Invisível nos filtros azuis do Subaru e ensurdecedora no rádio, TXS 2354+015 foi confirmada em z = 4,946 com quarenta minutos do VLT — e teria escapado ao método clássico de busca por esses gigantes

Em cinco imagens do mesmo pedacinho de céu, obtidas pelo telescópio Subaru com filtros diferentes, há um círculo branco marcando uma posição. Nos dois filtros mais azuis, o círculo está vazio: nada além do ruído do detector. Nos três mais vermelhos, aparece uma mancha difusa, tão apagada que seria preciso multiplicar seu brilho por cerca de 15 milhões de vezes para que um olho humano a percebesse numa noite perfeita. No rádio, a história é a oposta. A fonte TXS 2354+015 figura em catálogos há décadas, gritando em frequências de centenas de megahertz sem que ninguém soubesse ao certo o que ela era.

Na noite de 18 de setembro de 2025, uma fenda de 1,3 segundo de arco aberta diante de um espelho de 8,2 metros no deserto do Atacama recolheu, durante quarenta minutos, a luz que faltava para juntar as duas pontas dessa história. Bastou uma linha de emissão intensa e torta, acompanhada de uma segunda linha quase imperceptível, para fixar a distância do objeto e transformar um borrão anônimo em recordista. O resultado é a rádio-galáxia mais potente já medida, flagrada numa época em que o Universo tinha pouco mais de um bilhão de anos.

A descoberta está descrita em um artigo aceito para publicação na revista Astronomy & Astrophysics e disponibilizado no repositório arXiv em 23 de setembro de 2026. Assinam o trabalho Barbara Balmaverde e Alessandro Capetti, do Observatório Astrofísico de Turim, ligado ao Instituto Nacional de Astrofísica da Itália, o INAF, ao lado de Marco Chiaberge, do Space Telescope Science Institute e da Universidade Johns Hopkins, Francesco Massaro, da Universidade de Turim, e Miguel Coloma Puga e Ana Jimenez-Gallardo, do Observatório Europeu do Sul, o ESO, no Chile.

A equipe mediu para TXS 2354+015 um desvio para o vermelho (redshift, a medida de quanto a expansão do Universo esticou a luz desde que ela partiu) de z = 4,946 e uma potência rádio, na frequência de repouso de 500 megahertz, de 6,2 × 10²⁹ watts por hertz. O valor é quase o dobro dos 3,2 × 10²⁹ watts por hertz da antiga recordista, TN J0924-2201, que ocupava o topo da lista desde a compilação de referência publicada por George Miley e Carlos De Breuck em 2008 e que nenhuma rádio-galáxia encontrada desde então havia conseguido superar.

Para medir o peso dessa afirmação, convém lembrar o que é uma rádio-galáxia. No centro de praticamente toda galáxia grande existe um buraco negro com milhões ou bilhões de vezes a massa do Sol. Quando gás cai em direção a ele, forma um disco que gira e se aquece até brilhar mais do que todas as estrelas da galáxia somadas: é o que os astrônomos chamam de núcleo ativo. Em uma minoria desses núcleos, parte da matéria que cai é redirecionada e expelida em dois jatos opostos de plasma, que partem a velocidades próximas à da luz, atravessam a galáxia inteira e inflam lóbulos gigantescos no espaço intergaláctico. Os elétrons desses jatos, espiralando em torno de linhas de campo magnético, emitem a radiação síncrotron que os radiotelescópios captam. Um jato desses é um acelerador de partículas natural com centenas de milhares de anos-luz de comprimento.

Os autores descrevem esses objetos, os núcleos ativos emissores em rádio, como a manifestação mais extrema da acreção de matéria sobre um buraco negro supermassivo, e o papel deles vai muito além do espetáculo. A energia despejada pelos jatos aquece o gás que preenche os aglomerados de galáxias e pode sufocar ou estimular a formação de estrelas na galáxia hospedeira. Esse mecanismo, conhecido como retroalimentação (feedback, o retorno de energia do núcleo sobre o ambiente que o alimenta), é indispensável nas simulações cosmológicas: sem ele, os modelos produzem galáxias gigantes em quantidade muito maior do que o Universo real exibe, como mostraram Darren Croton e colaboradores em 2006. O buraco negro funciona, nessa visão, como um termostato que regula o crescimento da própria galáxia que o abriga.

Quando esses faróis são observados a distâncias enormes, tornam-se ferramentas raras para estudar a infância do cosmos. Rádio-galáxias distantes costumam habitar os berços dos futuros aglomerados de galáxias, os chamados protoaglomerados, e por isso servem de balizas para localizar as regiões mais densas do Universo primitivo. Elas também permitem acompanhar como a população de buracos negros com jatos evoluiu ao longo do tempo cósmico. Sabe-se que a densidade espacial dessas fontes cresce por um fator entre 100 e 1.000 do Universo local até z ≈ 2, conforme medido por Chris Willott e colegas em 2001, mas o que acontece em épocas anteriores permanece cercado de incertezas, como apontou o grupo de Marcella Massardi em 2010. Falta, simplesmente, uma amostra confiável de objetos em distâncias maiores.

