Onde o Hubble viu um grão de areia, o novo telescópio da NASA vai ver quase a Lua inteira: o RXDF promete magnitude 30 em sete filtros sobre 678,75 minutos de arco quadrados, com três épocas de observação que também vão caçar supernovas em z > 2,5, buracos negros-semente e cometas da Nuvem de Oort

Estique o braço, segure um grão de areia entre o polegar e o indicador e aponte-o para um canto escuro do céu noturno. Foi um pedaço de céu desse tamanho que o Telescópio Espacial Hubble encarou durante onze dias, entre o fim de 2003 e o começo de 2004, para produzir o Campo Ultraprofundo que entrou para a história: um retângulo aparentemente vazio que, depois de quase um milhão de segundos de exposição acumulada, revelou cerca de dez mil galáxias empilhadas até o limiar do Universo observável. Aquela imagem ensinou a uma geração inteira que o vazio não existe, que basta olhar por tempo suficiente para que o escuro se encha de luz. Agora, um telescópio recém-lançado se prepara para repetir o gesto, com uma diferença de escala que muda a natureza do experimento: em vez de um grão de areia, a área a ser esquadrinhada com a mesma profundidade equivale a quase o disco inteiro da Lua cheia.

O programa chama-se Roman eXtreme Deep Field, ou RXDF, e foi um dos cinco grandes levantamentos de astrofísica geral aprovados para os dois primeiros ciclos de observação do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da NASA. A proposta recebeu 386,41 horas de tempo de telescópio para fotografar um único apontamento da câmera de campo amplo do observatório até a magnitude 30 no sistema AB, com detecções a cinco desvios-padrão, em sete filtros que cobrem toda a faixa espectral do instrumento, entre 0,5 e 2,3 micrômetros. A área de profundidade máxima soma 678,75 minutos de arco quadrados, encaixada numa cobertura contígua de 1.243 minutos de arco quadrados. Em 8 de setembro, nove dias depois de o foguete Falcon Heavy deixar a plataforma 39A do Centro Espacial Kennedy com o telescópio a bordo, a equipe publicou no repositório arXiv um documento curto, convertido da proposta aprovada, para apresentar o projeto à comunidade.

O projeto é liderado por Haojing Yan, da Universidade do Missouri, com Anton Koekemoer, do Space Telescope Science Institute, e Yue Shen, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, como co-investigadores principais. O documento reúne cerca de 130 assinaturas de 64 instituições espalhadas por Estados Unidos, Europa, Japão, Austrália, Chile e Brasil, entre elas a de Pedro Bernardinelli, listado pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo, o astrônomo que ficou conhecido em 2021 pela codescoberta do cometa gigante C/2014 UN271, o Bernardinelli-Bernstein. A lista de autores funciona como um mapa das frentes de pesquisa que o campo pretende alimentar: especialistas em galáxias primordiais, em buracos negros supermassivos, em supernovas distantes, em anãs marrons e em corpos do Sistema Solar exterior dividem o mesmo pedaço de céu.

Para entender o tamanho da aposta, é preciso lembrar o que o Roman é. Herdeiro de um espelho primário de 2,4 metros, o mesmo diâmetro do espelho do Hubble, o observatório carrega uma câmera de 18 detectores infravermelhos e cerca de 300 milhões de pixels, a Wide Field Instrument (instrumento de campo amplo, ou WFI), cujo campo de visão é pelo menos cem vezes maior que o do Hubble com resolução equivalente. Lançado em 30 de agosto de 2026, o telescópio viaja agora rumo ao ponto de Lagrange L2 do sistema Sol-Terra, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros, onde passará por um comissionamento de aproximadamente três meses antes de abrir os olhos para valer; a NASA mira as primeiras imagens públicas para o início de 2027. A maior parte do tempo da missão primária de cinco anos está reservada a três grandes levantamentos comunitários, mas uma fatia é destinada a programas propostos pela comunidade científica, os General Astrophysics Surveys (levantamentos de astrofísica geral), e o RXDF foi um dos cinco escolhidos para a largada.

Magnitude 30 é um número que não cabe na intuição. A escala de magnitudes é logarítmica e invertida: cada cinco unidades correspondem a um fator de cem em brilho, e quanto maior o número, mais apagado o objeto. A estrela mais fraca que um olho humano treinado distingue num céu escuro tem magnitude 6; um objeto de magnitude 30 é 24 magnitudes mais tênue, o que corresponde a cerca de quatro bilhões de vezes menos luz. Nesses níveis, cada fóton conta, e a equipe define a profundidade de forma rigorosa: trata-se do brilho de uma fonte pontual detectada a cinco desvios-padrão acima do ruído dentro de uma abertura circular de 0,2 segundo de arco de raio, o padrão adotado pela calculadora de tempo de exposição do próprio Roman. Para chegar lá, o telescópio vai acumular 30,6 horas no filtro F062, 53,5 no F087, 55,4 no F106, 65,4 no F129, 73,2 no F158, 36,5 no F184 e 60,4 no F213, num total de 375 horas de integração efetiva, que se tornam 386,41 horas quando se somam as manobras e sobrecargas operacionais calculadas pelo software de planejamento da missão.

