Simulações dos Sandia National Laboratories com Bennu, Itokawa e Golevka mostram que a orientação do alvo no instante da detonação pesa mais do que a massa ou o material — e que a detonação a distância lança muito menos detritos do que um impacto cinético

Imagine o instante. A duzentos e quarenta e dois metros acima de um campo de pedras soltas, no vácuo silencioso entre as órbitas da Terra e de Marte, um artefato se desfaz num clarão de raios X. Não há estrondo, porque não há ar para carregá-lo. Não há onda de choque atravessando o espaço, porque não há meio que a transmita. O que existe é luz — uma luz dura, invisível, com energia de milhares de elétron-volts — que percorre os 242 metros em menos de um microssegundo e morde a superfície do asteroide. Em dez bilionésimos de segundo, uma pele de rocha com espessura de micrômetros absorve mais energia do que consegue suportar, vira plasma e dispara para o espaço a centenas de quilômetros por segundo. O asteroide, por reação, se move. Devagar. Alguns milímetros por segundo. O suficiente, talvez, para poupar uma cidade.

Esse é o roteiro básico de uma deflexão por explosão nuclear a distância, a opção que agências espaciais e laboratórios de defesa guardam como último recurso contra um asteroide descoberto tarde demais. Um novo estudo publicado em versão preliminar na revista Icarus mostra que esse roteiro tem um detalhe que ninguém controla e que pode mudar tudo: o lado que a pedra está mostrando ao artefato no momento da detonação. Simulando 168 cenários de interceptação em três asteroides reais, uma equipe dos Sandia National Laboratories, nos Estados Unidos, descobriu que a mesma explosão pode empurrar Bennu com quase o dobro de eficiência, Itokawa com quase o quádruplo e Golevka com quase o quíntuplo, dependendo apenas da orientação do corpo. Para um planejador de missão que não conhece a forma do alvo, é uma margem de erro que nenhum outro fator chega perto de igualar.

A pergunta ganhou urgência prática no fim de 2024, quando o levantamento ATLAS, no Chile, flagrou um corpo de cerca de 60 metros batizado 2024 YR4. Por algumas semanas, no início de 2025, as órbitas calculadas davam a ele uma chance superior a 3% de atingir a Terra em 22 de dezembro de 2032, a maior probabilidade já atribuída a um asteroide desse tamanho. Observações adicionais afastaram o risco para o nosso planeta, mas deixaram em aberto, por mais de um ano, a possibilidade de uma colisão com a Lua. Foi só com medições do Telescópio Espacial James Webb que o impacto lunar também foi descartado, como registra o artigo. O susto deixou uma lição: se o objeto tivesse se mantido em rota de colisão, os sete anos de aviso prévio seriam curtos demais para algumas das técnicas mais suaves de desvio, e a conversa sobre o uso de um artefato nuclear teria saído do papel.

Há um cardápio de técnicas para tirar um asteroide da rota da Terra, e cada uma tem seu tempo. O impactador cinético, demonstrado pela missão DART da NASA em setembro de 2022 contra a pequena lua Dimorphos, funciona como uma bola de bilhar: uma sonda se choca com o alvo e lhe transfere momento. Os tratores gravitacionais e as técnicas de empurrão lento exigem anos ou décadas de atuação contínua. Quando o aviso chega com meses ou poucos anos de antecedência, ou quando o corpo é grande demais, a física impõe uma conta simples: é preciso concentrar muita energia em pouco tempo, e nada que a engenharia humana construiu concentra tanta energia quanto um artefato nuclear. O debate atual não é se essa opção deve existir, e sim como usá-la: desviar o corpo inteiro, fragmentá-lo ou combinar as duas coisas, com o risco permanente de transformar um problema em muitos.

A variante estudada pelos pesquisadores de Sandia é a detonação a distância, chamada em inglês de stand-off: a explosão ocorre longe da superfície, sem contato com a rocha. A vantagem, segundo trabalhos anteriores, é dupla. A energia chega de forma mais distribuída, o que tende a desviar o corpo sem despedaçá-lo, e o resultado depende menos da estrutura interna do asteroide, que em geral é desconhecida. O mecanismo físico é pouco intuitivo. No vácuo, uma explosão nuclear não empurra nada com a onda de choque; o que viaja até o asteroide é sobretudo radiação, e a fração mais eficiente são os raios X. Eles penetram apenas alguns micrômetros na rocha, mas aquecem essa camada a temperaturas que chegam a centenas de milhares de graus, de modo que o material evapora violentamente para o espaço. A superfície vira, por um instante, o bocal de um foguete, e a nave inteira — o asteroide — recua na direção oposta.