Há ainda uma pergunta sobre as galáxias que hospedam esses monstros. No Universo próximo, as rádio-galáxias potentes vivem nas galáxias elípticas mais massivas que existem. Será que o mesmo valia há 12 bilhões de anos, quando as galáxias ainda estavam se montando? Brigitte Rocca-Volmerange e colaboradores sugeriram em 2004 que as rádio-galáxias distantes representam a ponta luminosa da população de galáxias de sua época. Testar essa hipótese exige enxergar a galáxia hospedeira, algo impossível nos quasares, onde o brilho do núcleo ofusca tudo ao redor. Nas rádio-galáxias, em que o núcleo está escondido, a luz das estrelas pode ser medida diretamente. É esse o atrativo científico que move a busca.

O problema é que esses objetos são difíceis de encontrar, e por um motivo que levou anos para ser compreendido. Em 2011, Marta Volonteri e colegas notaram que o número de quasares com jatos conhecidos em altos desvios para o vermelho era menor do que o esperado a partir da contagem de blazares, os núcleos ativos cujos jatos apontam diretamente para a Terra. A geometria é implacável: para cada blazar que vemos de frente, deveriam existir centenas de objetos gêmeos com jatos apontando para outras direções. Em 2016, Gabriele Ghisellini e Tullia Sbarrato mostraram que, nos dados combinados dos levantamentos FIRST e SDSS, essa população de parentes desalinhados aparecia em número muito inferior ao previsto.

A solução proposta pela dupla italiana foi radical. Uma grande fração dos núcleos ativos com jatos no Universo distante estaria envolta em uma bolha de gás empoeirado que absorve toda a luz visível e ultravioleta, inclusive as linhas de emissão largas que caracterizam os quasares. Só o jato, feito de partículas relativísticas, consegue furar esse casulo. O objeto deixa de parecer um quasar e passa a parecer uma rádio-galáxia: uma fonte intensa no rádio com uma contraparte óptica apagada e sem sinais do núcleo. Em 2024, Capetti e Balmaverde quantificaram o cenário e estimaram que até 90% dos núcleos ativos com jatos além de z = 3,5 estão obscurecidos no óptico e no ultravioleta.

Outras linhas de evidência apontam na mesma direção. Estudos como os liderados por Andrea Merloni em 2014 e Bovornpratch Vijarnwannaluk em 2022 indicam que a maioria dos núcleos ativos do Universo distante, com ou sem jatos, está encoberta por poeira e gás. Já em 2007, Roberto Gilli e colaboradores haviam concluído que a radiação de fundo em raios X só pode ser explicada se existir uma população numerosa de núcleos ativos Compton-thick, termo que designa objetos envoltos em tanta matéria que nem os raios X de alta energia escapam com facilidade. A consequência lógica é que a maior parte dos buracos negros com jatos da infância cósmica deve se apresentar como rádio-galáxia, e não como quasar. Quem quiser recensear essa população precisa aprender a caçar objetos que, por definição, quase não emitem luz visível.

A escassez do catálogo mostra o tamanho da dificuldade. A revisão de Miley e De Breuck, de 2008, listava apenas 37 rádio-galáxias confirmadas com z maior que 3, e só duas delas além de z = 4,5. Nos anos seguintes, apenas quatro novas confirmações espectroscópicas foram adicionadas a essa lista, pelos grupos de Matt Jarvis em 2009, Aayush Saxena em 2019 e Takuji Yamashita em 2020. Para comparação, os quasares conhecidos em z maior que 3 somam dezenas de milhares. Há até uma nota de rodapé no novo artigo que funciona como advertência: a rádio-galáxia TGSS J1530+1049, anunciada em 2018 como a mais distante de todas, em z = 5,72, teve seu desvio para o vermelho revisado para z = 4,0 em 2025. Recordes nesse campo são construídos sobre linhas espectrais tênues, e uma identificação equivocada derruba qualquer um deles.

A maneira tradicional de procurar essas fontes também tem um viés embutido. Quase todas as rádio-galáxias distantes conhecidas foram encontradas apontando espectrógrafos para radiofontes de espectro ultra-íngreme (ultra-steep spectrum, ou USS). O espectro rádio de uma fonte síncrotron é descrito por uma lei de potência do tipo F ∝ ν^(−α), em que o índice espectral α mede quão depressa o brilho cai com o aumento da frequência. O critério USS exige α maior que 1,3, segundo a definição de Saxena e colaboradores em 2018, ou α maior que 1, no critério mais frouxo proposto por Huub Röttgering e colegas em 1997. A lógica é física: elétrons muito energéticos perdem energia mais rapidamente, o que torna o espectro cada vez mais inclinado em frequências altas, e a expansão do Universo desloca para a janela dos radiotelescópios justamente a porção mais íngreme do espectro de repouso das fontes mais distantes.

Esse atalho funciona, mas captura apenas um tipo de peixe. As rádio-galáxias distantes identificadas por outro caminho, a técnica da quebra de Lyman, costumam ter espectros rádio mais achatados, que não passariam pelo filtro USS, como mostraram os trabalhos de Jarvis em 2009, Yamashita em 2020 e Capetti em 2025. Em 2012, Louise Ker e colaboradores estimaram que a seleção por espectro íngreme exclui mais da metade das rádio-galáxias distantes existentes. Um censo construído só com fontes USS é como um levantamento da fauna de um rio feito com uma rede cuja malha deixa escapar metade das espécies. Foi para corrigir essa distorção que o grupo de Turim decidiu inverter a estratégia e partir da luz visível, em vez do espectro rádio.

