Rochas do sul da China registram 11 trocas de polaridade por milhão de anos logo antes da crise do fim do Guadalupiano, há 261 milhões de anos, e reacendem a velha suspeita de que o interior do planeta tem voz nas extinções.

Figura 1
Figura 1. Visualização das linhas do campo magnético da Terra, com o Sol ao fundo: as linhas que saem do hemisfério norte (em laranja) e as que entram pelo sul (em azul) formam o dipolo que serve de escudo contra o vento solar e os raios cósmicos. Durante uma inversão, essa arquitetura ordenada desmorona.
Crédito: NASA (visualização estereoscópica do campo magnético terrestre), via Universe Today · CC BY 4.0

Há 261 milhões de anos, uma bússola colocada sobre os mares rasos que banhavam o sul do que hoje é a China teria enlouquecido. A agulha apontaria para o norte, depois para o sul, depois para o norte outra vez, com uma frequência que o planeta raramente conheceu em quatro bilhões e meio de anos de existência. Nesse mesmo intervalo, os recifes que bordejavam o supercontinente Pangeia entraram em colapso, grupos inteiros de invertebrados marinhos desapareceram e os ecossistemas em terra firme foram sacudidos por uma crise que os paleontólogos chamam de extinção do fim do Guadalupiano. As duas histórias, a do campo magnético que não parava de virar e a da vida que não parava de morrer, estão gravadas nas mesmas camadas de calcário. Um novo estudo acaba de lê-las lado a lado, e a coincidência de datas é estreita demais para passar despercebida, ainda que ninguém, nem mesmo os autores, se arrisque a dizer que uma coisa causou a outra.

A suspeita de que as inversões do campo magnético terrestre tenham algo a ver com extinções é quase tão antiga quanto a própria descoberta de que o campo inverte. Em 1963, o geofísico canadense Robert Uffen publicou na revista Nature a proposta de que, durante uma inversão, o enfraquecimento do escudo magnético deixaria a radiação cósmica chegar à superfície em doses capazes de alterar o rumo da evolução. Oito anos depois, o geólogo marinho James Hays encontrou, em testemunhos de sedimento do fundo do mar, espécies de radiolários que desapareciam justamente nas camadas que registravam trocas de polaridade. Desde então, a hipótese foi atacada, descartada, ressuscitada e descartada de novo. Nunca foi provada. Também nunca morreu, e o trabalho publicado agora na National Science Review ajuda a entender por quê.

Para entender o que está em jogo, é preciso descer 2.900 quilômetros, até a fronteira entre o manto rochoso e o núcleo externo, uma camada de ferro e níquel líquidos com cerca de 2.200 quilômetros de espessura. Ali, o calor que escapa do núcleo interno sólido e a cristalização gradual desse núcleo colocam o metal fundido em movimento, e a rotação do planeta organiza esse movimento em colunas que giram alinhadas ao eixo terrestre. Metal condutor em movimento dentro de um campo magnético gera correntes elétricas, e essas correntes geram mais campo magnético: é o geodínamo, uma máquina autossustentada que funciona há pelo menos 3,5 bilhões de anos e produz, na superfície, a bússola que orientou marinheiros por séculos e orienta aves migratórias até hoje.

Esse motor, porém, não é um relógio. O campo que ele produz oscila em intensidade, desloca os polos magnéticos por centenas de quilômetros ao longo de décadas e, de tempos em tempos, faz algo bem mais drástico: inverte a polaridade. O polo norte magnético passa a ficar onde estava o polo sul, e vice-versa. Não se trata de o planeta virar de cabeça para baixo, nem de a rotação mudar de sentido. O que muda é a direção das linhas de força que saem do interior da Terra, e a bússola, que hoje aponta para o Ártico, passaria a apontar para a Antártida. Os cientistas acreditam que o gatilho dessas inversões esteja nas variações do fluxo de calor através da fronteira entre o núcleo e o manto, mas encontrar um padrão nelas é tarefa das mais ingratas.

