Rabiscada às vésperas de uma reunião de dez cientistas em 1961, a fórmula que estima quantas civilizações existem na Via Láctea segue indispensável por obrigar a ciência a confessar, termo a termo, o que ainda não sabe

Imagine um quadro-negro numa sala de reuniões de um observatório encravado num vale dos montes Allegheny, na Virgínia Ocidental, no início de novembro de 1961. Diante dele, um radioastrônomo de 31 anos chamado Frank Drake escreve uma única linha de símbolos, sete fatores multiplicados em sequência, e explica aos poucos colegas presentes que aquilo não é uma lei da física, nem o resultado de uma observação, mas uma lista organizada de tudo o que seria preciso saber para responder à pergunta mais antiga da astronomia: há alguém lá fora? Aquela linha de giz completa 65 anos nestas semanas, e a jornalista Leah Crane escolheu a data para argumentar, em sua coluna na revista New Scientist, que ela segue sendo uma das ferramentas mais úteis da ciência justamente por aquilo que muitos consideram sua fraqueza. A equação de Drake é, em essência, um método para dar um palpite bem fundamentado.

Arco da Via Láctea sobre uma praia, com as Nuvens de Magalhães à direita
O arco da Via Láctea sobre uma praia do hemisfério sul, com as duas Nuvens de Magalhães pairando à direita. Cada ponto de luz é uma estrela e, segundo os dados atuais, quase todas elas têm planetas.Crédito: Image Professionals GmbH/Alamy, via New Scientist.

Crane abre o argumento com uma cena que qualquer estudante reconhece. Às vésperas das provas padronizadas, professores do mundo inteiro repetem a mesma recomendação: dê um palpite instruído, o educated guess da tradição escolar anglo-saxã, aquele chute que não nasce do nada, mas do que você sabe sobre a questão. Uma resposta, dizem eles, é sempre melhor do que resposta nenhuma, e se o conhecimento disponível permite eliminar algumas alternativas, melhor ainda. A pesquisa científica não é uma prova de múltipla escolha, e seu alicerce é a ideia de que um palpite sem evidência sólida simplesmente não basta. Ainda assim, argumenta a colunista, o conceito continua útil quando as perguntas que fazemos correm mais depressa do que a tecnologia capaz de respondê-las.

A palavra decisiva da expressão, insiste Crane, é a primeira. Um palpite baseado em nada pode ser pior do que palpite nenhum, porque dá a aparência de resposta a algo que continua em aberto e, com isso, atrapalha a busca de verdade. Um palpite embasado faz o oposto: ele expõe cada suposição, separa o que é medido do que é imaginado e deixa claro onde a ignorância começa. É por isso que a colunista, que confessa ser o tipo de pessoa que tem equações favoritas, elege a de Drake como seu exemplo preferido. A fórmula organiza o pensamento sobre a vida no cosmos como poucas outras ideias conseguiram, mesmo sendo, no fundo, apenas um jeito disciplinado de estimar o que ninguém mediu.

Para entender de onde veio a equação é preciso voltar ao ambiente febril do fim dos anos 1950. Em 1959, os físicos Giuseppe Cocconi e Philip Morrison publicaram na revista Nature um artigo curto propondo que, se civilizações distantes quisessem se comunicar, o canal natural seria o rádio, perto da frequência de 1.420 megahertz em que o hidrogênio neutro emite, a linha mais abundante do Universo. Sem saber do artigo, Drake chegava à mesma conclusão no Observatório Nacional de Radioastronomia, em Green Bank. Em abril de 1960 ele apontou uma antena de 26 metros de diâmetro para as estrelas Tau Ceti e Épsilon Eridani, ambas a pouco mais de 10 anos-luz, e escutou durante cerca de 150 horas. O Projeto Ozma, batizado em homenagem à princesa Ozma, soberana da terra de Oz, não captou nada além do ruído do céu, mas inaugurou a busca científica por inteligência extraterrestre.

