Íons pesados medidos pela Solar Orbiter a 82 milhões de quilômetros do Sol mostram que o switchback nasceu de alças quentes na coroa, abertas por reconexão magnética, e viajou como uma onda

Durante uma hora e meia, na noite de 2 de março de 2022, o campo magnético do Sol fez algo que ainda intriga os físicos: dobrou-se sobre si mesmo. A 82 milhões de quilômetros da nossa estrela, a sonda Solar Orbiter atravessava um vento de partículas que corria a mais de 440 quilômetros por segundo quando a linha de campo que a envolvia, apontada para o Sol, virou de repente para a direção contrária, permaneceu assim por noventa minutos e depois voltou ao normal, como um rio que por um instante corresse morro acima. A estrutura tem nome, switchback, termo inglês que designa a curva fechada em ziguezague de uma estrada de montanha, e tem sido registrada às centenas pelas naves que se aproximam do Sol. O que ninguém havia conseguido até agora era ler nela o endereço do remetente. Dessa vez, a dobra carregava uma assinatura química.

Essa assinatura está descrita em um artigo publicado em 8 de outubro na revista Nature Astronomy por uma equipe de 24 pesquisadores de 18 instituições em sete países, liderada pelo físico Jesse Coburn, do Mullard Space Science Laboratory, da University College London, e do Laboratoire de Physique des Plasmas, ligado à École Polytechnique, na França. Com o Sensor de Íons Pesados da Solar Orbiter, os autores mediram, dentro da reversão magnética, uma mistura de oxigênio e carbono bem mais ionizada do que a do vento ao redor e, ao mesmo tempo, uma escassez de hélio em relação ao hidrogênio. As duas pistas apontam para um único tipo de berço: alças magnéticas fechadas e quentes na baixa coroa solar, abertas por um processo chamado reconexão de intercâmbio. É o que a equipe descreve como evidência direta da fonte solar de uma dessas estruturas, algo que os estudos anteriores só haviam conseguido sugerir por estatística.

Para entender o peso dessa frase, é preciso voltar ao vento. O Sol não termina na sua superfície visível. Dele escapa, sem pausa, um fluxo de prótons, elétrons e núcleos mais pesados que preenche todo o Sistema Solar e empurra as caudas dos cometas na direção oposta à estrela. Eugene Parker previu esse fluxo em 1958, contra a opinião da maioria dos colegas, e a sonda Mariner 2 confirmou sua existência em 1962, a caminho de Vênus.

Seis décadas depois, sabemos que o vento solar sopra a velocidades entre 300 e 800 quilômetros por segundo e que ele nasce na coroa, a atmosfera externa do Sol, aquecida a mais de um milhão de graus enquanto a fotosfera, logo abaixo, permanece em modestos 5.800 kelvin. Como uma camada tão distante da fornalha nuclear fica centenas de vezes mais quente do que a superfície, e de onde vem a energia que acelera o vento, são dois dos problemas mais antigos e mais abertos da física solar.

Há duas grandes famílias de respostas, e elas disputam o mesmo território há décadas. A primeira aposta em ondas e turbulência: perturbações magnéticas geradas pelo borbulhar da superfície solar sobem pelas linhas de campo como vibrações em cordas de violão, as ondas de Alfvén, previstas por Hannes Alfvén em 1942, e dissipam sua energia na coroa, aquecendo o gás e empurrando o vento. A segunda aposta na reconexão magnética: linhas de campo de orientações opostas que se encontram, se rompem e se reconectam em novas configurações, liberando de uma só vez a energia que estava armazenada na tensão do campo, como um elástico esticado que se solta.

Comparar as duas hipóteses com as observações é um exercício frustrante, porque a atmosfera solar muda de regime a cada camada: o plasma passa de parcialmente a totalmente ionizado, de colisional a quase sem colisões, de campo fechado a campo aberto, e a própria luz que ele emite troca de mecanismo no caminho. Cada camada exige uma técnica diferente de observação, e as técnicas raramente conversam entre si.

É nesse impasse que os switchbacks entram como uma oportunidade rara. Para visualizar o que são, imagine o campo magnético do Sol como um feixe de cordas presas à estrela pela base e arrastadas pelo vento, que as estica em espiral pelo espaço interplanetário. Um switchback é um trecho em que uma dessas cordas, em vez de seguir reta para fora, faz uma volta em forma de S: o componente radial do campo, aquele que aponta para longe do Sol ou na direção dele, inverte o sinal por alguns segundos, minutos ou, mais raramente, horas, e depois retorna. A intensidade total do campo quase não muda durante a dobra, mas o plasma dentro dela acelera, um comportamento típico de ondas de Alfvén de grande amplitude. Não se trata de uma inversão verdadeira da polaridade magnética, como ocorre quando a nave atravessa a fronteira entre dois setores do campo heliosférico. A corda continua presa ao mesmo ponto do Sol; ela apenas se dobrou.