Sabemos que as inversões acontecem porque as rochas guardam memória delas. Quando a lava esfria abaixo de cerca de 580 graus Celsius, a temperatura de Curie da magnetita, os minerais magnéticos que ela contém se alinham ao campo que existe naquele momento e congelam essa orientação para sempre, como limalha de ferro colada sobre um ímã. Em sedimentos, o processo é mais suave, mas o resultado é parecido: grãos microscópicos de magnetita se orientam enquanto se depositam no fundo de lagos e mares, e a camada que se forma registra a direção do campo da época. O paleomagnetismo é a disciplina que lê esse registro, e as colunas de rocha funcionam como a fita de um gravador antigo, em que cada trecho guarda o som do campo magnético de um momento da história geológica.

A contagem mais confiável que temos vem dos últimos 83 milhões de anos, porque o assoalho oceânico que se formou desde então preserva o registro das inversões em faixas simétricas dos dois lados das dorsais meso-oceânicas. Nesse intervalo, a crosta oceânica registrou 183 trocas de polaridade, o que dá uma média de uma inversão a cada 450 mil anos. A última aconteceu há cerca de 780 mil anos e leva o nome de inversão de Brunhes-Matuyama, em homenagem a dois pioneiros do paleomagnetismo. Pela aritmética simples, estaríamos atrasados para a próxima. A aritmética, nesse caso, engana: a média de 450 mil anos é uma abstração matemática, e nada no registro geológico indica a existência de um ciclo periódico. As inversões se distribuem no tempo de forma parecida com a de eventos aleatórios, não como as batidas de um metrônomo.

O motivo de a contagem começar justamente há 83 milhões de anos diz muito sobre o temperamento do geodínamo. Antes dessa data, o campo passou quase 40 milhões de anos sem inverter uma única vez, num intervalo conhecido como Supercron Normal do Cretáceo, que se estendeu de cerca de 121 milhões de anos atrás até aquele ponto. Esses longos silêncios se alternam com fases de atividade intensa, em que inversões se sucedem em intervalos de poucas centenas de milhares de anos ou menos. Decifrar a história completa é trabalhoso porque lava e sedimento apresentam um emaranhado que precisa ser desfeito camada por camada, e porque determinar quando uma inversão ocorreu e quanto tempo ela levou para se completar são duas tarefas difíceis. Prever a próxima é, na prática, impossível.

Cada inversão, tomada isoladamente, é um evento caótico. As simulações numéricas do geodínamo, inauguradas em 1995 por Gary Glatzmaier e Paul Roberts e refinadas desde então em supercomputadores de várias instituições, mostram o que a bússola não consegue mostrar. Entre duas inversões, o campo é dominado por um dipolo arrumado, com linhas de força que saem de um hemisfério e entram no outro como as de um ímã de barra. Durante a inversão, esse dipolo desmorona. A intensidade cai para uma fração do valor normal, surgem vários polos norte e vários polos sul espalhados pela superfície, e as linhas de força viram um novelo embaraçado. O processo pode durar de alguns milhares de anos a pouco mais de 20 mil, segundo uma estimativa recente para a inversão de Brunhes-Matuyama, até que um novo dipolo se organize com a polaridade oposta.

Figura 2
Figura 2. Dois instantes de uma simulação computacional do geodínamo divulgada pela NASA. À esquerda, o campo entre inversões, com um dipolo bem definido ligando norte e sul. À direita, o campo durante uma inversão: vários polos norte e sul convivem na superfície e as linhas de força viram um emaranhado caótico.
Crédito: NASA (simulação do geodínamo de Glatzmaier-Roberts) · domínio público, via Wikimedia Commons

