Pearce e Douglas selecionam, entre 49 candidatos com órbita conhecida, os gigantes gasosos que o coronógrafo ESC do telescópio privado de 3 metros deve fotografar primeiro; 14 Herculis b lidera, e o modo estendido do instrumento decide metade da lista.

Esquema vetorial: a janela de detecção do coronógrafo ESC no filtro de descoberta (0,63 µm), com os anéis em escala angular, e a separação máxima projetada aproximada de seis dos alvos. Pontos turquesa caem na janela de projeto; âmbar, só no modo estendido; cinza, fora dela. Ilustração própria.

Imagine um farol a quarenta quilômetros de distância, aceso na noite mais limpa do ano, e, a um palmo dele, um vaga-lume. Fotografar o inseto sem que o farol o apague é, em escala, o que a astronomia chama de imageamento por luz refletida: registrar um planeta que não brilha por conta própria, apenas devolve ao espaço uma fração ínfima da luz da estrela que orbita. Nenhum planeta fora do Sistema Solar foi fotografado assim até hoje. Todos os que aparecem em imagens diretas são corpos jovens e quentes, que ainda irradiam o calor do próprio nascimento. Um artigo depositado no arXiv em 22 de outubro muda o tom da conversa: dois astrônomos acabam de publicar a primeira lista de 27 planetas gigantes conhecidos que o telescópio espacial Lazuli, de 3 metros, deve tentar capturar exatamente dessa maneira, pela luz emprestada de suas estrelas.

Os autores são Logan Pearce, do Departamento de Astronomia da Universidade de Michigan, e Ewan Douglas, do Observatório Steward da Universidade do Arizona, que também é o pesquisador principal do instrumento em questão. O Lazuli, anunciado em janeiro de 2026, é a peça espacial do Eric and Wendy Schmidt Observatory System, um conjunto de observatórios bancado pela filantropia do ex-executivo do Google e de sua esposa. Trata-se de um telescópio de 3 metros de abertura, desenhado para operar entre 0,4 e 1,7 micrômetro e para responder a alertas de eventos transientes em menos de quatro horas. Nenhuma missão desse porte foi paga antes com dinheiro privado, e a meta anunciada é ter o sistema pronto em 2029.

Serão três instrumentos a bordo. Além do coronógrafo, haverá a Widefield Context Camera, uma câmera de campo amplo construída pela mesma equipe de instrumentação, e um espectrógrafo de baixa resolução para espectrofotometria estável entre 400 e 1.700 nanômetros. A arquitetura divulgada no anúncio prevê uma órbita em ressonância 3:1 com a Lua, contraste bruto de 10⁻⁸ no coronógrafo e, depois do processamento, algo próximo de 10⁻⁹. Três telescópios terrestres completam a rede filantrópica, mas é o Lazuli que carrega a ambição de fazer, a partir do espaço, o que ninguém fez: separar da estrela a luz devolvida por um planeta frio e maduro.

A bordo irá o ExtraSolar Coronagraph, ou ESC, um coronógrafo de vórtice vetorial de dois canais construído para apagar a estrela e deixar passar o planeta. Coronógrafos existem desde os anos 1930, quando Bernard Lyot inventou um para estudar a coroa solar; a versão moderna troca o disco opaco por uma máscara que torce a fase da luz e joga o brilho estelar para fora do campo. O ESC aproveita o fato de o Lazuli ser um telescópio fora de eixo, sem obstrução central, para trabalhar abaixo de 0,5 micrômetro e muito perto da estrela. Um espelho deformável corrige erros ópticos da ordem do nanômetro e cava um dark hole, o buraco escuro onde um ponto 500 milhões de vezes mais fraco que a estrela consegue aparecer.

Convém lembrar como os exoplanetas foram fotografados até agora. Os primeiros retratos diretos, em 2008, mostraram os gigantes do sistema HR 8799 e, logo depois, o planeta de Beta Pictoris, todos jovens o bastante para brilhar no infravermelho com o calor residual da formação. Um gigante gasoso nasce quente e esfria ao longo de bilhões de anos, de modo que a emissão térmica favorece sistemas com poucas dezenas de milhões de anos. A luz refletida não obedece a esse relógio: Júpiter, com 4,5 bilhões de anos, reflete hoje a mesma fração de luz solar que refletia quando jovem. Observar planetas assim abre a porta para sistemas maduros, parecidos com o nosso, e para comprimentos de onda em que planeta e estrela se separam a distâncias bem menores.

O Telescópio Espacial James Webb vem esticando o limite térmico. Com o instrumento MIRI, no infravermelho médio, ele já registrou os planetas mais frios jamais vistos em imagem direta, 14 Herculis c e Epsilon Indi Ab, ambos com temperaturas efetivas entre 275 e 300 kelvins, pouco acima do congelamento da água. Ainda assim, é luz emitida pelo próprio corpo. Os autores do novo trabalho descrevem a luz refletida como a outra metade do balanço energético de uma atmosfera: a emissão térmica conta quanto calor sai do interior e quanto chega da estrela, enquanto o reflexo conta o que a atmosfera devolve e, sobretudo, de que cor. Juntar as duas medidas no mesmo planeta nunca foi possível, e os autores apostam nessa combinação como o grande marco da próxima geração.

A corrida pelo primeiro retrato por luz refletida tem vários competidores. O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da NASA, lançado em 30 de agosto deste ano num foguete Falcon Heavy, leva o Coronagraph Instrument, a primeira demonstração de coronografia em luz visível no espaço, e deve fazer campanhas de luz refletida nos próximos anos. No solo, o GMagAO-X, para o Giant Magellan Telescope de 25,4 metros, e o ELT-PCS, para o Extremely Large Telescope de 39 metros, avançam, com o MagAO-X e o SCExAO/VAMPIRES como bancadas de teste. No horizonte mais distante está o Habitable Worlds Observatory, a missão de bandeira da NASA voltada a captar luz refletida de planetas parecidos com a Terra. O Lazuli entra nesse tabuleiro como intermediário ágil, feito para amadurecer tecnologias antes do grande salto.