Tabela 1. Tempos de integração e profundidades do RXDF em cada um dos sete filtros do Roman, comparados ao empilhamento
Tabela 1. Tempos de integração e profundidades do RXDF em cada um dos sete filtros do Roman, comparados ao empilhamento de dois anos do levantamento temporal de alta latitude (HLTDS) e aos níveis profundo e ultraprofundo do levantamento de área (HLWAS). As profundidades são limites a 5σ dentro de uma abertura de 0,2 segundo de arco de raio.Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

Os sete filtros recebem na documentação do projeto apelidos de uma letra, herdados da tradição fotométrica: R, Z, Y, J, H, F e K, em ordem crescente de comprimento de onda. A meta é magnitude 30 nos cinco primeiros, 29 em F e 28 em K, uma escolha que reflete tanto a física dos detectores quanto a do céu. Na extremidade vermelha do infravermelho próximo, por volta de 2,1 micrômetros, o fundo mais alto e a sensibilidade do instrumento encarecem cada décimo de magnitude, e a equipe concluiu que um limite de 28 em K já basta para cumprir a função que esse filtro tem no projeto. As horas por filtro listadas acima tampouco foram escolhidas ao acaso: para cada dia de um ciclo de observação, os pesquisadores calcularam o tempo necessário para atingir a profundidade desejada, dado o fundo de céu daquela data, e adotaram os valores medianos como orçamento.

A comparação com o passado dá a medida do salto. O Campo Ultraprofundo do Hubble, somado a todas as campanhas posteriores que incidiram sobre a mesma região e reprocessado em 2012 sob o nome de Campo Extremamente Profundo, ou HXDF, consumiu cerca de 520 horas de exposição para alcançar magnitudes entre 29,7 e 30 na maioria dos filtros, entre 0,4 e 1,6 micrômetro, em apenas 4,7 minutos de arco quadrados de profundidade total. As imagens mais profundas do Telescópio Espacial James Webb, por sua vez, investiram cerca de 360 horas para atingir magnitudes entre 30,1 e 30,9 em aproximadamente 9 minutos de arco quadrados. O RXDF promete a profundidade do Hubble em uma área 144 vezes maior, gastando menos tempo do que o HXDF consumiu. Dividindo as horas pela área, a conta é brutal: o Hubble precisou de mais de cem horas para cada minuto de arco quadrado, e o Roman vai precisar de pouco mais de meia hora. São quase duzentas vezes mais eficiência por unidade de céu, não porque o espelho seja maior, mas porque a nova câmera vê de uma só vez o que o Hubble teria de costurar em centenas de apontamentos.

Traduzindo as unidades: 678,75 minutos de arco quadrados equivalem a cerca de 0,19 grau quadrado, perto de 90% da área que a Lua cheia ocupa no céu, enquanto a cobertura contígua de 1.243 minutos de arco quadrados ultrapassa um disco lunar e meio. O HXDF, com seus 4,7 minutos de arco quadrados, caberia mais de 160 vezes dentro da Lua. Simulações publicadas em 2022 pelo projeto DREaM, feitas justamente para antecipar um campo ultraprofundo do Roman, estimavam que um grau quadrado observado até magnitude 30 conteria mais de um milhão de galáxias brilhantes no ultravioleta, com mais de dez mil delas em desvios para o vermelho acima de 7. O RXDF cobre cerca de um quinto dessa área de referência, o que coloca a expectativa na casa das centenas de milhares de galáxias catalogadas numa única imagem, uma fração considerável delas vista como era quando o Universo tinha menos de um bilhão de anos.

Figura 4. À esquerda, a pegada do RXDF (em vermelho) sobreposta ao centro do Campo Ultraprofundo do Euclid (círculo pret
Figura 4. À esquerda, a pegada do RXDF (em vermelho) sobreposta ao centro do Campo Ultraprofundo do Euclid (círculo preto) e ao campo NEXUS do JWST (em azul), numa orientação representativa. À direita, profundidade e área do RXDF (círculos vermelhos) comparadas às do HXDF (preto), de levantamentos do JWST (verde) e do HLTDS do Roman (azul); as barras horizontais refletem as diferentes profundidades alcançadas em cada filtro.Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

A decisão de cobrir os sete filtros, e não apenas os mais eficientes, é um ponto que a equipe defende com insistência. A análise da distribuição espectral de energia de uma galáxia, a curva que descreve quanto brilho ela emite em cada comprimento de onda, depende de uma amostragem suficiente do óptico ao infravermelho próximo, e é dessa curva que saem as estimativas de distância, idade estelar, massa e poeira. Dois filtros são insubstituíveis por razões diferentes. O R, centrado em 0,62 micrômetro, fica fora do alcance do James Webb, cuja cobertura começa praticamente onde esse filtro termina, e revela-se crítico tanto para galáxias em distâncias intermediárias quanto para as mais remotas. O K, em 2,13 micrômetros, não existe no Euclid, o telescópio europeu que já vigia a mesma região; mesmo fornecendo apenas limites superiores de brilho, ele ajuda a separar a assinatura espectral de um núcleo galáctico ativo da de uma galáxia comum.