É nesse cenário que entra o Permiano, o último período da Era Paleozoica, que durou de 299 milhões a 252 milhões de anos atrás. Por dezenas de milhões de anos, do fim do Carbonífero até a segunda metade do Permiano, o campo magnético da Terra permaneceu travado numa única polaridade, invertida em relação à de hoje. Esse intervalo de calmaria, chamado de Supercron Reverso de Kiaman, durou cerca de 50 milhões de anos e terminou por volta de 265 milhões de anos atrás, num evento batizado de Inversão de Illawarra, em referência à região da Austrália onde foi identificado pela primeira vez. O que veio depois dessa inversão é o assunto do novo trabalho, e, segundo seus autores, trata-se de um dos trechos mais agitados do comportamento geomagnético já medidos.

O artigo, intitulado “Geomagnetic instability as a potential deep-Earth forcing factor in the Permian environmental and biotic crisis”, tem como primeiro autor Min Zhang, do Laboratório-Chave de Ciência Planetária e Tecnologia de Fronteira do Instituto de Geologia e Geofísica da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim. A equipe reúne colaboradores da Universidade de Utrecht, na Holanda, da Universidade BOKU, na Áustria, e da Universidade de Nanjing, entre outras instituições, e o trabalho foi financiado pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China. Resultados preliminares haviam sido apresentados em maio de 2026, na Assembleia Geral da União Europeia de Geociências, em Viena, sob um título que já antecipava a mensagem: frequência anômala de inversões geomagnéticas no fim do Permiano.

“O Permiano testemunhou profundas convulsões geomagnéticas, ambientais e bióticas, mas as restrições paleomagnéticas de alta resolução ao longo das transições críticas continuam escassas”, escrevem os autores na abertura do artigo. Para preencher essa lacuna, eles foram à seção de Fengshan, no sul da China, uma sequência de calcários de águas rasas depositados perto do equador da época, quando o Bloco do Sul da China era uma plataforma carbonática na porção oriental do oceano Paleotétis. A seção é contínua, sem lacunas aparentes de sedimentação, e cobre 3,75 milhões de anos, de 262,5 milhões a 258,75 milhões de anos atrás. Esse intervalo abrange a passagem do Guadalupiano para o Lopingiano, as duas últimas épocas do Permiano, e com ela o horizonte da extinção do fim do Guadalupiano.

O trabalho de campo e de laboratório é o que separa um registro confiável de uma coleção de números. Os pesquisadores coletaram mais de 870 amostras orientadas, isto é, blocos ou testemunhos cuja posição original na rocha foi anotada com bússola e, sempre que possível, com a sombra do Sol, para que a direção magnética medida no laboratório pudesse ser convertida de volta em coordenadas geográficas. Cada amostra passou por desmagnetização progressiva, um procedimento em que ela é aquecida em etapas, ou submetida a campos alternados de intensidade crescente, para remover camada por camada as magnetizações adquiridas depois da formação da rocha. É um pouco como restaurar um pergaminho reescrito várias vezes: as tintas mais recentes saem primeiro, e só no fim aparece o texto original.

Desse conjunto, 309 amostras forneceram direções estáveis e de dupla polaridade que sobreviveram aos testes de confiabilidade usados na área, entre eles a verificação de que as direções normais e invertidas são antípodas uma da outra, como se espera de um campo dipolar que de fato trocou de sinal. O resultado é uma sequência de 29 magnetozonas, nome dado a cada trecho da coluna de rocha com polaridade uniforme, alternando entre polaridade normal e invertida ao longo dos 3,75 milhões de anos. Para amarrar essa sequência ao tempo, a equipe recorreu a três cronômetros independentes: a bioestratigrafia, baseada na sucessão de fósseis-guia como conodontes e fusulinídeos; a cicloestratigrafia, que usa os ciclos orbitais de Milankovitch registrados nas camadas como um relógio astronômico; e âncoras radiométricas, idades absolutas obtidas pela datação de minerais em cinzas vulcânicas intercaladas.