O novo artigo é o segundo de uma série batizada de “The quest for high-redshift radio galaxies”, a busca por rádio-galáxias de alto desvio para o vermelho. No primeiro trabalho, publicado em 2025 e liderado por Capetti, a equipe testou o método em um programa-piloto voltado a objetos que desaparecem no filtro g, esperados entre z = 3,0 e z = 4,5, e confirmou quatro rádio-galáxias entre z = 3,3 e z = 3,8. Agora o alvo subiu um degrau: fontes que somem no filtro r, previstas entre z = 4,5 e z = 5,3. O projeto conta com financiamento do programa MURALES, do INAF, dedicado a explorar a retroalimentação dos núcleos ativos mais potentes.

A técnica da quebra de Lyman (Lyman break, a descontinuidade abrupta no espectro causada pela absorção do hidrogênio) se apoia em uma propriedade simples da matéria. Átomos de hidrogênio neutro engolem qualquer fóton com comprimento de onda menor que 912 ångströns, o limite necessário para arrancar seu elétron, e as incontáveis nuvens de hidrogênio espalhadas pelo Universo jovem absorvem também boa parte da luz entre 912 e 1.216 ångströns, a chamada floresta de Lyman-alfa. O resultado é que uma galáxia distante exibe uma espécie de muro no espectro: depois dele, há luz; antes dele, quase nada. Como a expansão cósmica estica todos os comprimentos de onda pelo mesmo fator, a posição desse muro revela a distância. Em z ≈ 5, a borda cai em torno de 7.200 ångströns, no vermelho profundo, e a galáxia desaparece nos filtros g e r enquanto continua visível em i, z e Y.

Esse comportamento rende aos objetos o apelido técnico de dropouts, literalmente “os que caem fora” de um filtro. A estratégia foi desenvolvida nos anos 1990 por Charles Steidel e colaboradores e se tornou o método mais produtivo da história para encontrar galáxias distantes, mas raramente havia sido aplicada em larga escala às contrapartes de radiofontes. Para isso, era preciso casar dois tipos de dados de qualidade: imagens ópticas profundas em uma área grande do céu e um catálogo rádio de baixa frequência que cobrisse a mesma região. A equipe italiana encontrou ambos.

Do lado óptico, a fonte foi o Hyper Suprime-Cam Subaru Strategic Program, o HSC-SSP, descrito por Hiroaki Aihara e colaboradores em 2018. O Subaru é um telescópio de 8,2 metros do Observatório Astronômico Nacional do Japão instalado no cume do Mauna Kea, no Havaí, e a Hyper Suprime-Cam é sua câmera gigante, com 870 milhões de pixels e um campo de visão de um grau e meio de diâmetro, suficiente para enquadrar três luas cheias lado a lado. O levantamento cobre 1.400 graus quadrados e alcança, com cinco sigmas de confiança, magnitudes de 26,5 no filtro g, 26,1 em r, 25,9 em i, 25,1 em z e 24,4 em Y. Objetos de magnitude 26 são mais de 100 milhões de vezes mais fracos do que a estrela mais apagada visível a olho nu.

Do lado rádio, a base foi o TGSS, o levantamento do céu realizado a 150 megahertz pelo Giant Metrewave Radio Telescope, o GMRT, um conjunto de 30 antenas de 45 metros de diâmetro espalhadas pelo interior do estado de Maharashtra, na Índia, e operado pelo Instituto Tata de Pesquisa Fundamental. A versão do catálogo publicada por Huib Intema e colegas em 2017 reúne 623.604 fontes detectadas acima de 17,5 milijanskys, com resolução angular de cerca de 25 segundos de arco, em toda a região do céu ao norte da declinação de −53 graus. A escolha de uma frequência tão baixa tem duas razões. Em um objeto em z ≈ 5, os 150 megahertz observados correspondem a quase 900 megahertz no referencial da fonte, a faixa de gigahertz em que as rádio-galáxias são tradicionalmente estudadas. E, se parte dessa população de fato tem espectro íngreme, é em frequências baixas que ela brilha mais.

A caçada começou com as 20.642 fontes do TGSS situadas dentro da área ampla do HSC-SSP, restringidas às que têm densidade de fluxo acima de 30 milijanskys. Havia um obstáculo prático: com 25 segundos de arco de resolução, o TGSS não consegue dizer em qual galáxia a emissão rádio nasce. Em z ≈ 5, esse borrão corresponde a mais de 500 mil anos-luz, área em que cabem dezenas de galáxias. A equipe recorreu então ao VLASS, o levantamento de todo o céu ao norte da declinação de −40 graus realizado a 3 gigahertz pelo Karl G. Jansky Very Large Array, no Novo México, descrito por Mark Lacy e colaboradores em 2020. Com resolução de 2,5 segundos de arco e ruído de 70 microjanskys por feixe nos dados combinados, o VLASS aponta a posição das radiofontes com precisão dez vezes maior. Todos os componentes do VLASS a menos de 15 segundos de arco de cada posição do TGSS entraram na lista.

