Simulação ASTRID mostra que a fração de galáxias com buraco negro guarda a memória das sementes primordiais, das fusões e do ambiente, e que muitos desses objetos vagam longe do centro, fora do alcance das buscas atuais

Um paleontólogo raramente encontra o animal inteiro. O que ele acha é um fêmur deslocado, um dente num leito de rio seco, uma pegada petrificada a centenas de quilômetros do ninho. E, ainda assim, com esses fragmentos fora do lugar, reconstrói a vida de criaturas que ninguém jamais viu. A astrofísica acaba de ganhar um registro fóssil desse tipo. Ele não está enterrado em rocha, mas espalhado pelas galáxias anãs do Universo próximo, e seus fósseis são buracos negros com dezenas de milhares de massas solares, alguns sentados no núcleo das galáxias que os abrigam, outros vagando pelas periferias, deslocados por colisões que terminaram há bilhões de anos. Ler esse registro é o que propõe um novo estudo publicado no The Astrophysical Journal Letters, e a chave de leitura é uma única pergunta, aparentemente simples: que fração das galáxias, afinal, contém um buraco negro?

Essa fração tem nome técnico: black hole occupation fraction, a fração de ocupação de buracos negros, abreviada como BHOF. A definição é direta. Tome todas as galáxias de uma dada massa estelar, a massa somada de todas as suas estrelas, e conte quantas delas hospedam pelo menos um buraco negro massivo; a razão entre esse número e o total é a fração de ocupação. Para galáxias grandes, como a Via Láctea e suas vizinhas de porte semelhante, a resposta é conhecida há décadas e beira os cem por cento. Medidas dinâmicas do movimento de estrelas e gás, o mapeamento por reverberação de núcleos ativos e as correlações estreitas entre a massa do buraco negro central e as propriedades da galáxia hospedeira convergem para o mesmo retrato: galáxia massiva, buraco negro no meio. A informação interessante está onde esse retrato deixa de valer.

A razão é que a fração de ocupação guarda memória das condições em que os primeiros buracos negros nasceram, e essa memória se preserva melhor nas galáxias pequenas. Existem dois caminhos principais para a origem desses objetos, e eles deixam marcas bem diferentes. No primeiro, as sementes são leves: restos de estrelas da chamada População III, a primeira geração estelar do cosmos, que teriam deixado buracos negros de cerca de cem massas solares. Seriam numerosas, mas minúsculas. No segundo, as sementes são pesadas: nascem do colapso direto de nuvens de gás primordial em halos raros e quimicamente puros, com massas iniciais entre dez mil e um milhão de sóis. Seriam raras, mas já nasceriam grandes. A função de massa dos buracos negros e a função de luminosidade dos núcleos ativos são remodeladas pela acreção, pelas fusões e pelo feedback, a devolução de energia ao ambiente; a fração de ocupação, por ser apenas uma contagem de presença, resiste melhor a essa remodelagem.

Nas galáxias massivas, as duas trilhas convergem depressa. A montagem hierárquica, em que estruturas pequenas se fundem para formar estruturas maiores, e o crescimento eficiente dos buracos negros levam a fração de ocupação a saturar em cem por cento, apagando qualquer vestígio de como tudo começou. É nas galáxias de baixa massa, que passaram por poucas fusões e cresceram devagar, que a impressão digital da semeadura deveria sobreviver até hoje. Uma galáxia anã do Universo local funciona, nesse sentido, como uma camada de sedimento pouco perturbada: o que está lá dentro conta como o depósito se formou. O problema é que essa é também a camada mais difícil de escavar.

Detectar um buraco negro em uma galáxia anã exige, pela via dinâmica, resolução espacial fina o bastante para medir o movimento de estrelas numa região minúscula, o que restringe o método às galáxias mais próximas. A via alternativa, procurar a radiação emitida pelo gás que cai no buraco negro, só enxerga os objetos que estão ativamente acretando acima do limiar de sensibilidade de cada levantamento, seja no óptico, no rádio, nos raios X ou no infravermelho. A fração de ocupação medida assim depende da física da acreção, do ciclo de atividade, do obscurecimento por poeira e dos vieses de seleção. É como tentar contar os faróis de uma costa à noite: só se veem os que estão acesos naquele instante, e nada garante que os apagados não existam.