O lugar escolhido no céu é tão importante quanto o tempo de exposição. Todo telescópio que fotografa o infravermelho próximo luta contra a luz zodiacal, o brilho difuso do Sol espalhado pela poeira interplanetária que se concentra no plano em que os planetas orbitam. É o mesmo princípio que faz um fotógrafo de cidade apontar para o zênite e não para o horizonte iluminado: quanto mais longe do plano da eclíptica, menos poeira no caminho e mais escuro o fundo. O RXDF mira as vizinhanças do Polo Norte da Eclíptica, o ponto do céu que fica a 90 graus desse plano, onde o fundo zodiacal é o mais baixo do ano inteiro quando comparado ao dos outros campos profundos clássicos. A equipe quantificou isso filtro a filtro e dia a dia, mostrando que regiões como o COSMOS ou o Chandra Deep Field South passam meses com um fundo bem mais alto e exigiriam muito mais horas para a mesma profundidade.

Figura 1. À esquerda, o fundo de céu total ao longo de um ano, no filtro F129, para o campo do RXDF e para outros campos
Figura 1. À esquerda, o fundo de céu total ao longo de um ano, no filtro F129, para o campo do RXDF e para outros campos extragalácticos clássicos (ELAIS-N1, EDF-S, CDF-S e COSMOS), cada um em sua janela de observação. À direita, o total de horas que cada campo exigiria para atingir as profundidades do programa, com os valores mínimo, mediano e máximo ao longo do ano; o detalhe amplia a comparação entre o RXDF e o ELAIS-N1.Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

O Polo Norte da Eclíptica tem outra virtude, de natureza operacional. Telescópios estacionados no ponto L2, como o Roman e o James Webb, só podem apontar para uma faixa de direções que mantém o Sol dentro de um ângulo seguro para seus escudos térmicos, e essa faixa gira ao longo do ano conforme a Terra percorre sua órbita. Os polos da eclíptica são os únicos lugares que permanecem sempre dentro dela, formando o que os engenheiros chamam de continuous viewing zone, a zona de visibilidade contínua, observável em qualquer dia do calendário. Para o RXDF, isso significa flexibilidade total de agendamento; para a ciência, significa que qualquer objeto interessante que apareça nas imagens, um transiente ou uma galáxia candidata a recorde, pode ser observado pelo James Webb sem esperar a janela certa, já que o mesmo campo está na zona contínua dos dois observatórios.

O campo tampouco é um território virgem. Ele está dentro do Campo Ultraprofundo do Euclid, a região do Polo Norte da Eclíptica que o telescópio europeu visita repetidamente para sua ciência de domínio temporal, e cobre a área do NEXUS, programa de legado do James Webb que atravessa três ciclos de observação sob a liderança de Yue Shen, co-investigador do RXDF. O NEXUS já acumulou imagens da câmera NIRCam em seis filtros, de 0,9 a 4,4 micrômetros, sobre cerca de 400 minutos de arco quadrados, com profundidades entre magnitude 26,8 e 28, e vem rendendo resultados, entre eles um transiente luminoso em desvio para o vermelho 5, flagrado poucos dias depois da explosão. Sobre esse acervo o Roman vai se sobrepor com imagens cerca de 2,5 magnitudes mais profundas na faixa de 0,8 a 1,7 micrômetro, estendendo a cobertura para o azul até 0,5 micrômetro, enquanto o James Webb continua dono do infravermelho além de 2 micrômetros. Dados profundos em rádio e em raios X completam o mosaico, e as datas ajudam: os dois primeiros ciclos do Roman caem dentro dos três últimos anos de operação do Euclid, no meio de suas cerca de 40 visitas cadenciadas restantes à região.

Uma pergunta que a equipe antecipa é se não seria mais barato empilhar o RXDF sobre um dos campos dos grandes levantamentos comunitários do Roman, aproveitando horas que o telescópio gastará de qualquer maneira. A resposta no documento é um não argumentado. O candidato mais favorável seria o ELAIS-N1, escolhido como campo norte do levantamento de domínio temporal de alta latitude por sofrer um avermelhamento galáctico ligeiramente menor que o do Polo Norte da Eclíptica, com um excesso de cor de apenas 0,01 magnitude, detalhe relevante para a ciência de supernovas próximas que é o foco daquele programa. Só que o ELAIS-N1 tem um fundo de céu bem mais alto durante cerca de cinco meses do ano, e evitar esses meses colocaria pressão sobre o cronograma do observatório. Pior: as imagens daquele levantamento são feitas com exposições curtas, o que as deixa dominadas pelo ruído de leitura dos detectores em quase todos os filtros, com exceção do F184.

Os números mostram por que a economia seria ilusória. O acúmulo de dois anos do levantamento temporal, que chega a magnitudes entre 28,6 e 29 nos cinco filtros que compartilha com o RXDF, equivale, no modo de integrações longas adotado pela nova proposta, a apenas 5,4, 4,9, 5,2, 7,6 e 33,9 horas nos filtros Z, Y, J, H e F, uma fração pequena das dezenas de horas que cada banda do RXDF requer. Há ainda um problema geométrico. A estratégia daquele levantamento não cobre por completo as lacunas largas entre os detectores da câmera, e o mapa de exposição resultante é profundamente irregular: a área que de fato atinge a profundidade máxima soma só 21,1 minutos de arco quadrados, espalhados pelo campo, e um apontamento típico no centro da região teria, em média, apenas 80% da exposição completa. Montar um campo profundo sobre essa base seria construir sobre um piso cheio de buracos.