No ano seguinte, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos pediu a Drake que organizasse, no mesmo observatório, a primeira conferência científica dedicada ao tema, a busca por inteligência extraterrestre, que o inglês abreviaria como SETI, sigla de search for extraterrestrial intelligence. O encontro aconteceu em 1º e 2 de novembro de 1961 e reuniu cerca de dez pessoas, entre elas Morrison, o diretor do observatório Otto Struve, o engenheiro Bernard Oliver, o astrônomo Su-Shu Huang, que ajudara a formular o conceito de zona habitável, o neurocientista John Lilly, famoso por tentar conversar com golfinhos, e um astrônomo de 27 anos chamado Carl Sagan. O químico Melvin Calvin recebeu, durante a reunião, a notícia de que havia ganhado o Prêmio Nobel. Em homenagem às pesquisas de Lilly, o grupo se autodenominou a Ordem do Golfinho.

A equação nasceu da necessidade prosaica de uma pauta. Segundo o relato escrito por sua filha, a jornalista de ciência Nadia Drake, o radioastrônomo rabiscou a fórmula quase por impulso, para dar aos poucos participantes um roteiro de discussão: cada fator seria um tema da conferência, e o produto de todos eles, uma estimativa do que se estava procurando. Drake, que morreu em 2022 aos 92 anos, contou até o fim da vida que ficava atônito com a importância que aquela improvisação adquiriu. O que fora concebido como agenda de dois dias virou símbolo de uma disciplina inteira, estampado em camisetas, livros didáticos e no imaginário popular. Poucas fórmulas tão simples geraram tanta discussão com tão poucos dados.

A fama veio aos poucos e por mãos alheias. Em 1966, Sagan e o astrônomo soviético Iosif Shklovsky publicaram Intelligent Life in the Universe, livro que apresentou a fórmula a um público amplo dos dois lados da Cortina de Ferro; em 1980, a série Cosmos a levou a centenas de milhões de espectadores, com Sagan preenchendo os fatores diante das câmeras e mostrando como o resultado oscila entre um punhado e milhões de civilizações conforme a escolha do último termo. Desde então ela aparece em cursos introdutórios de astronomia, em romances de ficção científica e em debates sobre a colonização de Marte. Poucas ideias científicas atravessaram tão bem a fronteira entre a sala de aula e a cultura popular sem perder a forma original.

Escrita por extenso, a equação é uma multiplicação de sete termos: N = R* × fp × ne × fl × fi × fc × L. O resultado, N, é o número de civilizações inteligentes na Via Láctea com as quais poderíamos, um dia, nos comunicar. A lógica é a de um funil. Começa-se com o ritmo em que a galáxia fabrica estrelas e, a cada fator, filtra-se uma fração: quantas dessas estrelas têm planetas, quantos desses planetas poderiam abrigar vida, em quantos a vida de fato surge, em quantos ela se torna inteligente, quantas inteligências desenvolvem tecnologia capaz de atravessar o espaço e, por quanto tempo, em média, cada uma delas permanece detectável. Multiplicar frações é o mesmo que estreitar o funil, e o que sai pela ponta é a estimativa.

A equação tal como Drake a escreveu em 1961: a taxa de formação estelar da galáxia (R*) multiplicada por seis frações sucessivas resulta em N, o número de civilizações detectáveis na Via Láctea.Crédito: Frank Drake, 1961; reproduzida na coluna de Leah Crane, New Scientist.

Os primeiros termos são relativamente simples, e é neles que a equação mais se parece com astronomia convencional. R* representa a taxa de formação estelar da galáxia, medida hoje em cerca de uma a três estrelas por ano. Pode parecer pouco para um sistema que acumula algo entre 100 e 400 bilhões de estrelas, mas é preciso lembrar que a Via Láctea tem mais de 13 bilhões de anos e já passou por épocas bem mais produtivas. A medida vem de contar o gás frio disponível, as regiões de formação estelar e a luz das estrelas jovens e massivas, cuja vida curta funciona como um cronômetro. A maior parte das estrelas que nascem hoje são anãs vermelhas, menores e mais frias do que o Sol, e é também por isso que o termo seguinte importa tanto.