Mesmo com essas limitações, os esforços observacionais vêm apertando o cerco. Levantamentos em raios X com o observatório Chandra, buscas por variabilidade óptica e estudos espectroscópicos de núcleos fracos começaram a impor limites cada vez mais informativos à fração de ocupação nas galáxias anãs e de baixa massa do Universo próximo. Os raios X oferecem a rota mais limpa, porque o gás aquecido na vizinhança imediata de um buraco negro brilha nessa faixa mesmo quando a acreção é tímida. Ainda assim, até esses limites precisam ser interpretados com modelos para a fração de objetos ativos e para a distribuição de taxas de acreção. Nenhuma observação, sozinha, entrega a contagem completa.

Do lado teórico, as simulações cosmológicas se tornaram a ferramenta natural para interpretar essa contagem. Elas acompanham, ao longo do tempo cósmico, a evolução conjunta das galáxias e de seus buracos negros, e permitem testar os efeitos de fusões, ambiente, resolução numérica e das diferentes receitas para semeadura, acreção, devolução de energia e dinâmica. O preço dessa liberdade é a discordância: as previsões variam enormemente de uma simulação para outra, sobretudo em galáxias com menos de um a dez bilhões de massas solares em estrelas. Cada código faz escolhas distintas sobre quando e como plantar um buraco negro, e essas escolhas reaparecem, bilhões de anos depois, na fração de ocupação prevista.

É nesse terreno que entram Emma Jane Weller e Priyamvada Natarajan, da Universidade Yale, e Colin J. Burke, ligado a Yale e à Universidade do Norte do Texas, autores do estudo publicado em 7 de setembro de 2026 na revista The Astrophysical Journal Letters. O título já anuncia a tese: a fração de ocupação como registro fóssil da semeadura, da dinâmica e da montagem das galáxias. A novidade do trabalho está em uma dimensão que ninguém havia esquadrinhado sistematicamente: a localização dos buracos negros dentro das galáxias que os abrigam. Em vez de perguntar apenas se uma galáxia tem buraco negro, os autores perguntam onde ele está, e descobrem que a resposta muda a interpretação de tudo o mais.

A maioria das simulações cosmológicas prende artificialmente cada buraco negro ao centro da galáxia hospedeira, um truque numérico conhecido como pinning, fixação, que evita que o objeto escape por efeitos espúrios da resolução limitada. O custo do truque é apagar uma população inteira: os buracos negros errantes, wandering black holes, que a montagem cósmica deposita fora dos núcleos, sobretudo em galáxias anãs de poço gravitacional raso e em galáxias massivas com histórias ricas em fusões. A simulação usada pelos três autores, chamada ASTRID, não fixa nada. Ela trata a dinâmica dos buracos negros com um modelo físico de atrito dinâmico e deixa que cada um vá para onde a gravidade o leve. Por isso, e pela primeira vez, foi possível calcular separadamente três frações de ocupação: a total, a central e a errante.

ASTRID é uma das maiores simulações hidrodinâmicas cosmológicas já executadas. Roda com o código MP-Gadget, uma implementação de hidrodinâmica de partículas suavizadas, smoothed particle hydrodynamics, em que o gás é representado por partículas discretas cujas propriedades são interpoladas entre vizinhas. O universo simulado começa em redshift 99, o desvio para o vermelho que os astrônomos usam como relógio cósmico e que, nesse caso, corresponde a menos de vinte milhões de anos depois do Big Bang, e evolui até o presente com parâmetros cosmológicos do satélite Planck. A caixa tem 250 megaparsecs comóveis divididos pelo parâmetro de Hubble reduzido, o equivalente a cerca de 1,2 bilhão de anos-luz de lado, e contém 5.500³ partículas de matéria escura, mais de 166 bilhões delas, acompanhadas de um número igual de partículas de gás. Cada partícula de matéria escura tem perto de dez milhões de massas solares e cada partícula de gás inicial, perto de dois milhões; a resolução espacial gravitacional fica em torno de dois kiloparsecs comóveis.

O modo como ASTRID planta seus buracos negros é o coração da história. A semeadura é baseada em halos: sempre que um halo de matéria escura ainda sem buraco negro ultrapassa uma massa total de 5 bilhões de massas solares e uma massa estelar de 2 milhões, nas unidades reduzidas da simulação, algo como 7 bilhões e 3 milhões de sóis em valores absolutos, a partícula de gás mais densa daquele halo é convertida em um buraco negro, herdando sua posição e velocidade. A massa da semente é sorteada de uma distribuição de lei de potência com expoente menos um, entre 30 mil e 300 mil massas solares reduzidas, algo entre 44 mil e 440 mil sóis. Em outras palavras, ASTRID só planta sementes de porte intermediário: nada tão leve quanto um remanescente de estrela de População III, nada tão pesado quanto os maiores produtos do colapso direto. Essa escolha define o que a simulação pode e não pode testar.

