
Cientistas medem com precisão inédita como a misteriosa superfície de Alfvén do Sol muda de forma e tamanho ao longo do ciclo solar, impactando a perda de momento estelar e a busca por mundos habitáveis além do nosso sistema.
Introdução
No coração do nosso sistema solar, o Sol não é apenas uma esfera de fogo estática; é um dínamo magnético incrivelmente complexo, cujo comportamento dita o ambiente espacial por bilhões de quilômetros. Uma das fronteiras mais enigmáticas e importantes geradas por essa atividade é a superfície de Alfvén, uma casca invisível que separa a coroa solar, onde o plasma ainda está magneticamente acoplado e co-rotaciona com o Sol, do vento solar, que escapa livremente para o espaço interplanetário. A geometria e a dinâmica desta superfície são cruciais, pois regulam a taxa com que o Sol perde momento angular — um processo que freia sua rotação ao longo de bilhões de anos — e, por extensão, podem determinar as condições de habitabilidade em exoplanetas que orbitam outras estrelas.
Pela primeira vez na história, uma equipe internacional de cientistas, liderada por Samuel T. Badman do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, conseguiu mapear a evolução desta fronteira com detalhes sem precedentes. Utilizando uma frota de três observatórios espaciais — a audaciosa Parker Solar Probe da NASA, a Solar Orbiter da ESA/NASA e os satélites no ponto de Lagrange L1 — os pesquisadores triangularam dados coletados ao longo de mais de seis anos, cobrindo a primeira metade do atual ciclo solar 25. Os resultados, publicados na prestigiosa revista The Astrophysical Journal Letters em dezembro de 2025, revelam que a superfície de Alfvén não é uma esfera simples e estática. Pelo contrário, ela pulsa, se deforma e se torna mais “enrugada” à medida que a atividade solar aumenta, expandindo-se para o espaço e quase dobrando a eficácia com que o Sol lança seu próprio momento angular para o cosmos. Esta descoberta não apenas refina nossa compreensão do Sol, mas também oferece uma nova janela para entender a evolução de outras estrelas e a potencial existência de vida em outros sistemas estelares.
A pesquisa representa um salto significativo em relação aos estudos anteriores, que dependiam de modelos teóricos e estimativas indiretas. Agora, com medições diretas de múltiplas espaçonaves posicionadas em diferentes distâncias do Sol, os cientistas podem finalmente “ver” a forma tridimensional desta fronteira crítica e acompanhar suas transformações em tempo real. O estudo envolveu pesquisadores de instituições renomadas como a Universidade da Califórnia em Berkeley, a Universidade do Arizona, a Universidade de Delaware, o Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, o Laboratório de Ciência Espacial Mullard e o Imperial College London, demonstrando o caráter verdadeiramente global desta investigação científica.

O Mapeamento da Fronteira Final do Sol
Compreender a superfície de Alfvén é mergulhar na física fundamental que governa a heliosfera. O conceito, batizado em homenagem ao físico sueco Hannes Alfvén, laureado com o Prêmio Nobel de Física em 1970, descreve o ponto no espaço onde a velocidade do plasma ejetado pelo Sol — o vento solar — ultrapassa a velocidade da onda de Alfvén. Esta onda é a velocidade com que a informação magnética se propaga através do plasma, uma espécie de “velocidade do som” para perturbações magnéticas. Abaixo desta superfície, o campo magnético do Sol é tão dominante que arrasta o plasma consigo, forçando-o a girar junto com a estrela em um movimento de co-rotação. Acima dela, o plasma ganha momento suficiente para se libertar das amarras magnéticas e fluir radialmente para fora, tornando-se o vento solar que conhecemos e que permeia todo o sistema solar. A localização exata desta fronteira, portanto, funciona como uma válvula que regula a perda de massa e, mais importante, de momento angular do Sol.