O problema é que, para calcular quanto o corpo recua, não basta saber quanta energia chegou. É preciso saber como a superfície estava disposta diante do clarão: cada pedregulho, cada crista, cada reentrância recebe uma dose diferente de raios X, evapora de um jeito diferente e empurra numa direção diferente. Modelos anteriores contornaram essa dificuldade com simplificações pesadas — esferas rígidas, geometrias em duas dimensões, uma versão de Bennu em meia escala — porque a simulação completa é proibitiva. A radiação se deposita em micrômetros, o vapor evolui em metros e o corpo se mede em quilômetros, uma disparidade de nove ordens de grandeza que exigiria bilhões de elementos de cálculo para ser resolvida de ponta a ponta num só programa. Um estudo de 2017, usando um modelo de força constante, estimou que a forma do asteroide poderia reduzir a velocidade de desvio em até 20%. O novo trabalho mostra que esse número ficou muito aquém da realidade.

A equipe liderada por Nathan W. Moore e Michael A. Gallis trabalha nos Sandia National Laboratories, em Albuquerque, no Novo México, onde fica a Z Machine, o mais potente gerador de raios X pulsados do mundo. Em 2024, o mesmo grupo publicou na Nature Physics um experimento engenhoso: pequenos asteroides artificiais de sílica foram liberados em queda livre dentro da câmara da máquina e atingidos por um pulso de raios X da classe de megajoules, reproduzindo em miniatura a física de uma detonação a distância. Aqueles ensaios validaram os modelos de evaporação em alvos planos, quase unidimensionais. O desafio que restava era levar os resultados de uma pastilha de laboratório para um corpo de meio quilômetro, com toda a sua topografia, sem perder nem a precisão nem a viabilidade computacional.

A solução encontrada divide o problema entre dois programas que falam línguas diferentes e se encontram a meio milímetro da superfície. O primeiro, chamado ALEGRA, resolve em uma dimensão, com todo o rigor da física de plasmas, o que acontece a uma única coluna de rocha quando um pulso de raios X de determinada intensidade a atinge. O segundo, chamado SPARTA, pega o vapor produzido por essa coluna e o deixa expandir em três dimensões sobre a forma real do asteroide, tratando o gás molécula por molécula. A ideia lembra um carimbo: calcula-se uma vez, com extremo cuidado, a resposta de um pequeno pedaço de superfície a cada dose possível de radiação, e depois esse resultado é carimbado sobre cada um dos milhares de triângulos que compõem o modelo tridimensional do corpo, ajustado à distância e ao ângulo com que a luz chega a cada um deles.

O ALEGRA — sigla de Arbitrary Lagrangian Eulerian General Research Application, ou aplicação de pesquisa geral lagrangiana-euleriana arbitrária — é um código de multifísica desenvolvido em Sandia para problemas de choque e dinâmica de sólidos. No estudo, ele acopla a hidrodinâmica a um algoritmo de transporte de fótons do tipo Monte Carlo implícito, que simula fóton por fóton o espalhamento dos raios X dentro da rocha. A chave está na opacidade do material, a propriedade que diz quão fundo cada fóton consegue penetrar antes de depositar sua energia. Ela depende da temperatura e da densidade e muda de forma drástica quando a rocha se ioniza. Isso cria uma realimentação: os primeiros fótons aquecem a superfície, a superfície ionizada muda de opacidade, e os fótons seguintes passam a ser absorvidos em profundidades diferentes ou a ser refletidos de volta para o espaço. O código atualiza as opacidades continuamente, célula por célula, e precisou de 32 mil fótons simulados por passo de tempo para que densidade, temperatura e velocidade do vapor convergissem com erro inferior a 1%.

As simulações assumem um espectro de corpo negro a 1 quiloelétron-volt, com pico de emissão em 2,8 keV, semelhante ao que a Z Machine produz e, portanto, verificável em laboratório. O pulso dura 10 nanossegundos, e a equipe mostra que essa duração pouco importa: a expansão do vapor leva dezenas de microssegundos, mil vezes mais, e a condução de calor na rocha leva milissegundos, de modo que a explosão é, para todos os efeitos, instantânea. O espectro foi dividido em trinta faixas de energia entre 1 elétron-volt e 30 keV, e as doses — ou fluências, a energia por unidade de área — varreram quatro ordens de grandeza, de 1 a 10 mil joules por centímetro quadrado. A malha de cálculo começa em dez nanômetros junto à superfície irradiada, fina o bastante para resolver a camada derretida, e cresce logaritmicamente para longe dela, onde o vapor já rarefeito dispensa tanto detalhe.