A fração dessas estrelas que possuem sistemas planetários é fp, e a resposta moderna é um número próximo de 1: quase todas as estrelas parecem ter planetas. Em 1961 isso era pura conjectura, pois nenhum planeta fora do Sistema Solar havia sido detectado. O primeiro mundo em torno de uma estrela semelhante ao Sol, 51 Pegasi b, só apareceu em 1995, e desde então o telescópio espacial Kepler, o TESS e dezenas de instrumentos em terra elevaram o catálogo a mais de seis mil exoplanetas confirmados. Levantamentos por microlentes gravitacionais, capazes de flagrar planetas que não transitam nem puxam visivelmente suas estrelas, sugerem que há em média pelo menos um planeta por estrela na galáxia. Um termo que Drake deixou em aberto passou a ser, em pouco mais de três décadas, um dos mais bem medidos.

O terceiro fator, ne, é o número de planetas por estrela com ambiente adequado à vida, e aqui, nas palavras de Crane, as coisas começam a se complicar. Adequado à vida é uma ideia ampla e difícil de definir. O requisito mais básico, o de que o planeta orbite dentro da zona habitável de sua estrela, a faixa de distâncias em que a temperatura permite água líquida na superfície, vale para a vida parecida com a terrestre, a única que conhecemos, mas nada garante que outras formas de vida tenham as mesmas necessidades. O conceito foi formalizado no fim dos anos 1950 justamente por Su-Shu Huang, um dos participantes de Green Bank, e continua sendo a régua mais usada da astrobiologia, apesar de todos os seus limites.

O Sistema Solar ilustra o problema. Contados pela régua da água líquida, há dois ou três planetas na zona habitável do Sol, dependendo de onde se traçam as fronteiras, mas Vênus, com a superfície a mais de 460 graus Celsius sob uma atmosfera de dióxido de carbono noventa vezes mais densa que a nossa, e Marte, frio, seco e sem campo magnético global, não parecem particularmente hospitaleiros. Enquanto isso, longe da faixa teórica, luas geladas como Europa, Encélado e Titã escondem oceanos de água líquida sob quilômetros de gelo, aquecidos pela maré gravitacional de Júpiter e Saturno, e podem muito bem ser habitáveis. Um fator que parecia uma questão de geometria orbital revela-se, na prática, uma pergunta sobre o que a vida realmente exige.

Esse é, como escreve Crane, o primeiro ponto em que a equação nos obriga a dar um palpite instruído. As estatísticas do Kepler ajudaram: dependendo das premissas adotadas sobre o tamanho dos planetas e a largura da zona habitável, as estimativas de quantas estrelas semelhantes ao Sol abrigam um mundo rochoso na faixa temperada vão de uma em cada cinco a uma em cada duas. Para as anãs vermelhas, que dominam a população estelar, sistemas como o TRAPPIST-1, com sete planetas do tamanho da Terra espremidos em órbitas menores do que a de Mercúrio, mostram que a geometria favorável é comum. O que ninguém sabe é quantos desses mundos mantêm atmosfera, água e estabilidade climática por tempo suficiente para que o fator seguinte entre em cena.

Logo atrás vem fl, a fração dos planetas habitáveis em que a vida de fato surge, e com ela a equação deixa a astronomia e entra em território quase filosófico. A amostra disponível é ainda menor: a vida foi encontrada em um único lugar, a Terra. O número pode ser minúsculo ou pode ser 1, e a colunista lembra que a definição inclui a vida que apareça em qualquer momento da história de um planeta, não apenas a que existe hoje. Até que se encontre vida em outro mundo, discutir fl será mais um debate de ideias do que de medições. É um fator que a tecnologia de 1961 não tinha como tocar e que a de 2026 apenas começa a rodear.