A grande dificuldade, até recentemente, era medir essa superfície diretamente. Ela é invisível aos telescópios convencionais e sua localização teórica dependia de modelos complexos com muitas incertezas e suposições simplificadoras. Tudo mudou com a Parker Solar Probe (PSP). Lançada em agosto de 2018, a PSP foi projetada para uma missão histórica: tocar o Sol. Em suas órbitas cada vez mais próximas, utilizando manobras de assistência gravitacional de Vênus para reduzir progressivamente seu periélio, a sonda se tornou a primeira e única espaçonave a cruzar repetidamente a superfície de Alfvén, entrando e saindo da coroa solar. Desde abril de 2021, quando realizou seu primeiro cruzamento confirmado a cerca de 19,8 raios solares de distância, essas travessias se tornaram rotineiras em cada aproximação máxima do Sol (periélio), fornecendo dados in situ de valor inestimável sobre as condições físicas nesta região crítica.
No entanto, as medições da PSP, embora revolucionárias, oferecem apenas uma visão pontual e localizada. A sonda percorre uma trajetória específica e só pode medir as condições ao longo de seu caminho. Para construir um mapa global e entender como a superfície inteira evolui ao longo do tempo e em diferentes longitudes solares, os cientistas precisavam de mais pontos de vista. É aqui que a colaboração entre múltiplas missões se tornou essencial. A equipe liderada por Badman desenvolveu uma metodologia inovadora que combina os dados da PSP com observações da Solar Orbiter, que orbita o Sol a uma distância intermediária variando entre 0,28 e 1 Unidade Astronômica (UA), e de satélites como ACE, Wind e DSCOVR, que monitoram o vento solar a aproximadamente 1 UA de distância, no ponto de Lagrange L1 entre a Terra e o Sol. Eles criaram uma sofisticada “técnica de escalonamento radial” que usa medições da velocidade do vento solar e da velocidade de Alfvén local para inferir a altura e a forma da superfície em locais distantes de onde as sondas estão fisicamente posicionadas.
O método funciona da seguinte maneira: ao medir as propriedades do vento solar em um ponto — incluindo sua velocidade, densidade de prótons, temperatura e intensidade do campo magnético — os cientistas podem “rebobinar” seu trajeto de volta em direção ao Sol, considerando fatores físicos como a aceleração que o plasma sofre ao se afastar da estrela e a conservação do fluxo de massa ao longo das linhas de campo magnético. A técnica emprega modelos de vento solar “isopólicos” de dois fluidos, que combinam uma porção coronal isotérmica com uma porção de vento solar em resfriamento politrópico. Ao fazer isso com dados de três locais distintos e ao longo de 23 órbitas da Parker (de outubro de 2018 a abril de 2025), eles conseguiram construir um mapa 2D dinâmico do corte equatorial da superfície de Alfvén. Este mapa revela não apenas a altura média da superfície, mas também sua “rugosidade” (desvios da simetria esférica) e como essas características mudam em sincronia com o ciclo de aproximadamente 11 anos de atividade solar.
Os resultados foram impressionantes e confirmaram a robustez do método de forma inequívoca. As previsões de altura da superfície de Alfvén feitas a partir dos dados da Solar Orbiter e de L1 coincidiam notavelmente com as travessias diretas medidas pela Parker Solar Probe, validando a técnica de escalonamento. O estudo revelou que, durante o período de atividade solar mínima (no início do ciclo 25, por volta de 2019-2020), a superfície era mais compacta e aproximadamente esférica, com uma altura mediana variando entre 12 e 17 raios solares (R☉). No entanto, à medida que o Sol se aproximava do pico de seu ciclo de atividade, previsto para o final de 2024 e início de 2025, a superfície se expandiu significativamente. Sua altura mediana aumentou para uma faixa entre 15 e 23 R☉, um aumento de cerca de 30%. Mais do que isso, a superfície tornou-se mais assimétrica e corrugada, com grandes estruturas e extrusões que se estendem para o espaço, frequentemente associadas a ejeções de massa coronal (CMEs). Essas “rugas” na fronteira magnética são cruciais, pois são regiões onde a transferência de energia e momento do Sol para o vento solar é particularmente eficiente e onde processos de aquecimento coronal podem ser estudados em detalhe.
