sua estrutura intrigante, torna-se assim um alvo prioritário para futuros observatórios, como o Telescópio Espacial James Webb (JWST) e o futuro Very Large Array de próxima geração (ngVLA), que serão capazes de sondar este regime de tamanho de grão e finalmente conectar as diferentes peças do quebra-cabeça da formação planetária.

O JWST, com sua sensibilidade sem precedentes no infravermelho médio e sua capacidade de obter imagens de alta resolução e espectroscopia, poderá mapear a distribuição de temperatura e a composição química do disco em detalhes nunca antes vistos. Isso permitirá aos cientistas determinar se a sedimentação está realmente ocorrendo e em que estágio de evolução o disco se encontra. O ngVLA, por sua vez, oferecerá resolução angular e sensibilidade suficientes para mapear a distribuição de gás molecular e grãos de poeira em escalas espaciais comparáveis às órbitas dos planetas do Sistema Solar, permitindo uma caracterização completa da estrutura radial e vertical do disco. Juntas, essas observações futuras transformarão nossa compreensão do IRAS23077+6707 e, por extensão, de todos os discos protoplanetários.

Outro aspecto fascinante do IRAS23077+6707 é a ausência de evidências de jatos. Muitos discos protoplanetários, especialmente aqueles ao redor de estrelas jovens de baixa massa, exibem jatos colimados de gás que são ejetados perpendicularmente ao plano do disco. Esses jatos são uma manifestação do processo de acreção: à medida que o material cai sobre a estrela, parte da energia gravitacional liberada é canalizada para acelerar o gás ao longo das linhas de campo magnético, resultando em ejeções bipolares. No entanto, as imagens do Hubble do IRAS23077+6707 não mostram nenhuma evidência clara de emissão de jato, o que sugere que o sistema é provavelmente um objeto estelar jovem de Classe II mais evoluído, no qual a taxa de acreção diminuiu significativamente e os jatos se dissiparam. Esta classificação é consistente com a natureza da estrela central como uma Herbig Ae/Be, que são tipicamente mais evoluídas do que as estrelas T Tauri de baixa massa que frequentemente exibem jatos proeminentes.

A fotometria de abertura realizada pela equipe revelou que o fluxo do sistema aumenta do óptico para o infravermelho próximo, consistente com a presença de um disco rico em infravermelho ao redor de uma estrela de sequência pré-principal. As magnitudes absolutas medidas em diferentes filtros, combinadas com a distância estimada de 300 parsecs, permitem aos cientistas inferir a luminosidade e a temperatura da estrela central, confirmando sua classificação como uma estrela do tipo A9 com aproximadamente três massas solares. Além disso, a fotometria não revelou variabilidade óptica significativa entre as observações do Hubble e dados de arquivo mais antigos, sugerindo que o sistema é relativamente estável em escalas de tempo de uma década. No entanto, monitoramento no infravermelho médio pelo satélite NEOWISE revelou um aumento suave de brilho de aproximadamente 0,3 magnitudes ao longo de uma década, acompanhado por uma fraca modulação de cor. Esta variabilidade no infravermelho, embora pequena, pode ser um sinal de mudanças na iluminação do disco ou de obscurecimento variável, processos que têm sido observados em outros discos protoplanetários e que são frequentemente atribuídos a sombras projetadas por estruturas no disco interno.

Conclusão: O Futuro é Brilhante (e Assimétrico)

As observações do Telescópio Espacial Hubble sobre o disco protoplanetário IRAS23077+6707 nos presentearam com uma imagem de beleza e complexidade impressionantes, revelando um sistema muito mais dinâmico e caótico do que os modelos simples poderiam prever. O “Xis-Tudo do Drácula” não é apenas uma curiosidade cósmica; é uma prova contundente de que o caminho para a formação de um sistema planetário é tortuoso e moldado por uma miríade de forças físicas. As notáveis assimetrias, os filamentos etéreos e as sombras misteriosas contam a história de um ambiente em plena transformação, um caldeirão onde os blocos de construção de futuros mundos estão sendo forjados.

Este estudo, liderado por Kristina Monsch e sua equipe, ressalta a importância de observar esses berçários planetários de múltiplas perspectivas e em múltiplos comprimentos de onda. Cada nova imagem e cada novo dado adicionam uma camada de profundidade à nossa compreensão. Embora o Hubble tenha aberto a porta, são os observatórios da próxima geração que nos permitirão entrar e explorar plenamente os mistérios deste sistema. Com o poder do JWST para perscrutar o coração empoeirado do disco no infravermelho e a capacidade do ngVLA para mapear a distribuição de gás e poeira com uma precisão sem precedentes, os astrônomos esperam finalmente responder às perguntas levantadas por estas novas imagens: Qual é a verdadeira causa das assimetrias? Os filamentos são o resultado de material caindo sobre o disco ou de instabilidades internas? A sedimentação de poeira está ocorrendo como previsto?