Depois de plantado, cada buraco negro cresce engolindo o gás ao redor segundo uma prescrição do tipo Bondi-Hoyle-Lyttleton, que estima a taxa de acreção a partir da densidade e da velocidade do gás na vizinhança. Parte da energia liberada volta ao meio: em regime de alta acreção, no chamado modo quasar, ela aquece o gás circundante; em regime de baixa acreção, no modo rádio ou modo jato, ela é injetada como energia térmica ou cinética. Antes de redshift 2,3, cerca de 10,8 bilhões de anos atrás, todos os buracos negros da simulação operam apenas no modo de alta acreção; depois disso, os mais massivos e famintos de gás podem migrar para o modo de baixa acreção. É essa transição, como veremos, que molda a população de núcleos ativos no Universo tardio.

A peça que diferencia ASTRID é a dinâmica. Um buraco negro que se move através de um mar de estrelas e matéria escura cria atrás de si um rastro de sobredensidade, como a esteira de um barco, e esse rastro o puxa para trás, roubando-lhe energia orbital. O fenômeno se chama atrito dinâmico, foi descrito por Subrahmanyan Chandrasekhar em 1943, e é ele que, em princípio, faz um buraco negro afundar até o centro da galáxia. Simulações cosmológicas não têm resolução para capturar esse processo diretamente, e por isso ASTRID o implementa como um modelo de subgrade, subgrid, uma receita que injeta o efeito abaixo da escala resolvida. A consequência é que, quando o atrito é ineficiente, como ocorre em galáxias anãs de potencial raso ou após uma fusão violenta, o buraco negro simplesmente não chega ao centro. Ele vaga.

Dois buracos negros se fundem na simulação quando sua separação cai abaixo de duas vezes o comprimento de suavização gravitacional e quando sua energia cinética já se dissipou o bastante para que estejam gravitacionalmente ligados. ASTRID deixa de fora, contudo, dois mecanismos capazes de arremessar buracos negros para longe dos núcleos no mundo real: o recuo por ondas gravitacionais, o coice que uma fusão assimétrica imprime ao remanescente, e as interações de três corpos em escalas pequenas. Todo buraco negro errante da simulação deve, portanto, sua condição a uma fusão de galáxias cujo atrito dinâmico não deu conta de completar o serviço, e não a um chute relativístico. A população errante de ASTRID é, nesse sentido, um limite inferior.

Com essa máquina em mãos, os autores selecionaram todas as galáxias com massa estelar entre dez milhões e um trilhão de massas solares, cinco ordens de grandeza, em seis instantâneos da simulação: os redshifts 0, 1, 2, 3, 4 e 5, que cobrem os últimos 12,6 bilhões de anos da história cósmica. Para cada galáxia, identificada como um sub-halo pelo algoritmo SUBFIND dentro de halos encontrados pelo método de amigos dos amigos, definiram como central todo buraco negro situado dentro do raio de meia-massa estelar, a esfera que contém metade das estrelas da galáxia, e como errante todo buraco negro situado fora dela. Dada a massa mínima das sementes, cada um desses objetos é um buraco negro massivo, com pelo menos 30 mil massas solares reduzidas. A estatística foi feita em cinquenta intervalos de massa estelar igualmente espaçados, descartando qualquer intervalo com menos de cem galáxias.

O passo seguinte foi fatiar a população. Um buraco negro foi rotulado de semente pesada quando sua massa de nascimento, ou a de qualquer progenitor que tenha se fundido a ele, excedeu cem mil massas solares; essa herança através das fusões é relevante, porque um objeto nascido leve pode carregar hoje o DNA de uma semente pesada que engoliu no passado. Um buraco negro foi considerado ativo quando sua razão de Eddington, a taxa de acreção dividida pela taxa máxima que a pressão da radiação permite, superou um centésimo. Em cada halo, a galáxia com o maior número de partículas ligadas foi chamada de primária, equivalente à galáxia central de um grupo, e as demais, de satélites. E cada galáxia foi classificada como formadora de estrelas ou quiescente conforme sua taxa específica de formação estelar ficasse acima ou abaixo de um décimo de bilionésimo por ano, ou seja, conforme levasse menos ou mais de dez bilhões de anos para dobrar sua massa estelar no ritmo atual.