Há um obstáculo prático. Capturar contrastes entre uma parte em 10 milhões e uma parte em 1 bilhão exige exposições de dezenas a centenas de horas, e um telescópio de 3 metros não pode gastar esse tempo varrendo estrelas ao acaso à procura de algo. A saída, argumentam Pearce e Douglas, é mirar planetas já descobertos por outros métodos e cujas órbitas são bem conhecidas, de modo a prever onde e quando cada um estará na posição mais favorável. É a lógica do fotógrafo de vida selvagem que estuda a trilha do animal antes de armar a câmera. O artigo é a versão inicial dessa lista, que vai mudar à medida que o instrumento evoluir, novos planetas surgirem e as órbitas forem refinadas.

Quatro critérios guiaram a seleção. A estrela hospedeira precisa ser brilhante, com magnitude menor que 8 na banda G do satélite Gaia, para que o coronógrafo tenha fótons suficientes com os quais trabalhar, e as mais brilhantes que magnitude 5 ganharam prioridade. O planeta precisa passar uma fração significativa da órbita dentro da região de detecção, isto é, nem perto demais nem longe demais da estrela, e acima do limite de contraste. A órbita precisa estar bem caracterizada, com semieixo maior, excentricidade, argumento do periastro e ao menos uma massa mínima publicados. E os planetas com inclinação e longitude do nodo ascendente medidas, parâmetros que só vêm de técnicas combinadas, subiram na fila, porque eles fixam a massa verdadeira, a separação e a localização no céu ao longo do tempo.

Fluxograma do processo de seleção de alvos: corte inicial (consulta ao Exoplanet Archive e exigência de a, e, ω, raio e temperatura estelar) e segundo corte (se
Figura 1. Fluxograma do processo de seleção de alvos: corte inicial (consulta ao Exoplanet Archive e exigência de a, e, ω, raio e temperatura estelar) e segundo corte (separação e fase ao longo da órbita, contraste lambertiano para três albedos e magnitude G).Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

A região de detecção é definida por dois ângulos. O inner working angle, ou IWA, é a menor separação em que o coronógrafo consegue suprimir a luz da estrela, e fica em 3 λ/D, três vezes a razão entre o comprimento de onda e o diâmetro do espelho. No filtro de descoberta, centrado em 0,63 micrômetro, isso equivale a 0,13 segundo de arco, o tamanho aparente de uma moeda de um real vista a 43 quilômetros. Para uma estrela a 10 parsecs, é o mesmo que dizer que nada mais próximo de 1,3 UA da estrela pode ser visto, uma linha traçada pouco antes da órbita de Marte em um Sistema Solar transplantado para essa distância.

O outer working angle, ou OWA, é o limite externo do buraco escuro e depende de quantos atuadores o espelho deformável tem ao longo da pupila. O desenho básico prevê 10 λ/D, ou 0,43 segundo de arco, e um modo estendido mais ambicioso chegaria a 20 λ/D, ou 0,87 segundo de arco. Para a mesma estrela a 10 parsecs, a janela útil vai até 4,3 UA no modo básico, pouco antes de Júpiter, e até 8,7 UA no estendido, quase na órbita de Saturno. Entre esses dois raios, e acima do contraste-alvo de 2 × 10⁻⁹, fica a caixa dentro da qual cada candidato precisa passar a maior parte possível do tempo.

Definições dos parâmetros usados no trabalho (comprimento de onda, IWA, OWA, região de detecção, elementos orbitais, magnitude G, albedo geométrico e ângulo de
Tabela 1. Definições dos parâmetros usados no trabalho (comprimento de onda, IWA, OWA, região de detecção, elementos orbitais, magnitude G, albedo geométrico e ângulo de fase).Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Para converter uma órbita em posições no céu, o artigo usa o sistema de coordenadas de um trabalho anterior da própria Pearce, no qual a inclinação é o ângulo entre o plano orbital e o plano do céu: 0 ou 180 graus significam órbita de frente, 90 graus, de perfil, e valores abaixo de 90 indicam movimento anti-horário. O argumento do periastro marca, dentro do plano da órbita, onde fica o ponto de maior aproximação; a longitude do nodo ascendente diz em que direção do céu o planeta cruza para a frente da estrela; a anomalia verdadeira registra quanto ele já avançou desde o periastro. Um detalhe traiçoeiro: soluções de velocidade radial dão o argumento do periastro da estrela, não do planeta, e é preciso somar 180 graus.

Sistema de coordenadas usado na análise: plano do céu, plano da órbita, inclinação i, argumento do periastro ω, longitude do nodo Ω e anomalia verdadeira ν; o p
Figura 2. Sistema de coordenadas usado na análise: plano do céu, plano da órbita, inclinação i, argumento do periastro ω, longitude do nodo Ω e anomalia verdadeira ν; o ponto preto marca o nodo ascendente.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Os autores consultaram o Exoplanet Archive da NASA em 20 de setembro de 2026 e puxaram os planetas a menos de 70 parsecs com semieixo maior, excentricidade, argumento do periastro, período e massa da estrela publicados. Para cada um, calcularam o contraste planeta-estrela usando a função de fase lambertiana, uma descrição idealizada de como uma esfera espalha luz: o contraste cresce com o albedo geométrico e com o quadrado da razão entre raio do planeta e distância à estrela, e cai conforme o planeta se afasta da fase cheia. Sem raio medido, ele foi estimado a partir da massa por uma relação empírica de 2025. Três albedos foram testados: 0,1, o caso pessimista; 0,5, o de um gigante como Júpiter; e 0,7, o de uma atmosfera como a de Vênus.