Figura 2. Mapa de exposição do empilhamento de dois anos do HLTDS (esquerda), com sua cobertura fortemente irregular; ár
Figura 2. Mapa de exposição do empilhamento de dois anos do HLTDS (esquerda), com sua cobertura fortemente irregular; áreas diferencial (azul) e cumulativa (vermelho) em função da fração da exposição completa (centro); e perfil radial da exposição, calculado em anéis de 3 minutos de arco de largura (direita).Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

O desenho das observações responde a duas exigências simultâneas: profundidade uniforme e sensibilidade a mudanças no tempo. As 386 horas serão divididas em três épocas principais separadas por cerca de um ano. O intervalo não é arbitrário. A orientação do Roman no céu gira ao longo do ano, e só depois de doze meses o campo de visão da câmera volta a se encaixar exatamente sobre a mesma pegada, o que maximiza a área em que as três épocas se sobrepõem com profundidade total. Cada época principal, por sua vez, é fatiada em três subépocas separadas por dez a doze dias, com ajustes sutis do ângulo de posição, que o Roman permite variar em até 15 graus, para manter a mesma cobertura. O resultado é um conjunto de nove visitas que oferece linhas de base temporais de dez dias a mais de dois anos, e a terceira época poderá cair no terceiro ano de operações, a depender do agendamento.

Dentro de cada visita, o telescópio executa um padrão de dithering, pequenos deslocamentos do apontamento entre uma exposição e outra, desenhados para que cada ponto do céu caia em pixels diferentes e para que as frestas entre os detectores sejam preenchidas. A equipe criou um padrão próprio de oito posições, com passos de 16,65 e 17,99 segundos de arco, o equivalente a 151 e 163 pixels da câmera, grandes o bastante para cobrir parcialmente as lacunas numa única subépoca. As lacunas restantes são fechadas deslocando ligeiramente o centro do campo entre as subépocas, de modo que, no empilhamento final das nove visitas, não sobre nenhum buraco na área de 1.243 minutos de arco quadrados. Para domar o ruído de leitura, cada integração dura mais de 600 segundos; em detectores infravermelhos, cada leitura acrescenta um ruído eletrônico fixo, e exposições longas diluem esse custo num sinal maior de céu e de fonte.

Figura 3. Mapa de exposição do RXDF numa única subépoca (esquerda), em que o padrão de dithering de oito pontos preenche
Figura 3. Mapa de exposição do RXDF numa única subépoca (esquerda), em que o padrão de dithering de oito pontos preenche parcialmente as frestas entre os 18 detectores da câmera, e mapa do empilhamento de três anos, com nove subépocas (direita), já sem lacunas; a escala de cor da direita indica a profundidade a 5σ em magnitudes AB. A área de profundidade total soma 678,75 minutos de arco quadrados, dentro de 1.243 minutos de arco quadrados contíguos.Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

Por que tanta ênfase em área, se o Hubble e o James Webb já alcançam a mesma profundidade em janelas minúsculas? A resposta tem nome técnico, variância cósmica, e uma explicação simples. O Universo é grumoso em grande escala: galáxias se aglomeram em filamentos e nós separados por vazios, e um campo de visão pequeno pode cair, por sorte ou azar, numa região excepcionalmente rica ou excepcionalmente pobre. É como tentar estimar a população de um país contando os moradores de um único quarteirão. A equipe ilustra o problema com um exercício: qual é a galáxia mais brilhante que se pode esperar encontrar em cada desvio para o vermelho, dado o tamanho do campo? Para áreas como as do JADES ou do Campo Ultraprofundo do Hubble, a incerteza é enorme; para a área do RXDF, a faixa de probabilidade estreita, porque um campo grande amostra muitos ambientes de uma vez e dilui a sorte. Pela estimativa do próprio projeto, os volumes sondados por Hubble e Webb nessas profundidades são cerca de cem vezes menores do que o necessário.

Figura 5. O efeito da variância cósmica na caracterização de objetos raros: contornos de probabilidade da galáxia mais b
Figura 5. O efeito da variância cósmica na caracterização de objetos raros: contornos de probabilidade da galáxia mais brilhante que se poderia encontrar, em cada desvio para o vermelho, nas áreas do JADES (esquerda), do HUDF-ACS (centro) e do RXDF (direita). A área maior do RXDF aumenta a chance de encontrar esses objetos e reduz a incerteza sobre sua densidade real.Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

O primeiro alvo científico é a aurora cósmica, as primeiras centenas de milhões de anos depois do Big Bang. O James Webb já empurrou a fronteira das galáxias confirmadas até um desvio para o vermelho de 14,44, quando o Universo tinha menos de 300 milhões de anos, e deve bater o recorde de novo em breve. O método de busca que o RXDF vai empregar é o dos dropouts, literalmente os que desaparecem: o hidrogênio neutro que preenchia o Universo jovem absorve toda a luz ultravioleta de uma galáxia abaixo de um certo comprimento de onda, e, com a expansão cósmica, essa quebra se desloca para o vermelho em proporção à distância. Uma galáxia muito remota some dos filtros azuis e só reaparece a partir de um filtro específico; aquele em que ela desaparece denuncia o desvio para o vermelho. Varrendo sucessivamente do Z ao F, o RXDF alcança magnitude 30 para candidatas até z próximo de 10, 29 em torno de z 12 e 28 em torno de z 14.

