Imagens profundas do Gemini Norte revelam que os filamentos do remanescente Pa 30 são cascatas de nós maiores que o Sistema Solar, multiplicam por dez o número de filamentos conhecidos e mostram que a estrela que sobreviveu à explosão quase não se moveu em 845 anos

Em agosto de 1181, astrônomos da corte chinesa, cronistas japoneses e observadores árabes anotaram o aparecimento de uma “estrela convidada” na direção da constelação de Cassiopeia, um ponto de luz que não constava de nenhum mapa e que brilhou por cerca de seis meses antes de se apagar. Durante mais de oito séculos, ninguém soube apontar no céu o que havia restado daquela explosão. Agora, 845 anos depois, um dos maiores telescópios do planeta voltou-se para o mesmo pedaço de céu e enxergou algo que nenhum instrumento havia mostrado: os raios luminosos que irradiam do cadáver estelar não são riscos contínuos de gás, mas colares de pequenos nós enfileirados com uma regularidade que lembra contas num fio. O objeto, catalogado como Pa 30, já era considerado o remanescente de supernova mais estranho conhecido. Acaba de ficar mais estranho ainda.

A descrição vem de um artigo publicado em 6 de outubro de 2026 no periódico The Astrophysical Journal, assinado por Tim Cunningham e Ilaria Caiazzo, que dividem a autoria principal, ao lado de John C. Raymond e Scott J. Kenyon. Cunningham é bolsista Hubble da NASA no Center for Astrophysics — Harvard & Smithsonian, e Caiazzo trabalha no Institute of Science and Technology Austria. O grupo obteve 6,9 horas de imagens com o espectrógrafo e câmera GMOS acoplado ao telescópio Gemini Norte, no Havaí, usando dois filtros de banda estreita, um sintonizado na emissão do enxofre ionizado, [S II], e outro na do oxigênio duplamente ionizado, [O III]. O resultado multiplicou por dez o número de filamentos conhecidos na nebulosa, mostrou que cada um deles é uma cascata de nós compactos e confirmou que o oxigênio brilha exatamente nos mesmos lugares que o enxofre.

Para entender o peso dessa novidade, é preciso recuar até 2013. Naquele ano, uma campanha de ciência cidadã que vasculhava imagens de arquivo do satélite WISE, o Wide-field Infrared Survey Explorer da NASA, deparou-se com uma mancha nunca catalogada nos filtros de 12 e 20 micrômetros. Quem a encontrou foi o astrônomo amador Dana Patchick, e o nome Pa 30 carrega as duas primeiras letras do sobrenome do descobridor. Imagens posteriores em [O III], feitas por Andreas Ritter e colaboradores no telescópio de 2,1 metros do Observatório Nacional de Kitt Peak, revelaram uma emissão nebular tênue e difusa. Em 2023, Robert Fesen, Bradley Schaefer e o próprio Patchick usaram o telescópio de 2,4 metros do Observatório MDM, também em Kitt Peak, para registrar a nebulosa em [S II], e o que apareceu foi uma estrutura de raios retilíneos partindo de um centro comum, com simetria circular tão perfeita que a comparação com um dente-de-leão maduro se tornou inevitável.

No coração dessa esfera de filamentos vive uma estrela que não deveria existir. Registrada como IRAS 00500+6713 e apelidada de estrela de Parker, ela tem temperatura efetiva de aproximadamente 200.000 kelvin, dezenas de vezes mais quente que o Sol, e exibe linhas de emissão largas, de espécies altamente ionizadas, que denunciam um vento estelar soprando a cerca de 16.000 quilômetros por segundo. Nem a atmosfera dessa estrela nem a nebulosa ao redor contêm hidrogênio ou hélio, os dois elementos que compõem quase tudo no Universo. Em vez deles, espectros de raios X revelam neônio, magnésio, silício e enxofre, as cinzas típicas de uma queima termonuclear. A paralaxe medida pelo satélite Gaia coloca o sistema a 2.300 parsecs de distância, com incerteza de 100 parsecs, algo em torno de 7.500 anos-luz na direção de Cassiopeia.

A cinemática da nebulosa completa o quadro. Espectros ópticos mostram que a emissão em [S II] se distribui em torno de uma velocidade de 1.000 quilômetros por segundo, com extremos que alcançam 1.400 quilômetros por segundo. Essas velocidades são modestas para uma supernova, mas enormes para qualquer outra coisa, e têm uma propriedade reveladora: cada filamento se afasta do centro com velocidade proporcional à sua distância, o que caracteriza uma expansão balística, como estilhaços que viajam em linha reta desde o instante da detonação. Quando se retrocede o relógio dessa expansão, todos os filamentos convergem para um único ponto e uma única época, e essa época coincide com o ano de 1181. A conta é simples de fazer: gás a 1.000 quilômetros por segundo percorre, em 845 anos, pouco menos de um parsec, exatamente o raio que a nebulosa exibe hoje.