A prova de que a corda não trocou de ponta vem dos elétrons. Entre as partículas do vento solar existe uma população rarefeita e energética que corre ao longo das linhas de campo em feixe estreito, sempre no sentido de afastamento do Sol, conhecida pelo termo alemão strahl, que significa raio ou jato. Esse feixe funciona como uma bússola: como os elétrons sempre fogem da estrela, a direção em que eles viajam em relação ao campo revela se a linha aponta para o Sol ou para longe dele. Quando o campo radial se inverte mas o feixe continua apontando no mesmo sentido relativo, a conclusão é inequívoca: a linha dobrou, não mudou de polaridade. Foi exatamente isso que a Solar Orbiter registrou em todas as reversões daquela noite de março. O ângulo do feixe permaneceu cravado em 180 graus, a assinatura de um campo voltado para o Sol, do começo ao fim do intervalo.

Reversões desse tipo são conhecidas desde os primórdios da era espacial. A sonda Pioneer 6 as detectou ainda em 1966, e a Ulysses, ao sobrevoar os polos solares na década de 1990, mostrou que elas eram comuns no vento rápido das altas latitudes. O tema, porém, só ganhou o centro do palco em dezembro de 2019, quando a Parker Solar Probe, lançada no ano anterior para tocar a coroa, publicou na Nature os resultados de suas primeiras passagens a menos de 25 milhões de quilômetros do Sol. Os dados mostravam picos de velocidade e dobras magnéticas em profusão, com uma frequência que cresce quanto mais perto da estrela a nave está. Desde então, a palavra switchback saiu dos artigos técnicos para o vocabulário corrente da heliofísica, e a pergunta que ela carrega ficou mais urgente: essas estruturas nascem na coroa ou se formam no caminho?

As duas respostas possíveis repetem, ponto por ponto, a divisão sobre o aquecimento coronal. De um lado, há quem defenda que os switchbacks são o rastro direto da reconexão de intercâmbio, na qual alças magnéticas fechadas se reconectam com linhas abertas na base da coroa e lançam plasma e torções para o espaço. Em 2023, outro estudo na Nature, também com dados da Parker Solar Probe, atribuiu a esse mecanismo a própria origem do vento solar rápido que sai dos buracos coronais, com estruturas moduladas na escala da supergranulação, as células de convecção de cerca de 30 mil quilômetros que ladrilham a superfície do Sol.

Na frente oposta, modelos mostram que ondas de Alfvén de grande amplitude, cisalhamentos de velocidade e a própria expansão da turbulência podem gerar dobras espontaneamente no vento em trânsito, longe de qualquer reconexão. Indícios de que as estruturas guardam memória da coroa existiam: a modulação da amplitude na escala supergranular, a variação da taxa de ocorrência com a distância e estatísticas de composição elementar. Faltava um caso individual com medições diretas.

A Solar Orbiter foi construída para fechar esse tipo de lacuna. Lançada em 10 de fevereiro de 2020 de Cabo Canaveral, a bordo de um foguete Atlas V, a nave é uma missão da Agência Espacial Europeia com participação da NASA e carrega dez instrumentos, seis deles telescópios que observam o Sol à distância e quatro sensores que medem o plasma e os campos no local em que a sonda está. A combinação é a sua razão de existir: enquanto os telescópios fotografam a região da coroa que está lançando vento, os sensores analisam o vento que chega, e os cientistas tentam ligar uma coisa à outra.

Em 2 de março de 2022, a nave estava a 0,55 unidade astronômica do Sol, cerca de 120 raios solares ou 82 milhões de quilômetros, pouco mais da metade da distância da Terra, a três semanas de seu primeiro periélio próximo, que a levaria a 0,32 unidade astronômica no dia 26 daquele mês. Era a distância ideal para este trabalho: longe o bastante para que os íons já tivessem congelado seus estados de carga, perto o bastante para que as dobras magnéticas ainda não tivessem sido apagadas pela viagem.

Quatro sensores entraram na análise. O magnetômetro MAG, um par de instrumentos do tipo fluxgate desenvolvido no Imperial College de Londres, mediu o vetor do campo oito vezes por segundo. O conjunto Solar Wind Analyser, liderado pelo Mullard Space Science Laboratory, contribuiu com três detectores: o Proton Analyser Sensor, que registra prótons e núcleos de hélio a cada quatro segundos; o Electron Analyser Sensor, dois analisadores eletrostáticos dedicados aos elétrons, de onde vieram a bússola do feixe e a temperatura eletrônica; e o Heavy Ion Sensor, HIS, construído no Southwest Research Institute, no Texas, que é a peça central desta história. Os cientistas responsáveis pelos três instrumentos, Timothy Horbury, Christopher Owen e Stefano Livi, assinam o artigo, assim como pesquisadores da equipe que calibrou o HIS e preparou dados de oxigênio especialmente para esta investigação.

O que o HIS faz, em essência, é ler a temperatura de um lugar onde a nave nunca esteve. O truque se chama freeze-in, o congelamento dos estados de carga, e foi reconhecido ainda nos anos 1960. Na coroa, colisões com elétrons quentes arrancam elétrons dos átomos de oxigênio, carbono e ferro; quanto mais quente o gás, mais elétrons perdidos e mais alto o estado de carga.