Há, contudo, uma pista oferecida pelo nosso próprio planeta. A Terra se formou há cerca de 4,5 bilhões de anos, e as evidências mais antigas e bem aceitas de vida, estromatólitos fósseis na Austrália e assinaturas químicas de carbono em rochas da Groenlândia, têm entre 3,5 e 3,7 bilhões de anos. Descontado o período em que a superfície era bombardeada por asteroides e coberta de lava, a vida apareceu quase assim que as condições permitiram. Para alguns pesquisadores, essa rapidez sugere que a origem da vida é um processo fácil, que se repete onde houver água, química orgânica e energia. Para outros, trata-se de um viés inevitável: só existimos para fazer a pergunta porque, aqui, deu certo cedo. Com um único exemplo, as duas leituras continuam de pé.

A próxima geração de dados sobre fl virá de três frentes. A primeira é Marte, onde o rover Perseverance identificou, numa rocha chamada Cheyava Falls, padrões minerais que a NASA descreveu em 2025 como possível bioassinatura, cabendo agora decidir como e quando trazer as amostras lacradas de volta à Terra. A segunda são as luas oceânicas: a sonda Europa Clipper deve chegar a Júpiter em 2030, a europeia JUICE em 2031, e o helicóptero Dragonfly tem lançamento previsto para 2028 rumo a Titã. A terceira é o telescópio espacial James Webb, que já lê a composição de atmosferas de exoplanetas e, nos próximos anos, deve dizer se mundos rochosos em torno de anãs vermelhas conseguem reter ar. Nenhuma dessas frentes vai medir fl, mas cada uma pode transformar um palpite em um limite.

O mesmo vale para fi, a fração da vida que se torna inteligente, cuja definição, nas palavras da própria colunista, é escorregadia. Na Terra, a vida levou mais de 3 bilhões de anos para passar de células isoladas a organismos complexos, e apenas nos últimos milhões de anos surgiu uma espécie capaz de construir telescópios. Polvos, corvos, elefantes e golfinhos exibem formas de inteligência sofisticadas sem jamais terem fundido um metal. O biólogo Stephen Jay Gould defendia que, se a fita da evolução fosse rebobinada, dificilmente a inteligência humana reapareceria; o paleontólogo Simon Conway Morris sustenta o contrário, apontando quantas vezes a natureza convergiu para olhos, asas e cérebros grandes. A equação não decide a disputa. Ela apenas obriga quem a usa a escolher um lado e a dizer por quê.

Depois vem fc, a fração das formas de vida inteligentes que acabam transmitindo sua existência para o espaço e se tornam, portanto, capazes de se comunicar conosco. Aqui a referência é, de novo, a nossa própria história. A humanidade emite ondas de rádio há pouco mais de um século, e em 1974 o próprio Drake, com a ajuda de Sagan, redigiu a mensagem enviada pelo radiotelescópio de Arecibo em direção ao aglomerado globular M13, a 25 mil anos-luz, três minutos de dados codificados que descrevem o DNA, o Sistema Solar e a figura humana. Mas uma inteligência pode existir sem tecnologia, como as baleias, ou pode ter tecnologia e preferir o silêncio, por prudência ou por desinteresse. O termo embute uma hipótese sobre o comportamento de seres que nunca vimos.

O último fator é L, o tempo durante o qual uma civilização inteligente emite sinais detectáveis para o espaço. Como Carl Sagan apontou repetidas vezes, L depende sobretudo de uma questão que nenhum telescópio responde: se civilizações tecnológicas conseguem evitar a própria destruição. Sagan viveu a Guerra Fria com a sensação de que a espécie que inventara o rádio inventara, poucas décadas depois, a bomba de hidrogênio, e argumentava que o valor de N é quase proporcional a L. Se as civilizações se extinguem logo depois de aprender a transmitir, a galáxia é um lugar vazio na maior parte do tempo; se uma fração delas aprende a durar milhões de anos, o céu deveria estar cheio de vozes. Para estimar L, só nos resta, como escreve Crane, a única evidência disponível: a história humana.

