Milhares de simulações da história térmica do planeta deixaram apenas quatro sobreviventes: todas exigem um manto rígido, um núcleo com mais de 13% de silício e um núcleo interno sólido com cerca de 1.100 quilômetros de raio, previsões que a BepiColombo começa a testar em novembro
Olhe para Mercúrio com atenção e verá um mundo que encolheu. Espalhadas por toda a superfície do planeta mais próximo do Sol, escarpas com centenas de quilômetros de extensão e até cerca de 3 quilômetros de altura cortam crateras e planícies como rugas numa fruta que secou ao sol. Elas são falhas de empurrão, cicatrizes deixadas quando o interior esfriou, contraiu e obrigou a crosta a se dobrar sobre si mesma. Somadas, essas rugas indicam que o raio de Mercúrio diminuiu em até 7 quilômetros ao longo de sua história. E, apesar de ser um corpo pequeno, menor que as luas Ganimedes e Titã, Mercúrio mantém em funcionamento algo que Vênus e Marte perderam há muito tempo: um dínamo ativo, que produz um campo magnético global. Explicar as duas coisas ao mesmo tempo, o encolhimento e o magnetismo, é um dos quebra-cabeças mais teimosos da ciência planetária.
Um estudo publicado na revista Earth and Planetary Science Letters por Christopher Davies, Sam Greenwood e Alfred Wilson, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e por Anne Pommier, do Laboratório da Terra e dos Planetas da Instituição Carnegie para a Ciência, em Washington, enfrentou esse enigma com força bruta computacional. Os pesquisadores rodaram milhares de simulações da evolução térmica e magnética de Mercúrio ao longo de 4,5 bilhões de anos, variando a composição do núcleo, a viscosidade do manto, as temperaturas iniciais e a espessura de uma hipotética camada de sulfeto de ferro no topo do núcleo. De todas elas, apenas quatro conseguiram reproduzir ao mesmo tempo o que as sondas mediram: um dínamo que funciona hoje, um dínamo que já funcionava há 3,8 bilhões de anos, uma crosta entre 18 e 53 quilômetros de espessura e uma contração global de 1 a 10 quilômetros.
Para entender por que a tarefa é tão difícil, é preciso começar pela anatomia do planeta. Com 2.440 quilômetros de raio, Mercúrio é pouco maior que a Lua, mas sua densidade média rivaliza com a da Terra, que tem mais de duas vezes e meia o seu tamanho. Essa combinação só se explica com um núcleo metálico desproporcional, de cerca de 2.000 quilômetros de raio, o que deixa para o manto rochoso e a crosta uma casca de apenas 400 quilômetros. Em proporção, é como se a Terra tivesse um núcleo que chegasse quase até a base da crosta. O momento de inércia normalizado, entre 0,344 e 0,352, está mais perto do valor de uma esfera homogênea, 0,4, do que o da Terra, 0,33, sinal de que a massa de Mercúrio é menos concentrada no centro, justamente porque o metal ocupa quase tudo.
Mercúrio tem um campo magnético global desde que a sonda Mariner 10 o detectou, em 1974, para a perplexidade de quem esperava um corpo pequeno e morto por dentro. A sonda MESSENGER, sigla em inglês para MErcury Surface, Space ENvironment, GEochemistry, and Ranging, orbitou o planeta entre 2011 e 2015 e mediu esse campo com precisão: ele é dominado por um dipolo, como o terrestre, mas cerca de cem vezes mais fraco na superfície, e seu centro está deslocado uns 480 quilômetros para o norte do centro do planeta. Nos voos rasantes finais, a sonda também encontrou rochas da crosta magnetizadas de forma remanente, cuja idade estimada fica entre 3,7 e 3,9 bilhões de anos. É a prova de que o dínamo já estava ligado quando o planeta era jovem.