Esses limites de brilho aparente se traduzem em luminosidades absolutas no ultravioleta de –16,8, –17,1, –17,5, –18,8 e –20 magnitudes em desvios para o vermelho de aproximadamente 6,2, 7,7, 9,6, 12 e 14,1. Com estimativas conservadoras e descontando a incompletude das amostras, a equipe espera cerca de dez mil galáxias na primeira faixa, cinco mil na segunda, mil na terceira, cem na quarta e vinte na quinta. Para a função de luminosidade, a contagem de quantas galáxias existem por volume em cada intervalo de brilho, ferramenta central para entender a formação galáctica e a reionização, isso significa resultados decisivos tanto na ponta brilhante quanto na ponta fraca até z próximo de 11, onde as medições atuais ainda carregam incertezas que o novo campo vai estreitar. Acima de z 12, onde as curvas atuais são pouco mais que esboços apoiados em meia dúzia de objetos, o RXDF imporá as restrições mais fortes já obtidas.

Figura 6. Estimativas atuais da função de luminosidade ultravioleta entre z ≈ 6 e z ≈ 14, compiladas da literatura. As l
Figura 6. Estimativas atuais da função de luminosidade ultravioleta entre z ≈ 6 e z ≈ 14, compiladas da literatura. As linhas tracejadas verticais marcam os limites do RXDF; as faixas azuis indicam a incerteza de 1σ, e as regiões cinza e vermelha marcam os regimes em que o RXDF trará resultados decisivos. Acima de z ≈ 12, as curvas atuais ainda são altamente incertas.Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

Um dos resultados mais inesperados do James Webb foi encontrar muito mais galáxias brilhantes em z acima de 10 do que os modelos previam. Duas explicações disputam a preferência dos teóricos: ou as primeiras galáxias convertiam gás em estrelas com uma eficiência global maior, ou formavam estrelas em surtos curtos e intensos, que as fazem brilhar acima de sua média por breves períodos. O problema é que as duas hipóteses produzem a mesma função de luminosidade, e por isso contar galáxias não resolve a disputa. Elas divergem, porém, numa outra previsão: a massa dos halos de matéria escura que abrigam galáxias de um dado brilho. Como halos mais massivos se aglomeram mais fortemente, medir ao mesmo tempo a função de luminosidade e o agrupamento das galáxias permite ligar o brilho ultravioleta à massa do halo e até estimar a escala de tempo dos surtos de formação estelar.

Medir agrupamento exige exatamente o que o RXDF oferece: uma área grande, contígua e de profundidade quase uniforme. Nela, os pesquisadores poderão calcular a função de correlação angular, uma medida estatística de quanto as galáxias preferem ficar perto umas das outras em comparação com uma distribuição aleatória, ou a variância de contagens em células, que compara a abundância de objetos entre subregiões do campo. Isso cobrirá um intervalo de luminosidades que nenhum levantamento atual alcança sozinho: os objetos brilhantes e raros escapam de campos estreitos como o JADES, e os objetos fracos ficam abaixo do limite de levantamentos largos e rasos como o COSMOS-Web. Com os dois extremos na mesma amostra, a relação entre luminosidade ultravioleta e massa de halo deixa de ser uma extrapolação, e os cenários teóricos para o excesso de galáxias brilhantes passam a poder ser eliminados um a um.

A mesma área serve a uma pergunta mais ampla: quando a teia cósmica começou a se tecer? A teoria hierárquica de formação de estruturas prevê que as primeiras galáxias já nasceram agrupadas, e o James Webb de fato flagrou algumas sobredensidades em desvios para o vermelho de até 10,5. Mas quantas estruturas desse tipo existem e como crescem com o tempo são questões que continuam sem resposta, porque identificar uma estrutura exige detectar seus membros de baixa luminosidade numa região extensa o suficiente para que a variância cósmica não distorça a contagem. A equipe mostra, com uma fatia da simulação TNG300 em z igual a 10, de 40 megaparsecs comóveis de espessura, como seriam os filamentos e nós já visíveis na pegada do RXDF em galáxias mais brilhantes que magnitude 30: um padrão nítido de teia, impossível de reconhecer numa janela do tamanho do HXDF. Pela primeira vez, um único levantamento poderá acompanhar sistematicamente a emergência das grandes estruturas entre z 6 e z 14.

Figura 7. À esquerda, uma fatia da simulação TNG300 em z = 10, com 40 megaparsecs comóveis de espessura, projetada sobre
Figura 7. À esquerda, uma fatia da simulação TNG300 em z = 10, com 40 megaparsecs comóveis de espessura, projetada sobre a pegada do RXDF: as galáxias mais brilhantes que magnitude 30 (em ciano) desenham claramente a estrutura em grande escala. À direita, o espaço de luminosidade bolométrica e desvio para o vermelho para núcleos ativos e Little Red Dots: o RXDF alcança as amostras mais profundas em z ≳ 6 com 30 a 50 vezes mais objetos e sonda pontos vermelhos do meio-dia cósmico dez vezes menos luminosos.Crédito: Yan, Koekemoer, Shen et al. (2026), arXiv:2609.08145 · pré-impressão (licença não declarada no PDF)