Contraste planeta-estrela com função de fase lambertiana.
Equação 1. Contraste planeta-estrela com função de fase lambertiana.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

A fase importa tanto quanto a distância. Assim como a Lua, um exoplaneta passa por fases ao girar em torno da estrela, e o observador só o vê bem iluminado quando ele está do lado de lá, perto da conjunção superior, justamente quando a separação angular encolhe. O ângulo de fase depende da inclinação da órbita, e para os planetas sem inclinação medida os autores repetiram as contas em três cenários: 10 graus, quase de frente; 60 graus, o valor médio para orientações sorteadas ao acaso; e 90 graus, de perfil. Nos ajustes de velocidade radial, a inclinação costuma ser fixada artificialmente em 90 graus, e muitos desses valores foram parar no arquivo como se fossem medidas. A equipe descartou toda inclinação exatamente igual a 90 graus por essa razão.

Candidatos do Exoplanet Archive em separação máxima projetada contra contraste lambertiano (albedo 0,5); região sombreada = janela de detecção do ESC (3–20 λ/D
Figura 3. Candidatos do Exoplanet Archive em separação máxima projetada contra contraste lambertiano (albedo 0,5); região sombreada = janela de detecção do ESC (3–20 λ/D a 0,63 µm, contraste 2 × 10⁻⁹); linha azul = curva mais otimista do coronógrafo do Roman.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

O passo seguinte foi transformar tudo isso numa nota. Para cada candidato, o programa percorreu a órbita em mil pontos e registrou a fração do tempo dentro da janela angular e acima do contraste-alvo. A pontuação final é uma média ponderada de quatro termos: a fração da órbita dentro do IWA e do OWA, com peso 1,5; a fração acima do limite de contraste no albedo pessimista de 0,1; a mesma fração no albedo joviano de 0,5; e um bônus de brilho dado por 8,1 dividido pela magnitude G da estrela, já que 8,1 era a hospedeira mais fraca da amostra inicial. É um boletim escolar em que a assiduidade dentro do buraco escuro vale um pouco mais que as outras disciplinas, com ponto extra para estrelas vistosas.

Equação da pontuação para planetas com inclinação conhecida (Seção 2.2.1).
Equação da pontuação. Equação da pontuação para planetas com inclinação conhecida (Seção 2.2.1).Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Quarenta e nove planetas com inclinação conhecida entram na região de detecção em alguma fração de suas órbitas. Desse grupo, os autores escolheram os nove de melhor nota e os dois com estrelas mais brilhantes. Os nove são 14 Herculis b, GJ 832 b, HD 114783 c, Beta Pictoris b, HD 190360 b, Pi Mensae b, HD 154345 b, HD 87883 b e HD 100508 b, com pontuações entre 0,61 e 0,47 no modo estendido. Os dois acrescentados pelo brilho da hospedeira são Epsilon Eridani b e Beta Pictoris c, cujas estrelas, de magnitudes 3,5 e 3,8, são visíveis a olho nu. O arquivo atribuía uma inclinação a 55 Cancri d, mas o valor pertencia ao planeta b do mesmo sistema, e 55 Cancri d voltou ao grupo sem inclinação.

Candidatos com inclinação conhecida, ordenados pela pontuação; colunas = frações da órbita dentro da janela e acima do contraste, magnitude G e pontuações para
Figura A1. Candidatos com inclinação conhecida, ordenados pela pontuação; colunas = frações da órbita dentro da janela e acima do contraste, magnitude G e pontuações para OWA de 10 e 20 λ/D.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Entre os planetas conhecidos apenas por velocidade radial, a seleção privilegiou estrelas acima da magnitude 5 e rendeu cinco nomes: Gamma Cephei b, Upsilon Andromedae d, 47 Ursae Majoris b, 47 Ursae Majoris c e HD 160691 c. Gamma Cephei b e Upsilon Andromedae d despontam como os mais fortes do grupo pela combinação de estrela-mãe luminosa e tempo passado na janela de detecção, e os autores afirmam que ambos se tornarão alvos de primeiríssima prioridade assim que alguém medir sua inclinação e sua longitude do nodo. Para esses casos, a nota recebeu termos adicionais que cobrem as três inclinações de teste, com pesos iguais exceto pela mesma preferência de 1,5 para a fração dentro da janela angular. Todos os cinco orbitam estrelas de magnitudes entre 2,9 e 4,9.

Equação da pontuação para planetas sem inclinação conhecida (Seção 2.2.2).
Equação da pontuação (sem inclinação). Equação da pontuação para planetas sem inclinação conhecida (Seção 2.2.2).Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Esses cinco carregam história. 47 Ursae Majoris b foi um dos primeiros exoplanetas achados por velocidade radial, em 1996, por Geoffrey Marcy e Paul Butler, e seu companheiro c, com meia massa de Júpiter a 3,45 UA, é o que mais tempo passa na janela estendida entre os sem inclinação, com 65% das realizações. HD 160691, mais conhecida como Mu Arae, abriga quatro planetas, e o c é o mais externo, a 5,52 UA, com 11,6 anos de período. Upsilon Andromedae foi o primeiro sistema multiplanetário identificado ao redor de uma estrela da sequência principal, em 1999, e o d, com 4,3 massas de Júpiter mínimas e 3,59 anos de período, fica na zona habitável. Gamma Cephei b orbita uma estrela que também é parte de um par binário.