Uma supernova fraca, com ejeção lenta e uma estrela sobrevivente no meio da nuvem é a assinatura de uma classe peculiar de explosões, as supernovas de tipo Iax. Elas foram reconhecidas como família própria em 2013, a partir do protótipo SN 2002cx, e representam versões malsucedidas das supernovas de tipo Ia, aquelas em que uma anã branca detona por completo. Numa Iax, a queima termonuclear se propaga como uma chama subsônica, uma deflagração, e libera energia insuficiente para desfazer a estrela inteira. Parte do material escapa em velocidades baixas, o brilho máximo fica bem abaixo do de uma Ia clássica, e um caroço parcialmente queimado permanece ligado pela própria gravidade. O baixo brilho de pico inferido dos registros medievais, as velocidades contidas da ejeção e a presença da estrela central levaram diversos grupos a classificar a explosão de 1181 nessa categoria, e as abundâncias medidas em raios X são compatíveis com uma queima termonuclear de energia relativamente baixa.

Há indícios crescentes de que as Iax nascem por mais de um caminho. Algumas parecem resultar da fusão de duas anãs brancas; outras, de uma anã branca que acumula matéria de uma companheira ainda viva, como ocorreu na SN 2012Z, cujo sistema progenitor foi flagrado pelo Hubble em imagens anteriores à explosão. No caso de Pa 30, a hipótese favorecida é a da fusão de duas anãs brancas, defendida desde 2019 pela equipe que primeiro estudou a estrela central em detalhe e reforçada por trabalhos teóricos publicados nos últimos anos. O vento violento que a estrela ainda sopra hoje seria acelerado por um mecanismo de arremesso magnetocentrífugo, em que o campo magnético de um objeto em rotação rápida age como funda e lança o gás para fora, uma ideia desenvolvida nos trabalhos liderados por Ko e por Zhong com seus respectivos colaboradores.

A forma da nebulosa, porém, nunca se encaixou bem em nenhum roteiro. Remanescentes de supernovas de tipo Ia costumam ser nuvens grumosas, modeladas por duas instabilidades hidrodinâmicas clássicas: a de Rayleigh-Taylor, que surge quando um fluido denso é desacelerado por um mais leve e se desfaz em dedos que avançam, e a de Kelvin-Helmholtz, que enrola a interface entre camadas que deslizam uma sobre a outra em velocidades diferentes. Pa 30 não se parece com nada disso. Seus filamentos são retos, radiais e longos. Uma proposta, lançada por Fesen e sua equipe em 2023, atribui os riscos ao vento de 16.000 quilômetros por segundo da estrela central, que esculpiria caudas ao atravessar grumos de ejeção mais lenta, como se vê nos restos das novas GK Persei e DQ Herculis e em algumas nebulosas planetárias. Outra linha de modelos, formulada por Paul Duffell, Miranda Pikus e Eric Coughlin com suas equipes, localiza a origem dos filamentos na interface entre a ejeção da supernova e o material ao redor, onde um resfriamento muito eficiente ou um contraste de densidade muito alto suprimiria a turbulência e deixaria apenas estruturas radiais quase balísticas.

Foi para arbitrar entre essas ideias que Cunningham e Caiazzo pediram tempo ao Gemini Norte por meio do programa Fast Turnaround, um canal de solicitação rápida em que propostas são avaliadas mensalmente e executadas em semanas. O pedido, identificado como GN-2025A-FT-112, foi observado em modo de fila ao longo de seis noites, entre 26 de julho e 5 de agosto de 2025. Foram duas horas de exposição com o filtro de [S II], centrado em 6720 angstroms e com transmissão efetiva entre 6694 e 6737 angstroms, e quatro horas com o filtro de [O III], centrado em 4990 angstroms e aberto entre 4965 e 5015 angstroms. As imagens de enxofre foram concedidas com a melhor categoria de qualidade atmosférica do observatório, a IQ20, reservada aos 20 por cento de condições mais estáveis; as de oxigênio tiveram uma hora nessa categoria e três horas na faixa IQ70.

Essa diferença de qualidade se traduz diretamente na nitidez. Analisando cerca de 120 estrelas de campo, os autores mediram a largura à meia altura da função de espalhamento pontual, a medida empírica do seeing, isto é, do borrão imposto pela turbulência da atmosfera, em 0,50 ± 0,01 segundo de arco na imagem final de [S II] e 0,85 ± 0,02 segundo de arco na de [O III]. Um detalhe de engenharia merece atenção: o detector do GMOS é um mosaico de três CCDs, e a largura projetada no céu do chip central é comparável ao diâmetro da nebulosa inteira. As exposições precisaram, portanto, ser deslocadas de leve entre si, uma técnica chamada dithering, para que as lacunas entre os chips não abrissem rasgos na imagem. O processamento seguiu o pacote padrão DRAGONS, versão 4.2.1: subtração de overscan, recorte, subtração de bias, correção de campo plano, normalização de ganho, montagem do mosaico, calibração astrométrica, subtração do fundo de céu e empilhamento. Ao final, a imagem de oxigênio foi registrada sobre a de enxofre, para que as duas compartilhassem um alinhamento fino, pixel a pixel.

O que saiu dessa cadeia de operações está na primeira figura do artigo, e três constatações saltam à vista antes de qualquer medida. A quantidade de filamentos é pelo menos dez vezes maior do que se havia detectado nas imagens anteriores, a ponto de a nebulosa parecer preenchida por eles. Os filamentos não são riscos lisos, e sim cadeias de nós minúsculos, próximos do limite de resolução de meio segundo de arco. E o oxigênio duplamente ionizado, que nas imagens antigas parecia uma névoa sem forma, desenha exatamente a mesma trama de filamentos que o enxofre. No painel mais ampliado, uma grade de 18 segundos de arco serve de régua e mostra que os nós se sucedem ao longo de cada raio com espaçamento característico entre 1 e 6 segundos de arco, um padrão que se repete de filamento para filamento com uma constância difícil de atribuir ao acaso.