E a história humana oferece uma lição ambígua. A Terra foi um farol de rádio durante boa parte do século XX, com transmissões de televisão e radares militares vazando para o espaço numa casca que hoje se estende por pouco mais de cem anos-luz. Nas últimas décadas, porém, o planeta ficou mais silencioso: a comunicação migrou para fibras ópticas, satélites de feixe estreito e sinais digitais de baixa potência que se confundem com o ruído. Uma civilização pode continuar existindo, e até prosperar, enquanto deixa de ser detectável pelo método que Drake imaginou. O próprio Drake costumava usar um L da ordem de 10 mil anos em seus cálculos, número que ele reconhecia ser mais esperança do que medida. É o fator mais incerto de todos, e também o único que depende de nós.

Quando se reúnem todos os termos, o resultado depende inteiramente de quem escolhe os valores. Combinando as estimativas mais baixas de cada fator, Crane calcula que N pode cair a um trilionésimo ou menos, o que significa, na prática, que estamos totalmente sozinhos na galáxia. Combinando as mais altas, a Via Láctea abrigaria dezenas de milhões de civilizações com as quais poderíamos conversar, um cenário em que, segundo a colunista, seria apenas questão de tempo até encontrá-las. O intervalo entre os dois extremos cobre quase vinte ordens de grandeza, e é nessa amplitude que os críticos da equação costumam apoiar a acusação de que ela não passa de um instrumento para multiplicar ignorâncias e obter mais ignorância.

Os participantes de Green Bank, naquele novembro de 1961, situaram N entre mil e 100 milhões. Crane confessa que a extremidade inferior desse intervalo lhe parece razoável, e tem a honestidade de acrescentar que a estimativa, como as feitas naquela reunião, repousa em grande parte sobre sua opinião pouco científica a respeito de quanto tempo a nossa própria civilização pode durar. É uma confissão reveladora. Mesmo entre os fundadores da disciplina, os valores atribuídos a L nunca vieram de dados, mas de temperamento: otimistas chegavam a centenas de milhões de civilizações, pessimistas a um punhado. Drake, por sua vez, repetiu durante décadas que seu palpite pessoal era algo em torno de 10 mil.

Esse intervalo convive com um fato teimoso. Em 1950, durante um almoço em Los Alamos, o físico Enrico Fermi perguntou aos colegas onde estaria todo mundo: se a galáxia tem bilhões de anos e civilizações poderiam colonizá-la em poucos milhões, mesmo viajando devagar, a ausência de qualquer sinal exige explicação. O chamado paradoxo de Fermi é o contrapeso natural da equação de Drake, e as respostas propostas vão da hipótese da Terra rara, segundo a qual a combinação de condições que gerou vida complexa aqui é excepcional, à ideia de um grande filtro, uma barreira evolutiva ou tecnológica que quase nenhuma espécie atravessa. Cada uma dessas hipóteses, note-se, é apenas uma forma diferente de dizer qual dos sete fatores de Drake é quase zero.

Em 2018, os pesquisadores Anders Sandberg, Eric Drexler e Toby Ord, da Universidade de Oxford, mostraram o quanto essa discussão muda quando os fatores são tratados com honestidade estatística. Em vez de inserir um único número em cada termo, eles usaram distribuições de probabilidade que refletem a incerteza real, com fatores como fl variando por dezenas de ordens de grandeza. O resultado foi que a probabilidade de estarmos sozinhos na galáxia, e até no Universo observável, é substancial, mesmo mantendo valores médios otimistas. O paradoxo de Fermi, concluíram, dissolve-se quando se admite não saber. A lição é a mesma da coluna: o problema nunca foi a equação, mas o hábito de alimentá-la com certezas que ninguém tem.