De que é feito o asteroide também importa, por dois motivos: a composição elementar define a opacidade aos raios X, e a mineralogia define a equação de estado, a relação entre pressão, densidade e temperatura que governa a evaporação. Os autores partiram das análises das amostras de Bennu trazidas pela missão OSIRIS-REx em 2023, que tabulam 58 elementos, e chegaram a uma estimativa de 35,1% de oxigênio, 30,8% de silício, 18,4% de ferro, 9,9% de magnésio, 4,6% de carbono e 1,2% de níquel em massa — com a ressalva de que o método provavelmente superestima o silício em relação aos condritos carbonáceos típicos. Como o foco do trabalho era a topografia, e não a química, eles adotaram para os três corpos a mesma simplificação: forsterita pura, o silicato de magnésio Mg₂SiO₄, com densidade de 3,22 gramas por centímetro cúbico e uma equação de estado analítica bem estabelecida. Itokawa, cujas partículas trazidas pela sonda japonesa Hayabusa são de condritos ordinários do tipo LL, também é rica em silicatos, o que torna a aproximação razoável para comparar formas.

O que sai da superfície, segundo o ALEGRA, não é uma nuvem uniforme, e sim uma pluma com estrutura. A frente do vapor é muito mais quente e mais rápida do que a cauda: na fluência mais alta mostrada, 6.100 joules por centímetro quadrado, o material da frente ultrapassa 50 elétron-volts de temperatura — meio milhão de graus — e velocidades da ordem de 250 quilômetros por segundo, enquanto o gás que vem atrás esfria até se aproximar do ponto de fusão da forsterita, cerca de 1.890 graus Celsius. A densidade a um milímetro da superfície, a temperatura, a velocidade e o momento por unidade de área crescem de forma monotônica com a dose, o que permitiu interpolar os resultados para qualquer fluência intermediária sem rodar simulações novas. O momento, que é o que de fato empurra o asteroide, atinge um máximo cedo e decai lentamente, sustentado pelo vapor que continua a brotar da rocha quente por dezenas de microssegundos.

Figura 2: Evolução do vapor a 1 milímetro da superfície nas simulações unidimensionais com o ALEGRA. À esquerda, densidade, temper
Figura 2. Evolução do vapor a 1 milímetro da superfície nas simulações unidimensionais com o ALEGRA. À esquerda, densidade, temperatura, velocidade e momento por área ao longo do primeiro microssegundo, para fluências crescentes de 1 a 10 mil J/cm²; à direita, o valor máximo de cada grandeza em função da fluência.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

A trajetória termodinâmica desse material tem uma inflexão reveladora em torno de 10 joules por centímetro quadrado. Abaixo dela, a rocha aquecida e inicialmente confinada sob pressão passa pelas fases sólida e líquida, por uma mistura de líquido e vapor e só então vira vapor puro ao se expandir, e cada transição cobra seu preço em entropia. Acima da inflexão, há energia térmica suficiente para que a pressão se mantenha alta por tempo bastante para o material contornar o ponto crítico, o estado em que líquido e vapor deixam de ser distinguíveis. Com isso, uma fração maior da energia depositada se converte em energia cinética do vapor, e o empurrão por joule aumenta. Detalhes assim são justamente o que os modelos de força constante não enxergam, e o motivo pelo qual os autores insistem em mapear a história termodinâmica completa sobre todo o corpo.

Uma parte da energia absorvida escapa de volta para o espaço na forma de radiação térmica, e os pesquisadores quantificaram essa perda com cuidado. Ela vai de 1,4% da energia incidente, nas doses mais baixas, a 28% nas mais altas, e até 53% dessa perda ocorre ainda durante os 10 nanossegundos do pulso. A onda térmica só se torna relevante, com mais de 10% de perda, acima de 600 joules por centímetro quadrado.

O resultado mais útil, porém, está no que essa perda faz com o momento transferido ao asteroide: quase nada. Ignorar a radiação térmica depois do pulso introduz um erro acumulado inferior a 2% no momento total do vapor. A explicação é que a energia escapa sobretudo da frente da pluma, dez vezes mais quente que a cauda e cada vez mais distante da superfície, onde o empurrão de fato acontece; parte da radiação térmica, aliás, é espalhada para dentro da rocha, reforçando o efeito de arado que impulsiona o corpo. Como o acoplamento de momento cresce apenas com a raiz quadrada da energia, a conta fecha, e isso permitiu desligar o transporte de fótons após o pulso, acelerando as simulações.