Para gerar um campo desses, é preciso metal líquido em movimento. Em 2007, medições feitas com radar a partir da Terra mostraram que Mercúrio oscila em torno do próprio eixo de rotação, numa libração com amplitude maior do que se esperaria de um planeta inteiramente sólido. A explicação é que o manto gira desacoplado de um núcleo externo fluido. Análises posteriores, combinando gravidade, rotação e densidade, sugerem que dentro desse oceano de metal existe um núcleo interno sólido, cujo raio pode chegar a 1.500 quilômetros, dependendo da composição que se assume para a liga. Esse detalhe, a composição, é justamente o centro da disputa científica que o novo estudo tenta resolver.
Durante décadas, os modelos de evolução térmica de Mercúrio assumiram um núcleo de ferro e enxofre, por analogia com o que se pensa sobre outros planetas rochosos. O enxofre é abundante no cosmos e, em condições comuns, gosta de se ligar ao ferro. Mas as lavas mercurianas contam outra história. Os espectrômetros da MESSENGER mediram na superfície teores altos de enxofre e muito pouco ferro oxidado, uma combinação que só se forma em condições extremamente redutoras, com oxigênio escasso. Os geoquímicos quantificam isso pela fugacidade de oxigênio, e no caso de Mercúrio ela ficaria de 3 a 7 unidades logarítmicas abaixo do tampão ferro-wüstita, ou seja, entre mil e dez milhões de vezes menos oxigênio disponível do que na referência usada para a Terra.
Nessas condições, a química muda de lado. O enxofre prefere ficar no magma silicatado em vez de afundar com o metal, e os cálculos indicam que apenas 1,5% a 2,0% em massa dele teriam entrado no núcleo. O silício faz o caminho inverso: comporta-se como metal, liga-se ao ferro e desce. As estimativas para o teor de silício no núcleo variam de cerca de 4% a algo entre 20% e 25% em massa, e uma quantidade não desprezível de carbono pode ter seguido o mesmo destino. Um núcleo de ferro e silício não é apenas uma troca de rótulo: ele esfria, cristaliza e gera campo magnético de maneira completamente diferente de um núcleo de ferro e enxofre.
A diferença está no que acontece quando o núcleo interno começa a se solidificar. Num núcleo rico em enxofre, o elemento leve é expulso do cristal e se concentra no líquido restante, que fica menos denso e sobe. Essa separação libera energia gravitacional de forma extremamente eficiente, e é ela que alimenta boa parte do dínamo terrestre. O silício, porém, se distribui quase igualmente entre o sólido e o líquido nas pressões e temperaturas do fundo de Mercúrio, por volta de 20 gigapascals e 2.000 kelvins. O resultado é que a cristalização de um núcleo de ferro e silício praticamente não libera energia gravitacional. Sobra apenas o calor latente, a energia que todo material libera ao passar de líquido a sólido, como a água que aquece o ar ao congelar na superfície de um lago.
O primeiro grupo a levar essa química a sério foi o de Knibbe e van Westrenen, que em 2018 publicou o primeiro modelo de história térmica de Mercúrio com um núcleo de ferro e silício. Eles descobriram algo incômodo: o manto do planeta é tão lento em extrair calor que, logo nos primeiros tempos, o fluxo que atravessa o limite entre núcleo e manto cai abaixo do valor que o próprio metal consegue transportar por condução. Quando isso acontece, a parte superior do núcleo deixa de convectar e se transforma numa camada termicamente estável, que cresce para baixo como uma tampa de líquido parado. O dínamo sobrevive, mas confinado ao que resta embaixo, alimentado pela nucleação precoce e pelo crescimento lento do núcleo interno.
Para visualizar essa camada, pense num lago no verão. A água da superfície, aquecida pelo sol, fica mais leve e flutua sobre a água fria do fundo, e as duas não se misturam: a estratificação é estável. No interior de Mercúrio a situação é parecida, embora o motor seja outro. Convecção exige que o topo do fluido perca calor mais depressa do que a condução sozinha daria conta; se o manto, viscoso e preguiçoso, drena pouco calor, o metal próximo do limite núcleo-manto não tem motivo para afundar e se acomoda num perfil de temperatura estável. Esse teto de metal líquido, sem turbulência, não contribui para o dínamo e ainda o isola em parte da superfície, uma ideia que Ulrich Christensen propôs em 2006 para explicar por que o campo mercuriano é tão fraco.