A conta final é o coração do artigo. Nos cerca de 1,7 milhão de anos que antecederam a extinção do fim do Guadalupiano, a taxa de inversões chegou a aproximadamente 11 por milhão de anos. “Ela revela instabilidade geomagnética extrema, caracterizada por 29 magnetozonas e uma frequência de inversões sem precedentes, de 11 inversões por milhão de anos, um dos registros mais altos da história da Terra”, explicam os pesquisadores. Para dimensionar: a média dos últimos 83 milhões de anos é de pouco mais de duas inversões por milhão de anos, e a média de longo prazo do registro geológico é ainda menor, uma ordem de grandeza abaixo da taxa medida em Fengshan. Se o campo se comportasse hoje como naquele intervalo, os 780 mil anos transcorridos desde Brunhes-Matuyama teriam testemunhado oito ou nove trocas de polaridade, e não nenhuma.

A frequência das inversões não é o único sinal de que o geodínamo estava perturbado. Quando o campo inverte com frequência, ele tende a ser fraco, e os dados de paleointensidade compilados pela equipe, provenientes de estudos anteriores e filtrados por um critério de qualidade, apontam exatamente isso. O gráfico principal do artigo expressa a intensidade em termos do momento de dipolo virtual, uma medida da força do ímã planetário: hoje ela está em torno de 8 × 10²² ampères-metro quadrado, e os valores medidos nas rochas de idade próxima aos picos de inversão ficam bem abaixo dessa linha. Um campo fraco e inquieto é, em termos físicos, um escudo com buracos, e é esse ponto que conecta o interior do planeta à superfície na hipótese dos autores.

Depois da extinção, o campo se acalmou por alguns milhões de anos, antes de uma nova fase de agitação, menor, que o mesmo gráfico mostra junto do limite entre o Permiano e o Triássico, há 252 milhões de anos, quando ocorreu a maior extinção de todas. O padrão, portanto, não é de uma instabilidade contínua, mas de um pico pronunciado concentrado justamente na véspera de uma crise biológica. “Essas características estão temporalmente correlacionadas com a extinção do fim do Guadalupiano, há cerca de 261 milhões de anos, sugerindo uma potencial força da Terra profunda contribuindo para o colapso dos ecossistemas da superfície, embora a causalidade permaneça não comprovada”, escrevem os autores, com a cautela que a frase exige.

A crise em questão costuma ficar na sombra da catástrofe que viria dez milhões de anos depois. A extinção do fim do Permiano, há 252 milhões de anos, eliminou a maioria esmagadora das espécies marinhas e boa parte das terrestres, e ganhou o apelido de Grande Morte. Mas o evento do fim do Guadalupiano, por vezes chamado de extinção do Capitaniano, em referência ao último andar daquela época, já foi severo por si só. Sistemas recifais desmoronaram, os fusulinídeos, protozoários com conchas que em algumas espécies chegavam a vários centímetros, sofreram perdas pesadas, muitos invertebrados marinhos declinaram de forma abrupta e os ecossistemas continentais mostram sinais claros de ruptura. A curva de diversidade de espécies compilada no artigo registra a queda, e registra também o despenhadeiro posterior, quando o número de espécies cai de várias centenas para pouco mais de uma centena na virada para o Triássico.

As explicações tradicionais para a crise do Guadalupiano apontam para a superfície e para o manto, não para o núcleo. A principal suspeita é a Província Ígnea de Emeishan, no sudoeste da China, onde há cerca de 260 milhões de anos centenas de milhares de quilômetros cúbicos de basalto se derramaram sobre o que hoje são as províncias de Sichuan, Yunnan e Guizhou. Somam-se a ela a queda do nível do mar, que atingiu então o ponto mais baixo de todo o Paleozoico, uma consequência da montagem final da Pangeia e do fechamento de mares interiores, e o estresse climático e químico que a combinação de vulcanismo e regressão marinha impôs aos oceanos. A curva de isótopos de carbono, outro painel do gráfico, mostra uma excursão negativa pronunciada nesse mesmo intervalo, assinatura de uma perturbação profunda no ciclo do carbono.