Figura 3: Sensibilidade à radiação térmica para fluências entre 45 e 5.900 J/cm²: (a) fração da energia incidente perdida para o e
Figura 3. Sensibilidade à radiação térmica para fluências entre 45 e 5.900 J/cm²: (a) fração da energia incidente perdida para o espaço por reemissão; (b) erro acumulado no momento total do vapor quando a onda térmica é ignorada depois do pulso — sempre abaixo de 2% ao final.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

Do lado do gás, o método é o Direct Simulation Monte Carlo, ou DSMC, a simulação direta por Monte Carlo desenvolvida pelo australiano Graeme Bird nos anos 1960 e hoje onipresente na engenharia de voos hipersônicos e de reentrada atmosférica. Em vez de tratar o gás como um fluido contínuo, o DSMC acompanha moléculas computacionais — cada uma representando um grande número de moléculas reais — que voam em linha reta entre colisões e colidem entre si segundo regras probabilísticas. Isso dispensa a hipótese de equilíbrio termodinâmico local, falsa para um vapor que se expande no vácuo, e captura até as caudas raras da distribuição de velocidades. O código SPARTA, de código aberto e também criado em Sandia, roda esse método em supercomputadores com malhas cartesianas hierárquicas de até 16 níveis de refinamento. O mesmo grupo já o usou para simular o aquecimento do ônibus espacial na investigação do acidente do Columbia e a reentrada da estação Mir.

Os três corpos escolhidos são velhos conhecidos das sondas e dos radares. Bennu, com 484 metros de diâmetro médio e densidade de apenas 1,19 grama por centímetro cúbico, tem a forma de um pião com forte simetria axial; seu modelo digital vem da altimetria a laser da OSIRIS-REx, e ele ocupa uma das posições mais altas da escala de Palermo de risco de impacto, com cerca de uma chance em 2.700 de atingir a Terra em 2182. Itokawa, com 330 metros e densidade de 1,9, é um binário de contato em forma de amendoim, mapeado pelo LIDAR da Hayabusa.

Golevka, com 530 metros e densidade de 2,7, tem a silhueta de uma ponta de flecha dobrada, com uma crista e faces côncavas, e foi reconstruído a partir de observações de radar — foi nele, em 2003, que o efeito Yarkovsky foi detectado diretamente pela primeira vez. As massas vão de 35 bilhões de quilogramas, em Itokawa, a 210 bilhões, em Golevka, e as velocidades de escape, de 0,17 a 0,33 metro por segundo: um pedregulho lançado com a mão, a um metro por segundo, jamais voltaria.

Tabela 1: Densidade, diâmetro médio, massa e velocidade de escape de Bennu, Itokawa e Golevka, conforme tabuladas no artigo.
Tabela 1. Densidade, diâmetro médio, massa e velocidade de escape de Bennu, Itokawa e Golevka, conforme tabuladas no artigo.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

A superfície de cada corpo foi discretizada numa malha de triângulos cujo tamanho acompanha a curvatura local. O modelo de Bennu tem 49 mil triângulos com área média de 16 metros quadrados, pouco mais que uma quitinete, e a grade de gás que envolve o corpo é gerada automaticamente em menos de um minuto por um método de células cortadas, que ajusta a grade cartesiana à geometria sem intervenção humana. Para cada triângulo, um pré-processador calcula a fluência pela lei do inverso do quadrado da distância até o ponto da explosão, multiplicada pelo cosseno do ângulo de incidência. Um algoritmo de traçado de raios — o de Möller e Trumbore, o mesmo que os videogames usam para desenhar sombras — compara cada triângulo com todos os outros e zera a dose dos que ficam escondidos atrás de pedregulhos, cristas ou saliências. Todo o mapeamento leva menos de uma hora.

Figura 1: Os três modelos de forma usados no estudo, com a malha de triângulos sobreposta: (a) Bennu, o pião mapeado pela OSIRIS-R
Figura 1. Os três modelos de forma usados no estudo, com a malha de triângulos sobreposta: (a) Bennu, o pião mapeado pela OSIRIS-REx; (b) Itokawa, o binário de contato mapeado pela Hayabusa; (c) Golevka, a ponta de flecha reconstruída por radar.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

Raios X que chegam de raspão penetram menos, e o vapor que produzem é diferente: mais quente, menos denso e um pouco mais rápido. Em vez de supor uma força constante, os autores derivaram leis de escala com o ângulo de incidência — a temperatura cresce com o inverso do cosseno, a densidade cai com o cosseno e a velocidade sobe com a raiz quadrada do inverso do cosseno — e as conferiram contra simulações completas, encontrando concordância dentro de 5% até 30 graus e dentro de 16% até quase 90 graus. Como a resposta do corpo é dominada pelas regiões de incidência quase perpendicular, a incerteza residual é pequena. O ponto de entrega entre os dois códigos ficou a 0,5 milímetro da superfície, onde o vapor já tem menos de um centésimo da densidade do sólido, está livre de gotículas e de fragmentos e ainda está perto o bastante para que a topografia não tenha sido alterada pela evaporação.