O modelo de 2018 reproduzia a espessura atual da crosta, mas não testava a contração global. Outros trabalhos haviam obtido histórias térmicas compatíveis com encolhimentos de 1 a 10 quilômetros, só que assumindo núcleos de ferro e enxofre ou de ferro puro, e ignorando a camada estável. Como o crescimento do núcleo interno é a principal fonte de contração, e como a química do núcleo e a estratificação térmica governam esse crescimento, nenhum desses modelos estava olhando para o quadro inteiro. A equipe de Davies e Pommier decidiu juntar tudo numa única máquina: um modelo acoplado em que o manto decide quanto calor sai do núcleo, e o núcleo, ao esfriar, decide quanto o planeta encolhe e quanta energia resta para o dínamo.
Havia ainda um ingrediente a testar: uma camada de sulfeto de ferro no topo do núcleo. Experimentos de equilíbrio de fases mostram que, se o silício ultrapassa 11% em massa, a porção superior de um líquido de ferro, silício e enxofre pode se separar em dois líquidos imiscíveis, como azeite e vinagre num vidro parado: um rico em silício, mais denso, e outro rico em enxofre, mais leve, que sobe e se espalha logo abaixo do manto. A espessura dessa camada, se existir, foi estimada entre menos de 15 quilômetros e algo entre 100 e 220 quilômetros, dependendo de quanto enxofre o material que formou o planeta carregava. E ela estaria líquida, porque o sulfeto de ferro funde abaixo de 1.700 kelvins na pressão de 5 gigapascals do limite núcleo-manto, bem abaixo das temperaturas que os modelos preveem para essa região.
O que torna essa camada interessante é sua condutividade térmica, menor que a das ligas de ferro e silício. Medições diretas em laboratório, feitas em sulfeto de ferro sólido até 42 gigapascals e 1.023 kelvins, apontam valores entre 6 e 25 watts por metro por kelvin, crescendo com pressão e temperatura. Estimativas a partir da resistividade elétrica do material fundido, usando a lei de Wiedemann-Franz, que relaciona a condução de calor à condução de eletricidade nos metais, dão algo entre 4 e 7 watts por metro por kelvin. Um cobertor desses no topo do núcleo poderia funcionar de duas formas contraditórias: abafar a perda de calor, se estiver estratificado, ou ajudar a convecção, por reduzir o fluxo de calor adiabático que o metal precisa superar para se mexer.
O modelo construído pela equipe é unidimensional: descreve o planeta como uma sequência de cascas esféricas, do centro ao regolito da superfície, cada uma com sua temperatura, e acompanha como essas temperaturas evoluem ao longo de 4,5 bilhões de anos. O manto e a litosfera seguem a parametrização de Knibbe e van Westrenen, herdada por sua vez de um trabalho de Grott e colegas de 2011; o núcleo segue o código desenvolvido por Sam Greenwood para estudar as camadas estratificadas da Terra e de Marte, disponível publicamente no GitHub. Os dois blocos conversam pelo limite núcleo-manto, conhecido pela sigla em inglês CMB, de core-mantle boundary: a convecção do manto determina quanto calor é extraído do núcleo, e a temperatura do núcleo determina de volta o fluxo que o manto recebe.
Nesse mundo em miniatura, o manto convecta no regime de stagnant lid, a tampa estagnada: diferente da Terra, onde a litosfera se parte em placas que afundam e são recicladas, Mercúrio tem uma casca rígida única, como a nata que se forma sobre o leite fervido, sob a qual a rocha quente circula devagar. Quando a temperatura ultrapassa o ponto de fusão, o magma produzido escapa para a superfície e constrói a crosta, levando calor consigo num processo que os modelos chamam de vulcanismo de heat pipe, ou tubo de calor. Por cima de tudo há o regolito, a camada de poeira e fragmentos que funciona como um isolante quase perfeito, com condutividade térmica de apenas 0,2 watt por metro por kelvin, quase vinte vezes menor que a da crosta rochosa abaixo.