À medida que o vento se afasta e a densidade despenca, as colisões ficam tão raras que os íons simplesmente param de trocar elétrons com o meio. Segundo o artigo, isso acontece a menos de cinco raios solares do centro do Sol. Dali em diante, a proporção entre, por exemplo, oxigênio com sete elétrons a menos e oxigênio com seis a menos viaja intacta pelo espaço, como uma fotografia revelada da temperatura da coroa no instante da partida. Um sensor que conte esses íons a 82 milhões de quilômetros está, na prática, lendo um termômetro lacrado na origem.

Contar esses íons é um trabalho de paciência. O HIS é um analisador eletrostático acoplado a um telescópio de tempo de voo e a detectores de estado sólido: ele seleciona as partículas pela razão entre energia e carga, cronometra quanto tempo cada uma leva para percorrer uma distância conhecida e mede a energia total do impacto, o que permite reconstruir massa, carga e velocidade de cada íon.

O oxigênio sete vezes ionizado é raro no vento de um buraco coronal, e os números do artigo dão a medida do desafio: nas janelas de 30 segundos usadas para o oxigênio, a contagem média foi de 277 íons de O6+ contra apenas 19 de O7+. É a partir dessas poucas dezenas de partículas, acumuladas e tratadas estatisticamente, que a equipe construiu as razões de carga que sustentam o resultado. Para o carbono, as cadências foram mais lentas, de dez minutos, o que explica por que as curvas de carbono do artigo têm menos pontos.

O hélio conta uma segunda parte da história, e por um motivo diferente. Entre todos os elementos, ele é o que tem a maior energia de primeira ionização, 24,6 elétron-volts, o que o torna o mais arredio a perder o seu primeiro elétron. Na cromosfera, a camada entre a fotosfera e a coroa, elementos como ferro, silício e magnésio já estão ionizados enquanto o hélio continua neutro, e os mecanismos que erguem o material ionizado para dentro das alças magnéticas fechadas, ligados ao aquecimento por ondas e às colisões entre espécies, deixam o hélio para trás.

O resultado é um fracionamento químico bem documentado: o plasma que fica preso em alças quentes e fechadas sai pobre em hélio, enquanto o vento que escapa direto do campo aberto dos buracos coronais preserva uma proporção mais alta. Medir a razão entre hélio e hidrogênio no vento é, portanto, perguntar ao plasma se ele passou um tempo trancado em uma alça antes de ser solto.

Com esses dois termômetros químicos calibrados, voltemos à noite de 2 de março. A equipe concentrou a análise em uma janela de seis horas, e nela o magnetômetro registrou cinco intervalos em que o campo radial inverteu o sentido, sempre com o feixe de elétrons apontando para o mesmo lado, ou seja, cinco switchbacks. O maior deles durou das 20h25 às 21h55 pelo horário universal, uma hora e meia, uma duração longa em comparação com as distribuições de tempo medidas pela Parker Solar Probe, nas quais predominam estruturas de segundos a poucos minutos. A longa duração foi uma sorte: ela deu ao HIS, com suas cadências de 30 segundos e dez minutos, pontos suficientes dentro da dobra para que a composição pudesse ser medida com confiança, algo que nos quatro eventos mais curtos ficou no limite do ruído instrumental.

Dentro da grande dobra, tudo mudou ao mesmo tempo. As três razões de estado de carga monitoradas, oxigênio O7+ sobre O6+ e carbono C6+ sobre C4+ e sobre C5+, subiram em sincronia com a reversão do campo e caíram com ela. Segundo os gráficos do artigo, a razão de oxigênio praticamente dobrou, de cerca de 0,06 no vento ambiente para perto de 0,12 no pico, e a razão entre carbono seis e quatro vezes ionizado passou de aproximadamente 2 para quase 5.

Em paralelo, a temperatura dos elétrons subiu e a razão entre hélio e prótons caiu. Os autores mostram que, ao longo de todo o intervalo, temperatura eletrônica e razão de oxigênio andam juntas e ambas se movem ao contrário da abundância de hélio, e que esse padrão se repete, em escala menor, em cada uma das reversões. Três testemunhas independentes, lidas por sensores diferentes, apontando para a mesma conclusão: o plasma dentro da dobra veio de um lugar mais quente e mais pobre em hélio do que o vento ao redor.