As respostas a essas perguntas não apenas desvendarão a história do IRAS23077+6707, mas também nos aproximarão de compreender a história fundamental da nossa própria existência em um universo repleto de planetas. Cada disco protoplanetário que estudamos nos ensina algo novo sobre a diversidade de ambientes onde os planetas podem se formar e sobre os processos físicos que governam essa formação. O IRAS23077+6707, com sua escala gigantesca e sua estrutura complexa, representa um caso extremo que testa os limites de nossas teorias. Ao desvendar seus segredos, não apenas aprenderemos sobre este sistema específico, mas também refinaremos nossa compreensão geral da formação planetária, um conhecimento que é essencial para responder a uma das perguntas mais profundas da humanidade: estamos sozinhos no universo?

A jornada científica que começou com a identificação do IRAS23077+6707 em observações combinadas do Pan-STARRS e do Submillimeter Array em 2024 está apenas começando. As imagens do Hubble representam um marco importante, mas são apenas o primeiro capítulo de uma história muito mais longa. Nos próximos anos, à medida que novos dados forem coletados e novos modelos forem desenvolvidos, nossa compreensão deste sistema extraordinário certamente evoluirá. E com ela, nossa apreciação pela incrível complexidade e beleza do universo em que vivemos.

Perguntas Frequentes (FAQ) – Descoberta do Hubble sobre IRAS23077+6707

1. O que é o IRAS23077+6707 e por que ele é chamado de “Xis-Tudo do Drácula”?

O IRAS23077+6707, carinhosamente apelidado de “Dracula’s Chivito” (Xis-Tudo do Drácula), é um disco protoplanetário gigantesco localizado a aproximadamente 300 parsecs da Terra, na região de formação estelar de Cefeu. O apelido peculiar vem de sua aparência quando visto de perfil: uma densa faixa escura de poeira (o “recheio”) espremida entre duas regiões brilhantes de luz espalhada (o “pão”), lembrando um sanduíche cósmico. Este sistema é um dos maiores discos protoplanetários já observados, estendendo-se por mais de 4200 unidades astronômicas, e representa um verdadeiro berçário onde futuros planetas estão sendo formados ao redor de uma jovem estrela do tipo Herbig Ae/Be.

2. O que são discos protoplanetários e qual sua importância para a astronomia?

Discos protoplanetários são estruturas achatadas de gás e poeira que orbitam estrelas jovens, representando os restos do processo de formação estelar. Quando uma nuvem molecular colapsa para formar uma estrela, nem todo o material é incorporado ao astro nascente; uma fração significativa permanece em órbita, formando um disco. É exatamente nestes discos que os planetas eventualmente se formam, através de um processo gradual de colisão e aglomeração de partículas de poeira que crescem desde grãos microscópicos até planetesimais e, finalmente, planetas completos. Estudar esses discos é fundamental para compreender não apenas como os planetas se formam, mas também que tipos de sistemas planetários podem surgir e quais condições iniciais podem levar à formação de mundos habitáveis como a Terra.

3. Por que é tão raro e importante observar um disco protoplanetário “de perfil”?

A maioria dos discos protoplanetários que observamos são vistos de cima ou em ângulos intermediários, o que dificulta a medição direta de sua altura e estrutura vertical. Discos vistos de perfil, como o IRAS23077+6707, são raros, mas oferecem uma perspectiva única e extremamente valiosa. Esta orientação permite que os astrônomos meçam diretamente a espessura do disco e observem como a poeira e o gás estão distribuídos verticalmente em diferentes altitudes. O disco atua como um “coronógrafo natural”, bloqueando a luz intensa da estrela central e permitindo que a luz espalhada pelas camadas superiores e inferiores seja estudada em detalhes. Essas informações sobre a estrutura vertical são impossíveis de obter em discos vistos de frente e são cruciais para entender processos como a sedimentação de poeira e a formação de planetas.

4. Qual é a principal descoberta surpreendente revelada pelas imagens do Hubble?

A descoberta mais surpreendente é a extrema complexidade e assimetria do disco. O lóbulo oeste do disco brilha com uma intensidade até 14 vezes maior que o lóbulo leste, uma disparidade dramática que desafia as expectativas de simetria. Além disso, o sistema exibe uma segunda assimetria norte-sul: filamentos etéreos e irregulares de poeira se estendem por mais de 10 segundos de arco (750-1850 unidades astronômicas) acima do lado norte do disco, enquanto o lado sul apresenta um corte abrupto, sem estruturas comparáveis. Essas assimetrias pronunciadas, combinadas com sombras, estruturas em camadas e possíveis espirais, sugerem que o disco está passando por processos dinâmicos intensos, como turbulência, infall de material, instabilidades gravitacionais ou até mesmo a influência de planetas em formação.

5. O que são os filamentos misteriosos observados no lado norte do disco?

Os filamentos, ou “wisps” em inglês, são estruturas etéreas e irregulares de poeira que se estendem dramaticamente acima do plano principal do disco no lado norte. Estas gavinhas de material cósmico são visíveis em todos os comprimentos de onda observados pelo Hubble, desde o óptico até o infravermelho próximo, indicando que são características reais e não artefatos de observação. Os cientistas propõem várias explicações: eles podem ser rastros de material caindo sobre o disco a partir de um envelope gasoso circundante (processo chamado de “infall”), ou podem ser resultado de instabilidades dinâmicas dentro do próprio disco, como turbulência ou agitação gravitacional. A ausência completa de estruturas similares no lado sul torna este fenômeno ainda mais intrigante e sugere que processos assimétricos estão moldando ativamente o ambiente ao redor da estrela.