O parâmetro que mais pesa nesse manto é a viscosidade, a resistência da rocha quente a fluir. Ela depende fortemente da temperatura, segundo uma lei exponencial com energia de ativação de 300 quilojoules por mol, e os autores a caracterizam por um valor de referência, definido a 1.600 kelvins, que variaram entre 10¹⁹ e 10²² pascal-segundo. Para dar escala: a água tem viscosidade de um milésimo de pascal-segundo, o mel fica em torno de dez, e o manto superior da Terra é estimado em algo como 10²⁰ a 10²¹. O intervalo coberto vai, portanto, desde um manto relativamente fluido, de olivina úmida, até um manto seco e rígido, que esfria com extrema lentidão.
No núcleo, a história começa com uma esfera de metal inteiramente líquida e convectiva, cuja temperatura segue uma adiabata, o perfil que um fluido bem misturado assume quando a pressão cresce com a profundidade. À medida que o planeta esfria, essa adiabata desce até tocar a curva de fusão da liga, e o primeiro ponto de contato ocorre no centro, onde a pressão é maior e o metal congela primeiro. Nasce aí o núcleo interno, que cresce de dentro para fora. O código também sabe lidar com o regime de iron snow, a neve de ferro, em que cristais se formam no topo do núcleo e caem como flocos, mas com as curvas de fusão e as adiabatas de Mercúrio esse cenário simplesmente não ocorre.
Para saber se o dínamo está ligado, os autores fazem a contabilidade de entropia do núcleo, um balanço termodinâmico que diz quanta potência útil sobra para gerar correntes elétricas depois de descontado o que a condução de calor desperdiça. Como o silício não se separa ao cristalizar, não há termo gravitacional nesse balanço, e como os elementos radioativos preferem o manto, também não há calor radiogênico no metal. Restam o resfriamento secular e o calor latente do núcleo interno. Usando o dipolo e o quadrupolo axiais medidos e uma condutividade elétrica de 5 × 10⁵ siemens por metro, a equipe estimou que a parte observável do campo de Mercúrio exige pelo menos 1 megawatt por kelvin de produção de entropia, o piso que todos os modelos precisam superar.
Dois ingredientes de laboratório amarram o núcleo à realidade: a condutividade térmica da liga de ferro e silício, ajustada a partir de dados experimentais para teores de 2% a 8% de silício entre 0 e 40 gigapascals, e a curva de fusão, construída com experimentos em ligas de ferro, silício e níquel. Ambas dependem da pressão, da temperatura e do teor de silício, e os autores as condensaram em polinômios usados em cada passo da simulação. Quanto mais silício, mais baixa a temperatura de fusão e menor a condutividade, um detalhe decisivo, porque é a competição entre o calor que o metal conduz e o calor que o manto consegue retirar que define onde a camada estável começa.
Cada simulação foi então julgada por quatro provas. Primeira: o dínamo precisa estar ativo hoje. Segunda: precisa ter estado ativo há 3,8 bilhões de anos, quando a crosta magnetizada se formou. Terceira: a crosta final deve ter entre 18 e 53 quilômetros, o intervalo de 35 mais ou menos 18 quilômetros derivado das razões entre geoide e topografia medidas pela MESSENGER. Quarta: a contração total do raio deve ficar entre 1 e 10 quilômetros. Massa, momento de inércia e amplitude de libração entram como condições de contorno, embutidas na escolha do raio do núcleo e das densidades. Só o modelo que passa nas quatro provas recebe o rótulo de bem-sucedido.