Outros autores preferiram mudar a pergunta. Em 2016, os astrônomos Adam Frank e Woodruff Sullivan reorganizaram a equação para deixar de lado L, o termo mais incerto, e perguntar apenas se alguma outra civilização tecnológica já existiu, em qualquer época, no Universo observável. Com o número de planetas em zonas habitáveis estimado a partir do Kepler, eles mostraram que a humanidade só seria a única da história cósmica se a probabilidade de uma civilização surgir num planeta habitável fosse inferior a algo como uma em dez bilhões de trilhões. Ser únicos exigiria um pessimismo que beira o absurdo. Estar sozinhos no presente, porém, continua perfeitamente possível, porque o tempo é vasto e as civilizações podem simplesmente não coincidir.

A fórmula também ganhou descendentes. A astrônoma Sara Seager, do MIT, propôs em 2013 uma versão voltada não para sinais de rádio, mas para bioassinaturas, os gases que a vida produz e que telescópios podem detectar em atmosferas de exoplanetas próximos, trocando civilizações por planetas com oxigênio ou metano fora do equilíbrio químico. A busca por inteligência, por sua vez, deixou de se limitar ao rádio e passou a procurar technosignatures, assinaturas tecnológicas, que incluem pulsos de laser, calor residual de megaestruturas e poluição industrial em atmosferas distantes. Cada variante preserva a estrutura original: decompor uma pergunta impossível numa cadeia de perguntas apenas difíceis, estimar cada elo com o melhor conhecimento disponível e aceitar o produto como o que ele é.

Esse procedimento tem nome e tradição. Físicos chamam de problema de Fermi o exercício de estimar, com poucos dados, quantidades aparentemente inacessíveis, como o número de afinadores de piano em Chicago, que Fermi propunha a seus alunos: a população da cidade, a fração de casas com piano, a frequência das afinações e a produtividade de um afinador bastam para chegar a uma resposta razoavelmente próxima da real. O truque funciona porque os erros de cada fator tendem a se compensar, e porque o ato de decompor a pergunta revela que parte dela já é conhecida. A equação de Drake é um problema de Fermi aplicado ao cosmos, com a diferença de que alguns de seus fatores não foram apenas pouco medidos, mas nunca medidos.

É aqui que a coluna de Crane chega ao seu argumento central. O número, escreve ela, não é a parte importante da equação; a parte importante é o processo de estimar cada um de seus termos. Ao fazê-lo, somos obrigados a enfrentar algumas das maiores perguntas da ciência: quão semelhantes à nossa vizinhança cósmica são os outros lugares do Universo? Qual é a probabilidade de que os lugares mais parecidos com o nosso desenvolvam vida? O que é vida, afinal? Do que ela realmente precisa? O que é inteligência? Como procurá-la? E por quanto tempo seremos capazes de procurá-la? Nenhuma dessas questões tem resposta definitiva, mas pensar nelas ajuda a orientar a pesquisa científica e, mais do que isso, dá uma noção do nosso lugar no grande esquema do Universo.

Essa não é uma afirmação retórica. Boa parte da astronomia das últimas décadas pode ser lida como uma tentativa de medir, um a um, os termos de Drake. O Kepler foi concebido para descobrir quão comuns são os planetas do tamanho da Terra em zonas habitáveis, ou seja, para transformar fp e ne em números. O James Webb mede atmosferas porque uma atmosfera com gases fora do equilíbrio é o caminho mais curto para fl. As missões às luas oceânicas testam, no único laboratório ao nosso alcance, se habitável e habitado são a mesma coisa. Até o programa de amostras marcianas é, em última análise, uma aposta de bilhões de dólares em um único fator de uma fórmula escrita num quadro-negro.