Figura 2 do artigo de Coburn et al. (2026)
Figura 2. Medições feitas pela Solar Orbiter em 2 de março de 2022. Em (a), a distribuição de ângulo de arremesso dos elétrons suprathermais, com o feixe cravado em 180 graus durante todo o intervalo; em (b), o campo magnético em coordenadas RTN, com as reversões do componente radial sombreadas em amarelo; em (c), as três razões de estado de carga de oxigênio e carbono, que sobem junto com a grande dobra das 20h25 às 21h55; em (d), as velocidades radiais de prótons e íons pesados e a diferença em relação à velocidade de Alfvén local; em (e), as temperaturas dos prótons e dos íons pesados normalizadas pela massa; em (f), a temperatura eletrônica, a razão hélio/prótons e a razão de oxigênio em alta resolução, todas normalizadas entre 0 e 1.Crédito: Coburn et al., 2026, Nature Astronomy · CC BY 4.0

A velocidade do plasma acrescentou um quarto depoimento, agora sobre a natureza física da dobra. Ao entrar no switchback, os prótons aceleraram em cerca de 50 quilômetros por segundo, um valor que coincide com a velocidade de Alfvén local, a velocidade com que perturbações magnéticas se propagam ao longo das linhas de campo naquele ponto do vento. A intensidade total do campo permaneceu quase constante dentro e fora da estrutura, variando apenas nas bordas. Essa combinação, aceleração igual à velocidade de Alfvén e módulo do campo preservado, é a impressão digital de uma onda de Alfvén de grande amplitude, esfericamente polarizada, viajando para fora do Sol. Em termos práticos, o switchback não é apenas uma dobra parada no vento: ele avança, em relação ao fluxo ao redor, com a velocidade de uma onda magnética, cerca de 50 quilômetros por segundo mais rápido do que o vento que o carrega.

Os íons pesados também se comportaram como se estivessem surfando essa onda. Fora da dobra, oxigênio e hélio corriam um pouco mais rápido do que os prótons ao longo do campo, um fenômeno conhecido há décadas e atribuído à absorção preferencial da energia das ondas pelos íons mais pesados. Dentro dela, a diferença trocou de sinal: os íons pesados passaram a ficar ligeiramente para trás, com a diferença de velocidade sempre próxima da velocidade de Alfvén.

Essa inversão é exatamente o que a teoria prevê para flutuações alfvênicas de grande amplitude em um plasma com várias espécies de íons, e tem uma consequência importante: se a deriva relativa superasse a velocidade de fase da onda, o plasma se tornaria instável e os íons se desgarrariam; como ela se mantém abaixo, o oxigênio e o carbono viajam junto com o switchback enquanto ele se afasta do Sol, levando consigo a memória química da origem. O mensageiro não perde a carta pelo caminho.

As temperaturas completam o retrato. Os prótons dentro do intervalo tinham entre 10 e 20 elétron-volts, o equivalente a algo entre 100 mil e 230 mil kelvin, enquanto os íons pesados estavam muito mais quentes. Se todas as espécies tivessem a mesma velocidade térmica, a temperatura cresceria em proporção à massa, e o oxigênio, 16 vezes mais pesado do que o próton, seria 16 vezes mais quente. Os dados da Solar Orbiter mostram que ele está mais quente do que isso, por um fator de cerca de 1,8 além da proporção de massa, tanto dentro quanto fora da dobra. Esse aquecimento preferencial dos íons pesados é um dos sinais clássicos de processos cinéticos no plasma, como a absorção ressonante de ondas na frequência de giro de cada espécie, e indica que a energização em pequena escala continuou atuando sobre o plasma no caminho entre a coroa e a sonda.

Saber que o plasma veio de um lugar quente e fechado é uma coisa; saber de qual lugar é outra. Para isso, a equipe precisou refazer, de trás para a frente, o caminho do vento até o Sol. A técnica, chamada de retromapeamento balístico, funciona em dois estágios. Da nave até uma superfície imaginária a dois ou dois e meio raios solares do centro do Sol, a chamada superfície-fonte, o campo é modelado como a espiral de Parker, a curva que as linhas de campo descrevem porque o Sol gira enquanto o vento as estica, e a geometria da espiral depende da velocidade do vento medida no local, que naquela janela variou entre 396 e 595 quilômetros por segundo. Da superfície-fonte até a fotosfera, usa-se o modelo potential field source surface, PFSS, que calcula o campo coronal mais simples possível a partir dos magnetogramas da superfície, neste caso os mapas ADAPT da rede GONG, mantida pelo Observatório Solar Nacional dos Estados Unidos.

Dois conjuntos de ferramentas fizeram esse cálculo de forma independente. O primeiro foi a Magnetic Connectivity Tool do Instituto de Pesquisa em Astrofísica e Planetologia de Toulouse, o IRAP, que amostra uma elipse de incerteza em torno da posição da sonda e devolve, para cada instante, uma nuvem de pontos de ancoragem na superfície do Sol com probabilidades associadas, desenhados no artigo como quadrados cuja área cresce com a probabilidade, para uma superfície-fonte a 2,5 raios solares. O segundo combinou o pacote pfsspy com a espiral de Parker, com a superfície-fonte a 2 raios solares, e aparece como círculos. Ao longo da passagem, os pontos de ancoragem vagaram: no fim de 1º de março estavam na borda de uma região ativa no hemisfério norte, depois deslizaram para a margem de um grande buraco coronal equatorial, a mancha escura que domina as imagens, e em seguida foram parar na fronteira de outra região ativa, no hemisfério sul.