A contração, nos modelos, soma três contribuições. A primeira é a contração térmica pura, de manto e núcleo esfriando. A segunda é a expansão associada à fusão do manto e à extração de crosta, que empurra na direção oposta. A terceira, e dominante, é o crescimento do núcleo interno: ferro sólido é mais denso que ferro líquido, e cada quilômetro cúbico que cristaliza no centro ocupa menos espaço, puxando o planeta inteiro para dentro. É por isso que o tamanho do núcleo interno e o encolhimento de Mercúrio são duas faces da mesma moeda, e é por isso que um modelo que acerta um e erra o outro revela algo errado nas premissas.
Os parâmetros variados cobrem o que a ciência ainda não sabe: viscosidade de referência do manto, de 10¹⁹ a 10²² pascal-segundo; teor de silício no núcleo, de 7% a 15% em massa; temperatura inicial do limite núcleo-manto, de 1.800 a 2.200 kelvins; temperatura inicial do manto, de 1.700 a 1.900 kelvins; espessura do regolito, de 1 a 5 quilômetros; condutividade térmica do manto, de 3 a 5 watts por metro por kelvin; e a fração de elementos radioativos retida no manto em relação à crosta. Para a camada de sulfeto, testaram espessuras de até 100 quilômetros, o que equivale a explorar de 1% a 7% atômicos de enxofre no núcleo, e condutividades de 5 a 25 watts por metro por kelvin. A combinação de tudo isso rendeu milhares de histórias possíveis para o planeta.
A solução de referência, com viscosidade de referência de cerca de 3 × 10²¹ pascal-segundo, temperatura inicial do limite núcleo-manto de 2.000 kelvins e 15% de silício, passa nas quatro provas. Ao fim dos 4,5 bilhões de anos, ela entrega uma contração de 10 quilômetros, um núcleo interno de 1.126 quilômetros de raio, uma camada estável cuja base fica a 1.341 quilômetros do centro, uma crosta de 41 quilômetros, uma temperatura de 1.987 kelvins no limite núcleo-manto e de 1.927 kelvins no manto, e um dínamo que nunca se apaga nos últimos 3,8 bilhões de anos. Nessa história, o fluxo de calor no CMB despenca abaixo do valor adiabático logo nas primeiras centenas de milhões de anos, e a camada estável começa a crescer quase de imediato.
O que salva o dínamo é o núcleo interno, que nucleia pouco depois do início da estratificação porque a temperatura inicial não está muito acima da curva de fusão. Seu crescimento injeta calor latente e flutuabilidade na base do núcleo, o que freia o avanço da camada estável e mantém a convecção viva. O equilíbrio é delicado. Baixar o silício de 15% para 13% eleva a temperatura de fusão, o núcleo interno nasce mais cedo e cresce tão depressa que a zona convectiva desaparece por completo há cerca de 1 bilhão de anos: o dínamo morre antes de chegar ao presente. Subir a temperatura inicial para 2.100 kelvins adia a nucleação, e há 3,8 bilhões de anos não existe entropia suficiente para gerar campo. Diminuir a temperatura inicial levaria ao problema oposto, com congelamento precoce.
Quando se olha para o conjunto das simulações, a viscosidade do manto emerge como o botão mestre. Mantos pouco viscosos convectam rápido, drenam calor com eficiência e fazem o planeta esfriar depressa demais: a crosta sai espessa e a contração, exagerada. Passar a viscosidade de referência de 10²⁰ para 10²¹ pascal-segundo corta o encolhimento pela metade, de cerca de 30 para cerca de 15 quilômetros. Em mantos muito viscosos, as camadas-limite térmicas engrossam, a região convectiva se estreita e o resfriamento desacelera. A espessura da crosta nasce de uma disputa entre o volume de rocha fundida, que cresce com a viscosidade, e a velocidade com que o magma é transportado, que diminui; em mantos rígidos, o segundo efeito vence.