Candidatos sem inclinação conhecida, ordenados pela magnitude da estrela-guia, com as frações para inclinações de 10°, 60° e 90°.
Figura A2. Candidatos sem inclinação conhecida, ordenados pela magnitude da estrela-guia, com as frações para inclinações de 10°, 60° e 90°.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Um terceiro grupo nasceu de uma vocação do Lazuli: observar no azul, entre 0,3 e 0,5 micrômetro, onde poucos coronógrafos se atrevem. Como o IWA escala com o comprimento de onda, as contas em 0,4 micrômetro encolhem a janela para 0,08 segundo de arco por dentro e 0,55 por fora, e alguns planetas fracos no filtro de descoberta passam a ir bem. Onze formam o subconjunto azul: HD 219134 h, HD 160691 b, 7 Canis Majoris b e c, HD 10647 b, HD 192310 c, HD 216437 b, HD 164922 b, HD 70642 b, Psi1 Draconis B b e HD 128311 c. Com os onze com inclinação e os cinco sem ela, são os 27 do título. O que o azul tem de especial aparece adiante.

Subconjunto azul: planetas que pontuam melhor com a janela de detecção calculada em 0,4 µm.
Figura A3. Subconjunto azul: planetas que pontuam melhor com a janela de detecção calculada em 0,4 µm.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

O grupo do azul guarda alguns dos nomes mais ricos. 7 Canis Majoris, uma gigante de tipo K de magnitude 3,7, tem dois planetas, de 1,85 e 0,87 massa de Júpiter, com períodos de 2,0 e 2,7 anos, e ambos registram as maiores frações de órbita dentro dessa janela: 82% e 71% com albedo joviano. HD 219134 h, com 0,28 massa de Júpiter a 2,83 UA, orbita a estrela de tipo K mais velha da lista, a 6,5 parsecs, que também abriga planetas rochosos vistos em trânsito em 2015. HD 192310 c, o possível subnetuno, dá uma volta em 1,49 ano a 1,18 UA de uma anã laranja a 8,9 parsecs. Psi1 Draconis B b e HD 128311 c fecham o grupo com órbitas de 8,5 e 2,5 anos.

Subconjunto azul: HD 219134 h, HD 160691 b, 7 CMa c, 7 CMa b, HD 10647 b e HD 192310 c.
Figura B3. Subconjunto azul: HD 219134 h, HD 160691 b, 7 CMa c, 7 CMa b, HD 10647 b e HD 192310 c.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Uma nota baseada em valores médios é um bom filtro, mas esconde a incerteza. Para cada alvo, os autores buscaram a solução orbital mais recente e autoconsistente da literatura, com todos os parâmetros e suas barras de erro, e rodaram uma simulação de Monte Carlo: 10 mil órbitas de teste sorteadas dentro das incertezas, cada uma amostrada em 500 pontos, o que dá 5 milhões de posições por planeta. O albedo foi fixo em 0,5 ou sorteado entre 0,1 e 0,7 e, para os planetas sem inclinação, ela foi fixada em 60 graus ou sorteada com distribuição uniforme no cosseno, entre 10 e 90 graus. O resultado é uma nuvem de pontos no plano separação-contraste, e a fração dela dentro da caixa de detecção é o número que interessa.

Elementos orbitais dos 27 alvos priorizados: semieixo maior, período, excentricidade, inclinação, argumento do periastro, longitude do nodo e época do periastro
Tabela 2. Elementos orbitais dos 27 alvos priorizados: semieixo maior, período, excentricidade, inclinação, argumento do periastro, longitude do nodo e época do periastro.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

14 Herculis b lidera em quase todos os critérios. Achado por velocidade radial no fim dos anos 1990, ele orbita uma estrela de tipo K a cerca de 18 parsecs e tem 8,9 vezes a massa de Júpiter, semieixo maior de 2,84 UA, período de 4,84 anos e excentricidade de 0,37, uma órbita alongada que o leva de 1,8 UA a 3,9 UA, de Marte até além do cinturão de asteroides. Sua inclinação, de 32,7 graus, vem de ajustes que somam velocidade radial e astrometria do Hipparcos e do Gaia, e o sistema abriga ainda 14 Herculis c, o planeta mais frio já fotografado pelo Webb. Nas simulações, 64% dos pontos caem na região de detecção com albedo 0,5 e 47% com albedo incerto, nos dois modos de OWA.

Simulações de Monte Carlo para 14 Her b (acima) e GJ 832 b (abaixo): separação contra contraste para albedo 0,5 (roxo, esquerda) e albedo sorteado entre 0,1 e 0
Figura 4. Simulações de Monte Carlo para 14 Her b (acima) e GJ 832 b (abaixo): separação contra contraste para albedo 0,5 (roxo, esquerda) e albedo sorteado entre 0,1 e 0,7 (laranja, direita); a caixa sombreada é a região de detecção e f é a fração de realizações dentro dela.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

HD 114783 c, HD 190360 b e Pi Mensae b completam o topo da tabela. O primeiro tem 1,9 massa de Júpiter a 5,0 UA, período de 11,9 anos e inclinação de 21 graus, quase de frente, o que estabiliza a separação projetada; nota 0,56, mas só 33% das realizações na caixa. O segundo, com 1,69 massa de Júpiter a 3,97 UA, período de 7,9 anos e excentricidade 0,33, orbita uma estrela de magnitude 5,6 e coloca 46% dos pontos na região. Pi Mensae b é o peso-pesado da amostra, com 12,4 massas de Júpiter, e o mais excêntrico dos de inclinação conhecida, com 0,64; com 5,72 anos de período, atinge 63% das realizações. A estrela é a de Pi Mensae c, o primeiro planeta do TESS, em 2018.