Figura 1
Figura 1 A nebulosa Pa 30 na luz do enxofre ionizado, [S II], registrada pelo Gemini Norte/GMOS. No alto à esquerda, a nebulosa inteira; nos outros três painéis, ampliações sucessivas da região sul mostram que os filamentos radiais são cascatas de nós. A grade do painel inferior direito tem 18 segundos de arco de espaçamento, e os nós se sucedem ao longo de cada filamento a intervalos de cerca de 1 a 6 segundos de arco.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

Converter esses ângulos em tamanhos físicos exige a distância do Gaia, e o resultado dá a dimensão do que se está vendo. Um nó típico mede cerca de 0,6 segundo de arco de diâmetro, o equivalente a apenas 0,7 por cento do raio da nebulosa, o que a 2.300 parsecs corresponde a algo da ordem de 10¹⁶ centímetros. Esse número parece abstrato até ser traduzido: são cerca de 670 unidades astronômicas, quase 700 vezes a distância da Terra ao Sol, ou dezessete vezes o raio da órbita de Plutão. Cada conta do colar, portanto, é um glóbulo de gás maior que todo o Sistema Solar planetário, e os espaços entre contas vizinhas chegam a ser várias vezes maiores que isso. A nebulosa inteira, com raio de cerca de 90 segundos de arco, mede perto de um parsec, pouco mais de três anos-luz, e dentro desse volume cabem milhares dessas estruturas.

Figura 2
Figura 2 A mesma região da nebulosa vista no enxofre ([S II], painéis superiores) e no oxigênio duplamente ionizado ([O III], painéis inferiores), com alinhamento astrométrico idêntico. Os filamentos de oxigênio ocupam exatamente as posições dos filamentos de enxofre.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

Nós enfileirados não são inéditos no zoológico dos remanescentes. Cassiopeia A, o resto da explosão de uma estrela massiva ocorrida por volta de 1680 na mesma região do céu, exibe fieiras de grumos muito semelhantes nas imagens recentes do Telescópio Espacial James Webb, analisadas por Dan Milisavljevic e por Jeonghee Rho e seus colaboradores. A diferença é que em Cas A os nós se distribuem em caos, sem a ordenação radial rigorosa de Pa 30. Em ambos os casos, argumentam os autores, os grumos devem nascer de alguma combinação de instabilidade de Kelvin-Helmholtz com instabilidade térmica, agindo sobre filamentos estreitos submetidos a fluxos cisalhantes. A questão é saber qual dos cenários para a origem dos filamentos consegue, além de produzir riscos retos, quebrá-los em pérolas do tamanho certo e no tempo disponível.

O cenário do vento esculpindo caudas é o primeiro a cair. Nessa proposta, o sopro de 16.000 quilômetros por segundo alcançaria grumos numa casca de ejeção mais lenta e os evaporaria lentamente, estirando-os em filamentos radiais. O modelo não explica com naturalidade o movimento balístico observado, em que a velocidade de cada filamento cresce em proporção à distância e a origem comum de todos eles coincide com o ano de 1181. E a frequência quase regular dos nós ao longo de cada raio contrasta com a morfologia esperada para grumos sendo ablados por um vento, que deveriam se desfazer em caudas lisas e decrescentes, não em contas. Os autores registram essas objeções e não voltam mais ao assunto.

O segundo cenário tem como ingrediente central a instabilidade de Rayleigh-Taylor sob resfriamento radiativo intenso. Nos modelos de Duffell e de Pikus, a ejeção densa da supernova se choca com o meio interestelar ambiente, e o gás, ao irradiar sua energia com eficiência, perde pressão e se comprime. Esse resfriamento suprime a instabilidade de Kelvin-Helmholtz nas pontas dos dedos de Rayleigh-Taylor, que em condições normais os enrolaria em cogumelos turbulentos; em vez disso, os dedos avançam finos e retos. A simulação prevê expansão quase balística desde que a interação aconteça cedo na evolução do remanescente. Dedos igualmente estreitos surgiram nas simulações de Salvatore Orlando e colaboradores para a interação da ejeção de Cas A com seu meio circunstelar, o que dá ao mecanismo um respaldo independente. Nas versões com taxa de resfriamento alta calculadas por Pikus, os filamentos ficam separados por meio interestelar ainda não chocado.

Os números permitem testar se esse quadro gera nós. Medidas anteriores de Fesen indicam densidades de 100 a 700 partículas por centímetro cúbico nos filamentos, e os modelos de Pikus adotam um meio ambiente com cerca de 0,1 partícula por centímetro cúbico, de modo que o contraste de densidade é da ordem de 5.000. A taxa de crescimento da instabilidade de Kelvin-Helmholtz pode ser estimada por uma expressão compacta: ela é proporcional ao número de onda da perturbação, à diferença de velocidade entre os dois fluidos e à raiz quadrada da razão entre suas densidades. Um contraste grande, portanto, freia a instabilidade. Com razão de densidades de 1 para 5.000 e diferença de velocidade de 1.000 quilômetros por segundo, o tempo de crescimento para perturbações na escala de 10¹⁶ centímetros é de cerca de 160 anos. Isso significa que o modelo de Duffell e Pikus é capaz de fatiar os filamentos em nós por meio de Kelvin-Helmholtz, embora com folga apertada diante dos 845 anos de idade do objeto.