A segunda frente avança no tempo até o que os astrônomos chamam de cosmic noon, o meio-dia cósmico, a época em torno de z 2 a 3 em que a taxa de formação estelar do Universo atingiu seu pico, há cerca de dez a onze bilhões de anos. Depois dessa hora de maior atividade, a extinção da formação estelar, o quenching, deixou o cosmos salpicado de galáxias passivas, e esse processo é particularmente mal compreendido entre as galáxias de baixa massa. O RXDF vai detectar anãs com massas estelares de dez milhões, trinta milhões e cem milhões de massas solares em z aproximadamente 1, 2 e 3, objetos comparáveis às anãs satélites da Via Láctea, e ser completo para as galáxias passivas mais velhas até cem milhões, trezentos milhões e um bilhão de massas solares nesses mesmos desvios para o vermelho. É um regime de massa que, a essas distâncias, nenhum outro levantamento consegue mapear com estatística.

A hipótese dominante para explicar a extinção das anãs no Universo próximo é o ambiente: galáxias pequenas que caem em grupos e aglomerados perdem seu gás e param de formar estrelas. Se o mesmo vale no meio-dia cósmico é uma pergunta aberta por falta de dados. Com a precisão prevista para os desvios para o vermelho fotométricos do Roman, a equipe testou uma medida clássica de ambiente, a densidade local definida pela distância ao sétimo vizinho mais próximo, e concluiu que, entre z 1 e 3, o RXDF recupera as densidades reais com uma dispersão de 0,25 dex, um fator de 1,8, bem menor que a diferença entre um vazio e um aglomerado. Com isso será possível, nessa faixa, detectar galáxias passivas de baixa massa, quantificar a fração delas em função da massa e do ambiente e correlacionar a morfologia com a densidade local, compondo a primeira visão abrangente de como massa, formação estelar, forma e vizinhança interagem no regime das anãs a essas distâncias.

A terceira frente é a dos buracos negros supermassivos em crescimento. Identificar núcleos ativos de baixa luminosidade nas primeiras épocas é a chave para entender como as sementes dos buracos negros se formaram e cresceram junto com suas galáxias, mas é um trabalho ingrato: na ponta fraca, a luz da galáxia hospedeira contamina a do núcleo, e os erros fotométricos impedem uma identificação robusta pelo formato do espectro. O RXDF contorna a dificuldade pelo tempo. Núcleos ativos cintilam, com o brilho variando em escalas de dias a anos conforme flutua a acreção de matéria, e dois anos de monitoramento permitem flagrar essa variabilidade até z acima de 6. Há aqui uma vantagem sutil sobre o James Webb: a variação é mais forte no ultravioleta do referencial da fonte, e, para galáxias em z maior que 6, são justamente os filtros do Roman que caem nessa faixa.

Esse mesmo método pode identificar núcleos ativos extremamente fracos em qualquer distância, incluindo os chamados núcleos anões, com buracos negros de cem mil a um milhão de massas solares, no meio-dia cósmico, muito além do alcance de outros programas. A amostra vai sondar luminosidades cerca de dez vezes menores que as do nível ultraprofundo do grande levantamento de área do Roman e, em profundidades comparáveis às dos programas mais profundos em raios X e do James Webb, produzirá conjuntos muito maiores: entre 30 e 50 vezes mais objetos que as amostras mais profundas do Webb em z acima de 6. A escala do que está em jogo cabe numa conta. Uma luminosidade bolométrica de dez elevado a 42 ergs por segundo em z próximo de 2, acessível ao RXDF, corresponde a um buraco negro de apenas dez mil massas solares engolindo matéria no limite de Eddington, a taxa máxima que a pressão da radiação permite. São exatamente as sementes que a teoria pede e que ninguém conseguiu observar diretamente.

Entre os núcleos ativos há uma população que virou obsessão da astronomia extragaláctica desde 2023: os Little Red Dots, pequenos pontos vermelhos, fontes compactas descobertas pelo James Webb em desvios para o vermelho elevados, com um espectro em forma de V, azuis no ultravioleta e vermelhas no óptico, e abundantes a ponto de desafiar os modelos. Sua natureza é disputada entre formação estelar envolta em poeira, acreção extrema e buracos negros envoltos em casulos de gás denso, e qualquer dessas respostas tem consequências para a origem das sementes de buracos negros supermassivos. O RXDF ataca o problema pela ponta fraca da distribuição, chegando a luminosidades cerca de dez vezes abaixo das amostras atuais do Webb, com pontos vermelhos em z entre 1 e 3, e mais de três magnitudes abaixo dos objetos menos luminosos acessíveis ao nível ultraprofundo do levantamento de área. Só uma região grande produz amostras estatisticamente significativas nesse regime ainda não mapeado, e a cadência das observações vai medir a variabilidade desses objetos a profundidades sem paralelo, o teste mais direto para distinguir os modelos.