O destino da própria busca por sinais mostra como a equação ajudou a manter a questão respeitável. Em 1993, o Congresso dos Estados Unidos cancelou o programa de SETI da NASA um ano depois de ele começar, e um senador ironizou que não se achara um único marciano. A pesquisa sobreviveu com dinheiro privado, no Instituto SETI, que Drake presidiu, e ganhou escala em 2015 com o Breakthrough Listen, programa de 100 milhões de dólares que compra tempo no radiotelescópio de Green Bank, hoje com 100 metros de abertura, e no Parkes, na Austrália, para varrer um milhão de estrelas próximas. A partir de 2018, a NASA voltou a apoiar estudos sobre assinaturas tecnológicas. Em cada uma dessas reviravoltas, a justificativa científica foi a mesma lista de sete fatores.

Para quem olha o céu do hemisfério sul, a pergunta ganha contornos concretos. A foto que ilustra a coluna de Crane mostra o arco da Via Láctea erguido sobre uma praia, com as duas Nuvens de Magalhães, galáxias-satélite visíveis sobretudo do hemisfério sul, pairando à direita como manchas de névoa. É o céu que se vê de uma praia deserta do litoral brasileiro ou do interior de Minas Gerais em noite sem Lua. Cada um dos pontos daquela faixa leitosa é uma estrela, e cada estrela, pela estatística de fp, provavelmente carrega planetas. A equação de Drake é, no fim das contas, uma maneira de olhar para essa imagem e, em vez de sentir apenas o assombro, perguntar com método: desses bilhões de pontos, quantos abrigam alguém que também está olhando?

Sessenta e cinco anos depois do quadro-negro, o balanço dos sete termos é desigual. Dois deles, R* e fp, saíram do terreno da conjectura e viraram medidas razoavelmente sólidas. Um terceiro, ne, tem limites cada vez mais apertados, ainda que a definição de habitável siga em disputa. Os quatro restantes, fl, fi, fc e L, continuam exatamente onde Drake os deixou: sem um único dado além da Terra. Essa assimetria, longe de desmoralizar a equação, é o seu maior serviço. Ela mostra, com clareza de mapa, onde a fronteira do conhecimento avançou e onde ela não se moveu um milímetro, e indica, portanto, para onde as próximas décadas de telescópios e sondas precisam apontar.

Termo O que mede Situação em 2026
R* Taxa de formação de estrelas na galáxiaDe 1 a 3 estrelas por ano Medido
fp Fração das estrelas com planetasPerto de 1: quase todas Medido
ne Planetas habitáveis por estrelaDois ou três no Sistema Solar, mais as luas oceânicas Com limites
fl Fração em que a vida surgeUm único exemplo: a Terra Sem dados
fi Fração em que a vida se torna inteligenteDefinição de inteligência em disputa Sem dados
fc Fração que transmite sua existênciaA humanidade emite há pouco mais de um século Sem dados
L Tempo em que uma civilização permanece detectávelDepende de evitar a autodestruição Sem dados
Os sete termos 65 anos depois: dois medidos, um com limites cada vez mais estreitos e quatro ainda sem nenhum dado além da Terra.Arte: Space Today.

Há um paralelo útil na história da ciência. Antes de Mendeleiev, ninguém sabia quantos elementos químicos existiam; ao organizar os conhecidos numa tabela com lacunas, ele transformou a ignorância em previsão, e os buracos foram preenchidos um a um, do gálio ao germânio, nas décadas seguintes. A equação de Drake funciona como uma tabela periódica da nossa solidão: suas casas vazias não são fracassos, são endereços. Dizer que fl é desconhecido é muito diferente de dizer que a vida extraterrestre é um mistério insondável. O primeiro enunciado tem a forma de um programa de pesquisa, com instrumentos, prazos e critérios de sucesso. O segundo é apenas um suspiro.

O método tem riscos, e Crane não os esconde. Um palpite instruído que esquece ser palpite vira dogma, e a história do SETI tem exemplos de números repetidos por tanto tempo que passaram a soar como medições. A faixa de mil a 100 milhões de civilizações estabelecida em Green Bank foi citada por décadas como se tivesse sido observada, quando era o retrato do otimismo de dez pessoas em 1961. O antídoto é o que a própria equação propõe: tornar cada suposição explícita, para que possa ser contestada, e atualizar os valores sempre que um dado novo aparece. Uma fórmula que ninguém atualiza deixa de ser ferramenta de pensamento e vira relíquia. A de Drake só continua viva porque seus termos continuam mudando.