O teor de silício atua como um segundo controle, de efeito mais sutil. Mais silício rebaixa o ponto de fusão da liga, adia a nucleação do núcleo interno e, para a mesma temperatura inicial, deixa a camada estável mais espessa e o fluxo de calor no CMB menor. Para mantos de baixa viscosidade, abaixo de 10²¹ pascal-segundo, só concentrações acima de 13% em massa impedem que o metal congele por inteiro antes de hoje; para mantos mais rígidos, uma faixa maior de composições funciona. Modelos com 11% ou menos de silício, em geral, sequer chegam ao presente: a zona convectiva se fecha antes. Já a existência de um dínamo há 3,8 bilhões de anos depende quase só de o núcleo interno ter nascido a tempo, o que várias combinações de temperatura, silício e viscosidade conseguem.
As mesmas simulações produzem previsões concretas. A temperatura atual do limite núcleo-manto sobe com a viscosidade, por causa do resfriamento menor, e sobe também quando há menos silício, porque o núcleo interno precoce libera mais calor latente e retarda o esfriamento. O raio do núcleo interno faz o contrário: para um núcleo com 13% de silício, elevar a viscosidade de 10²⁰ para 10²¹ pascal-segundo reduz esse raio em cerca de 14%, e, para a viscosidade de 10²⁰, subir o silício de 13% para 15% o reduz em cerca de 10%. A intensidade do campo prevista pelas leis de escala, dividida por um fator 15 para converter o campo médio no dipolo observável, ainda assim supera o valor medido, uma falha conhecida de todas as leis de escala diante do campo anormalmente fraco de Mercúrio.
Com os parâmetros padrão, apenas um modelo satisfez as quatro condições, e um punhado ficou perto, no que os autores chamam de marginalmente bem-sucedidos: contração abaixo de 15 quilômetros, crosta entre 18 e 53 quilômetros e entropia acima do piso nas duas épocas. Todos eles têm manto rígido e núcleo rico em silício, e nenhum sobrevive com condutividade do manto acima de 3 watts por metro por kelvin. Para refinar a busca, a equipe rodou uma segunda bateria concentrada nas viscosidades altas, de 10²¹ a 10²² pascal-segundo, e nos teores de silício de 11%, 13% e 15%, variando agora a espessura do regolito, a partição de elementos radioativos e a temperatura inicial do manto, com o núcleo partindo de 100 a 400 kelvins acima dela.
Dessa bateria saíram regras adicionais. Quando o manto guarda quase a mesma concentração de elementos radioativos que a crosta, numa razão de 0,9, o interior fica quente demais e produz crostas com mais de 100 quilômetros, bem acima de qualquer estimativa, que não passa de 50 mais ou menos 12 quilômetros. Reduzir essa fração esfria o manto, afina a crosta e, em contrapartida, aumenta a contração. Um regolito fino, de 1 quilômetro, tem o mesmo efeito, por deixar mais calor escapar. Os modelos que sobreviveram partem de um manto relativamente frio, a 1.700 ou 1.800 kelvins, têm condutividade térmica do núcleo no CMB entre 20 e 33 watts por metro por kelvin e terminam com núcleo interno de 1.115 a 1.225 quilômetros de raio e base da camada estável entre 1.215 e 1.540 quilômetros do centro.
Chegou então a vez da camada de sulfeto de ferro. Na primeira versão, com condutividade de 5 watts por metro por kelvin, a camada é instável e convecta durante quase toda a história, exceto por um breve intervalo em torno de 700 milhões de anos após o início. Os autores compararam a solução de referência com camadas de 5, 50 e 100 quilômetros, equivalentes a 0,49%, 2,42% e 4,82% de enxofre em massa no núcleo. Camadas finas esfriam mais depressa no começo, derrubam a temperatura do CMB e, por tabela, o fluxo de calor, o que atrasa um pouco o início da estratificação. Camadas grossas, por serem menos densas, reduzem a pressão no centro do planeta e com ela o ponto de fusão, alterando o instante em que o núcleo interno nasce.