A quarta frente nasce da cadência. Cada subépoca do RXDF alcança sozinha magnitude 28,8 nos filtros R, Z, Y, J e H, 27,8 em F e 26,8 em K; cada época principal, que empilha três subépocas, chega a 29,4, 28,4 e 27,4. São profundidades inéditas para uma única visita, e abrem um espaço de parâmetros inexplorado para a descoberta de transientes, sobretudo supernovas muito distantes. O programa complementa o levantamento de domínio temporal do próprio Roman, voltado a supernovas em z menor que 2,5, concentrando-se naquilo que ele não alcança: explosões em z igual ou maior que 2,5. As duas cadências sobrepostas, de dez dias e de um ano, combinadas com curvas de luz em múltiplos filtros e com desvios para o vermelho fotométricos precisos das galáxias hospedeiras, devem permitir classificar as supernovas com alto grau de confiança.

As supernovas do tipo Ia, explosões termonucleares de anãs brancas, são hoje as únicas velas-padrão capazes de estender o diagrama de Hubble a grandes distâncias e, por isso, continuam no centro da cosmologia de precisão. Elas precisam de anãs brancas como progenitoras e não podem ocorrer cedo demais, mas há argumentos para que já existissem em z próximo de 5. Com um brilho máximo em torno de magnitude absoluta –19,3, que em z 5 corresponde a magnitude aparente 27,1, uma delas seria facilmente detectada numa única subépoca do RXDF, e passaria despercebida pelo levantamento temporal padrão. A equipe prevê cerca de 200 supernovas Ia por época, das quais em torno de 40 em z acima de 2,5. As subépocas amostram bem a curva de luz nos primeiros 30 dias após a descoberta, o que permitirá selecionar com segurança entre 6 e 22 explosões flagradas perto do máximo, prontas para uso cosmológico.

As supernovas de colapso de núcleo, que marcam a morte de estrelas com mais de oito massas solares, contam outra história: sua taxa mede quantas estrelas massivas nasceram e, portanto, restringe a ponta alta da função de massa inicial das galáxias hospedeiras. Com um máximo em torno de –18 magnitudes absolutas, o que dá magnitude aparente 29,2, elas podem ser detectadas até z próximo de 8 como transientes que desaparecem do filtro Y numa única época, e a estimativa é de cerca de 400 delas em z acima de 2,5 e dez em z acima de 6. Mais raras e mais luminosas, as supernovas superluminosas, com máximos além de –21 magnitudes, podem aparecer até z próximo de 14 como transientes ausentes do filtro F, com magnitude 27 em K. A cadência anual corresponde, no referencial de uma fonte em z 14, a apenas 24 dias por causa da dilatação temporal cosmológica, amostragem suficiente para seguir uma explosão desse tipo; com base nas observações entre z 2 e 5, a equipe espera cerca de 80 superluminosas em z acima de 2,5.

É nessa categoria que mora a aposta mais ousada. As progenitoras das supernovas superluminosas devem ser estrelas de massa muito alta, e um dos mecanismos propostos para a explosão é a instabilidade de pares, em que a produção espontânea de pares elétron-pósitron no núcleo de uma estrela de mais de cem massas solares rouba a pressão que a sustenta e a faz colapsar e se despedaçar por completo. Estrelas da População III, as primeiras a se formar, feitas só de hidrogênio e hélio e sem nenhum metal, poderiam terminar a vida exatamente assim. Se isso estiver certo, as superluminosas mais distantes do RXDF podem incluir a primeira detecção direta da morte de uma estrela da primeira geração, um objeto que a astronomia persegue há décadas sem jamais ter visto.

A profundidade do campo rende dividendos muito mais perto de casa. Entre as dezenas de milhares de fontes do RXDF haverá estrelas de massa mínima e anãs marrons, objetos com menos de um décimo da massa do Sol que não conseguem sustentar a fusão do hidrogênio e esfriam para sempre. Combinando cores, formato da imagem, que separa fontes pontuais de galáxias, e movimentos próprios medidos ao longo de dois anos, a equipe pretende identificá-las através do disco fino, do disco espesso e bem dentro do halo da Via Láctea. A lista de objetivos inclui medir a altura de escala do disco fino em função da temperatura dessas anãs, o que informa sobre suas idades e sobre como objetos de diferentes massas são espalhados pelo potencial gravitacional da Galáxia; medir pela primeira vez a função de luminosidade e de massa do disco espesso e do halo através da fronteira entre estrelas e anãs marrons; reunir uma amostra de mais de cem anãs marrons do halo para estudar como a composição química afeta atmosferas frias; e localizar as estrelas menos massivas do halo externo, a mais de cem mil parsecs, cerca de 326 mil anos-luz, verificando se seus movimentos se alinham com as correntes estelares conhecidas.

Mais perto ainda, há o Sistema Solar. Cometas da Nuvem de Oort chegam de todas as direções, e trabalhos dinâmicos indicam que eles têm uma chance significativa de passar perto dos polos da eclíptica, justamente onde o RXDF estará olhando. Cada subépoca é ideal para caçá-los com a técnica de shift-and-stack, deslocar e empilhar: as exposições individuais são somadas depois de deslocadas segundo a trajetória hipotética de um objeto em movimento, de modo que um corpo fraco demais para aparecer numa imagem isolada se acumula num ponto brilhante no empilhamento certo. Com magnitude 28,8 no filtro R por subépoca, cometas típicos da Nuvem de Oort, de cerca de 200 metros, ficam ao alcance a 4 unidades astronômicas do Sol. A técnica tem pedigree: um de seus trabalhos fundadores, de 2004, leva a assinatura de Gary Bernstein, o mesmo astrônomo que dividiu com Bernardinelli a descoberta do megacometa de 2021.