Simulações orbitais para os alvos com inclinação: 14 Her b, GJ 832 b, HD 114783 c, HD 190360 b, β Pic b e HD 154345 b; teal escuro = OWA de 10 λ/D, teal claro =
Figura B1 (parte 1). Simulações orbitais para os alvos com inclinação: 14 Her b, GJ 832 b, HD 114783 c, HD 190360 b, β Pic b e HD 154345 b; teal escuro = OWA de 10 λ/D, teal claro = 20 λ/D.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

O segundo colocado geral conta outra história. GJ 832 b, com 0,99 massa de Júpiter, orbita uma anã vermelha a apenas 5 parsecs, a única estrela de tipo M da lista, a 3,7 UA, com 9,9 anos de período e inclinação medida de 51 graus. A proximidade compensa a fraqueza da hospedeira, de magnitude 7,7. Só que sua separação angular é grande demais para o buraco escuro básico: 58% dos pontos caem na janela estendida de 20 λ/D, contra 1% na janela de 10 λ/D. O mesmo vale, em graus variados, para Epsilon Eridani b e para os planetas sem inclinação. A conclusão prática, repetida no fechamento do artigo: vale cada esforço para alcançar o OWA estendido, porque é ele que destrava boa parte dos alvos mais atraentes.

Beta Pictoris entra duas vezes. O planeta b, fotografado desde 2008, tem cerca de 9 massas de Júpiter, semieixo maior de 10,07 UA, período de 23,8 anos e órbita quase de perfil. O planeta c, achado em 2019 por velocidade radial e confirmado por interferometria, orbita bem mais perto, a 2,70 UA, com 3,29 anos de período e excentricidade de 0,31. A estrela, de magnitude 3,8 e a 19,4 parsecs, é a mais jovem da amostra: o trabalho adota cerca de 600 milhões de anos, embora a literatura costume citar 20 a 25 milhões. Há um alerta sobre o raio de b: modelos fotométricos dão 1,65 raio de Júpiter, valor adotado, mas relações massa-raio apontam algo menor, o que reduziria a luz refletida, talvez abaixo do alcance do Lazuli.

Epsilon Eridani b é o vizinho mais próximo da lista, a 3,2 parsecs, ou 10,5 anos-luz, e orbita a mais luminosa das hospedeiras com inclinação conhecida, de magnitude 3,5. Com 0,91 massa de Júpiter, a 3,52 UA e período de 7,34 anos, é um dos mais parecidos com Júpiter no conjunto. Sua nota no modo básico é zero: nunca entra na janela de 10 λ/D. No estendido sobe para 0,47, mas as simulações mostram só 12% a 13% das realizações na caixa. Os autores reconhecem que seu contraste pode estar subestimado: modelos de atmosferas nubladas e fora de equilíbrio químico publicados em 2026 indicam albedos de 0,6 a 0,7 para ele, acima dos 0,5 assumidos. Mesmo assim, a maioria das órbitas simuladas fica abaixo do limite de contraste.

HD 87883 b, π Men b, HD 75302 b, β Pic c e ε Eri b.
Figura B1 (parte 2). HD 87883 b, π Men b, HD 75302 b, β Pic c e ε Eri b.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Gamma Cephei b orbita a estrela mais brilhante da lista, de magnitude 2,9, uma subgigante de tipo K num sistema binário a cerca de 14 parsecs. O planeta tem massa mínima de 1,85 vez a de Júpiter, a 2,05 UA, com período de 2,47 anos. Em 2018, uma equipe liderada por Fritz Benedict mediu inclinação, nodo e massa com o sensor de guiagem fina do Hubble, mas não publicou a solução completa com incertezas, e Pearce e Douglas preferiram um ajuste de velocidade radial de 2011. Com inclinação fixa em 60 graus, 34% das realizações caem na janela estendida; com inclinação e albedo sorteados, 40%. Upsilon Andromedae d, ao redor de uma estrela de magnitude 4,0, é o outro caso emblemático e também figura entre os alvos do Roman.

O mesmo da Figura 4 para os dois melhores alvos sem inclinação medida: γ Cep b (acima) e 47 UMa c (abaixo); à esquerda, albedo 0,5 e inclinação 60°; à direita,
Figura 5. O mesmo da Figura 4 para os dois melhores alvos sem inclinação medida: γ Cep b (acima) e 47 UMa c (abaixo); à esquerda, albedo 0,5 e inclinação 60°; à direita, albedo e inclinação sorteados.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Parte do mérito do artigo está nos alvos que ficaram de fora. HD 181433 d pontuava bem na tabela composta do arquivo, mas suas duas soluções orbitais mais recentes, uma só com velocidades radiais do HARPS e outra combinando HARPS, HIRES e acelerações astrométricas do Hipparcos e do Gaia, discordam em semieixo maior, excentricidade e período por mais de um desvio-padrão, e o planeta foi excluído até que o quarto catálogo do Gaia esclareça a situação. HD 147513 b, com nota 0,44 e estrela de magnitude 5,2, foi retirado por constar como controverso no arquivo. Para Upsilon Andromedae d e HD 128311 c existem inclinações medidas pelo Hubble, mas o método de ajuste pode introduzir viés, e os autores decidiram esperar por uma verificação independente antes de confiar nelas.

Simulações orbitais para os cinco alvos sem inclinação: γ Cep b, υ And d, 47 UMa c, 47 UMa b e HD 160691 c.
Figura B2. Simulações orbitais para os cinco alvos sem inclinação: γ Cep b, υ And d, 47 UMa c, 47 UMa b e HD 160691 c.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Vista de longe, a lista tem uma fisionomia clara. Quase todas as estrelas são de tipos A, F, G e K, consequência direta da exigência de brilho, e os alvos se espalham por todo o céu, sem concentração em um hemisfério. Quase todos os planetas têm massa mínima acima da de Netuno e, com toda a probabilidade, abaixo de 13 massas de Júpiter, a fronteira costumeira entre planetas gigantes e anãs marrons. A exceção curiosa é HD 192310 c, com massa mínima de 0,8 massa de Netuno, que pode ser um subnetuno, o único da lista nessa categoria. A maioria dos sistemas abriga outros companheiros conhecidos, e vários dos alvos orbitam dentro da zona habitável de suas estrelas, uma configuração que o Sistema Solar não possui.