As Large Igneous Provinces, as grandes províncias ígneas conhecidas pela sigla LIP, merecem uma explicação à parte, porque não se parecem com nada que exista hoje. Trata-se de episódios em que volumes de magma da ordem de milhões de quilômetros cúbicos chegam à superfície em intervalos geologicamente curtos, de algumas centenas de milhares de anos a pouco mais de um milhão, alimentados por plumas de material quente que sobem do manto profundo. O vulcanismo moderno, mesmo o mais violento, é uma fagulha perto dessas fornalhas. As LIPs coincidem com extinções e com mudanças climáticas rápidas ao longo de todo o registro, porque injetam na atmosfera dióxido de carbono, dióxido de enxofre e halogênios em quantidades capazes de aquecer o planeta, acidificar os oceanos e corroer a camada de ozônio. Os Traps Siberianos, associados à Grande Morte, são o exemplo mais citado; Emeishan é o antecessor imediato.

O gráfico que resume o artigo funciona como o painel de instrumentos de uma cabine, com cinco mostradores empilhados sobre a mesma linha do tempo, de 300 milhões a 250 milhões de anos atrás. No primeiro, a curva azul da frequência de inversões, calculada em janelas móveis de um milhão de anos, dispara em torno de 260 milhões de anos e volta a subir, com menos força, perto de 252 milhões. Logo abaixo, as barras pretas e brancas da polaridade geomagnética mostram o longo bloco contínuo do Supercron de Kiaman seguido do emaranhado de faixas finas do fim do Permiano. O segundo mostrador alinha as províncias ígneas: Tarim, Panjal e Skagerrak nos andares inferiores, as silícicas de Choiyoi e Kennedy-Connors-Auburn em barras cinza, Emeishan e os Traps Siberianos em vermelho, bem debaixo dos picos magnéticos. O terceiro traz o nível do mar e o nadir paleozoico; o quarto, os isótopos de carbono; o quinto, a diversidade de espécies e as duas extinções. Os eventos se empilham em duas colunas verticais, uma há 260 milhões de anos e outra há 252 milhões.

Figura 3
Figura 3. O painel de instrumentos do Permiano, de 300 a 250 milhões de anos atrás. (a) Frequência de inversões geomagnéticas (linha azul) e paleointensidade publicada (pontos cinza), com a barra de polaridade mostrando o Supercron de Kiaman e a Inversão de Illawarra (IR); (b) grandes províncias ígneas, com Emeishan e os Traps Siberianos em vermelho; (c) nível do mar e configuração da Pangeia; (d) isótopos de carbono; (e) diversidade de espécies, com as extinções do fim do Guadalupiano (EGME) e do fim do Permiano (EPME). Os picos magnéticos se alinham com as duas crises.
Crédito: Zhang et al. 2026, National Science Review, nwag647 · acesso aberto (Oxford University Press)

Duas colunas de coincidências não são uma demonstração de causa e efeito, e é precisamente aí que mora a dificuldade. Se inversões geomagnéticas, províncias ígneas e extinções coincidem de forma aproximada, pode haver um elo causal entre elas, e o período de inversões frequentes identificado em Fengshan pode ser a chave para esse elo. Pode também não haver nada além de um acaso cronológico, ou de uma causa comum mais profunda que tenha acionado os três fenômenos ao mesmo tempo. Onze inversões por milhão de anos indicam que algo de extraordinário acontecia dentro da Terra, e a pergunta que o artigo coloca, sem respondê-la, é se esse algo chegou até a superfície.