Todos esses efeitos existem, mas são pequenos e ficam confinados ao primeiro bilhão de anos. Depois disso, as curvas de temperatura, de raio do núcleo interno e de entropia dos casos com e sem sulfeto se sobrepõem a ponto de não se distinguirem. Na segunda versão, com condutividades de 15, 20 e 25 watts por metro por kelvin e uma camada de 100 quilômetros, escolhida de propósito como caso extremo, o sulfeto se comporta como um bloco condutivo e estratificado. Condutividades menores retardam o resfriamento do núcleo, mas adiam a formação da camada estável e do núcleo interno em menos de 50 milhões de anos, um sopro na escala de bilhões de anos. A conclusão é seca: se essa camada existe, ela é irrelevante para a história térmica e magnética de longo prazo de Mercúrio.
Com o quadro completo, os números finais ganham forma. Todas as soluções bem-sucedidas exigem viscosidade de referência acima de 10²¹ pascal-segundo, o que corresponde a uma viscosidade média do manto atual acima de 2 × 10²⁰, com o manto como um todo entre 5 × 10¹⁹ e 3 × 10²¹ e o manto inferior, mais quente, entre 2 × 10¹⁹ e 7 × 10¹⁹. É um manto lento, que esfria devagar e, justamente por isso, encolhe pouco e produz uma crosta modesta. Nesses modelos, tanto o manto quanto o núcleo seguem convectando até hoje, resultado coerente com estudos anteriores que mostraram que a convecção pode persistir mesmo numa camada rochosa com apenas 300 quilômetros de espessura.
Nem tudo encaixa com perfeição, e os autores são os primeiros a apontar as arestas. A contração mínima que os modelos conseguem produzir é de cerca de 9 quilômetros, no teto do que as escarpas registram, e nunca chega perto dos 1 a 2 quilômetros que alguns pesquisadores defendem. O valor depende de duas quantidades mal conhecidas, a diferença de densidade entre ferro sólido e líquido e a variação de volume na fusão do manto, que podem se compensar dentro das incertezas. A evolução temporal também levanta uma questão: nas soluções vencedoras, o encolhimento significativo só começa há cerca de 3 bilhões de anos, um pouco mais tarde do que a datação das grandes falhas de empurrão sugere.
A crosta impõe uma tensão parecida. Os modelos bem-sucedidos entregam no mínimo cerca de 40 quilômetros de espessura, em boa concordância com estimativas que vão de 19 mais ou menos 3 quilômetros nas planícies vulcânicas do norte a 50 mais ou menos 12 quilômetros nos terrenos antigos ricos em magnésio, mas acima das faixas mais restritivas, de 26 mais ou menos 11 quilômetros, propostas por outros grupos. Crostas mais finas, nos modelos, só aparecem quando o manto esfria mais depressa, e aí a contração dispara para muito além do observado. O planeta parece preso num corredor estreito de histórias possíveis, e cada observação nova aperta um pouco mais as paredes.
Há ainda o carbono, que a grafita detectada na superfície sugere estar presente em abundância no interior. Elementos leves adicionais rebaixariam ainda mais o ponto de fusão do metal; se o efeito for pequeno, nada muda, mas, se for grande o bastante para empurrar a nucleação do núcleo interno para antes de 3,8 bilhões de anos atrás, o modelo passaria a prever potência insuficiente para o dínamo antigo. E existe o cenário de origem de Mercúrio por impacto gigante, em que um protoplaneta maior teria perdido boa parte do manto rochoso numa colisão: um núcleo que se formou sob pressões diferentes poderia cristalizar de outro jeito, inclusive no regime de neve de ferro, algo que nenhum modelo de história térmica testou até agora.
Feitas as contas, de milhares de simulações restaram quatro. Elas apontam para um núcleo interno com raio entre 1.110 e 1.160 quilômetros e uma camada estável cuja base está entre 1.220 e 1.340 quilômetros do centro. Relaxar a crosta máxima para 62 quilômetros acrescenta duas soluções e quase nada muda; abandonar a exigência do dínamo antigo eleva o total para dez, com núcleos internos de 990 a 1.160 quilômetros. No conjunto, Mercúrio teria hoje um núcleo interno de 1.000 a 1.200 quilômetros de raio e uma camada estável de 500 a 800 quilômetros de espessura logo abaixo do manto, com os valores preferidos no meio dessas faixas. É um núcleo interno grande, na ponta superior do que os modelos de estrutura interna baseados em gravidade e rotação permitem.