Equação 1
Equação 1 Taxa de crescimento da instabilidade de Kelvin-Helmholtz: proporcional ao número de onda k, à raiz quadrada da razão entre a densidade do meio e a do filamento e à diferença de velocidades. Com contraste de 5.000 e diferença de 1.000 km/s, o tempo de crescimento em escalas de 10¹⁶ cm resulta em cerca de 160 anos.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

Existe um segundo relógio correndo dentro desse gás, muito mais rápido. Usando coeficientes de resfriamento para uma composição silicática, calculados por Raymond em 2018 a partir das taxas dos elementos abundantes na ejeção de supernovas, o tempo de resfriamento de um filamento resulta em torno de um mês. Gás que esfria tão depressa é presa fácil da instabilidade térmica: uma região um pouco mais densa irradia mais, esfria mais, perde pressão, é comprimida pela vizinhança e fica ainda mais densa, num ciclo que se retroalimenta até condensar grumos. A instabilidade térmica poderia, assim, acelerar a condensação de nós iniciada pela de Kelvin-Helmholtz, e é até possível que ela sozinha dê conta do recado, já que gás esfriando atrás de um choque é notoriamente instável a esse processo, como Innes demonstrou em 1992, e a sublimação rápida de poeira tornaria a instabilidade ainda mais forte. Fica em aberto, admitem os autores, se a instabilidade térmica de uma pluma de Rayleigh-Taylor produziria uma série ordenada de contas ou uma estrutura caótica em pequena escala.

O terceiro cenário, proposto por Coughlin e colaboradores em 2026, também invoca Rayleigh-Taylor, mas em outro lugar e outra época. Trata-se de um modelo bidimensional simples da instabilidade entre fluidos com contrastes de densidade de 2, 10 e 100, no qual o caso de contraste mais alto gera dedos muito estreitos, análogos aos de Pa 30. Em vez de resfriamento radiativo, os autores desse trabalho postulam a interação entre um meio circunstelar com densidade da ordem de 100 partículas por centímetro cúbico e um vento lançado pela anã branca recém-fundida, mais denso e mais lento que o vento visto hoje, a uma distância de cerca de 10¹⁵ centímetros da estrela. O comprimento dos filamentos seria determinado pelo intervalo em que o contraste de densidade e a desaceleração foram grandes o bastante para alimentar a instabilidade.

O problema está no gás entre os filamentos: nesse modelo ele é material ambiente chocado, com velocidade pouco diferente da dos próprios filamentos, e um contraste de velocidade modesto estica o tempo de Kelvin-Helmholtz até a própria idade do remanescente. Seria difícil, concluem Cunningham e Caiazzo, produzir os nós por essa via, a menos que a instabilidade térmica os tenha formado numa fase anterior, algo sobre o qual o modelo de Coughlin nada diz, porque não inclui uma equação de energia.

Para ir além da inspeção visual, a equipe recorreu a uma ferramenta nascida fora da astronomia. Em 1962, o físico Paul Hough patenteou um método para reconhecer trilhas retas de partículas em fotografias de câmaras de bolhas, hoje conhecido como transformada de Hough e usado em toda parte, da visão computacional de robôs à leitura de placas de carros. Em 2014, Susan Clark, Joshua Peek e Mary Putman adaptaram a ideia para imagens astronômicas, criando a rolling Hough transform, ou transformada de Hough rolante, uma versão local que desliza uma janela circular pela imagem e, em cada pixel, pergunta em que direção as estruturas lineares ao redor estão alinhadas. A técnica foi concebida para medir fibras de hidrogênio neutro no meio interestelar e está disponível como código aberto em Python, que foi o que os autores utilizaram.

A transformada tem três botões de ajuste. O raio de suavização da máscara de nitidez, chamado rs, define um filtro passa-alta aplicado antes de tudo e deve valer de duas a cinco vezes a espessura das estruturas que se quer realçar. O comprimento da janela, Dw, fixa o diâmetro do círculo dentro do qual a orientação dominante é computada. E o limiar de detecção, Z, estabelece a fração de cada direção que precisa conter sinal para que ela conte, fixado em 0,7 seguindo a recomendação original de Clark. Na terceira figura do artigo, a intensidade integrada da transformada, calculada com Dw de 15 segundos de arco, rs de 2 segundos de arco e Z igual a 0,7, aparece em vermelho sobre a imagem de [S II], restrita a 90 segundos de arco do centro e com quatro regiões mascaradas para evitar os espigões de difração de duas estrelas saturadas. O painel inferior repete o mapa, mas colore cada pixel pelo ângulo em que sua resposta é máxima, numa paleta cíclica de 0 a 180 graus, e o resultado é uma roseta de cores que confirma, pixel a pixel, o que o olho já sugeria: os filamentos apontam para o centro.