Figura 1 do artigo de Coburn et al. (2026)
Figura 1. A fonte solar e os pontos de ancoragem magnética durante o evento. Imagem do SDO/AIA em 193 ångströms, de 28 de fevereiro de 2022, com o grande buraco coronal equatorial (a região escura dentro do contorno preto, que marca 1,2 milhão de kelvin). Os quadrados são as previsões da ferramenta do IRAP, com superfície-fonte a 2,5 raios solares e área proporcional à probabilidade de conexão; os círculos vêm do modelo PFSS com superfície-fonte a 2 raios solares. As cores indicam o instante da observação na sonda, e as duas linhas brancas na barra inferior delimitam a janela de seis horas analisada. O quadro à direita mostra a geometria Sol, Solar Orbiter e Terra pela espiral de Parker; a caixa verde delimita a região da análise de DEM.Crédito: Coburn et al., 2026, Nature Astronomy · CC BY 4.0

Aqui o artigo tem uma reviravolta que merece atenção, porque mostra como a composição do vento pode corrigir um modelo. A previsão mais provável da ferramenta do IRAP para a janela do switchback ligava a sonda a uma região ativa próxima das coordenadas helioprojetivas de 400 segundos de arco de latitude e menos 100 de longitude. A equipe descartou essa conexão por um motivo simples: fora do switchback, as razões de estado de carga permaneceram baixas e típicas de buraco coronal por pelo menos um dia antes e um dia depois da reversão, o que é incompatível com um vento vindo de região ativa.

Sabendo que os modelos PFSS tendem a subestimar o fluxo magnético aberto dos buracos coronais, os pesquisadores baixaram a superfície-fonte para 2 raios solares, e os pontos de ancoragem migraram para dentro do buraco equatorial. Variando a altura entre 1,5 e 3 raios solares, a conclusão não mudou: naquele intervalo, a Solar Orbiter estava, com alta probabilidade, conectada ao grande buraco coronal.

Os autores são francos sobre os limites desse rastreamento. O modelo PFSS fornece soluções estáticas e sem correntes elétricas, uma configuração idealizada de energia mínima que vale bem em condições calmas, mas que é cega a processos dinâmicos como a própria reconexão e as erupções. A superfície-fonte esférica é uma simplificação de uma fronteira real, a superfície de Alfvén, que se deforma em períodos de alta atividade. Em março de 2022, o ciclo solar 25 estava em fase ascendente, com atividade ainda moderada, e nenhuma erupção de grande escala ocorreu perto do buraco coronal ou foi detectada pela sonda, o que favorece a aproximação. Mesmo assim, a equipe deixa claro que usa os mapas de conectividade apenas como guia, e que o peso da conclusão recai sobre as medições locais e sobre o modelo de composição que vem a seguir.

Para saber o que aquele buraco coronal era capaz de produzir, os pesquisadores recorreram a um observador posicionado quase na Terra: o Solar Dynamics Observatory, da NASA, em órbita desde 2010. Seu instrumento Atmospheric Imaging Assembly fotografa a coroa em vários comprimentos de onda do ultravioleta extremo, e a imagem de fundo usada no artigo, registrada em 28 de fevereiro de 2022 às 12h30, mostra a emissão em 193 ångströms, dominada por íons de ferro que brilham a temperaturas de mais de um milhão de kelvin. Nessa luz, buracos coronais aparecem escuros porque o campo aberto deixa o plasma escapar e a região fica rarefeita, regiões ativas aparecem brancas de tão brilhantes, e o Sol calmo ocupa os tons intermediários. Uma única banda de emissão, porém, não se converte com segurança em temperatura e densidade físicas; para isso é preciso combinar várias.

A técnica usada para essa combinação chama-se differential emission measure, DEM, a medida diferencial de emissão: a partir de seis bandas do ultravioleta extremo registradas pelo AIA com resolução de 0,6 segundo de arco, resolve-se um problema inverso que estima quanto plasma existe em cada temperatura ao longo da linha de visada. A equipe empregou o método de inversão regularizada de Iain Hannah e Eduard Kontar e tirou a média dos resultados ao longo de um dia inteiro em torno do momento previsto para a partida do vento. Com a hipótese de equilíbrio hidrostático, usando a gravidade solar de 274 metros por segundo ao quadrado, 28 vezes a terrestre, a DEM também fornece a densidade. O resultado é um mapa, pixel por pixel, da temperatura e da densidade mais prováveis da baixa coroa sobre o buraco e seus arredores, a uma altura de cerca de 1,06 raio solar, onde a emissão desse plasma atinge seu máximo.

Os números desse mapa descrevem um plasma extremo. Dentro do buraco coronal e nas suas margens, a temperatura eletrônica mais provável variou entre 940 mil e 1,2 milhão de kelvin, e a densidade entre 160 e 230 milhões de elétrons por centímetro cúbico, mais de cem bilhões de vezes mais rarefeito do que o ar ao nível do mar. Os três contornos de temperatura traçados no artigo, em magenta, azul e verde, delimitam as regiões em que a coroa está a 0,94, 1,1 e 1,2 milhão de kelvin, com as incertezas calculadas para cada pixel. A escolha do instrumento também diz algo sobre as circunstâncias: o espectrômetro EIS do satélite japonês Hinode não estava operando, e o campo de visão do espectrômetro SPICE da própria Solar Orbiter era pequeno demais para cobrir a região, de modo que o AIA, com sua visão de disco inteiro, foi a única opção.