Os cenários foram desenhados para isolar o efeito da geometria. Dois pontos de detonação foram testados: um próximo, a 242 metros da superfície — o raio da esfera equivalente a Bennu —, e um distante, a 2,42 quilômetros, dez vezes mais longe. Em todos os casos, a fluência no ponto da superfície mais próximo da explosão foi fixada em 4.186 joules por centímetro quadrado, o equivalente a um centésimo de milésimo de quiloton por metro quadrado, a mesma ordem de grandeza do limite que se consegue verificar experimentalmente na Terra. Manter essa dose exige um artefato de 7,36 quilotons no caso próximo e de 736 quilotons no distante, pois a energia se dilui com o quadrado da distância; para comparação, a bomba de Hiroshima rendeu cerca de 15 quilotons. Cada asteroide foi girado em 24 ou 36 orientações distintas diante do vetor de mira, uma amostragem uniforme das rotações possíveis, o que resultou em 168 cenários, cada um exigindo cerca de 24 horas em 100 núcleos de processamento.

Os mapas de pressão que saem do SPARTA são, em si, um retrato da assimetria. Como a fluência máxima foi igualada, o pico de pressão é o mesmo em todos os casos, cerca de 70 megapascais na média dos primeiros 20 microssegundos — perto de setecentas vezes a pressão atmosférica ao nível do mar, aplicada sobre cada metro quadrado da face iluminada. O que muda é a distribuição. Na detonação próxima, a pressão se concentra num círculo apertado em torno do ponto mais perto da explosão e cai a zero nos flancos, onde a luz chega de raspão. Na detonação distante, a iluminação é mais uniforme e abrange uma área muito maior, o que, com a mesma fluência de pico, resulta em impulso total maior. Mesmo em Bennu, o mais regular dos três, as faces frontais de alguns pedregulhos aparecem como máximos locais de força. Em Itokawa, os dois lobos e os blocos grandes em relação ao corpo produzem um padrão salpicado; em Golevka, as sombras e as faces planas geram a assimetria mais acentuada.

Figura 4: Pressão média nos primeiros 20 microssegundos de expansão do vapor sobre Bennu, Itokawa e Golevka, nas detonações distan
Figura 4. Pressão média nos primeiros 20 microssegundos de expansão do vapor sobre Bennu, Itokawa e Golevka, nas detonações distante (acima) e próxima (abaixo). O pico de pressão é o mesmo em todos os casos por causa da normalização da fluência; o que muda é a área e a forma da região carregada.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

Repetir o cálculo para orientações diferentes revela quanto a mesma pedra pode se comportar como alvos distintos. Itokawa iluminado de ponta oferece a menor área e a menor força total; iluminado de lado, acende múltiplas regiões de alta pressão ao longo dos dois lobos. Golevka é o caso extremo: em certas orientações, uma crista projeta sombra sobre boa parte do corpo e a dose cai a zero em regiões inteiras; em outras, uma faceta plana voltada para o clarão recebe a radiação de frente; em outras ainda, uma ponta afiada concentra a pressão numa quina. Bennu, apesar da forma de pião, também mostra carregamento assimétrico, com consequências para o seu estado de rotação. Cada painel desses mapas é, no fundo, uma pergunta: e se for essa a face que o asteroide estiver mostrando quando o artefato chegar?

Figura 5: Mapas de pressão para cinco orientações de cada asteroide diante do vetor de mira, todos na detonação distante: (a–e) Be
Figura 5. Mapas de pressão para cinco orientações de cada asteroide diante do vetor de mira, todos na detonação distante: (a–e) Bennu, (f–j) Itokawa, (k–o) Golevka. As sombras e as facetas de Golevka produzem as diferenças mais drásticas.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

As velocidades de desvio foram calculadas a partir das forças médias, da duração do empurrão e da massa de cada corpo, para cada orientação e cada distância. Para Bennu, a variação de velocidade média foi de 0,48 milímetro por segundo na detonação próxima e de 1,5 na distante, com desvio-padrão relativo de 21% e 17%. Para Itokawa, 0,75 e 1,6 milímetro por segundo, com dispersão de 39% e 38%. Para Golevka, 1,8 e 6,6 milímetros por segundo, com dispersão de 45% e 42%. A razão entre o maior e o menor desvio obtido — o número que mais importa para quem planeja sem conhecer a orientação — chegou a 1,88 em Bennu, 3,74 em Itokawa e 4,97 em Golevka. As distribuições de Bennu e Itokawa são aproximadamente simétricas, refletindo seus eixos de simetria; a de Golevka é fortemente assimétrica, puxada pelas orientações em que facetas planas e regiões sombreadas dominam.