Em torno de cada componente rádio, a busca por uma contraparte óptica usou um raio de apenas 1,5 segundo de arco, valor ditado pela precisão astrométrica combinada dos dois levantamentos. Entre as contrapartes encontradas, a seleção de candidatas a z ≈ 5 seguiu os critérios de cor definidos por Yoshiaki Ono em 2018 e Ektoras Pouliasis em 2022, baseados na comparação entre as cores r − i e i − z. A detecção no filtro i é obrigatória, mas objetos sem sinal em r ou em z podem ser aceitos desde que seus limites de cor caiam na região correta do diagrama. Foi assim que emergiu a contraparte óptica da fonte TGSS J235707.4+010543, conhecida nos catálogos mais antigos como TXS 2354+015, nome herdado do levantamento do Texas, realizado a 365 megahertz nas décadas de 1970 e 1980. O objeto fica em ascensão reta de 359,2810 graus e declinação de +1,8458 grau, praticamente sobre o equador celeste.

Os números da fotometria contam a história do desaparecimento. Nos filtros g e r, não há detecção: a fonte é mais fraca do que as magnitudes 27,07 e 26,93, respectivamente. No filtro i, ela surge com magnitude 23,88, com incerteza de 0,05; em z, mede 23,46, com incerteza de 0,11; em Y, 23,96, com incerteza de 0,24. No infravermelho, o satélite WISE a detecta marginalmente a 3,4 mícrons, na banda W1, com magnitude 17,3 no sistema Vega. O mais interessante está na imagem em i: a mancha é difusa e ligeiramente resolvida, com largura a meia altura de 0,9 segundo de arco, com incerteza de 0,2, enquanto as estrelas vizinhas na mesma imagem medem 0,48 segundo de arco. Não é um ponto. É um objeto extenso, como se espera de uma galáxia.

Figura 1
Figura 1 Recortes de 10″ × 10″ do céu nas cinco bandas do levantamento Subaru HSC-SSP (g, r, i, z e y). O círculo branco marca a posição da candidata a rádio-galáxia distante: invisível em g e r, ela aparece em i, z e y — a assinatura de um objeto em z ≈ 5. À direita, as magnitudes AB em cada banda; as setas em g e r indicam limites superiores.Crédito: Balmaverde et al. 2026, Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (arXiv:2609.28632) · ©ESO 2026 · Dados: Subaru/HSC-SSP (NAOJ)
Tabela 1
Tabela 1 Magnitudes cmodel de TXS 2354+015 no óptico e no infravermelho próximo: limites superiores em g e r, detecções em i, z e Y (sistema AB) e na banda W1 do WISE (sistema Vega).Crédito: Balmaverde et al. 2026, Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (arXiv:2609.28632) · ©ESO 2026

A confirmação veio do Very Large Telescope do ESO, no Cerro Paranal, com o espectrógrafo FORS2, instalado em um dos quatro telescópios de 8,2 metros do complexo. As observações, parte do programa 116.28LA.001, ocorreram em 18 de setembro de 2025, sob um seeing de 0,60 segundo de arco, a medida do borrão imposto pela turbulência atmosférica à imagem de uma estrela, condição considerada excelente. A fenda tinha 1,3 segundo de arco de largura e a rede de difração GRIS600RI, combinada ao filtro bloqueador GG435, cobriu o intervalo entre 5.120 e 8.450 ångströns, com resolução espectral de cerca de 300 quilômetros por segundo em 7.000 ångströns. Foram duas exposições de 1.218 segundos cada, pouco mais de quarenta minutos no total.

Apontar um telescópio para algo que não se vê exige truques. Como a galáxia é invisível na câmera de aquisição, a equipe centrou o telescópio em uma fonte-pivô situada a 4,4 segundos de arco a noroeste do alvo e girou a fenda de modo que ela cruzasse a posição esperada da candidata. Os espectros foram reduzidos com o pacote Reflex, o ambiente padrão do ESO descrito por Wolfram Freudling e colegas em 2013, e as duas exposições foram combinadas para eliminar os traços deixados pelos raios cósmicos que atingem o detector durante a integração.

No espectro bidimensional, extraído em uma abertura de cinco pixels, equivalente a 1,26 segundo de arco, apareceu um excesso de emissão na posição do alvo em torno de 7.220 ångströns. Para separar o sinal do brilho do céu noturno, a equipe estimou a emissão atmosférica em uma faixa de 3,5 segundos de arco de largura localizada 5 segundos de arco ao sul do objeto e a subtraiu. O que sobrou foi uma linha de emissão proeminente e fortemente assimétrica: uma asa estendida para o lado vermelho e uma queda abrupta no lado azul. Sua largura a meia altura é de 1.080 quilômetros por segundo, com incerteza de 80, e seu fluxo chega a 0,91 × 10⁻¹⁶ erg por segundo por centímetro quadrado, com incerteza de 0,03. O contínuo estelar ao lado da linha mal se distingue do ruído, com apenas 1,0 × 10⁻¹⁹ erg por segundo por centímetro quadrado por ångström.