Figura 3 do artigo de Coburn et al. (2026)
Figura 3. Temperatura (a) e densidade (b) eletrônicas mais prováveis da baixa coroa sobre o buraco coronal, obtidas pela técnica de DEM a partir das seis bandas do ultravioleta extremo do SDO/AIA, com os respectivos erros relativos em (c) e (d). Os contornos em magenta, azul e verde marcam 0,94, 1,1 e 1,2 milhão de kelvin.Crédito: Coburn et al., 2026, Nature Astronomy · CC BY 4.0

Com temperatura e densidade na base, faltava simular o que acontece com os íons entre a baixa coroa e o espaço. A equipe construiu um modelo semiempírico da coroa que se estende de 1,06 até cerca de cinco raios solares, partindo dos perfis de temperatura, densidade e velocidade de uma simulação autoconsistente de um tubo de fluxo em buraco coronal publicada por Steven Cranmer e colegas em 2007, na qual o vento é aquecido e acelerado por turbulência magnetohidrodinâmica. Os perfis foram reescalonados para que sua base coincidisse com os valores medidos pela DEM, gerando uma curva distinta para cada temperatura de partida.

Sobre esses perfis, os pesquisadores resolveram a equação de ionização fora de equilíbrio para cada estado de carga do oxigênio e do carbono, com taxas de ionização e recombinação do banco de dados atômico CHIANTI 10.1 e o código aberto fiasco. A velocidade terminal do modelo, de cerca de 450 quilômetros por segundo, bate com a que a sonda mediu. Cada curva resultante é, na prática, a previsão de quanto oxigênio e carbono altamente ionizados chegariam à sonda se o vento tivesse partido daquele ponto da coroa com aquela temperatura.

O confronto entre modelo e medida é o coração do artigo. As curvas simuladas mostram as três razões de estado de carga subindo com a altura e congelando a cerca de um raio solar acima da superfície, cada uma em um patamar que depende da temperatura da base. Ao lado delas, a equipe plotou os valores medidos pela Solar Orbiter a 120 raios solares: triângulos para a média do vento fora das reversões, quadrados para o pico da grande dobra.

Segundo os gráficos, os triângulos caem sobre o patamar da curva de 1,1 milhão de kelvin, enquanto os quadrados alcançam o patamar da curva de 1,2 milhão. A diferença parece pequena, cem mil kelvin, mas no regime da baixa coroa ela é suficiente para dobrar a razão de oxigênio e mais que dobrar a de carbono, e corresponde justamente ao contraste entre o buraco coronal aberto e o material mais quente das estruturas fechadas que o cercam ou o pontilham.

Figura 4 do artigo de Coburn et al. (2026)
Figura 4. O modelo semiempírico da coroa. À esquerda, os perfis de temperatura (a) e densidade (b) eletrônicas reescalonados para as três temperaturas de base medidas pela DEM, comparados com a simulação de Cranmer e colegas (2007) e com observações de um buraco coronal polar. À direita, a evolução prevista das razões C6+/C4+ (c), C6+/C5+ (d) e O7+/O6+ (e) com a altura, que congelam a cerca de um raio solar acima da superfície. Os triângulos são a média do vento fora das reversões medida pela Solar Orbiter a 120 raios solares; os quadrados, o pico da grande dobra.Crédito: Coburn et al., 2026, Nature Astronomy · CC BY 4.0

O passo seguinte foi transformar essa comparação em um mapa de suspeitos. Aplicando o modelo a cada pixel da DEM, os pesquisadores produziram três imagens do buraco coronal coloridas pelas razões de carga que cada ponto da base seria capaz de gerar. A maior parte do buraco aparece em azul, prevendo valores baixos como os do vento ambiente. Em três lugares, indicados por setas brancas e situados perto dos pontos de ancoragem do modelo de 2 raios solares, as razões previstas atingem os níveis medidos dentro do switchback. Pelo tamanho, pela temperatura e pela posição, a equipe interpreta esses lugares como alças magnéticas fechadas encravadas no interior do buraco, as coronal hole loops, alças de buraco coronal, provavelmente da família dos pontos brilhantes coronais, pequenos laços de plasma quente que pontilham a superfície do Sol e vivem de horas a dias.