Propriedades dos alvos: diagrama cor-magnitude do Gaia das estrelas hospedeiras; posições no céu; temperatura de equilíbrio e instelação equivalente terrestre c
Figura 6. Propriedades dos alvos: diagrama cor-magnitude do Gaia das estrelas hospedeiras; posições no céu; temperatura de equilíbrio e instelação equivalente terrestre contra massa; período orbital e idade estelar contra massa (círculos = massa verdadeira; estrelas = massa mínima).Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Beta Pictoris b e c, HD 160691 b, 47 Ursae Majoris b, Pi Mensae b, Upsilon Andromedae d, HD 216437 b, 7 Canis Majoris b e c, HD 10647 b, Gamma Cephei b e HD 192310 c estão na faixa temperada de suas estrelas, pela definição otimista de Ravi Kopparapu e colaboradores, de 2014. Gigantes gasosos não são candidatos a abrigar vida, mas suas luas podem ser, e HD 114783 c, HD 164922 b, HD 128311 c e HD 192310 c ainda têm mundos menores por dentro, na mesma faixa. Os gigantes externos moldaram a arquitetura do nosso sistema e talvez tenham regulado a água entregue aos planetas internos, o que faz desses sistemas laboratórios para pensar habitabilidade de um ângulo que a Terra sozinha não oferece.

Arquitetura dos sistemas alvo: alvos coloridos pela pontuação, outros corpos conhecidos em preto, companheiras estelares como estrelas, semieixo maior no eixo h
Figura 7. Arquitetura dos sistemas alvo: alvos coloridos pela pontuação, outros corpos conhecidos em preto, companheiras estelares como estrelas, semieixo maior no eixo horizontal e zona habitável otimista em teal.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

O traço mais marcante, contudo, é a temperatura. Com albedo de Bond de 0,3, como o de Júpiter, a maioria dos alvos tem temperatura de equilíbrio menor que a da Terra e recebe menos luz que o nosso planeta; sete são mais frios e menos iluminados que o próprio Júpiter. Apenas quatro, Gamma Cephei b, 7 Canis Majoris b e c e Beta Pictoris c, tocam a faixa dos 275 kelvins que marca o recorde atual de frieza em imagem direta; os demais estão abaixo. As idades vão de centenas de milhões de anos, em Beta Pictoris, a 11 bilhões, em HD 219134 h, cuja estrela é seis bilhões de anos mais velha que o Sol. Nenhuma campanha térmica alcança sistemas assim; a luz refletida, indiferente à idade, alcança.

Massa do planeta, massa da estrela, magnitude G, referências, idade e pontuações para os OWA de projeto e de meta, com as notas e referências.
Tabela 2 (continuação). Massa do planeta, massa da estrela, magnitude G, referências, idade e pontuações para os OWA de projeto e de meta, com as notas e referências.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

O artigo dedica uma seção às dificuldades, e a primeira é geométrica. Sem inclinação, um planeta de velocidade radial tem apenas massa mínima, e sua separação projetada fica mal definida ao longo do tempo. Medir a inclinação exige astrometria, seja o bamboleio da estrela no plano do céu, como a anomalia de movimento próprio entre Hipparcos e Gaia, seja uma série de posições relativas por imagem. A mesma astrometria dá a longitude do nodo, que diz em que direção, medida do norte para o leste, o planeta estará em cada data. Não é detalhe: o buraco escuro do ESC não é simétrico em torno da estrela, e apontar quando o planeta está fora dele seria desperdiçar dezenas de horas.

Há ainda uma sutileza que a imagem térmica podia ignorar. Mesmo com inclinação e nodo medidos, a astrometria em geral não diz qual dos dois nodos é o ascendente, isto é, onde o planeta cruza o plano do céu de trás para a frente da estrela. Para quem só quer saber onde o planeta está, tanto faz. Para quem precisa da fase, é decisivo: trocar os nodos troca os trechos da órbita em que o planeta aparece em fase gibosa ou em forma de foice, e isso altera o contraste previsto para a noite da observação. A tabela do artigo adota a solução prógrada quando a ambiguidade persiste, mas a retrógrada continua válida, e só várias épocas de imagem direta, ou uma velocidade medida em três dimensões, desfazem o nó.

A segunda dificuldade é o movimento. O período mais curto da lista é o de HD 192310 c, de 1,5 ano, e quando os telescópios gigantes e o Habitable Worlds Observatory buscarem planetas pequenos a situação piora: Proxima Centauri b dá uma volta em 11,2 dias. Com exposições de dezenas ou centenas de horas, períodos assim significam que o alvo se desloca com a câmera aberta, às vezes por boa fração de um elemento de resolução, borrando o sinal de um jeito que mais tempo não conserta. Um estudo de 2021 estimou que métricas tradicionais de completude superestimam o rendimento em até 10% quando ignoram esse efeito. A análise atual considera só a fração da órbita na janela, não o tempo que ela dura, e os autores reconhecem a lacuna.

A resposta conhecida para isso chama-se Orbital Differential Imaging, ou ODI: em vez de uma exposição longa, muitas curtas, cada uma deslocada e girada para compensar o movimento orbital antes da soma. O preço é computacional, porque sem conhecer a órbita é preciso testar algo como 100 milhões de trajetórias candidatas e lidar com falsos alarmes. Pacotes como o K-Stacker, o octofitter e o PACOME já implementam variantes dessa ideia, usando órbitas keplerianas para guiar a redução e extrair parâmetros orbitais do próprio empilhamento. Uma órbita bem conhecida de antemão encolhe o espaço de busca e ajuda a separar o planeta do ruído de manchas, como a imagem diferencial angular faz há duas décadas.