A resposta dos autores para o lado de dentro da pergunta passa pelas placas tectônicas. Nos milhões de anos que precederam a crise, a montagem final da Pangeia fechou oceanos inteiros, e as placas oceânicas que afundaram nas zonas de subducção desceram pelo manto como lençóis frios. Segundo o cenário proposto, algumas dessas placas teriam alcançado a fronteira entre o manto e o núcleo depois do longo intervalo de estabilidade de Kiaman, extraindo calor do núcleo de maneira localizada e criando variações laterais no fluxo térmico que atravessa essa fronteira. Simulações do geodínamo indicam que esse tipo de heterogeneidade favorece inversões frequentes, ainda que os próprios autores lembrem que os modelos operam longe das condições reais do núcleo e são sensíveis às escolhas de parâmetros.

A imagem mais próxima é a de uma panela com água no fogão. Com a chama uniforme, a convecção se organiza em células regulares e previsíveis. Coloque um bloco de gelo encostado em um dos lados do fundo, e o padrão se desarranja: correntes mais vigorosas aqui, estagnação ali, turbilhões que surgem e desaparecem. No núcleo da Terra, a chama é o calor que o metal líquido perde para o manto, e o gelo é a placa oceânica fria que chega lá embaixo depois de dezenas de milhões de anos de descida lenta. Um geodínamo alimentado por um fundo de panela desigual produz um campo mais fraco, mais desordenado e mais propenso a trocar de sinal, e o fim do Guadalupiano, nessa leitura, seria a assinatura magnética de uma grande reorganização térmica do interior do planeta.

A ideia tem antecedentes. Na década de 2000, o geólogo japonês Yukio Isozaki, da Universidade de Tóquio, propôs que a Inversão de Illawarra seria a impressão digital de uma superpluma de manto que, ao perturbar a fronteira entre o núcleo e o manto, teria desestabilizado o dipolo, iniciado a ruptura da Pangeia e provocado a extinção da passagem Guadalupiano-Lopingiano. Críticos apontaram na época um problema de cronologia: havia um intervalo de cerca de três milhões de anos entre o fim do Supercron de Kiaman e a extinção, longo demais para um mecanismo que deveria agir rápido, o que sugeria que o campo magnético seria no máximo um fator agravante, não a causa principal. O registro de Fengshan altera esse quadro em um ponto decisivo: o pico de instabilidade não está no fim do supercron, e sim colado ao horizonte da extinção.

Do lado de fora da pergunta, o caminho proposto pelos autores é o que Uffen imaginou em 1963, com seis décadas de física atmosférica acrescentadas. “A instabilidade geomagnética pode ter amplificado a ionização da alta atmosfera por meio do aumento do fluxo de raios cósmicos galácticos e de partículas do vento solar, potencialmente promovendo a destruição do ozônio, aumentando a perda de oxigênio atmosférico e elevando a radiação ultravioleta na superfície da Terra”, escrevem. A cadeia de eventos é conhecida em versão reduzida: durante grandes tempestades solares, prótons que penetram na atmosfera produzem óxidos de nitrogênio que destroem ozônio em reações em cadeia. Um campo enfraquecido por mais de um milhão de anos deixaria essa porta entreaberta de modo quase permanente.

Há evidência de que algo assim ocorreu, só que na crise seguinte. Na extinção do fim do Permiano, grãos de pólen malformados e compostos que as plantas produzem para se proteger da radiação ultravioleta aparecem em abundância nos sedimentos, e esses achados têm sido lidos como sinal de um colapso da camada de ozônio. Se o mesmo aconteceu há 261 milhões de anos, ainda não se sabe; os autores reconhecem que a evidência direta é limitada e que os halogênios liberados pelas erupções de Emeishan são uma explicação alternativa, ou complementar, para qualquer perda de ozônio naquela época. A perda de oxigênio mencionada no artigo remete a outra hipótese discutida na literatura, a de que um campo fraco facilita o escape de íons de oxigênio da alta atmosfera para o espaço, um mecanismo que a sonda MAVEN observa em ação em Marte, planeta que perdeu seu dínamo global há cerca de quatro bilhões de anos.