Figura 3
Figura 3 A transformada de Hough rolante aplicada à imagem de [S II] suavizada para 0,4 segundo de arco. No alto, em vermelho, a intensidade integrada da transformada (Dw = 15″, rs = 2″, Z = 0,7) até 90 segundos de arco do centro, com quatro regiões mascaradas para evitar os espigões de difração de duas estrelas saturadas. Embaixo, cada pixel colorido pelo ângulo em que sua resposta é máxima, numa paleta cíclica de 0° a 180°: a direção radial dos filamentos é recuperada pixel a pixel.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

Essa capacidade de medir direções abriu caminho para uma pergunta que ninguém havia respondido com números: onde fica, exatamente, o centro da nebulosa, e ele coincide com a estrela? A questão importa por causa do que os modelos de tipo Iax preveem. Como a explosão, em muitos desses modelos, é uma detonação frustrada ou uma deflagração parcial e descentrada, o caroço sobrevivente pode receber um recuo violento, um coice, e ser arremessado através da Galáxia. Já se conhecem várias estrelas fugitivas, com velocidades superiores a 500 quilômetros por segundo e atmosferas contaminadas pelos produtos da queima termonuclear, que são candidatas a sobreviventes desse tipo de evento, e a primeira delas, LP 40-365, foi apresentada por Stéphane Vennes e colaboradores em 2017. Outros modelos de deflagração, contudo, preveem coices desprezíveis. O intervalo de previsões numéricas vai de 6 a 600 quilômetros por segundo, duas ordens de grandeza de ambiguidade.

Pa 30 é o único laboratório onde esse coice pode ser medido diretamente, porque a estrela está ali, no meio de sua própria nuvem. O movimento próprio de alta precisão do Gaia já indicava uma velocidade transversal de apenas 15,7 ± 1,5 quilômetros por segundo para a estrela central, mas isso é a velocidade em relação ao Sol, não em relação à nebulosa, e nada dizia sobre a componente ao longo da linha de visada. Medir a velocidade radial da estrela, aliás, é impossível com as técnicas atuais: o vento de 16.000 quilômetros por segundo alarga suas linhas de emissão por dezenas de angstroms, e um deslocamento Doppler de algumas dezenas de quilômetros por segundo se perde dentro delas.

Uma alternativa seria procurar assimetrias de velocidade na nebulosa, e a espectroscopia de campo integral obtida por Cunningham em 2024 encontrou um excesso de cerca de 40 por cento na intensidade do [S II] vindo do material que se afasta de nós, mas aquela observação cobriu só uns 10 por cento da nuvem, e não se sabe se a assimetria é global. De todo modo, seria uma coincidência improvável que um coice forte estivesse apontado quase inteiramente ao longo da linha de visada, o que já permite descartar um recuo grande. Um coice modesto, porém, deixaria uma marca mensurável no plano do céu: um deslocamento entre a posição atual da estrela e o centro geométrico dos filamentos.

O método para encontrar esse centro é elegante na sua simplicidade. Como interessa a direção global dos filamentos, e não sua estrutura fina, os autores suavizaram e reamostraram a imagem de [S II] para pixels de 0,4 segundo de arco, pouco abaixo do seeing, o que reduziu os cerca de dois milhões de pixels com sinal significativo na transformada rolante para aproximadamente 30 mil. A análise ficou restrita a um anel entre 30 e 90 segundos de arco do centro, porque os filamentos mais internos estão orientados predominantemente ao longo da linha de visada, como a espectroscopia de 2024 revelou, e por isso exibem direção projetada mais fraca. Os 10 por cento de pixels com menor intensidade foram descartados para suprimir ruído.

Figura A1
Figura A1 Grade de transformadas de Hough rolantes para o quadrante nordeste da imagem de [S II], com pixels reamostrados para 0,4 segundo de arco. Da esquerda para a direita cresce o comprimento da janela, Dw; de cima para baixo, o raio de suavização, rs. Valores pequenos realçam a estrutura fina e as variações locais de orientação; valores grandes privilegiam a morfologia global dos filamentos.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

A cada pixel restante atribuiu-se uma única orientação, o ângulo em que seu espectro de resposta atinge o máximo, e construiu-se um modelo geométrico em que todos os filamentos são radiais em relação a um centro comum de coordenadas desconhecidas. Para cada centro de teste, calcula-se o ângulo da reta que o liga a cada pixel e compara-se com a orientação medida; centros que produzem resíduos angulares menores recebem probabilidade maior. Um parâmetro extra, o espalhamento angular intrínseco, absorve o ruído do dado e do procedimento.