O primeiro resultado é um censo bruto. Na extremidade de baixa massa, abaixo de cem milhões de massas solares em estrelas, a maioria das galáxias simuladas contém exatamente um buraco negro, mas uma minoria não contém nenhum: no presente, 7% delas estão vazias e 92% hospedam um único objeto; em redshifts mais altos, a fração de vazias cai para 2% a 3%, e a de ocupantes únicos sobe para 96% a 97%. Acima de cem milhões de massas solares, quase não há exceções: 98% das galáxias atuais e mais de 99% das galáxias do passado abrigam pelo menos um buraco negro. A tendência é clara. O Universo começa com quase todas as galáxias ocupadas e, com o tempo, uma fatia das pequenas aparece desocupada, e são, como veremos, sobretudo galáxias satélites.

Figura 1
Figura 1. Número total de buracos negros por galáxia em função da massa estelar, de z = 5 (amarelo) a z = 0 (azul-escuro), para a população completa da simulação ASTRID. As linhas cheias marcam a mediana em cada intervalo de massa; as faixas sombreadas, o intervalo entre os percentis 5 e 95. Galáxias de baixa massa abrigam zero ou um buraco negro; o limiar de massa acima do qual passam a hospedar vários desloca-se para massas maiores com o tempo, e nas galáxias gigantes a contagem dispara por efeito das fusões.Crédito: Weller, Natarajan & Burke, 2026, The Astrophysical Journal Letters 1008:L54 · CC BY 4.0

A contagem também revela um deslocamento sutil. A massa estelar a partir da qual a galáxia típica passa a ter dois, três, quatro buracos negros é maior hoje do que no passado. A explicação está em como as galáxias pequenas crescem: principalmente formando estrelas, o que aumenta a massa estelar sem aumentar o número de buracos negros, de modo que as curvas são empurradas para massas maiores à medida que o tempo passa. Nas épocas tardias, pouquíssimas sementes novas são plantadas, porque os halos que atendem aos critérios de semeadura já foram todos ocupados. Na ponta das galáxias gigantes, o efeito se inverte: ali, a inclinação da curva fica mais íngreme com o tempo, porque as fusões entre galáxias somam massa estelar e, de maneira ainda mais abrupta, somam buracos negros. Uma galáxia de um trilhão de massas solares em ASTRID pode acumular centenas deles.

O segundo resultado é o que dá título ao artigo. Quando as três frações de ocupação são traçadas em função da massa estelar, a fração total se mantém próxima de cem por cento em quase todas as massas e épocas, ligeiramente mais baixa no presente. Mas o equilíbrio entre centrais e errantes muda de forma marcante. Na extremidade de baixa massa, a fração de galáxias com buraco negro central diminui à medida que o redshift cai, enquanto a fração de galáxias com buraco negro errante aumenta na mesma proporção. Como a maioria dessas galáxias tem exatamente um buraco negro, a conta fecha: o objeto que antes estava no centro agora está na periferia. A galáxia continua ocupada, mas não no lugar onde os telescópios costumam procurar.

Os errantes são, em geral, produto de fusões de galáxias, como mostraram trabalhos anteriores do grupo de Natarajan e de Angelo Ricarte, o que explica naturalmente sua presença crescente em épocas tardias, quando a história de colisões de cada galáxia já se acumulou. A queda da fração central com o tempo havia sido vista em outras simulações, caso dos trabalhos liderados por Haidar, Sharma e Tremmel; a novidade é vê-la emparelhada com a subida da fração errante. Há um detalhe que os autores admitem não compreender: no presente, a fração errante exibe uma corcova entre dez e cem milhões de massas solares, com um vale correspondente na fração central. A hipótese é que ali se combinam os dois fatores que favorecem errantes, histórias ricas em fusões e potenciais gravitacionais rasos, produzindo um regime em que uma parcela anormalmente alta dos buracos negros fica fora do centro.