A maioria dos cientistas, como nota a cobertura do Universe Today, ainda olha com desconfiança para a ponte entre inversões e extinções, e os motivos são sólidos. O primeiro é que o escudo decisivo contra a radiação não é o campo magnético, e sim a atmosfera: sobre cada metro quadrado da superfície há cerca de dez toneladas de ar, o equivalente em proteção a dez metros de água, e essa blindagem não desaparece numa inversão. O segundo é estatístico: 183 inversões em 83 milhões de anos e nenhuma extinção em massa associada a elas é um argumento difícil de contornar. O terceiro é a história recente das correlações. A excursão de Laschamp, há cerca de 41 mil anos, quando o campo caiu a uma fração de sua intensidade sem chegar a inverter, foi apresentada em 2021 como a causa de uma cascata de mudanças ambientais, e a proposta recebeu críticas duras da comunidade.

Os autores do novo trabalho conhecem esse histórico e escrevem de acordo. Em nenhum ponto o artigo afirma que o caos magnético causou a extinção. O que ele documenta é uma coincidência temporal estreita, amarrada por três sistemas de datação, e um caminho físico plausível pelo qual processos da Terra profunda poderiam ter ampliado o estresse ambiental já imposto pelo vulcanismo e pela queda do nível do mar. “Isso implica que, junto com outros fatores de forçamento global, a instabilidade geomagnética pode ter influenciado as convulsões climáticas e bióticas do final do Permiano”, escrevem. A palavra decisiva é junto: o campo entra na lista de suspeitos como cúmplice, não como autor solitário.

“Essa observação indica um período de instabilidade do geodínamo, que pode ter sido associado a vários processos da Terra profunda. A associação temporal entre processos da Terra profunda, instabilidade geomagnética e grandes mudanças ambientais e bióticas é intrigante”, resumem os pesquisadores. Intrigante é a medida exata, e a conclusão do artigo não vai além dela: “Nossos achados destacam a potencial forte influência de processos da Terra profunda, e de variações geomagnéticas, sobre as condições de superfície e a crise biótica do Permiano”. É cedo para declarar causalidade, e os próprios autores dizem isso com todas as letras. Não é cedo, contudo, para dizer que a correlação merece mais estudo, e o artigo lista o que seria preciso para transformá-la em algo mais.

A primeira necessidade é de registros de paleointensidade ao longo do mesmo intervalo, porque a frequência de inversões diz quantas vezes o campo virou, mas não quão fraco ele ficou entre uma virada e outra, e é a intensidade que governa a quantidade de radiação que chega ao topo da atmosfera. A segunda é de idades mais precisas, que reduzam a incerteza de centenas de milhares de anos nas correlações entre a sequência magnética, o vulcanismo de Emeishan e os horizontes de extinção. A terceira é de modelagem atmosférica acoplada, capaz de calcular quanto ozônio um campo com as características medidas em Fengshan realmente destruiria, e quanto desse efeito seria sobreposto pelos halogênios vulcânicos. Registros equivalentes em outras seções do mundo, que confirmem que as 29 magnetozonas são um fenômeno global e não um artefato local, completam a lista.

Mesmo que a ligação com a extinção nunca se confirme, o registro tem valor próprio. Uma sequência de polaridade de alta resolução para a passagem Guadalupiano-Lopingiano permite correlacionar rochas marinhas e continentais da mesma idade em continentes diferentes, afina a escala de tempo geológico e fornece aos modeladores do geodínamo um caso real de instabilidade extrema contra o qual testar suas simulações. Esse é o tipo de dado que faltava, e os próprios autores apontam a lacuna na primeira frase do resumo. A sequência de Fengshan abre uma das janelas mais nítidas já obtidas sobre o comportamento do campo magnético durante um capítulo decisivo do fim do Paleozoico.