A terceira dificuldade é mais bonita do que preocupante. Todos os gigantes do Sistema Solar têm anéis e luas, que em alguns casos contribuem bastante para o brilho total quando não são resolvidos. Não há razão para imaginar que os gigantes de outras estrelas sejam diferentes; a ausência de detecções reflete limites de observação, não de astrofísica. Um planeta grande sem anéis e um planeta pequeno com anéis podem refletir a mesma quantidade de luz na mesma fase, somando-se à degenerescência clássica entre tamanho e fase. A curva de fase ajuda a distinguir os dois casos, porque anéis produzem dois máximos locais de brilho em vez de um, e a polarimetria também, já que anéis polarizam a luz de modo característico, mas ambas exigem várias épocas de observação.

Luas trazem complicações próprias. Como as fontes não serão resolvidas, uma assinatura espectral pode vir da lua, do anel ou do planeta, e eclipses e sombras mútuas podem imitar variações de clima. Os autores sugerem códigos de recuperação espectral capazes de ajustar dois corpos de uma vez, e lembram que o mesmo fenômeno pode ser virado a favor: sombras e trânsitos mútuos são, em princípio, um caminho para detectar satélites de exoplanetas. Uma lua grande em torno de um gigante na zona habitável seria, por si só, um dos alvos mais interessantes da astrobiologia; a confusão fotométrica é, no limite, uma oportunidade disfarçada.

A sobreposição com o Roman é um dos pontos altos do trabalho. O Coronagraph Instrument deve alcançar contrastes de até 10⁻⁹ e tem dois modos de imagem: um de campo amplo, entre 0,3 e 0,95 segundo de arco, com o coronógrafo de pupila moldada, que será apontado para Epsilon Eridani b na banda 1, em 0,575 micrômetro; e um de campo estreito, entre 0,14 e 0,45 segundo de arco, com o coronógrafo híbrido de Lyot, que mira Upsilon Andromedae d e 14 Herculis b. Os três estão na lista do Lazuli, embora Epsilon Eridani b só seja alcançável no modo estendido. O ESC poderá complementar as bandas do Roman em 0,575, 0,730 e 0,825 micrômetro e estendê-las para abaixo de 0,5 micrômetro, exatamente onde o observatório da NASA não chega.

Aqui o azul mostra sua razão de ser. O espectro de albedo de Júpiter, medido por Erich Karkoschka em 1994, exibe uma queda acentuada entre 0,3 e 0,5 micrômetro, causada por neblinas de hidrocarbonetos complexos que absorvem luz azul e que os modelos de gigantes gasosos não incluem, por serem difíceis de calcular. Comparado a um modelo de planeta joviano a 150 kelvins, de 2018, Júpiter é nitidamente mais escuro no azul. Ninguém sabe se gigantes de outras estrelas têm neblinas parecidas, e os autores mostram que uma cor fotométrica entre 0,45 e 0,63 micrômetro separa os dois casos com mais de um desvio-padrão quando a razão sinal-ruído chega a 20. Medir a cor azul de um exoplaneta frio é perguntar se ele carrega a mesma névoa fotoquímica que Júpiter.

Esquerda: espectro de albedo de Júpiter (Karkoschka 1994) contra um modelo joviano a 150 K (MacDonald et al. 2018); as neblinas de hidrocarbonetos escurecem Júp
Figura 8. Esquerda: espectro de albedo de Júpiter (Karkoschka 1994) contra um modelo joviano a 150 K (MacDonald et al. 2018); as neblinas de hidrocarbonetos escurecem Júpiter no azul. Direita: cor 0,45–0,63 µm com e sem neblina, com barras para S/N = 10 e 20.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

A outra sinergia olha para o infravermelho. Quando o Webb e, depois, o METIS do Extremely Large Telescope fotografam um planeta frio pelo calor, somar a luz refletida fecha o balanço de energia e testa efeito estufa, névoas, abundâncias dos gases e previsões de formação. Os autores estimaram o fluxo térmico de cada alvo com os modelos Sonora Flame Skimmer, para planetas entre 50 e 500 kelvins, e Sonora Diamondback, para os quentes Beta Pictoris b e c, a cerca de 1.700 kelvins, acrescentaram o aquecimento estelar e a componente refletida, e compararam com as curvas de contraste previstas para o METIS nas bandas L, em 3,8 micrômetros, e N1, em 8,7. O veredicto é modesto: por enquanto, só os dois planetas de Beta Pictoris seriam acessíveis ao METIS.

Alvos em emissão térmica comparados às curvas de contraste previstas para o ELT-METIS nas bandas N1 (8,7 µm, esquerda) e L (3,8 µm, direita); só os planetas de
Figura 9. Alvos em emissão térmica comparados às curvas de contraste previstas para o ELT-METIS nas bandas N1 (8,7 µm, esquerda) e L (3,8 µm, direita); só os planetas de β Pic ficam acima das curvas.Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

O quarto catálogo do Gaia, previsto para dezembro de 2026, atravessa o artigo como promessa. A astrometria do satélite europeu é especialmente sensível a planetas de 3 a 13 massas de Júpiter em torno de estrelas G, K e M, a 2 a 5 UA, precisamente onde moram muitos dos alvos. Com um catálogo simulado publicado neste ano, os autores converteram os planetas fictícios em separação projetada e contraste: dos 7.545 planetas do DR4 simulado, 39 caem na região de detecção, e dos 117.305 do DR5 simulado, 135. São só os casos com solução orbital completa; sinais parciais, na forma de acelerações, devem somar muitos outros. Mesmo que até metade dos candidatos do DR4 seja binária disfarçada, a conta sugere um fluxo saudável de alvos novos para o ESC.