Equações C1 a C4Equações C1 a C4Equações C1 a C4Equações C1 a C4
Equações C1 a C4 O modelo estatístico usado para localizar o centro da nebulosa: a orientação radial esperada em cada pixel para um centro de teste (C1), o resíduo angular dobrado no intervalo de 180° (C2), a verossimilhança gaussiana ponderada pela intensidade da transformada em cada pixel (C3) e o logaritmo da probabilidade a posteriori amostrada com o emcee (C4).Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

A busca pelo melhor centro usou o amostrador de Monte Carlo via cadeias de Markov emcee, com 24 caminhantes evoluídos por mil passos, inicializados em torno da posição Gaia da estrela com dispersão de dois pixels e em torno de uma dispersão angular de cinco graus. Os primeiros 200 passos, equivalentes a cinco tempos de autocorrelação, foram excluídos como fase de aquecimento. A distribuição a priori do centro foi tomada uniforme dentro de uma caixa de 16 segundos de arco, ou 200 pixels, para cada lado de uma posição de referência, e a da dispersão angular foi log-uniforme entre 0,5 e 60 graus. Para garantir que o resultado não dependesse dos botões da transformada, a equipe repetiu todo o ajuste para uma grade de valores de Dw e rs. O centro encontrado não muda com a escolha, mas escolhas inadequadas alargam as incertezas; as soluções mais estáveis surgem para Dw entre 10 e 20 segundos de arco e rs entre 2 e 3 segundos de arco. A distribuição final combinou os ajustes feitos com Dw de 12, 13, 15 e 17 segundos de arco e rs de 2 e 2,4 segundos de arco, marginalizando sobre a escolha de parâmetros.

Figura C1
Figura C1 Distribuições a posteriori dos três parâmetros do ajuste, as coordenadas do centro, Δx e Δy, e a dispersão angular intrínseca σ₀, para a combinação Dw = 15″, rs = 2″ e Z = 0,7, após o descarte da fase de aquecimento. As distribuições são aproximadamente gaussianas e quase sem covariância entre si.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0
Figura C2
Figura C2 O centro da nebulosa para diferentes escolhas de parâmetros da transformada. Em cima, a intensidade integrada em vermelho sobre a imagem de [S II]; embaixo, as distribuições a posteriori das coordenadas do centro. As linhas correspondem a rs = 2″ e 2,4″; as colunas, a Dw = 12″, 13″, 15″ e 17″. O centro ajustado não muda com a escolha, só a largura da incerteza.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

A resposta está na quarta figura do artigo, um recorte de cerca de três segundos de arco em torno da estrela central. Um símbolo vermelho marca a posição Gaia da estrela na época 2025,6, a das observações do Gemini, e coincide com a fonte visível na imagem; uma cruz vermelha indica onde a estrela estava em 1181, retrocedendo seu movimento próprio. Em azul aparecem os contornos de 1, 2 e 3 sigma do centro ajustado, e eles envolvem a estrela. Separações maiores que 1,1 segundo de arco ficam excluídas no nível de 3 sigma. Convertendo esse limite espacial em velocidade ao longo dos 845 anos decorridos, obtém-se um teto para o coice no plano do céu: menos de 6,6 quilômetros por segundo a 1 sigma, menos de 9,6 a 2 sigma e menos de 13,6 a 3 sigma, valor que os autores arredondam para 14 quilômetros por segundo.

Figura 4
Figura 4 No alto, um recorte de cerca de três segundos de arco em torno da estrela central IRAS 00500+6713, com a posição Gaia em 2025 (cruz) e em 1181 (X) marcadas em vermelho e os contornos de 1, 2 e 3 sigma do centro da nebulosa em azul: separações maiores que 1,1 segundo de arco ficam excluídas. No meio, a distribuição de velocidades transversais compatíveis com essa separação, com limite de 14 km/s a 3 sigma. Embaixo, a densidade de probabilidade da velocidade total do coice, assumindo direções igualmente prováveis no espaço: menos de 94 km/s a 3 sigma.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

Uma nota de rodapé registra uma coincidência curiosa: a posição corrigida da estrela para 1181 cai quase em cima de outra fonte do campo, Gaia DR3 526287189166341504, mas trata-se de um objeto em primeiro plano, a cerca de 988 ± 216 parsecs, com movimento próprio de uns 10 milissegundos de arco por ano, sem qualquer relação física com o remanescente. O alerta evita que algum leitor desavisado do catálogo tome a vizinha por uma segunda estrela ligada ao evento de 1181 ou interprete a aproximação aparente como evidência de um deslocamento que não existe.

Resta a componente que o céu não mostra, a velocidade ao longo da linha de visada. Para incluí-la, os autores assumiram que todas as direções de coice são igualmente prováveis no espaço tridimensional e propagaram a distribuição da velocidade transversal numa distribuição para a velocidade total. O limite resultante é de 9,5 quilômetros por segundo a 1 sigma, 23,1 a 2 sigma e 93,5 a 3 sigma, ou seja, menos de 94 quilômetros por segundo com 99,7 por cento de confiança, que o resumo do artigo apresenta como um teto de cerca de 100 quilômetros por segundo. Diante de previsões teóricas que se espalham de 6 a 600, esse resultado corta fora toda a metade superior do intervalo e sinaliza que, o que quer que tenha acontecido em 1181, a estrela não foi chutada com força. Restrições quantitativas desse tipo, escrevem os autores, podem fornecer pistas sobre o progenitor da supernova, favorecendo os modelos em que o remanescente permanece praticamente parado.