Figura 6: Faixa e quantis da variação de velocidade (ΔV) de cada asteroide nas detonações próxima e distante, para todas as orient
Figura 6. Faixa e quantis da variação de velocidade (ΔV) de cada asteroide nas detonações próxima e distante, para todas as orientações testadas. As setas marcam a previsão para esferas de mesma massa e volume.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

Em termos práticos, uma mira ingênua em Bennu — o termo naïve targeting é dos próprios autores, para o caso em que a orientação do alvo no momento da interceptação não é controlada — pode entregar quase a metade do desvio que o ângulo ótimo daria. Em Itokawa, o empurrão pode variar por um fator de quase quatro; em Golevka, de quase cinco. Isso é muito mais do que os 20% estimados em 2017 com o modelo de força constante, mais do que a incerteza na massa dos asteroides e, pelo menos para Itokawa, mais do que a incerteza associada às propriedades do material. Esferas de mesmo volume e massa, submetidas ao mesmo procedimento, produzem desvios que caem dentro da faixa observada, mas não representam a amplitude das distribuições: a curvatura, as facetas dos blocos e o sombreamento das topografias reais abrem um leque que a esfera ideal não enxerga.

Tabela 2: Variação média de velocidade, dispersão relativa, razão entre o maior e o menor ΔV e número de orientações testadas para
Tabela 2. Variação média de velocidade, dispersão relativa, razão entre o maior e o menor ΔV e número de orientações testadas para cada asteroide, conforme o artigo.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

Milímetros por segundo parecem pouco — é a velocidade de um caracol —, mas é exatamente a escala que a defesa planetária precisa. Um estudo de 2020 calculou que os impulsos necessários para evitar uma colisão com a Terra ficam entre 1 e 30 milímetros por segundo, dependendo do tamanho do objeto, do tempo de aviso e da distância de segurança desejada; a faixa obtida pelas simulações de Sandia, de 0,4 a 12 milímetros por segundo, se sobrepõe a ela. Aplicado anos antes do encontro, um desvio dessa ordem se acumula ao longo de bilhões de quilômetros de órbita até virar a diferença entre o impacto e a passagem ao largo. Os valores para Bennu também são compatíveis com os poucos milímetros por segundo previstos em 2020 para uma esfera de sílica do mesmo tamanho com artefatos de menos de 10 quilotons, e ficam numa escala comparável à de um estudo de 2015 que previu 10 centímetros por segundo para Bennu com uma explosão de 190 quilotons a 160 metros.

O empurrão não é o único efeito. Como a pressão é assimétrica, ela também aplica torque, e um asteroide de entulho que gira rápido demais pode se desmanchar. Para Bennu, cujo momento de inércia os autores tomaram como 1,73 × 10¹⁵ quilogramas-metro quadrado, as forças de cisalhamento calculadas pelo SPARTA mudam o período de rotação, em média, em 7,5% na detonação próxima e 8,6% na distante — uma variação de velocidade angular da ordem de 3 × 10⁻⁵ radiano por segundo, comparável à prevista por outros grupos para explosões de 1,5 quiloton acima da superfície ou de 300 quilotons no interior de Itokawa. A dependência da orientação é ainda mais brutal do que na velocidade linear: a maior mudança de período foi 17 vezes superior à menor no caso próximo e 7,9 vezes no distante. Bennu já ejeta partículas espontaneamente de sua superfície, como a OSIRIS-REx flagrou em 2019; uma alteração abrupta do giro é um risco a mais a ser contabilizado.

Para ir além do corpo rígido, a equipe construiu um Itokawa virtual com entranhas. Usando o pacote granular do código LAMMPS, eles preencheram o volume do asteroide com 12.480 esferas de quatro tamanhos — 80 blocos de 8 metros, 400 de 5,04, 2 mil de 3,18 e 10 mil de 3 metros —, seguindo uma lei de potência de expoente −3,48, próxima da distribuição de tamanhos de expoente −3,77 medida nas imagens reais da Hayabusa. As 2.480 esferas maiores foram tratadas como blocos individuais; as 10 mil menores foram dissolvidas num entulho intersticial contínuo.

O corpo inteiro foi dividido em 1,421 milhão de elementos finitos tetraédricos com tamanho médio de 2,3 metros, dos quais 31% do volume são blocos e 69% são entulho. Os blocos receberam as propriedades da forsterita sinterizada, com 10% de porosidade, densidade de 3,04 gramas por centímetro cúbico, módulo de Young de 150 gigapascais e tensão de escoamento de 145 megapascais; o entulho, com 50% de porosidade, ficou cem vezes mais fraco, com apenas 1,5 megapascal, em linha com a baixa coesão inferida para asteroides desse tipo.