A Jornada da Parker Solar Probe para o Vento Sub-Alfvénico
Um dos aspectos mais fascinantes revelados pelo estudo é a história da própria Parker Solar Probe em sua jornada para dentro da superfície de Alfvén. No início da missão, quando a sonda ainda orbitava a distâncias relativamente grandes do Sol, seus encontros com o vento sub-Alfvénico eram esporádicos e frequentemente associados a estruturas transitórias — extrusões na superfície de Alfvén que se projetavam para fora, permitindo que a Parker as “tocasse” brevemente antes de retornar ao vento super-Alfvénico. Essas extrusões estavam muitas vezes ligadas a eventos solares como CMEs ou a estruturas magnéticas complexas na coroa.
À medida que a missão progredia e o periélio da Parker diminuía, combinado com o aumento da altura média da superfície de Alfvén devido ao ciclo solar, a natureza dos cruzamentos mudou dramaticamente. A partir do encontro 8, em abril de 2021, a sonda começou a amostrar regularmente o vento sub-Alfvénico. Nos encontros mais recentes, especialmente os encontros 22 e 23, com a Parker atingindo distâncias recordes de apenas 9,86 R☉ do centro do Sol, os cruzamentos se tornaram varreduras radiais inequívocas através da superfície de Alfvén, em vez de toques tangenciais em extrusões. Isso significa que a sonda está agora mergulhando profundamente na coroa solar, fornecendo dados sobre a física tanto acima quanto abaixo desta fronteira crítica. Esses dados são essenciais para testar teorias sobre aquecimento coronal, turbulência e aceleração do vento solar.
O estudo também destaca que a altura média da superfície de Alfvén está claramente correlacionada com indicadores de atividade solar, como o número de manchas solares e a contagem de CMEs. Isso não é apenas uma correlação de longo prazo com o ciclo solar, mas também inclui variações de curto prazo, como uma diminuição observada na altura média entre meados de 2023 e início de 2024, coincidente com uma pequena queda no número de manchas solares. Essa sensibilidade demonstra que a superfície de Alfvén é um indicador dinâmico e responsivo da atividade magnética solar.

Implicações Científicas: Do Vento Solar à Vida Extraterrestre
As implicações desta pesquisa são vastas e se estendem por múltiplos campos da astrofísica, desde a física solar fundamental até a astrobiologia. A mais direta é a nossa compreensão da perda de momento angular estelar. Uma estrela como o Sol está constantemente freando sua rotação ao ejetar matéria através do vento solar. A eficácia desse freio magnético depende crucialmente da distância em que o plasma se desacopla do campo magnético da estrela — ou seja, da altura da superfície de Alfvén. Ao descobrir que essa superfície se expande em até 30% durante um ciclo solar modesto, os cientistas calcularam que isso leva a um aumento de quase 100% na taxa de perda de momento angular por unidade de massa ejetada. Em outras palavras, um Sol mais ativo é muito mais eficiente em frear a si mesmo. Este dado é fundamental para refinar os modelos de evolução estelar, ajudando a explicar por que estrelas mais velhas giram mais lentamente — um fenômeno conhecido como “spin-down” estelar — e como a rotação de uma estrela influencia sua atividade magnética ao longo de bilhões de anos.
Outra área profundamente impactada é a modelagem do vento solar e do clima espacial. O vento solar não é um fluxo uniforme; ele é turbulento e variável, com velocidades que podem variar de cerca de 250 km/s para o vento lento até mais de 800 km/s para o vento rápido. A forma e a rugosidade da superfície de Alfvén, agora mapeadas em detalhe, atuam como a condição de contorno fundamental que define as propriedades do vento solar que viaja em direção aos planetas, incluindo a Terra. Compreender a geometria desta fronteira permite previsões mais precisas sobre a velocidade, densidade e campo magnético do vento solar que atinge nosso planeta, melhorando nossa capacidade de prever tempestades geomagnéticas que podem afetar satélites, redes elétricas, sistemas de navegação GPS e comunicações de rádio. Em uma era de crescente dependência tecnológica, a capacidade de prever o clima espacial é de importância estratégica.