Catálogos simulados do Gaia DR4 (laranja) e DR5 (roxo) de Lammers & Winn (2026) convertidos em separação projetada e contraste; 39 planetas do DR4 e 135 do DR5
Figura 10. Catálogos simulados do Gaia DR4 (laranja) e DR5 (roxo) de Lammers & Winn (2026) convertidos em separação projetada e contraste; 39 planetas do DR4 e 135 do DR5 caem na região de detecção (teal).Crédito: Pearce & Douglas, 2026, arXiv:2610.31286 · CC BY 4.0

Esses dados pedem cuidado. O ajuste de órbitas por parâmetros de Thiele-Innes, adotado pela equipe do Gaia, lineariza o problema, mas introduz um viés contra inclinações próximas de zero quando os parâmetros são convertidos em elementos tradicionais, como mostrou um trabalho de 2025. Sistemas com mais de um gigante, comuns na lista, criam outra armadilha: quando dois planetas têm massas parecidas e períodos perto da razão 2:1, um ajuste de um único planeta tende a recuperar o mais forte com excentricidade artificialmente alta. Os autores recomendam verificar cada órbita de forma independente e combiná-la com outras medidas. O mesmo DR4 trará, em compensação, as medidas astrométricas individuais, que permitem recalcular os ajustes; uma simulação recente indica que isso deve reduzir pela metade as incertezas orbitais de Epsilon Eridani b.

Outros parceiros completam o quadro. Espectrógrafos de velocidade radial de precisão extrema, como o NEID e o PFS, são essenciais porque as incertezas orbitais se acumulam com o tempo, e uma checagem feita perto da data da observação pode ser a diferença entre acertar e errar o buraco escuro. A anomalia de movimento próprio do catálogo Hipparcos-Gaia já guiou descobertas por imagem térmica e fornece massas dinâmicas quando combinada com velocidades radiais; vários alvos da lista mostram acelerações significativas nesse catálogo. E muitos deles têm astrometria relativa do sensor de guiagem fina do Hubble que ainda não foi reanalisada com ferramentas modernas como o orbitize! e o octofitter, que não impõem critérios externos ao ajuste. Refazer essas órbitas é uma tarefa que os autores classificam como prioridade comunitária.

Na conclusão, Pearce e Douglas nomeiam os cinco primeiros: 14 Herculis b, GJ 832 b, HD 114783 c, HD 190360 b e Beta Pictoris b. Logo atrás, à espera de inclinação e nodo, vêm Gamma Cephei b, Upsilon Andromedae d, 47 Ursae Majoris b e c e HD 160691 c. Vários alvos promissores, inclusive os compartilhados com o Roman, ficam fora da janela angular de projeto, e o texto pede esforço máximo para alcançar o modo estendido. A lista leva a imagem direta de gigantes gasosos a regimes mais frios e velhos do que qualquer campanha térmica alcançou, e a mensagem final é um pedido: atualizar velocidades radiais e astrometria dos alvos pouco antes da campanha, para não desperdiçar uma hora de um telescópio que ainda nem existe.

A lista não é um documento fechado. O catálogo completo, com todas as colunas usadas para gerar as figuras, está depositado no repositório Zenodo, e um código aberto no GitHub reproduz cada gráfico. Todo grupo que publique uma nova solução orbital, ou que meça a inclinação de Gamma Cephei b ou de Upsilon Andromedae d, pode rodar o mesmo programa e ver o planeta mudar de posição no ranking. É um modo de trabalhar coerente com a filosofia declarada do Lazuli, cujo software e cujos dados serão públicos. O artigo foi submetido aos periódicos da American Astronomical Society e ainda passará por revisão por pares; os próprios autores o chamam de primeira estimativa, e tratam o número 27 como ponto de partida, não como veredito.

O que está em jogo vai além de 27 nomes. O Lazuli foi concebido como degrau para o Habitable Worlds Observatory, e cada técnica testada nele, da óptica adaptativa em órbita ao empilhamento de imagens guiado por órbitas, encurta o caminho até o dia em que um coronógrafo apontará para uma estrela próxima em busca de um ponto azul pálido. Douglas tem repetido que todo o código e todos os dados do projeto serão abertos, justamente para que as lições sejam aproveitadas por quem vier depois. Se a lista funcionar, o primeiro retrato de um planeta gigante pela luz de sua estrela virá acompanhado de uma cor, e essa cor dirá se os Júpiteres de outros sóis carregam a mesma névoa que tinge o nosso de laranja e creme.

Volte ao farol e ao vaga-lume. A diferença entre esta década e as anteriores não é que o inseto ficou mais brilhante, e sim que alguém finalmente anotou em que galho ele costuma pousar e a que horas acende. Os 27 planetas da lista de Pearce e Douglas são isso: endereços e horários, escritos com a precisão possível, para um telescópio que ainda está sendo montado em laboratórios do Arizona. Quando o Lazuli abrir seu buraco escuro sobre 14 Herculis, por volta de 2029, não estará procurando nada. Estará conferindo se o universo mantém a hora marcada.

Referência: Logan A. Pearce & Ewan Douglas, “The first selection of optimal targets for the Lazuli ExtraSolar Coronagraph’s reflected starlight exoplanet campaign”, arXiv:2610.31286v1 [astro-ph.EP], 22 de outubro de 2026; submetido aos AAS Journals. DOI: 10.48550/arXiv.2610.31286. Catálogo: Zenodo 23548267.