Figura 2
Figura 2 O espectro obtido com o FORS2, no VLT. À esquerda, no alto, o espectro bidimensional de 6″ de largura entre 7.150 e 7.450 Å; abaixo, o espectro extraído numa abertura de 5 pixels, com as posições de Lyα e de N V λ1240 marcadas. À direita, o mesmo trecho após a subtração da emissão do céu: a linha Lyα domina, com perfil assimétrico, e a linha fraca de N V aparece em torno de 7.368 Å. Fluxo em unidades de 10⁻¹⁶ erg s⁻¹ cm⁻² Å⁻¹.Crédito: Balmaverde et al. 2026, Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (arXiv:2609.28632) · ©ESO 2026

A relação entre a força da linha e a fraqueza do contínuo é expressa pela largura equivalente, que neste caso atinge 900 ångströns, com incerteza de 250. A grandeza responde a uma pergunta concreta: quantos ångströns de contínuo seria preciso somar para reunir a mesma energia que a linha carrega sozinha? Novecentos ångströns é um valor gigantesco. Galáxias que formam estrelas raramente ultrapassam 200 ångströns de largura equivalente em Lyman-alfa, porque as estrelas mais quentes não produzem fótons ionizantes suficientes para mais do que isso. Valores dessa ordem exigem uma fonte de radiação muito mais dura, e a candidata natural é o núcleo ativo escondido. A forma assimétrica da linha completa o quadro: fótons de Lyman-alfa são espalhados repetidamente pelo hidrogênio neutro, e o gás da própria galáxia e do meio intergaláctico devora preferencialmente o lado azul, deixando a assinatura em dente de serra que os astrônomos reconhecem de imediato em objetos distantes.

A luminosidade da linha, calculada para a distância correspondente a z = 4,946, é de 3,0 × 10⁴⁴ erg por segundo. Traduzindo: só nessa transição do hidrogênio, o objeto irradia quase 80 bilhões de vezes a luminosidade do Sol, mais energia do que toda a luz emitida pelas estrelas da Via Láctea. A largura de cerca de mil quilômetros por segundo também é informativa. Quasares exibem linhas largas, com milhares ou dezenas de milhares de quilômetros por segundo, produzidas pelo gás que gira rente ao buraco negro. Aqui a linha é estreita, nascida em gás mais distante e mais calmo, exatamente o que se espera quando o núcleo está encoberto e só a emissão das regiões externas chega até nós. É a definição observacional de rádio-galáxia.

Uma linha isolada, porém, é uma armadilha clássica. Uma emissão em 7.229 ångströns poderia ser o dubleto do oxigênio ionizado em 3.727 ångströns deslocado de uma galáxia modesta em z ≈ 0,94, ou a linha H-alfa de um objeto quase vizinho. Para fechar a identificação, era preciso uma segunda linha, e ela apareceu. Em 7.367,6 ångströns, a equipe detectou uma emissão fraca, com fluxo de 0,040 × 10⁻¹⁶ erg por segundo por centímetro quadrado, com incerteza de 0,009, identificada com a componente azul do dubleto do nitrogênio quatro vezes ionizado, N V, em 1.240 ångströns. Em condições de gás opticamente fino, essa componente deve ser duas vezes mais brilhante que sua irmã vermelha. Adotando o comprimento de onda de 1.239,16 ångströns para a transição, o desvio para o vermelho resulta em z = 4,946, com incerteza de 0,001, e a previsão para a posição de Lyman-alfa, 7.229 ångströns, bate com a observação.

Tabela 2
Tabela 2 Principais resultados para TXS 2354+015: coordenadas, desvio para o vermelho, fluxo e luminosidade de Lyα, largura da linha, largura equivalente e fluxo da linha de N V.Crédito: Balmaverde et al. 2026, Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (arXiv:2609.28632) · ©ESO 2026

A linha de N V tem um significado adicional. Para arrancar quatro elétrons do nitrogênio e produzir esse íon, são necessários fótons com energia superior a 77 elétron-volts, algo que estrelas, por mais quentes que sejam, não fornecem em quantidade. A presença da linha é uma impressão digital de radiação de núcleo ativo, coerente com a largura equivalente colossal de Lyman-alfa. Havia, contudo, uma complicação: a linha de N V está sobreposta a uma linha brilhante de emissão do próprio céu, parte do brilho que a alta atmosfera terrestre emite durante toda a noite, o chamado airglow, dominado nessa faixa por moléculas de hidroxila, e resíduos de uma subtração imperfeita poderiam imitar um sinal falso.

Em vez de confiar na sorte, a equipe fez um teste de estresse. Extraiu espectros na mesma região espectral em 244 posições diferentes ao longo da fenda, onde não há galáxia alguma, e procurou um excesso semelhante ao observado. Nenhum dos 244 espectros mostrou nada parecido. Se a linha fosse um artefato da subtração do céu, ela deveria aparecer aqui e ali ao acaso; sua ausência sistemática fora da posição do alvo sustenta que o sinal é real. A identificação de TXS 2354+015 como uma rádio-galáxia em z = 4,946 passou a repousar sobre duas linhas independentes, uma fotometria consistente e um teste estatístico explícito.

O espectro revelou mais uma propriedade. A emissão de Lyman-alfa não é pontual: seu perfil espacial ao longo da fenda é bem descrito por uma gaussiana com largura a meia altura de 1,13 segundo de arco, nitidamente maior do que o seeing de 0,60. Descontado o borrão atmosférico, isso corresponde a cerca de 6 quiloparsecs, quase 20 mil anos-luz, na escala de 6,45 quiloparsecs por segundo de arco válida para esse desvio para o vermelho. Nebulosas de Lyman-alfa em torno de rádio-galáxias distantes são conhecidas desde os anos 1980 e frequentemente se estendem por dezenas de quiloparsecs, como documentaram os trabalhos de Wuji Wang em 2023 e do próprio Coloma Puga em 2025. Elas costumam se alinhar com o eixo dos jatos, um fenômeno batizado de efeito de alinhamento.