Há uma hipótese específica a testar. Simulações recentes sugerem que deveria existir um número substancial de cometas dinamicamente antigos além da órbita de Saturno, corpos que já visitaram o Sistema Solar interno muitas vezes e hoje vagam em órbitas distantes, fracos demais para qualquer levantamento atual. A área e a profundidade do RXDF permitirão quantificar essa população, e, mesmo que nenhum objeto apareça, a ausência de detecções numa região tão extensa imporá limites rigorosos à hipótese. É um lembrete de que um campo profundo não pertence a uma única disciplina: a mesma imagem que registra a luz de galáxias de 13 bilhões de anos atrás pode conter o rastro tênue de um pedaço de gelo a algumas horas-luz de distância.

O acesso aos dados segue a política geral do Roman: tudo o que sair do telescópio e do processamento padrão será público de imediato. A equipe planeja, porém, calibrações adicionais específicas para as necessidades do campo e promete liberar anualmente seus produtos revisados. Para não deixar a comunidade esperando, haverá versões rápidas: as imagens de cada época principal, incluindo as subépocas e o empilhamento das três, devem sair um mês após o fim das observações daquela época; os catálogos de fontes, um mês depois das imagens; a busca por transientes será feita assim que cada subépoca terminar, com os resultados anunciados imediatamente pelo Transient Name Server, o serviço internacional de registro de transientes, para viabilizar acompanhamentos; e o empilhamento final de todos os dados está previsto para um mês após a última observação, com os catálogos correspondentes um mês mais tarde.

Há uma linhagem clara por trás do projeto, e seus autores a reivindicam. Em dezembro de 1995, o Campo Profundo do Hubble mostrou que apontar um telescópio para o nada durante dez dias era uma ideia científica, não um desperdício; em 2004, o Campo Ultraprofundo levou o método ao limite do instrumento; em 2012, o Campo Extremamente Profundo somou uma década de observações sobre a mesma janela; nesta década, o James Webb produziu com o JADES o retrato mais profundo já feito. Cada geração de telescópios teve o seu, e cada um mudou o que se sabia sobre as primeiras galáxias. O que o RXDF propõe é dar ao Roman o seu campo profundo, com uma inversão de prioridades que só a nova câmera torna possível: em vez de ir mais fundo numa janela minúscula, ir igualmente fundo numa janela 144 vezes maior, onde a estatística finalmente deixa de ser o gargalo.

As consequências de curto prazo são concretas. Se o cronograma do observatório se mantiver, a primeira época pode ser observada já em 2027, e as imagens de cada visita estarão nas mãos da comunidade em semanas, não em anos. Candidatas a galáxias em z acima de 12 poderão ser enviadas ao James Webb para espectroscopia enquanto o campo ainda está sendo observado; transientes serão anunciados em dias; o Euclid, que continuará visitando a região até o fim de sua missão, fornecerá uma linha de base independente no mesmo período. É uma forma de fazer ciência que depende menos de um telescópio e mais da conversa entre vários, e o Polo Norte da Eclíptica, pelo acaso de sua geometria, tornou-se a sala em que essa conversa acontece.

No longo prazo, o campo se propõe a durar além do programa. A região foi escolhida por seu valor estratégico para a astronomia extragaláctica na era dos grandes levantamentos espaciais, e as imagens do RXDF vão se somar a um acervo que já inclui Euclid, James Webb, rádio e raios X, formando a base sobre a qual os próximos observatórios, terrestres ou espaciais, farão suas próprias perguntas. Os números previstos pelos autores, das centenas de supernovas às dezenas de milhares de galáxias da reionização, são estimativas, e conservadoras por escolha; a história dos campos profundos ensina que o que mais importa costuma ser o que ninguém colocou na proposta. O Hubble não foi apontado para o vazio para descobrir que as galáxias jovens eram pequenas e irregulares, mas foi isso que aprendeu.

Daqui a alguns anos, quando o empilhamento final das 386 horas estiver pronto, alguém vai abrir um arquivo do tamanho de uma Lua cheia e enxergar nele centenas de milhares de galáxias, algumas vistas como eram quando o cosmos tinha dois por cento da idade atual, misturadas a anãs marrons do halo da nossa própria Galáxia e, talvez, ao rastro de um cometa que ninguém esperava. Será a mesma lição do grão de areia de 2004, repetida numa escala em que a exceção vira estatística e a sorte deixa de contar. O vazio continua não existindo. A diferença é que, desta vez, haverá espaço suficiente nele para que o Universo mostre não apenas o que tem de mais distante, mas o quanto disso existe.

Fonte: Yan, H., Koekemoer, A. M., Shen, Y., Sun, B., Grogin, N. A., Wu, Z., Jespersen, C. K., Somerville, R., Lee, K.-S., Kocevski, D. D., Burgasser, A. J., Bernardinelli, P. H. et al. (2026). The Roman eXtreme Deep Field (RXDF). arXiv:2609.08145 [astro-ph.GA], 8 de setembro de 2026 (documento convertido da proposta aprovada; Programa Roman PID 2001, Ciclo 1, categoria GAS, 386,41 horas).