Figura 2
Figura 2. Frações de ocupação total (acima), central (meio) e errante (abaixo) da população completa, de z = 5 a z = 0. A fração total permanece próxima de 1 em quase todo o intervalo, mas o equilíbrio entre centrais e errantes muda com o tempo: nas galáxias de baixa massa, a fração central cai rumo ao presente enquanto a errante sobe. As faixas cinzentas mostram as restrições observacionais locais de Zou et al. (2025), com a mediana em linha cheia e os intervalos de 1, 2 e 3 sigmas.Crédito: Weller, Natarajan & Burke, 2026, The Astrophysical Journal Letters 1008:L54 · CC BY 4.0

A implicação para quem observa o céu é profunda. Quase todas as buscas atuais por buracos negros em galáxias anãs são sensíveis a objetos centrais, ativos ou ambos. Se uma parcela dos buracos negros de baixa massa vaga pelas periferias, essas buscas vão encontrar uma fração de ocupação artificialmente baixa, e o resultado pode ser lido como evidência de semeadura ineficiente quando, na verdade, as sementes foram plantadas com eficiência e depois deslocadas ou entregues aos arrabaldes das galáxias, onde o atrito dinâmico é fraco demais para trazê-las de volta. A diferença entre a fração total e a fração central passa a conter, assim, informação sobre a evolução dinâmica da população de buracos negros depois da semeadura. É o fóssil deslocado do leito do rio: o fato de estar longe do ninho conta a história da enchente.

Para confrontar esse retrato com a realidade, os autores recorreram ao conjunto de restrições observacionais mais exigente disponível, publicado em 2025 por Fan Zou, Elena Gallo, Anil Seth e colaboradores. Esse trabalho usou imagens em raios X do Chandra de 1.606 galáxias situadas a menos de 50 megaparsecs, cerca de 163 milhões de anos-luz, e sondou razões de Eddington bem abaixo do regime dos núcleos ativos, o que permitiu estimar a fração de ocupação central da população inteira, e não apenas dos buracos negros em plena atividade. A equipe de Zou forneceu a mediana e os intervalos de confiança de um, dois e três sigmas de sua amostragem, e chegou a valores bem mais baixos, na extremidade de baixa massa, do que os de estudos anteriores. O resultado de ASTRID passou no teste: a fração central da população completa é compatível, no presente, com o intervalo de três sigmas dessas medidas.

O terceiro resultado ataca a pergunta das origens. Quando a contagem se restringe aos descendentes de sementes pesadas, aquelas com mais de cem mil massas solares no nascimento, as frações de ocupação caem de forma substancial em relação à população completa, sobretudo nas galáxias de baixa massa. A fração total de sementes pesadas cai dentro do intervalo de dois sigmas das medidas de Zou em todos os redshifts, e a fração central fica ligeiramente abaixo dessas restrições em massas intermediárias. A lição é dupla. Primeiro, a extremidade de baixa massa da fração de ocupação continua sendo uma sonda da distribuição de massas das sementes, mesmo depois de bilhões de anos de crescimento e fusões. Segundo, a subpopulação de sementes pesadas de ASTRID está mais perto das observações atuais do que a população completa em boa parte do regime de baixa massa.

Esse ponto dialoga com um debate que o telescópio espacial James Webb tornou urgente. Desde 2023, o Webb vem encontrando buracos negros com dezenas de milhões de massas solares já formados quando o Universo tinha menos de 500 milhões de anos, casos como o da galáxia UHZ1, estudada pela própria Natarajan com dados combinados do Webb e do Chandra, e a população enigmática dos pequenos pontos vermelhos. Objetos tão massivos tão cedo são difíceis de explicar a partir de sementes de cem massas solares, o que reavivou o interesse pelas sementes pesadas nascidas de colapso direto, cenário que Natarajan ajudou a formular há duas décadas. O estudo de ASTRID sugere que a mesma distinção entre leve e pesado deixa marcas detectáveis não só no Universo primitivo, mas no Universo local, nas galáxias anãs ao nosso redor. Dois registros, o do passado remoto e o do presente, apontando para a mesma pergunta.

O quarto resultado é um alerta para quem usa núcleos ativos como censo. Entre os buracos negros ativos, definidos por razão de Eddington acima de um centésimo, a fração errante é desprezível em praticamente todas as massas e épocas, o que faz sentido: errantes vivem em regiões pouco densas e quase não acretam, como Weller já havia mostrado em 2023. As frações total e central dos ativos, essencialmente idênticas, despencam à medida que o redshift diminui, de maneira especialmente acentuada depois do meio-dia cósmico, cosmic noon, a época em torno de redshift 2 em que a formação de estrelas e a atividade dos quasares atingiram o pico. Em redshifts acima de 1, as frações ativas ainda caem dentro ou acima das restrições locais de Zou; no presente, ficam bem abaixo delas. E despencam também na ponta de alta massa, porque os buracos negros gigantes já expulsaram, com sua própria devolução de energia, o gás que poderiam engolir.