Figura 3
Figura 3 Distribuição espacial da emissão entre 7.200 e 7.250 Å ao longo da fenda. O pico principal é a emissão Lyα de TXS 2354+015; o pico secundário vem da fonte-pivô usada para apontar o telescópio. A curva azul é um ajuste gaussiano com largura a meia altura de 1,13″, maior que o seeing de 0,60″: a nebulosa de Lyα é espacialmente estendida. Fluxo em unidades de 10⁻¹⁶ erg s⁻¹ cm⁻².Crédito: Balmaverde et al. 2026, Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (arXiv:2609.28632) · ©ESO 2026

Aqui entra um detalhe geométrico que torna a medida um limite inferior. A fenda do FORS2 foi orientada em um ângulo de posição de −30 graus, enquanto o eixo rádio da fonte, medido no VLASS, está em 71 graus. A fenda cortou a nebulosa quase perpendicularmente à direção em que ela provavelmente se alonga. Se a emissão de Lyman-alfa acompanha os jatos, como ocorre em dezenas de objetos semelhantes, sua extensão verdadeira deve ser bem maior do que os 6 quiloparsecs registrados. Uma observação com um espectrógrafo de campo integral, capaz de mapear a emissão em duas dimensões, resolveria a questão, e é a continuação natural do trabalho, ainda que os autores não a anunciem no artigo.

A galáxia hospedeira também parece grande. A imagem do Subaru no filtro i, uma vez descontado o efeito do seeing, indica um tamanho de cerca de 5 quiloparsecs, muito acima do raio típico de 1,5 quiloparsec das galáxias em z ≈ 4 medido por Rychard Bouwens e Henry Ferguson em trabalhos de 2004. Isso é compatível com o que se observa no Universo próximo, onde as galáxias que abrigam núcleos ativos com jatos são as mais massivas de todas. Os autores alertam, porém, para uma ambiguidade: a linha de Lyman-alfa, com largura equivalente comparável à largura do próprio filtro i, pode estar contribuindo com boa parte da luz dessa imagem e inflando o tamanho aparente. Nos demais filtros, livres dessa contaminação, a fonte é fraca demais para que a medida seja repetida.

Do lado rádio, a equipe reuniu as medidas disponíveis no banco de dados extragaláctico NED, da NASA, e acrescentou os valores do TGSS e do VLASS. O resultado é um espectro com sete pontos que vão de 74 megahertz a 4,8 gigahertz, de comprimentos de onda de quatro metros a seis centímetros, colhidos por radiotelescópios diferentes ao longo de décadas: 2.620 milijanskys em 74 megahertz, 888 em 150, 624 em 365, 720 em 408, 146,8 em 1.400, 62,4 em 3.000 e 54 em 4.800. O valor em 150 megahertz, medido pelo TGSS, fica quase trinta vezes acima do corte de 30 milijanskys adotado na seleção, o que torna TXS 2354+015 uma das radiofontes mais intensas de toda a amostra inicial.

Tabela 3
Tabela 3 Medidas de densidade de fluxo rádio de TXS 2354+015, de 74 MHz a 4,8 GHz, reunidas a partir do NED, do TGSS e do VLASS.Crédito: Balmaverde et al. 2026, Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (arXiv:2609.28632) · ©ESO 2026

Um jansky equivale a 10⁻²⁶ watt por metro quadrado por hertz, e uma fonte de 2,6 janskys em frequências baixas está entre as mais brilhantes do céu nessa faixa. Uma única lei de potência, com índice espectral α = 0,94, com incerteza de 0,03, reproduz todos os pontos. Não há sinal de curvatura: nem a queda acentuada em frequências altas que indicaria elétrons envelhecidos, nem o achatamento em frequências baixas que denunciaria absorção na fonte. No gráfico logarítmico que relaciona fluxo e frequência, as medidas se alinham sobre uma reta, o que sugere uma população de elétrons que ainda não teve tempo de envelhecer ou que o jato reabastece continuamente.

Figura 4
Figura 4 À esquerda, o espectro rádio de TXS 2354+015 entre 74 MHz e 4,8 GHz; a reta é o melhor ajuste de lei de potência, com índice espectral α = 0,94. À direita, a imagem do VLASS a 3 GHz, com campo de cerca de 30″ × 30″; a cruz vermelha marca a posição da contraparte óptica.Crédito: Balmaverde et al. 2026, Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (arXiv:2609.28632) · ©ESO 2026 · Imagem rádio: NRAO VLA Archive Survey, © AUI/NRAO

Esse número encerra uma ironia. Com α = 0,94, TXS 2354+015 não se qualifica como fonte de espectro ultra-íngreme por nenhum dos dois critérios em uso, nem o de 1,3 nem o de 1,0. A rádio-galáxia mais potente conhecida teria sido descartada pela peneira tradicional. Somado aos outros objetos selecionados pela quebra de Lyman nos trabalhos de Jarvis, Yamashita e Capetti, o caso reforça que o espectro íngreme não é uma propriedade geral das rádio-galáxias distantes. A pré-seleção USS aumenta a proporção de alvos em alto desvio para o vermelho, o que explica seu sucesso histórico, mas entrega apenas uma subamostra da população, e possivelmente a menor metade.