O horizonte das próximas décadas promete alterar pelo menos mais um termo. A NASA planeja para a década de 2040 o Observatório de Mundos Habitáveis, um telescópio espacial desenhado para fotografar diretamente cerca de 25 planetas do tamanho da Terra em torno de estrelas próximas e procurar, em suas atmosferas, oxigênio, ozônio, metano e vapor de água em combinações que a química sem vida não explica. Em terra, o Observatório Vera Rubin, no Chile, e os telescópios de 25 a 40 metros em construção vão multiplicar os alvos. Se uma única bioassinatura convincente for confirmada, fl deixará de ser uma opinião. Se nenhuma aparecer em algumas dezenas de mundos, o próprio silêncio passará a ter valor numérico, e o limite superior de N encolherá pela primeira vez com base em dados.

A pergunta mais desconcertante da lista de Crane talvez seja a mais simples: o que é vida, afinal? A NASA adota, como definição de trabalho, a de um sistema químico autossustentável capaz de evolução darwiniana, formulação que funciona para o que conhecemos e que pode falhar diante do que não conhecemos. A equação de Drake obriga esse debate a sair dos departamentos de filosofia e a produzir critérios operacionais, porque um telescópio precisa saber o que procurar. É por isso que químicos discutem quais moléculas só a vida fabrica, geólogos estudam como distinguir um fóssil de uma estrutura mineral e astrônomos calculam quanto oxigênio uma atmosfera morta consegue acumular. O termo fl é, na prática, um programa de trabalho para três ou quatro disciplinas.

A última pergunta da lista, por quanto tempo seremos capazes de procurar, devolve a equação a quem a usa. L não descreve apenas civilizações hipotéticas; descreve a nossa. Uma sociedade que mantém observatórios funcionando por séculos tem chances muito maiores de ouvir algo do que uma que os desliga a cada crise orçamentária. Sagan dizia que a busca por inteligência extraterrestre era, também, uma busca por nós mesmos, uma forma de perguntar se espécies tecnológicas conseguem sobreviver à própria adolescência. Visto assim, cada investimento em ciência de longo prazo, cada tratado de não proliferação e cada década sem guerra nuclear acrescenta um pouco a L, e portanto a N, sem que nenhuma antena precise ser apontada para o céu.

É por isso, escreve Crane, que professores dizem a seus alunos para dar um palpite instruído, e é por isso que a equação de Drake ainda é considerada tão importante. A resposta provisória não substitui a resposta certa, mas organiza a procura por ela. Quem se recusa a estimar não protege a ciência da especulação; apenas deixa a especulação sem controle, solta nos documentários e nas redes, enquanto os instrumentos capazes de testá-la ficam sem uma pergunta clara. O valor de um palpite instruído, conclui a colunista, está em levar em conta o que se sabe e o que ainda está lá fora, esperando para ser conhecido.

Os nomes mais conhecidos da Ordem do Golfinho não estão mais aqui para ver a fórmula chegar aos 65 anos. Struve morreu em 1963, Sagan em 1996, Morrison em 2005, e o próprio Drake, em 2022, depois de passar seis décadas insistindo que o valor da equação não estava no resultado. A linha de giz, porém, atravessou o tempo intacta, com os mesmos sete fatores, à espera de que cada geração preencha o que puder. Numa noite de céu limpo, diante do arco da Via Láctea, qualquer pessoa pode fazer o mesmo exercício que dez cientistas fizeram num vale da Virgínia Ocidental: contar estrelas, estimar planetas, imaginar oceanos e chegar a um número que vale menos do que o caminho percorrido para alcançá-lo. A pergunta continua sem resposta. Pela primeira vez na história, porém, ela tem endereço.