Figura 3
Figura 3. Frações de ocupação total, central e errante para os descendentes de sementes pesadas (massa inicial acima de 100 mil massas solares; coluna da esquerda) e para os buracos negros ativos (razão de Eddington acima de 0,01; coluna da direita), em linhas grossas, de z = 5 a z = 0. As linhas pontilhadas finas repetem as frações da população completa, e as faixas cinzentas, as restrições de Zou et al. (2025). As frações de sementes pesadas ficam bem abaixo das da população completa em baixas massas; as frações ativas despencam rumo ao presente, e a fração errante ativa é praticamente nula.Crédito: Weller, Natarajan & Burke, 2026, The Astrophysical Journal Letters 1008:L54 · CC BY 4.0

Em linguagem de engenharia, uma amostra selecionada por atividade mede o ciclo de trabalho, duty cycle, a fração do tempo em que um buraco negro está ligado, e não a fração de galáxias que o possuem. Voltemos aos faróis: contar os acesos numa noite diz pouco sobre quantos faróis existem na costa, a menos que se saiba, por outros meios, que fração deles costuma estar acesa a cada instante. Os autores são explícitos ao concluir que traduzir uma fração de ocupação medida em amostras de núcleos ativos para uma fração intrínseca, da população completa, exige um modelo fisicamente calibrado da fração ativa. Sem esse modelo, a comparação entre teoria e observação compara coisas diferentes.

O quinto resultado olha para o ambiente. No presente, galáxias primárias, as dominantes de cada halo, têm frações de ocupação total, central e errante maiores do que as satélites, estejam elas formando estrelas ou não. A razão é dupla: os buracos negros são plantados nas regiões mais densas dos halos, e as fusões transportam buracos negros para as galáxias primárias. Entre as galáxias de baixa massa, as formadoras de estrelas, primárias ou satélites, têm frações centrais menores e frações errantes maiores do que as quiescentes. Os números falam alto. Para primárias, a fração total beira cem por cento em todas as massas; para satélites quiescentes, cai a cerca de 90% nas massas mais baixas; para satélites formadoras de estrelas, a cerca de 60%.

Figura 4
Figura 4. Dependência das frações de ocupação em z = 0 com o ambiente e o estado de formação estelar. Galáxias primárias e satélites, cada grupo dividido em formadoras de estrelas e quiescentes pelo limiar de taxa específica de formação estelar de 10⁻¹⁰ por ano; a população completa aparece em cinza para referência. Primárias têm frações mais altas que satélites e, em baixas massas, galáxias quiescentes têm mais buracos negros centrais e menos errantes do que as formadoras de estrelas.Crédito: Weller, Natarajan & Burke, 2026, The Astrophysical Journal Letters 1008:L54 · CC BY 4.0

A correlação entre quiescência e ocupação central é, talvez, o achado mais provocador do artigo, e os autores o tratam com cautela. Uma galáxia de baixa massa costuma ter no máximo um buraco negro; se esse objeto está no centro, acoplado ao reservatório de gás nuclear, ele tem mais capacidade de regular esse reservatório e, eventualmente, de apagar a formação de estrelas. Um errante, perdido na periferia, não tem essa influência. A equipe não afirma que a energia devolvida pelos buracos negros seja o único motor do apagamento das galáxias anãs, e deixa claro que a análise, sozinha, não autoriza essa conclusão. O que a correlação sugere é mais sutil e, por isso mesmo, mais instigante: não apenas a presença, mas a localização de um buraco negro pode influenciar o destino da galáxia que o hospeda.

Resta saber como ASTRID se situa entre suas rivais. Os autores compararam suas frações de ocupação no presente com as frações centrais de seis outras simulações cosmológicas, EAGLE, SIMBA, Horizon-AGN, Illustris, TNG100 e TNG300, calculadas por Haidar e colaboradores em 2022 para galáxias acima de um bilhão de massas solares e recuperadas da figura original com a ferramenta WebPlotDigitizer. Em massas altas, todas convergem para cem por cento e concordam com as observações. Em massas baixas, divergem de modo quase caricatural. O salto abrupto da SIMBA, por exemplo, deve-se em parte ao fato de que ela simplesmente não planta buracos negros em galáxias com menos de cerca de 3 bilhões de massas solares. ASTRID é das poucas a manter consistência com as medidas de Zou também na extremidade de baixa massa, tanto na fração central da população completa quanto nas frações central e total das sementes pesadas.