A história de pressão instantânea de um dos cenários distantes de Itokawa foi então aplicada à superfície desse modelo no código de mecânica dos sólidos Sierra, e um único segundo de evolução consumiu cerca de 150 horas em 288 núcleos. Dos 2.480 blocos, a maioria permaneceu intacta, e nenhum deles ganhou velocidade superior à de escape de 0,17 metro por segundo. O entulho, mais frágil, fraturou internamente e gerou 153 fragmentos, quase todos com raio equivalente em torno de 1 metro, dos quais menos de dez ultrapassaram a velocidade de escape. Somado, o momento carregado por todos os fragmentos foi de apenas 0,14% do momento que o vapor transferiu ao asteroide. A distribuição espacial desses detritos, porém, é tão assimétrica e aparentemente aleatória quanto a dos mapas de pressão: a maior parte sai das regiões mais irradiadas, mas com momentos muito variáveis, e há ejeções espalhadas por todo o corpo.

Figura 7: O Itokawa virtual com entranhas: (a) empacotamento dos blocos, com tamanhos proporcionais ao corpo; (b) posição dos bloc
Figura 7. O Itokawa virtual com entranhas: (a) empacotamento dos blocos, com tamanhos proporcionais ao corpo; (b) posição dos blocos (cinza) e dos fragmentos ejetados do entulho (coloridos pelo momento); (c, d) distribuição de tamanhos dos blocos e dos fragmentos; (e, f) distribuição acumulada de velocidades, comparada à velocidade de escape (linha tracejada).Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

Esse resultado conversa diretamente com a experiência da DART. No impacto cinético em Dimorphos, a nuvem de detritos lançada pela colisão multiplicou o momento transferido por um fator entre 2,2 e 4,9 — os ejetos foram parte essencial do empurrão, mas também um subproduto difícil de prever e de controlar. Na detonação a distância simulada em Sandia, a parcela de momento nos sólidos é centenas de vezes menor, o que reforça, ao menos para alguns cenários, a vantagem apregoada dessa técnica: desviar sem despedaçar. Os autores fazem ressalvas honestas. O método captura apenas o comportamento mecânico de baixa frequência, abaixo de cerca de 10 quilohertz, e não a estrutura das ondas de choque próximas à superfície, que evolui em microssegundos; explosões mais próximas produziriam mais detritos; e a resolução da malha pode ter influenciado o tamanho dos fragmentos. A quantidade de entulho ejetado pode estar subestimada, mas a assimetria não desaparece.

A economia de cálculo é o que torna tudo isso viável. O conjunto completo de simulações unidimensionais no ALEGRA custou cerca de 60 mil horas de processador, mas só precisa ser feito uma vez para cada composição. Cada cenário tridimensional no SPARTA — uma nova forma, um novo ângulo, uma nova distância — custa cerca de 2.400 horas de processador. Em comparação com a alternativa de resolver a hidrodinâmica de radiação diretamente em três dimensões, com malhas finas o suficiente para capturar camadas derretidas de um micrômetro sobre um corpo de meio quilômetro, os autores estimam uma aceleração de pelo menos 1.600 vezes, e possivelmente muito mais quando se exige resolução submicrométrica em incidência oblíqua. É essa diferença que permitiu testar 168 cenários em vez de dois ou três, e é ela que pode permitir, no futuro, avaliar rapidamente qualquer corpo novo que apareça nos telescópios.

As limitações são claras e estão enumeradas no próprio artigo. A composição de forsterita pura é uma simplificação; a densidade foi tomada como uniforme; a evaporação é tratada como se a superfície fosse homogênea, sem gás escapando por fissuras e poros; a água presente nos minerais hidratados, comum em asteroides, não entra no modelo de fratura; e as velocidades de desvio supõem um corpo rígido. As simulações de gás param em 20 microssegundos, quando a força líquida já caiu abaixo de 10% do valor inicial mas ainda não zerou, o que subestima o momento total em menos de 10%. Somando a isso os 2% da reemissão térmica e os 5% das leis angulares, a incerteza numérica no desvio fica em torno de 11% — uma fração do efeito da orientação, que chega a quase 400%. O erro do modelo, em outras palavras, é pequeno demais para explicar a variação encontrada, e a variação é grande demais para ser ignorada.