Talvez a implicação mais fascinante e de longo alcance resida na busca por habitabilidade em exoplanetas. Muitas estrelas, especialmente as anãs vermelhas (estrelas do tipo M), que são os alvos mais comuns na busca por planetas do tamanho da Terra devido à sua abundância na galáxia e à facilidade de detecção de planetas em suas zonas habitáveis, são muito mais ativas magneticamente do que o Sol. Em uma estrela com um campo magnético de 0.5 a 1 kilogauss (centenas de vezes mais forte que o do Sol), a superfície de Alfvén poderia se estender por distâncias enormes, potencialmente englobando as órbitas de seus planetas. O estudo cita o famoso sistema TRAPPIST-1, onde sete planetas rochosos orbitam uma estrela anã ultrafria a apenas 40 anos-luz da Terra. As órbitas desses planetas estão todas dentro de 0.1 UA da estrela, o que significa que eles provavelmente passam a maior parte de suas vidas dentro da superfície de Alfvén de sua estrela hospedeira.
Estar em um ambiente “sub-Alfvénico” é drasticamente diferente de estar no vento solar. O planeta estaria imerso na coroa estelar, sujeito a um plasma muito mais denso e a um campo magnético diretamente conectado à estrela. Isso poderia ter consequências severas para a capacidade de uma atmosfera planetária sobreviver à erosão pelo vento estelar e à radiação de alta energia. Planetas sem campos magnéticos próprios fortes, como Marte em nosso sistema solar, seriam particularmente vulneráveis. Este estudo fornece as ferramentas e a base física para começar a modelar essas interações extremas entre estrela e planeta, um passo crucial para avaliar a verdadeira habitabilidade desses mundos e refinar os critérios de seleção para futuras missões de busca por bioassinaturas.
Conclusão: Uma Nova Era na Física Solar
O trabalho liderado por Samuel T. Badman e sua equipe internacional representa um marco na física solar e heliosférica. Ao combinar dados de múltiplas espaçonaves com uma técnica de análise inovadora, eles transformaram nossa visão da superfície de Alfvén de um conceito teórico abstrato para uma paisagem dinâmica e mensurável. A descoberta de que esta fronteira crucial se expande e se torna mais complexa com a atividade solar tem consequências diretas para a forma como entendemos a evolução do nosso próprio Sol e de outras estrelas em toda a galáxia.
Os resultados mostram que a perda de momento angular do Sol quase dobra do mínimo ao máximo solar, um fator que deve ser incorporado em todos os futuros modelos de evolução estelar e de “spin-down” rotacional. Além disso, o mapeamento detalhado da superfície fornece uma base sem precedentes para aprimorar as previsões de clima espacial, protegendo nossa tecnologia na Terra e no espaço de eventos solares potencialmente danosos. E, talvez o mais inspirador para o público em geral, esta pesquisa abre um novo capítulo na exploração de exoplanetas, fornecendo um quadro físico para investigar as condições ambientais em mundos que orbitam muito perto de suas estrelas-mãe, questionando o que realmente significa ser “habitável” no cosmos.
Com a Parker Solar Probe continuando sua jornada em direção ao Sol, alcançando distâncias cada vez menores e prometendo aproximações ainda mais próximas nos próximos anos, os cientistas esperam refinar ainda mais este mapa, capturando a estrutura tridimensional completa da superfície de Alfvén, incluindo variações em latitude que até agora foram negligenciadas. A Solar Orbiter, com sua órbita inclinada, será fundamental para explorar essas regiões polares. Estamos, sem dúvida, vivendo em uma era de ouro da exploração solar, onde os segredos mais bem guardados da nossa estrela estão finalmente sendo revelados, um cruzamento de fronteira de cada vez. A cada órbita da Parker, a cada medição da Solar Orbiter, a humanidade se aproxima de uma compreensão completa da máquina magnética que sustenta a vida em nosso planeta e que pode determinar a existência de vida em incontáveis outros mundos.



Comente!