Figura 5
Figura 5. Comparação das frações de ocupação de ASTRID em z = 0 (totais e centrais, para a população completa e para as sementes pesadas) com as restrições observacionais de Zou et al. (2025) e com as frações centrais previstas pelas simulações EAGLE, SIMBA, Horizon-AGN, Illustris, TNG100 e TNG300, calculadas por Haidar et al. (2022). As simulações concordam em altas massas e divergem fortemente abaixo de 1 a 10 bilhões de massas solares.Crédito: Weller, Natarajan & Burke, 2026, The Astrophysical Journal Letters 1008:L54 · CC BY 4.0

Essa dispersão entre simulações não é defeito de uma ou outra; é a expressão de quanto a extremidade de baixa massa depende das receitas de semeadura, de devolução de energia e de dinâmica, e também do volume e da resolução de cada experimento numérico. Um estudo recente de Emanuele Contini e colaboradores, com o modelo semianalítico FEGA25, alertou que previsões robustas exigem resolução suficiente para enxergar galáxias pequenas e volume suficiente para amostrar a diversidade de ambientes cósmicos. Weller, Natarajan e Burke argumentam que ASTRID atende aos dois requisitos: sua caixa é comparável à das maiores realizações de Contini, as chamadas YS200 e YS300, e sua partícula de matéria escura é mais leve do que a da realização de alta resolução daquele grupo, a YS50HR. Some-se a isso a consistência com as observações e a concordância das tendências temporais com estudos anteriores.

Há uma limitação que os próprios autores colocam em primeiro plano. A massa mínima de semente em ASTRID, 30 mil massas solares reduzidas, impede qualquer exploração do cenário de sementes leves, os remanescentes de População III de cerca de cem massas solares. A comparação do estudo é, portanto, entre sementes de porte intermediário e sementes pesadas, não entre leves e pesadas. Se a natureza plantou buracos negros de cem sóis em abundância no Universo primitivo, ASTRID não tem como dizer que fração deles sobreviveu, cresceu ou foi expulsa. A ausência de recuo por ondas gravitacionais e de interações de três corpos reforça esse caráter conservador: no Universo real, pode haver mais errantes, e mais galáxias vazias, do que a simulação prevê.

A pergunta tem história. No fim dos anos 1990, as relações entre a massa dos buracos negros centrais e as propriedades dos bojos galácticos, entre elas a chamada relação M-sigma, estabeleceram que galáxias e buracos negros crescem juntos, mas o fizeram com amostras de galáxias grandes. As anãs entraram no jogo aos poucos: NGC 4395, uma espiral sem bojo com um núcleo ativo cuja massa se mede em dezenas ou centenas de milhares de massas solares; Henize 2-10, uma anã formadora de estrelas com um buraco negro em seu interior; RGG 118, cujo núcleo pesa cerca de 50 mil sóis, um dos menores já medidos. Em 2015, Brendan Miller e colaboradores usaram o Chandra para estimar que pelo menos uma em cada cinco galáxias de tipo precoce de baixa massa abriga um buraco negro. Cada detecção isolada era um fóssil; faltava o estrato inteiro.

Os errantes também têm genealogia. Em 2018, simulações do conjunto Romulus, lideradas por Michael Tremmel, previram que uma galáxia como a Via Láctea deveria abrigar cerca de uma dúzia de buracos negros supermassivos errantes, herdados das satélites que devorou ao longo de sua história. Do lado observacional, candidatos vêm aparecendo: fontes compactas de rádio e raios X deslocadas dos centros de galáxias anãs, aglomerados estelares hipercompactos que poderiam ser os restos do núcleo de uma galáxia engolida e, no caso mais extremo, um buraco negro supermassivo fugitivo que o Webb confirmou por meio de sua onda de choque supersônica. ASTRID transforma esses casos isolados em estatística: diz quantos errantes esperar, em que galáxias e em que épocas.