Figura 5 do artigo de Coburn et al. (2026)
Figura 5. Mapas das razões de estado de carga congeladas previstas pelo modelo para cada pixel do buraco coronal: O7+/O6+ (a), C6+/C4+ (b) e C6+/C5+ (c). As setas brancas apontam as três regiões em que os valores previstos alcançam os medidos dentro do switchback, interpretadas como alças magnéticas fechadas no interior do buraco; os círculos são os pontos de ancoragem do modelo com superfície-fonte a 2 raios solares. Nas barras de cor, o triângulo marca o vento ambiente e o quadrado, o pico da dobra.Crédito: Coburn et al., 2026, Nature Astronomy · CC BY 4.0

Para estimar o tamanho dessas alças, os autores usaram uma lei de escala clássica da física coronal, que relaciona o comprimento de uma alça à sua temperatura máxima e à sua pressão. Com temperaturas de pico entre 1,30 e 1,53 milhão de kelvin e pressões entre 0,17 e 0,23 dina por centímetro quadrado, as três estruturas teriam comprimentos de 9,50, 7,97 e 12,4 milhões de metros, o que, assumindo alças semicirculares, corresponde a diâmetros de 13, 11 e 18 segundos de arco vistos da Terra, cada segundo de arco equivalendo a cerca de 725 quilômetros na superfície solar.

São objetos de uma dezena de milhares de quilômetros, aproximadamente um terço do tamanho de um supergrânulo. Essa escala não é casual: ela coincide com a das alças invocadas no modelo de vento solar de Lennard Fisk, de 2003, no qual a reconexão de intercâmbio com pequenas alças fechadas injeta energia na coroa e libera massa, e com as estruturas supergranulares que a Parker Solar Probe associou à origem do vento rápido.

Chegamos, assim, ao mecanismo. A reconexão de intercâmbio, interchange reconnection no original, é o encontro entre dois tipos de linha de campo: uma alça fechada, com os dois pés fincados na superfície do Sol, e uma linha aberta, com um pé no Sol e a outra extremidade perdida no espaço interplanetário. Quando as duas são pressionadas uma contra a outra, elas se rompem e se recombinam, e o resultado é uma troca de parceiros: o topo da alça passa a fazer parte da linha aberta, e o plasma que estava aprisionado dentro dela, quente e pobre em hélio por ter passado um tempo confinado, é despejado de uma vez no caminho de saída. A linha recém-formada nasce com uma torção acentuada no ponto da emenda, e essa torção, solta na coroa, não fica parada: ela se propaga para fora como uma onda de Alfvén. É esse o retrato do switchback que o artigo defende, nascido de uma reconexão e viajando como uma onda.

Resta uma ambiguidade honesta sobre o endereço exato. O modelo aponta duas candidatas igualmente compatíveis com os dados: a fronteira do buraco coronal, onde as alças fechadas do Sol calmo encostam no campo aberto, ou as pequenas alças que vivem dentro do próprio buraco. Nos dois casos, o plasma só poderia ter vindo de campo fechado, e a única maneira de material de campo fechado alcançar uma sonda a 82 milhões de quilômetros é por reconexão com o campo aberto. Por isso os autores afirmam, sem rodeios, que o mecanismo que liberou aquele plasma foi a reconexão de intercâmbio, e sustentam a afirmação com um corpo de evidências independentes: observações de que o plasma em alças fechadas é mais quente do que o plasma em campo aberto, simulações que reproduzem essa diferença, e registros de depleção de hélio tanto na coroa sobre o Sol calmo quanto no vento solar lento.

O aspecto mais elegante do resultado é que ele não escolhe um lado na velha disputa; ele distribui os papéis. A reconexão responde pela origem, pelo instante em que o plasma quente é liberado e a torção é criada. As ondas e a turbulência respondem pela propagação, pelo modo como a dobra viaja, acelera o plasma e arrasta os íons pesados consigo. Os próprios autores escrevem que interpretam o caráter alfvênico da estrutura como evidência de que ondas ou turbulência participam da propagação mesmo quando a reconexão é a fonte. Como a divisão entre reconexão e ondas é a mesma que separa as teorias do aquecimento coronal, o switchback vira um laboratório natural: uma estrutura em que os dois processos deixam marcas distintas e mensuráveis, e cuja contabilidade de energia pode, no futuro, dizer quanto cada um contribui.

A equipe também faz questão de dimensionar o que um único caso pode e não pode provar. O switchback principal durou muito mais do que a maioria, e foi essa duração que permitiu a medição; os quatro eventos curtos da mesma noite mostram variações no mesmo sentido, mas de amplitude comparável ao ruído combinado dos instrumentos. A separação entre prótons e hélio, feita com um modelo de mistura de gaussianas, fica mais incerta justamente quando a diferença de velocidade entre as duas espécies troca de sinal, o que acontece dentro das dobras. As incertezas da DEM foram propagadas até o resultado final, e o modelo semiempírico foi testado com soluções semianalíticas para verificar que os erros não confundem as duas regiões candidatas. Os autores pedem estudos estatísticos mais amplos, com períodos em que vários buracos coronais estejam no disco, e missões futuras equipadas com sensores de íons pesados mais sofisticados.