A terceira frente do trabalho mede a espessura dos filamentos, e é ela que sustenta a afirmação de que os nós estão sendo, ao menos parcialmente, resolvidos. Numa primeira tentativa, a equipe escolheu manualmente cerca de 30 filamentos brilhantes na borda leste da nebulosa e traçou, sobre cada um, seções transversais de 4 segundos de arco de comprimento, perpendiculares à direção radial definida a partir do centro recém-medido. Cada perfil teve o fundo de céu subtraído e foi normalizado pelo seu pico; sobre a mediana de todos eles ajustou-se uma gaussiana. Em [S II], a largura à meia altura resultou em 0,68 ± 0,03 segundo de arco, nitidamente maior que os 0,50 segundo de arco do seeing, o que indica que os nós são marginalmente resolvidos. Um detalhe chamou a atenção: fora do núcleo dos filamentos, os perfis não caem a zero, mas se estabilizam num patamar bem acima do céu, sinal de alguma emissão difusa cercando as contas. Em [O III], os perfis individuais são ruidosos demais para um ajuste seguro, a menos que a imagem seja suavizada até metade do seeing, e mesmo assim a resolução pior não permite esperar que os filamentos de oxigênio apareçam resolvidos.

Figura 5
Figura 5 À esquerda, [S II]; à direita, [O III]. No alto, a borda leste da nebulosa com as seções transversais de 4 segundos de arco marcadas por traços cinza. No meio, os perfis individuais (cinza), a mediana (preto) e o ajuste gaussiano (vermelho), com largura de 0,68 segundo de arco em [S II] contra 0,50 segundo de arco de seeing. Embaixo, o perfil mediano extraído em todos os pixels da transformada, normalizado pelo fundo da nebulosa (linha traço-ponto): 0,81 segundo de arco em [S II] e 1,07 segundo de arco em [O III].Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

A segunda abordagem substituiu a escolha a olho por um procedimento sistemático, aproveitando que a transformada rolante funciona como um detector sensível e robusto da posição das estruturas lineares. Em cada pixel com intensidade significativa no mapa da transformada, extraiu-se um perfil perpendicular à direção radial, estendendo-se 2 segundos de arco para cada lado, na resolução nativa da imagem, com pixels de 0,08 segundo de arco. Isso rendeu milhares de perfis espalhados por toda a nebulosa. Para as duas imagens usaram-se as posições do mapa de [S II], porque o brilho superficial do enxofre é bem maior e produz uma distribuição de detecções mais confiável. Os fluxos foram subtraídos do céu e normalizados pelo valor do fundo local.

A curva de Gauss ajustada ao perfil mediano deu 0,81 ± 0,03 segundo de arco em [S II] e 1,07 ± 0,22 segundo de arco em [O III]. O primeiro valor volta a exceder o seeing; o segundo é compatível com os 0,85 segundo de arco de borrão da imagem de oxigênio e, portanto, não exige por si só que os filamentos sejam resolvidos. O perfil de [O III] exibe um leve deslocamento em relação à gaussiana centrada, que os autores consideram provavelmente insignificante dada a baixa razão sinal-ruído. Tirando o borrão atmosférico da conta, por deconvolução da função de espalhamento pontual, a largura intrínseca típica dos nós em [S II] fica em torno de 0,6 segundo de arco, que a 2.300 parsecs equivale a cerca de 10¹⁶ centímetros, o valor que os autores adotam como escala característica.

O patamar de emissão entre os filamentos ganhou um nome, fundo da nebulosa, e um gráfico próprio. Na sexta figura do artigo, os perfis medianos aparecem em função da distância ao centro, e o fundo da nebulosa só decai até o nível do céu a cerca de 90 segundos de arco, na borda externa da nuvem. Duas explicações são possíveis. Pode haver uma emissão de fato difusa preenchendo os vãos entre os filamentos brilhantes, ou pode existir uma população numerosa de filamentos fracos, abaixo do limiar de detecção, que somados parecem uma névoa. Os autores descartam a hipótese de que o patamar seja contaminação de filamentos vizinhos resolvidos, porque o perfil característico é obtido por mediana, uma estatística imune a estrelas e riscos ocasionais que cruzem as seções, e porque a inspeção das imagens mostra que a maioria das seções não intercepta outros filamentos resolvidos.

Figura 6
Figura 6 Perfis medianos perpendiculares aos filamentos em função da distância ao centro da nebulosa, em [S II] (esquerda) e [O III] (direita). O fundo da nebulosa, a emissão que persiste entre os filamentos acima do nível do céu, só cai ao nível do céu a cerca de 90 segundos de arco do centro.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

O apêndice B fecha o circuito com um teste independente da coincidência entre oxigênio e enxofre: uma correlação cruzada bidimensional entre o mapa da transformada rolante do [S II] e a imagem de [O III], com as estrelas mascaradas por serem mais brilhantes que qualquer filamento e as regiões dominadas por fundo mascaradas por serem mais fracas. Como controle, a mesma operação foi feita entre o mapa e a própria imagem de [S II], que por construção deve correlacionar ao máximo em deslocamento zero. O oxigênio se comportou como o controle, com a correlação crescendo rumo a deslocamentos menores, prova de que os filamentos de [O III] ocupam o mesmo lugar dos de [S II]. O que ainda não se sabe é se a razão entre as duas emissões varia ao longo ou através dos filamentos, informação que revelaria a estrutura de ionização de cada nó e que só virá com imagens de oxigênio mais profundas ou com espectroscopia de campo integral de alta resolução angular.