A morfologia rádio permanece um mistério por falta de resolução. A fonte não é resolvida em nenhuma das observações disponíveis, exceto marginalmente no VLASS, cuja resolução de 2,5 segundos de arco corresponde a 16 quiloparsecs na distância do objeto. Um ajuste de gaussiana elíptica fornece um eixo maior de 3,45 segundos de arco, com incerteza de 0,01, ao longo de um ângulo de posição de 71 graus, com incerteza de 1 grau. Isso equivale a cerca de 22 quiloparsecs, ou 72 mil anos-luz, uma estrutura compacta se comparada aos lóbulos de milhões de anos-luz das rádio-galáxias gigantes do Universo local. Fontes distantes costumam ser menores, o que a literatura atribui a jatos ainda jovens ou a um meio circundante mais denso, embora o artigo não avance nessa interpretação.

Falta explicar como se chega ao recorde. Para comparar rádio-galáxias em distâncias diferentes de forma justa, Miley e De Breuck calcularam em 2008 a potência de cada uma na frequência de 500 megahertz medida no referencial da própria fonte. Para um objeto em z = 4,946, essa frequência de repouso corresponde a apenas 84 megahertz no referencial do observador, bem dentro do intervalo coberto pelos pontos de 74 e 150 megahertz. Interpolando o espectro observado, a equipe obteve P₅₀₀ = 6,2 × 10²⁹ watts por hertz. A unidade descreve a energia emitida a cada segundo em cada faixa de um hertz de frequência; integrada sobre a banda rádio, a emissão total corresponde a trilhões de vezes a potência luminosa do Sol, produzida sem uma única estrela envolvida.

Na lista de 2008, a fonte mais potente era TN J0924-2201, com 3,2 × 10²⁹ watts por hertz, e nenhuma das rádio-galáxias distantes confirmadas depois dela ultrapassou essa marca. TXS 2354+015 quase dobra o valor. Em números redondos, sua potência em 500 megahertz supera em cerca de vinte vezes a de Cygnus A, a rádio-galáxia mais poderosa do Universo próximo, situada a cerca de 760 milhões de anos-luz e usada há setenta anos como o padrão de comparação da área. Em distância, TXS 2354+015 fica em segundo lugar, atrás justamente de TN J0924-2201, descoberta por Wil van Breugel e colegas em 1999 em z = 5,19, que segue como a rádio-galáxia confirmada mais longínqua.

Um detalhe do novo objeto intriga os próprios autores. No Universo próximo, as rádio-galáxias potentes exibem uma correlação quase linear entre a luminosidade rádio em baixas frequências e a luminosidade das linhas de emissão estreitas, estabelecida por Stefi Baum e Timothy Heckman em 1989 e por Steve Rawlings e Richard Saunders em 1991, sinal de que um mesmo motor alimenta os jatos e ilumina o gás. As rádio-galáxias distantes seguem a mesma tendência, com razão mediana entre o fluxo de Lyman-alfa e a densidade de fluxo em 150 megahertz de 5 × 10⁻¹⁶ erg por segundo por centímetro quadrado por jansky, com dispersão de um fator 3, segundo o trabalho de 2025 do grupo. Pela potência rádio de TXS 2354+015, a linha deveria ter fluxo próximo de 4 × 10⁻¹⁶; o valor medido é cerca de cinco vezes menor.

Há explicações possíveis. Em baixos desvios para o vermelho, Capetti e colaboradores mostraram em 2023 que a emissão das linhas satura nas rádio-galáxias mais luminosas, como se o gás disponível para ser ionizado tivesse um limite. Poeira na nebulosa e a geometria da fenda, que pode ter deixado parte da emissão de fora, também poderiam reduzir o fluxo observado. Decidir entre essas hipóteses exige uma amostra de objetos em z ≈ 5, que ainda não existe. A discrepância, de todo modo, não destoa da dispersão conhecida da relação, e os autores a usam como argumento a favor da identificação: uma radiofonte dessa potência coincidindo com uma galáxia cuja linha tem a intensidade esperada dificilmente seria um acidente.

Essa possibilidade de coincidência foi examinada de frente. Radiofontes tão brilhantes quanto TXS 2354+015 no TGSS têm densidade de apenas 0,07 por grau quadrado, o que dá da ordem de 2.500 objetos em toda a área coberta pelo levantamento. A chance de uma delas cair por acaso a menos de 1,5 segundo de arco de uma galáxia em z ≈ 5 que nada tem a ver com ela é minúscula, e a separação medida entre a posição óptica e a posição do VLASS é de apenas 0,2 segundo de arco, dentro das incertezas astrométricas dos dois levantamentos. Com a concordância entre o fluxo de Lyman-alfa esperado e o observado, a hipótese da superposição fortuita foi afastada.

A detecção marginal pelo WISE abre uma janela para a massa da galáxia, mas com um obstáculo. A magnitude W1 de 17,3 corresponde a uma luminosidade de 0,9 × 10⁴⁶ erg por segundo. A banda W1 é centrada em 3,4 mícrons com cerca de 1 mícron de largura, e em z = 4,946 ela abriga várias linhas de emissão deslocadas do óptico, a mais forte delas a do oxigênio duplamente ionizado em 5.007 ångströns. Extrapolando a correlação entre emissão rádio e emissão de linhas, calibrada por Sara Buttiglione em 2010 para rádio-galáxias próximas e por Nicole Nesvadba em 2017 para objetos entre z = 1,5 e z = 3,6, a equipe estima que essa linha sozinha deveria contribuir com 1,5 × 10⁴⁵ erg por segundo. Uma fração significativa da luz infravermelha, portanto, não vem das estrelas.