Há ainda a pergunta de por que estruturas tão comuns perto do Sol se tornam raras perto da Terra. O artigo lembra que os switchbacks tendem a ser corroídos ao longo da viagem, seja por reconexão consigo mesmos, quando as duas pernas da dobra se tocam e se anulam, seja por gradientes fortes de densidade que os deformam. Isso explica por que a Parker Solar Probe, passando a poucos milhões de quilômetros da fotosfera, os vê em profusão, e por que a Solar Orbiter, a meio caminho, ainda consegue flagrar exemplares intactos, com a composição preservada. A 150 milhões de quilômetros, nas sondas estacionadas perto da Terra, a maior parte deles já se desfez. A janela em que a mensagem ainda é legível é, portanto, limitada, e a posição da Solar Orbiter naquele março a colocou dentro dela.

Vista em perspectiva, a descoberta é o ponto de encontro de duas missões que se complementam. A Parker Solar Probe, que em dezembro de 2024 fez a aproximação mais próxima da história, a 6,1 milhões de quilômetros da superfície do Sol, vem mostrando de perto onde e com que frequência as dobras nascem, e em 2023 ligou a reconexão de intercâmbio à origem do vento rápido.

A Solar Orbiter, mais distante mas equipada com telescópios e com um sensor de íons pesados que a Parker não carrega, consegue olhar para o Sol e para o vento ao mesmo tempo e fazer a química. Uma das coautoras do novo estudo, Yeimy Rivera, liderou em 2024 um trabalho na Science que usou um alinhamento entre as duas sondas para flagrar ondas de Alfvén aquecendo e acelerando o vento em trânsito. O artigo de agora encaixa a peça que faltava: a composição que liga a onda à alça de onde ela saiu.

O futuro da investigação passa por mais geometria. Desde o sobrevoo de Vênus de fevereiro de 2025, a Solar Orbiter inclinou sua órbita em 17 graus em relação ao plano da eclíptica e começou a enxergar os polos solares de viés, e os próximos sobrevoos vão aumentar essa inclinação ao longo da década, abrindo acesso a buracos coronais polares que nenhuma nave havia observado de perto com imageadores. Cada nova passagem perto do Sol, com os telescópios apontados para a região que alimenta o sensor de partículas, é uma chance de repetir o experimento com outras estruturas, outras alças e outras temperaturas de base. Com uma amostra de dezenas de casos, a técnica descrita no artigo poderia passar de diagnóstico de um evento a ferramenta estatística, capaz de dizer que fração dos switchbacks nasce de reconexão e que fração se forma no caminho.

Há também um dividendo prático. O vento solar é o meio em que vivem os satélites, as redes elétricas e os astronautas, e prever sua velocidade e sua composição depende de entender onde ele nasce e como é acelerado. Modelos de clima espacial hoje tratam a base da coroa de forma simplificada, e o tipo de ligação demonstrado neste estudo, entre uma estrutura medida no espaço e uma região de poucos milhares de quilômetros na superfície solar, é exatamente o que falta para refinar as condições iniciais desses modelos. Se as dobras magnéticas carregam a temperatura de sua origem, elas podem servir de sondas remotas da coroa, dispensando, em parte, a necessidade de observar diretamente cada região fonte.

Mas o ganho maior é conceitual. Durante décadas, a atmosfera do Sol foi estudada em fatias, cada uma com sua técnica e seu vocabulário, e a passagem de uma fatia à outra era o lugar onde as teorias se perdiam. O que este trabalho mostra é que uma única estrutura, com uma hora e meia de leitura cuidadosa de um sensor de partículas, pode atravessar todas as fatias de uma vez: o fracionamento químico da cromosfera, gravado na escassez de hélio; o aquecimento da coroa, gravado nos estados de carga; a energização cinética do caminho, gravada nas temperaturas dos íons; e a propagação como onda, gravada na velocidade. O switchback é, nesse sentido, um registro em camadas, e a equipe de Coburn acaba de demonstrar que ele pode ser lido.

A linha de campo que se dobrou sobre a Solar Orbiter naquela noite de março voltou ao seu lugar depois de noventa minutos e seguiu sua viagem, provavelmente para se desfazer em algum ponto entre a sonda e a órbita da Terra. Antes disso, porém, ela entregou algo que nenhuma dobra havia entregado: o tipo de lugar de onde veio. Pensemos nela como a orelha dobrada no canto de uma página de um livro escrito na coroa, uma marca que, lida com os instrumentos certos, revela não apenas que alguém esteve ali, mas em que capítulo e a que temperatura. A 82 milhões de quilômetros de distância, a caligrafia do Sol continua legível. O que chamávamos de ruído no vento solar pode ser, afinal, correspondência.

FonteCoburn, J. T., Yardley, S. L., Ngampoopun, N., Dewey, R., Rivera, Y. J., De Marco, R., Verscharen, D., Owen, C. J. et al. On the coronal origin of magnetic switchbacks in the solar wind. Nature Astronomy, publicado em 8 de outubro de 2026. DOI: 10.1038/s41550-026-02928-0. Artigo de acesso aberto sob licença Creative Commons Attribution 4.0 (CC BY 4.0); as figuras são reproduzidas do artigo original com atribuição.