Junte as duas estimativas e aparece a imagem mais marcante do estudo. Entre a superfície do núcleo interno sólido e a base da camada estagnada sobra uma casca de metal líquido convectivo com apenas 100 a 500 quilômetros de espessura. É ali, e só ali, que o dínamo de Mercúrio funciona hoje. Na Terra, a região equivalente, o núcleo externo, tem cerca de 2.260 quilômetros de espessura. O dínamo mercuriano é, portanto, uma usina de metal líquido espremida entre uma esfera sólida que cresce de baixo e uma tampa de líquido parado que a sufoca de cima, e que ainda assim resiste há mais de 4 bilhões de anos, mantida pelo calor latente de um núcleo interno que congela sem pressa.
A camada estável também explica por que o manto não derrete mais. Ela mantém o limite núcleo-manto quente, a cerca de 1.900 kelvins nos modelos, mas abaixo da temperatura em que a rocha começa a fundir, o que é coerente com a ausência de vulcanismo atual na superfície; nas simulações com manto menos rígido, a produção de crosta cessa nos primeiros 2 a 3 bilhões de anos, e nenhuma delas fabrica crosta nova hoje. E um teto de várias centenas de quilômetros de metal líquido estratificado é exatamente o tipo de estrutura que, segundo a hipótese de Christensen, filtraria as componentes mais variáveis do campo gerado em profundidade, deixando chegar à superfície apenas um dipolo enfraquecido. O estudo não testa essa ideia, pois isso exigiria simulações tridimensionais, mas a torna mais plausível ao mostrar que a camada surge naturalmente.
Essas previsões não vão esperar muito por um teste. A sonda BepiColombo, missão conjunta da Agência Espacial Europeia e da agência japonesa JAXA lançada em outubro de 2018, concluiu em janeiro de 2025 o último de nove sobrevoos planetários e deve entrar em órbita de Mercúrio no fim de novembro de 2026, no mês que vem, depois de um atraso causado por uma falha de potência nos propulsores elétricos do módulo de transferência. São duas naves: o Orbitador Planetário de Mercúrio, da ESA, com altímetro a laser, experimento de rádio-ciência e magnetômetro, e o orbitador Mio, da JAXA, dedicado à magnetosfera. Juntas, elas vão medir a gravidade, as marés, a libração e o campo magnético do planeta com uma precisão que a MESSENGER, sozinha e em órbita muito excêntrica, não alcançou.
O que está em jogo é mensurável. O tamanho do núcleo interno deixa marcas na amplitude da libração e na resposta de maré do planeta, e um núcleo sólido de 1.000 a 1.200 quilômetros produz uma assinatura diferente da de um núcleo menor. A espessura da camada estável e a altura da casca convectiva moldam a geometria do campo magnético e a maneira como ele varia no tempo, e um magnetômetro em cada nave, uma perto da superfície e outra na magnetosfera, permite separar o campo interno das correntes externas com uma clareza inédita. Se as medições confirmarem um núcleo interno grande e um campo filtrado por uma camada espessa, o retrato de Mercúrio como um planeta de manto rígido e núcleo de silício sai dos modelos e entra nos livros.
Mercúrio sempre foi o planeta que não deveria existir: denso demais para o seu tamanho, magnético demais para a sua idade, enrugado como um mundo que já morreu e ainda assim vivo por dentro. O que a equipe de Leeds e da Carnegie mostrou é que todas essas contradições cabem numa única história, desde que o planeta tenha um manto que esfria com a lentidão de um sextilhão de pascal-segundo e um núcleo em que o silício, e não o enxofre, dita as regras. Nessa história, o campo magnético que a BepiColombo vai encontrar no mês que vem é obra de um motor que congela de dentro para fora, mantido por uma casca de metal líquido de espessura comparável à distância entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Um dínamo de bolso, num planeta de bolso, que resiste há 4 bilhões de anos.