6. Como o Telescópio Espacial Hubble conseguiu capturar essas imagens detalhadas?

O Hubble utilizou sua Câmera de Campo Largo 3 (WFC3), um dos instrumentos mais avançados a bordo do telescópio, para observar o IRAS23077+6707 em 8 de fevereiro de 2025. As observações foram realizadas em seis filtros de banda larga diferentes, cobrindo comprimentos de onda de 0,4 a 1,6 micrômetros (do óptico ao infravermelho próximo). Esta abordagem multiespectral permite aos cientistas “dissecar” o disco em diferentes “cores” de luz, sondando diferentes populações de grãos de poeira e diferentes alturas dentro da estrutura. A resolução subarcsegundo do Hubble, combinada com sua posição acima da atmosfera terrestre (que distorce as imagens), permite capturar detalhes que seriam impossíveis de observar com telescópios terrestres, revelando a intrincada tapeçaria de luz espalhada que define a morfologia deste sistema excepcional.

7. O que é “sedimentação de poeira” e por que os cientistas estão interessados nisso?

A sedimentação de poeira é um processo fundamental na evolução dos discos protoplanetários, no qual grãos de poeira maiores e mais pesados gradualmente “afundam” em direção ao plano médio do disco devido à gravidade da estrela central, enquanto grãos menores e mais leves permanecem suspensos nas camadas superiores. Este processo é crucial para a formação de planetas porque concentra o material sólido no plano médio, onde as colisões entre partículas são mais frequentes e eficientes, acelerando o crescimento de planetesimais e, eventualmente, planetas. No IRAS23077+6707, os cientistas observaram que a faixa escura central se torna mais estreita em comprimentos de onda mais longos, uma tendência consistente com a sedimentação. No entanto, os dados atuais não podem confirmar definitivamente se este processo está ocorrendo, destacando a necessidade de observações futuras no infravermelho médio com o Telescópio Espacial James Webb.

8. Que tipo de estrela está no centro deste disco e quais são suas características?

No coração do IRAS23077+6707 reside uma jovem estrela do tipo Herbig Ae/Be, classificada especificamente como tipo espectral A9. Esta estrela possui aproximadamente três vezes a massa do nosso Sol e uma temperatura efetiva de cerca de 7400 Kelvin, tornando-a significativamente mais quente e luminosa que o Sol. As estrelas Herbig Ae/Be são objetos estelares jovens de massa intermediária, mais massivas que o Sol mas não tão massivas quanto as estrelas gigantes azuis. Elas são conhecidas por seus intensos ventos estelares e alta luminosidade, características que têm um impacto profundo na estrutura e evolução de seus discos circunstelares. A radiação intensa desta estrela aquece as camadas superiores do disco, fazendo com que elas brilhem em luz espalhada, enquanto o plano médio denso permanece opaco, criando a característica faixa escura que define a aparência de perfil do sistema.

9. Quais observatórios e instrumentos complementaram os dados do Hubble?

Além das observações ópticas e infravermelhas do Hubble, o IRAS23077+6707 foi estudado com radiotelescópios terrestres de última geração. O Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), localizado no deserto do Atacama no Chile, e o Northern Extended Millimeter Array (NOEMA), na França, observaram o sistema em comprimentos de onda milimétricos (1,3, 2,7 e 3,1 milímetros). Estas observações são sensíveis aos grãos de poeira maiores e mais frios no plano médio do disco, complementando perfeitamente os dados do Hubble, que capturam a luz espalhada por grãos menores nas camadas superficiais. Curiosamente, as observações milimétricas revelaram que a emissão de continuum de poeira está estreitamente confinada ao plano médio, sem a morfologia estendida observada pelo Hubble, uma discrepância que fornece pistas importantes sobre a distribuição vertical de diferentes tamanhos de grãos.

10. Quais são os próximos passos para estudar este sistema fascinante?

O futuro da pesquisa sobre o IRAS23077+6707 é extremamente promissor, com observações planejadas usando os observatórios mais avançados da humanidade. O Telescópio Espacial James Webb (JWST), com sua sensibilidade sem precedentes no infravermelho médio, será capaz de mapear a distribuição de temperatura e a composição química do disco em detalhes nunca antes vistos, preenchendo a lacuna crucial entre as observações ópticas do Hubble e as milimétricas do ALMA. O futuro Very Large Array de próxima geração (ngVLA) oferecerá resolução angular e sensibilidade suficientes para mapear a distribuição de gás molecular e grãos de poeira em escalas espaciais comparáveis às órbitas dos planetas do Sistema Solar. Juntas, essas observações futuras permitirão aos cientistas finalmente responder às perguntas fundamentais levantadas pelas imagens do Hubble: Qual é a verdadeira causa das assimetrias? A sedimentação está realmente ocorrendo? Existem planetas em formação escondidos neste disco caótico?

Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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