Tomando a medida pelo valor de face e adotando uma razão massa-luminosidade de 0,1, típica de uma população estelar com 100 milhões de anos segundo os modelos de Gustavo Bruzual e Stéphane Charlot de 2003, a massa estelar resultante seria de cerca de 2 × 10¹² massas solares, algo como trinta vezes a massa estelar da Via Láctea, acumulada quando o Universo tinha apenas 1,2 bilhão de anos. Isso colocaria a hospedeira na extremidade mais brilhante da função de luminosidade das galáxias do Universo atual, descrita por Michele Cappellari em 2013. Os autores tratam o número com cautela explícita: uma população dominada por estrelas de apenas 10 milhões de anos reduziria a estimativa por um fator 10, e só uma cobertura melhor da distribuição espectral de energia, com observações no infravermelho, permitirá separar estrelas de linhas de emissão.

Mesmo com essa incerteza, a existência de TXS 2354+015 impõe condições à história de seu buraco negro. Rádio-galáxias dessa potência costumam ser alimentadas por buracos negros com bilhões de massas solares, e o artigo não mede essa massa diretamente. Mas um jato capaz de produzir 6,2 × 10²⁹ watts por hertz em 500 megahertz quando o cosmos tinha menos de um décimo de sua idade atual exige um motor que cresceu depressa e acumulou um reservatório de gás e poeira suficiente para encobri-lo. O objeto se junta ao conjunto de evidências, reforçado nos últimos anos por observações do Telescópio Espacial James Webb, de que o Universo jovem produziu estruturas massivas mais cedo do que os modelos mais simples previam.

Há também o que está em volta. Rádio-galáxias distantes são conhecidas por marcar as regiões mais densas de sua época, os protoaglomerados estudados por Dominika Wylezalek em 2013, Nina Hatch em 2014 e Manuela Magliocchetti em 2022. Se TXS 2354+015 segue o padrão, a vizinhança dessa galáxia deve esconder uma concentração anômala de outras galáxias em z ≈ 4,9, candidatas a formar, bilhões de anos depois, um aglomerado comparável aos maiores do Universo atual. Uma busca por esse excesso, com imagens profundas em banda estreita sintonizada na linha de Lyman-alfa deslocada, é o tipo de observação que esses objetos tradicionalmente motivam.

O programa que produziu a descoberta está apenas começando. O objetivo declarado da equipe é construir uma amostra estatisticamente sólida de rádio-galáxias além de z = 3, e a campanha com fontes que somem no filtro r prossegue com outras candidatas à espera de espectros. Cada confirmação acrescenta um ponto a uma função de luminosidade que hoje é quase vazia além de z = 4, a ferramenta necessária para dizer quantos buracos negros com jatos existiam no primeiro bilhão de anos e por quanto tempo ficaram ativos. Levantamentos como os do LOFAR, do MeerKAT e, mais adiante, do Square Kilometre Array no rádio, combinados às imagens profundas do Observatório Vera Rubin, do Euclid e do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, devem multiplicar o número de candidatas nos próximos anos.

A lição metodológica talvez seja a mais duradoura. Por quase três décadas, a busca por rádio-galáxias distantes dependeu de um critério que, agora se sabe, deixa de fora a maior parte dos alvos, incluindo o mais potente de todos. Partir da luz visível, ou melhor, da ausência dela em filtros específicos, mostrou-se capaz de encontrar em poucos anos aquilo que a abordagem clássica não encontrou em vinte. O censo da população de buracos negros gigantes com jatos no Universo jovem terá que ser refeito com as duas redes lançadas ao mesmo tempo.

Os fótons que formaram a linha brilhante no detector do FORS2 partiram de TXS 2354+015 há cerca de 12,7 bilhões de anos, nascidos no ultravioleta e esticados pela expansão do espaço até chegarem ao vermelho profundo, enquanto o Sol, a Terra e tudo o que conhecemos ainda não existiam. Atravessaram um Universo que amadureceu ao longo do caminho e terminaram em uma fenda de 1,3 segundo de arco aberta no alto de uma montanha chilena. Carregavam a assinatura de um buraco negro escondido atrás de uma cortina de poeira, incapaz de brilhar na luz visível, mas rugindo no rádio como nenhum outro já medido. O recorde que esse objeto estabelece será quebrado um dia, provavelmente por outra galáxia que hoje é apenas um círculo vazio em duas imagens e uma mancha difusa em três. É exatamente para isso que a busca existe.

Fonte: Balmaverde, B.; Capetti, A.; Chiaberge, M.; Massaro, F.; Coloma Puga, M.; Jimenez-Gallardo, A. (2026). The quest for high-redshift radio galaxies. II. Discovery of the most powerful known radio galaxy at z=4.946. Astronomy & Astrophysics, aceito para publicação (manuscrito aa61494-26corr, ©ESO 2026). Pré-impressão: arXiv:2609.28632 [astro-ph.GA], 23 de setembro de 2026. DOI: 10.48550/arXiv.2609.28632