Figura A.1: Apêndice do artigo: (a) momento acumulado (verde) e força líquida (azul) ao longo dos 20 microssegundos simulados no SPA
Figura A.1. Apêndice do artigo: (a) momento acumulado (verde) e força líquida (azul) ao longo dos 20 microssegundos simulados no SPARTA; (b) subestimação do momento local causada pelo tempo finito de simulação, para quatro fluências — a força cai abaixo de 10% do pico em cerca de 5 microssegundos.Crédito: N. W. Moore et al., Sandia National Laboratories, 2026, Icarus/Elsevier (pré-publicação) · licença não especificada, reprodução com crédito

O recado para quem planeja missões é desconfortável. Poucos asteroides próximos da Terra foram estudados de perto por sondas; a forma da maioria é conhecida apenas por curvas de luz ou por radar, e um objeto descoberto tarde pode chegar sem modelo algum. Mesmo quando a forma é conhecida, a orientação no instante da interceptação pode não ser controlável: na DART, a orientação do alvo no momento do impacto tampouco foi controlada com precisão. Os autores apontam duas saídas. A primeira é aceitar a incerteza e usá-la: o método permite estimar, para um corpo qualquer, a faixa de desvios possíveis e dimensionar o artefato para o pior caso. A segunda é reduzi-la com reconhecimento prévio — imagens ou altimetria obtidas por uma sonda antes da detonação —, o mesmo tipo de missão de reconhecimento discutido em 2026 para 2024 YR4.

Há consequências que vão além do desvio. Se a produção de detritos e a mudança de rotação dependem da direção de mira, a própria probabilidade de fragmentar o corpo passa a depender dela. Um asteroide de entulho que receba o empurrão na orientação errada pode ganhar giro suficiente para se desfazer, transformando um único objeto numa chuva de pedaços — exatamente o cenário que a opção de desvio quer evitar. A metodologia desenvolvida em Sandia, dizem os autores, pode ser estendida para avaliar esse risco caso a caso, assim como para incluir misturas de materiais, porosidades diferentes e, para detonações mais próximas, modelos mais refinados de opacidade no infravermelho, necessários para descrever as ondas térmicas que ao mesmo tempo devolvem energia ao espaço e a empurram para dentro da camada em evaporação.

A ideia de usar explosões nucleares contra asteroides é quase tão antiga quanto a consciência do risco. Em 1992, Thomas Ahrens e Alan Harris publicaram na Nature a primeira análise sistemática de deflexão e fragmentação de asteroides próximos da Terra, e desde então o tema oscilou entre a ficção científica e os relatórios técnicos. A DART tirou o impacto cinético do papel em 2022; a opção nuclear segue confinada aos supercomputadores e a experimentos como os da Z Machine, onde a física pode ser testada sem que nada seja lançado. O trabalho de Moore e colegas pertence a essa segunda linhagem, e sua contribuição não é dizer se a opção deve ser usada, mas quantificar, com uma precisão inédita para formas reais, o que ela faria — e quanto desse resultado está fora do controle de quem aperta o botão.

Muito do que falta não está nos códigos, e sim nos dados. As equações de estado para composições asteroidais realistas ainda não existem, e cada nova amostra trazida de Bennu, de Ryugu ou dos meteoritos ajuda a construí-las. O modelo de Sandia foi desenhado para absorver essas informações com facilidade, já que a malha é gerada em um minuto e o mapeamento em uma hora. O passo seguinte, pelas palavras dos autores, é tratar a força sobre o corpo apenas como o começo da avaliação: a ejeção de detritos sólidos, a perturbação do subsolo em corpos de baixa coesão e a possibilidade de que os fragmentos voltem a se reunir sob a própria gravidade precisam ser estudadas com a mesma resolução topográfica.

O universo não nos manda esferas. Manda piões, amendoins e pontas de flecha, cobertos de pedregulhos, cristas e sombras, girando num ritmo que não escolhemos. Durante décadas, os modelos de defesa planetária trataram essa diversidade como um detalhe a ser corrigido depois; o estudo de Sandia mostra que ela pode ser o fator dominante. No dia em que a humanidade precisar lançar um artefato contra uma rocha em rota de colisão, a pergunta decisiva talvez não seja quantos quilotons, nem a que distância, e sim algo mais antigo e mais simples: que lado ela estará nos mostrando. Saber a resposta antes de apertar o botão pode ser a diferença entre um empurrão que salva e um empurrão que apenas assusta.

Fonte: Moore, N. W., Gallis, M. A., Tipton, D. G., Eckert, Z. S., Koehler, T. P., Long, K. N., Clemmer, J. T., Cochrane, K. R., Franke, B. C. & Olguin, M. (2026). Efficient computation of vapor ejecta over asteroid geometries during pulsed energy deflection. Icarus, pré-publicação aceita em 19 de outubro de 2026. DOI: 10.1016/j.icarus.2026.117364