O artigo é também um capítulo de uma sequência. Em 2023, Weller, com Fabio Pacucci e Yueying Ni, usou ASTRID para mostrar que os errantes acretam pouquíssimo e são, por isso, quase invisíveis como núcleos ativos; em 2026, com Natarajan, Burke e Shashank Dattathri, mapeou como as fusões de galáxias os produzem; e em 2023 Tiziana Di Matteo e colaboradores já haviam calculado as frações total e errante em redshift 2. O trabalho atual estende tudo isso a seis épocas, a cinco ordens de grandeza em massa e, pela primeira vez, às dependências com massa de semente, estado de acreção, atividade de formação estelar e ambiente. Burke, por sua vez, traz a experiência do outro lado da equação: ele é um dos responsáveis por buscas de núcleos ativos fracos em galáxias anãs por variabilidade óptica, justamente o tipo de amostra que o artigo ensina a interpretar.

O que muda, na prática, para quem faz observações? A recomendação central do trabalho é abandonar a ideia de uma única fração de ocupação intrínseca a ser medida e confrontada com a teoria. No lugar dela, os autores defendem frações de ocupação modeladas diretamente para cada seleção observacional, uma prática que o jargão chama de forward modeling: parte-se da simulação, aplicam-se exatamente os mesmos filtros que a observação aplica, central ou errante, ativo ou dormente, primária ou satélite, limiar de razão de Eddington, limite de sensibilidade, e só então se compara o que sobra. É o equivalente a prever não quantos faróis existem, mas quantos aparecem acesos numa foto tirada com determinada câmera, a determinada hora, de determinado ponto da costa.

O futuro observacional dessa contagem passa por canais complementares, e o artigo os enumera. Observações profundas em raios X de galáxias anãs próximas continuam sendo o caminho mais limpo para flagrar buracos negros de acreção fraca. Buscas espectroscópicas no óptico e no infravermelho por núcleos ativos discretos, e restrições no rádio sobre acreção compacta, atacam o mesmo problema por outras janelas. Os levantamentos de domínio temporal, com o Observatório Vera C. Rubin à frente, prometem flagrar eventos de ruptura de maré, tidal disruption events, em que um buraco negro adormecido se denuncia ao despedaçar uma estrela que passou perto demais; esse é o único canal capaz de revelar um objeto que não estava acretando nada antes do evento. E as medidas dinâmicas com a próxima geração de telescópios gigantes poderão pesar diretamente buracos negros em galáxias anãs a distâncias hoje inacessíveis.

Cada um desses canais sonda uma região diferente do espaço de parâmetros dos buracos negros, e é por isso que a decomposição proposta no artigo importa. Um evento de ruptura de maré pode acontecer num errante tanto quanto num central; uma busca por variabilidade só vê os ativos; uma medida dinâmica só alcança os centrais de galáxias próximas. Juntar esses pedaços exige um mapa que diga, para cada tipo de galáxia e cada época, quantos objetos de cada categoria esperar. Fora do escopo do artigo, mas na mesma direção, está a missão LISA, o observatório espacial de ondas gravitacionais previsto para a próxima década, que será sensível justamente às fusões de buracos negros com dezenas de milhares a milhões de massas solares, a faixa das sementes. Se os errantes de ASTRID são órfãos de fusões incompletas, LISA ouvirá as fusões que se completaram.

No fim, o estudo devolve à astronomia uma intuição que a paleontologia aprendeu há muito tempo: a posição do fóssil é parte do fóssil. Um buraco negro parado no centro de uma galáxia anã quiescente e um buraco negro à deriva nos arrabaldes de uma anã que ainda forma estrelas podem ter nascido da mesma semente, no mesmo tipo de halo, na mesma época. O que os separa é a história que viveram depois, as colisões que sofreram, o atrito que não bastou para trazê-los de volta. Quando os próximos levantamentos vasculharem as galáxias anãs ao nosso redor, cada detecção será um osso fora do lugar. E ossos fora do lugar, bem lidos, contam a história de todo o terreno.

Fonte: Weller, E. J., Natarajan, P. & Burke, C. J. (2026). The Black Hole Occupation Fraction as a Fossil Record of Seeding, Dynamics, and Galaxy Assembly. The Astrophysical Journal Letters, 1008, L54 (8 pp.), 10 de setembro de 2026. DOI: 10.3847/2041-8213/ae9c38. Recebido em 10 de julho, aceito em 19 de agosto, publicado em 7 de setembro de 2026.