Figura B1 e Equação B1Figura B1 e Equação B1
Figura B1 e Equação B1 Correlação cruzada bidimensional entre o mapa da transformada de Hough rolante do [S II] e as imagens de [S II] (esquerda, o controle) e de [O III] (direita). Nos dois casos a correlação cresce rumo ao deslocamento zero, prova de que os filamentos de oxigênio ocupam o mesmo lugar dos de enxofre. A equação B1 define a amplitude de correlação C entre duas imagens normalizadas, calculada para deslocamentos inteiros de pixel em todas as direções.Crédito: Cunningham, Caiazzo, Raymond & Kenyon 2026, The Astrophysical Journal 1010:28 · CC BY 4.0

Há uma medida que a equipe gostaria de ter feito e não conseguiu: o espaçamento característico entre os nós. Visualmente, muitos filamentos mostram contas distribuídas em intervalos regulares, e isso sugere uma escala física privilegiada, talvez o comprimento de onda em que alguma instabilidade cresce mais depressa. O problema são os efeitos de projeção. A nebulosa é tridimensional, filamentos distintos se sobrepõem ao longo da linha de visada, e fica difícil distinguir o espaçamento real dentro de um único raio das separações aparentes criadas por estruturas superpostas. Os autores propõem uma saída: modelos que prevejam um espaçamento característico poderiam ser testados por modelagem direta, projetando populações sintéticas de filamentos com nós e comparando a distribuição resultante com a observada. É um convite explícito aos teóricos, que agora têm um alvo concreto para suas simulações.

A importância desse alvo fica clara quando se olha para o conjunto. Até aqui, os modelos para Pa 30 precisavam explicar filamentos retos, radiais e balísticos. Agora precisam explicar, também, por que esses filamentos se fragmentam em glóbulos de 10¹⁶ centímetros, com que frequência e em que momento, e precisam fazer isso dentro de 845 anos. Uma instabilidade de Kelvin-Helmholtz com tempo de crescimento de 160 anos passa no teste por pouco; uma instabilidade térmica com tempo de resfriamento de um mês passa com folga, mas ninguém demonstrou que ela produza ordem em vez de caos; um modelo em que o gás entre os filamentos quase não cisalha fica em dificuldade. Nós semelhantes nos restos de Cas A, nas caudas das velhas novas e nos famosos glóbulos cometários da Nebulosa da Hélice, estudados por C. Robert O’Dell e Kerry Handron em 1996, mostram que o Universo tem mais de uma receita para enfileirar contas de gás, e Pa 30 acaba de se tornar o lugar mais limpo para descobrir qual delas foi usada.

A continuação natural está escrita na última frase do artigo: observações que explorem a resolução angular do Telescópio Espacial Hubble aumentariam muito o alcance dessa análise. Acima da atmosfera, o Hubble enxerga detalhes de poucos centésimos de segundo de arco, cerca de dez vezes mais finos que o melhor seeing do Gemini, e transformaria nós marginalmente resolvidos em objetos com forma, bordas e, talvez, estrutura interna. Imagens de oxigênio mais profundas permitiriam medir a razão entre as duas linhas ao longo de cada raio, e um levantamento espectroscópico cobrindo a nebulosa inteira resolveria de vez a dúvida sobre a assimetria de velocidades e sobre a componente do coice ao longo da linha de visada. Como a expansão é balística e as velocidades são conhecidas, imagens de alta resolução separadas por alguns anos poderiam, em princípio, flagrar os próprios nós se movendo no céu, convertendo o dente-de-leão num filme.

Entre as supernovas registradas por observadores humanos antes da invenção do telescópio, a de 1006, a de 1054 que gerou o Caranguejo, a de Tycho em 1572 e a de Kepler em 1604, a de 1181 é a única cuja estrela sobreviveu à própria explosão e segue brilhando, uma anã branca que continua a soprar suas entranhas para o espaço a 16.000 quilômetros por segundo. Durante 832 anos, o remanescente passou despercebido, até que um astrônomo amador o pescou em dados de arquivo. Em pouco mais de uma década, ele saiu de mancha infravermelha anônima para dente-de-leão de filamentos balísticos e, agora, para uma esfera de milhares de colares de gás em expansão, cada conta maior que o Sistema Solar, todas disparadas no mesmo instante de agosto de 1181.

O que o Gemini fotografou é, no fundo, um relógio quebrado em pedaços. Cada nó carrega a marca de uma instabilidade que o esculpiu, cada espaçamento guarda o comprimento de onda em que essa instabilidade cresceu, cada filamento aponta para o ponto do céu onde uma estrela deveria ter morrido e não morreu. Quando os modelos conseguirem reproduzir essas contas, uma a uma, estaremos lendo a física de uma explosão termonuclear fracassada com um detalhe que nenhuma supernova distante jamais permitirá. Os cronistas de 1181 viram a luz e a registraram sem entender. Oito séculos e meio depois, a mesma luz, espalhada em filamentos e condensada em pérolas, começa a contar o que aconteceu.

Fonte

Tim Cunningham, Ilaria Caiazzo, John C. Raymond & Scott J. Kenyon, “Detection of Knots in the Type Iax Supernova Remnant Pa 30”, The Astrophysical Journal, volume 1010, artigo 28 (12 páginas), 10 de outubro de 2026. Recebido em 16 de junho, aceito em 19 de agosto e publicado em 6 de outubro de 2026. DOI: 10.3847/1538-4357/ae9cb2.