A pergunta inevitável é o que isso diz sobre o presente. O campo magnético terrestre perdeu cerca de 9% de sua intensidade nos últimos dois séculos, desde que as primeiras medições absolutas começaram a ser feitas, e uma região de campo anormalmente fraco, a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, se estende sobre o Brasil e o oceano vizinho, causando dores de cabeça para operadores de satélites. Nada disso, porém, indica uma inversão iminente. A intensidade atual ainda está acima da média dos últimos milhões de anos, oscilações como essa já ocorreram sem que o campo chegasse a virar, e o cron de Brunhes, que começou há 780 mil anos, está longe de ser o mais longo do registro. Quando a próxima inversão vier, ela levará milhares de anos para se completar, e o maior risco não será para a biologia, mas para a infraestrutura tecnológica: satélites, redes elétricas e sistemas de navegação.

O interesse do tema ultrapassa o Permiano. Marte perdeu seu dínamo global há cerca de quatro bilhões de anos e, com ele, boa parte de sua atmosfera, e Vênus, por razões ainda debatidas, não tem campo magnético intrínseco. A Terra é, entre os planetas rochosos do Sistema Solar, a única que mantém um escudo magnético robusto há bilhões de anos, e a pergunta sobre o quanto esse escudo importa para a vida está no centro de um campo de pesquisa que os geofísicos começam a chamar de biogeomagnetismo. Na mesma conferência de Viena em que os resultados de Fengshan foram apresentados, uma sessão inteira foi dedicada à relação entre o campo magnético e a habitabilidade planetária, incluindo o possível papel do geomagnetismo nas extinções e nas radiações evolutivas do Fanerozoico.

Há também uma lição mais ampla sobre como o planeta funciona. Durante muito tempo, a geologia tratou o núcleo como um compartimento isolado, uma fonte de calor e de campo magnético sem influência direta sobre a superfície. O quadro que emerge de trabalhos como este é o de um sistema acoplado de cima a baixo, em que as placas que afundam alteram o fluxo de calor do núcleo, o núcleo responde com um campo mais ou menos estável, as plumas que sobem do manto profundo alimentam as províncias ígneas, e tudo isso se reflete na química da atmosfera e dos oceanos e, no limite, na sobrevivência das espécies. O que os geofísicos chamam de forçamento da Terra profunda é a tradução técnica de uma ideia simples: o que acontece a 2.900 quilômetros de profundidade pode não ficar lá.

A última palavra, por enquanto, pertence às rochas. Os calcários de Fengshan se depositaram grão a grão num mar equatorial enquanto, abaixo deles, o metal líquido do núcleo trocava de sentido 29 vezes e, acima deles, recifes inteiros deixavam de existir. Eles guardaram as duas histórias com a mesma indiferença mineral, e ficou para nós a tarefa de descobrir se são uma história só. Sessenta e três anos depois de Robert Uffen levantar a hipótese, a correlação entre as inversões do campo magnético e as extinções continua sem prova e sem refutação, exatamente como o título do Universe Today resume: ela simplesmente não vai embora. Talvez porque ainda não a tenhamos entendido. Talvez porque haja nela algo a ser entendido.

Fontes

Zhang, M. et al. (2026). Geomagnetic instability as a potential deep-Earth forcing factor in the Permian environmental and biotic crisis. National Science Review, nwag647 (acesso aberto). DOI: 10.1093/nsr/nwag647

Gough, E. (2026). Magnetic Field Reversals and Extinctions: The Correlation Won’t Go Away. Universe Today, 23 de outubro de 2026 (CC BY 4.0). universetoday.com

Science China Press (2026). Comunicado à imprensa sobre o estudo, reproduzido em Astrobiology.com em 25 de outubro de 2026. · Zhang, M. et al. (2026). Anomalous high geomagnetic reversal frequency at the end-Permian. EGU General Assembly 2026, EGU26-3227.