Uma estrela velha e pobre em metais, na constelação da Águia, cambaleia em torno do buraco negro estelar mais massivo já identificado na Via Láctea, descoberto nos testes de validação do Gaia DR4 e confirmado por telescópios em terra

Na constelação da Águia, a cerca de 1.900 anos-luz da Terra, uma estrela velha e pobre em metais percorre há bilhões de anos uma elipse alongada em torno de um ponto onde não há luz alguma. Ela completa cada volta em 11,6 anos, aproxima-se do parceiro invisível a uma distância parecida com a que separa o Sol de Júpiter e depois se afasta até quase a órbita de Netuno, puxada o tempo todo por algo que pesa 33 vezes a massa do Sol e que não emite um único fóton detectável. Esse algo é um buraco negro. E ele permaneceu escondido à vista de todos, numa estrela de magnitude 11 que qualquer telescópio amador de porte médio alcança, até que a sonda Gaia, da Agência Espacial Europeia, percebesse que a estrela não caminha em linha reta pelo céu: ela cambaleia.

O cambaleio tem nome de catálogo e uma história improvável. O sistema, batizado de Gaia BH3, foi encontrado por acaso, durante os testes de validação dos dados que vão compor o quarto grande lançamento da missão, o Gaia DR4, marcado para 2 de dezembro de 2026. A Colaboração Gaia considerou a descoberta tão fora do comum que tomou uma decisão rara em grandes consórcios científicos: publicou o resultado antes da liberação oficial dos dados, numa carta ao editor da revista Astronomy & Astrophysics assinada por centenas de pesquisadores e liderada por Pasquale Panuzzo, do Observatório de Paris. O argumento foi simples. Um buraco negro de origem estelar com 33 massas solares, o mais massivo já identificado na Via Láctea, não podia ficar trancado numa gaveta por mais dois anos à espera do calendário.

Para entender o tamanho da façanha, é preciso lembrar o que a Gaia faz. Lançada em dezembro de 2013 e estacionada no ponto de Lagrange L2, a um milhão e meio de quilômetros da Terra, a sonda passou uma década varrendo o céu inteiro repetidamente, medindo com precisão de algumas dezenas de microssegundos de arco a posição, o brilho e a cor de quase dois bilhões de estrelas. Cada vez que uma estrela cruzava seu plano focal, a Gaia registrava onde ela estava. Somadas ao longo dos anos, essas medições revelam a paralaxe, o pequeno deslocamento aparente provocado pela órbita da própria sonda em torno do Sol, e o movimento próprio, a deriva lenta de cada estrela pelo céu. A missão encerrou as observações científicas em janeiro de 2025, mas o processamento dos dados continua, e o DR4 trará pela primeira vez as medições individuais de cada passagem, não apenas as médias.

É nesse registro passagem a passagem que mora a possibilidade de descobrir companheiros invisíveis. Uma estrela solitária descreve pelo céu uma trajetória previsível, combinação de uma reta, a deriva própria da estrela, com a pequena elipse anual da paralaxe. Uma estrela acompanhada faz algo diferente: ela orbita o centro de massa comum ao par e, vista da Terra, parece balançar em torno da trajetória esperada. O terceiro lançamento de dados, o Gaia DR3, de 2022, já havia multiplicado por cem o número de sistemas binários conhecidos graças ao chamado Non-Single Star pipeline, a cadeia de processamento dedicada a estrelas que não se comportam como estrelas únicas. Foi nela que surgiram, em 2023, os dois primeiros buracos negros dormentes da missão, Gaia BH1 e Gaia BH2, ambos com cerca de dez massas solares.

A palavra dormente é o coração do assunto. A Via Láctea deve abrigar algo em torno de cem milhões de buracos negros de origem estelar, restos de estrelas massivas que esgotaram seu combustível e colapsaram. Conhecemos uma fração minúscula deles, e quase todos pertencem a uma mesma família: binárias de raios X de período curto, nas quais o buraco negro suga gás de uma companheira próxima e o aquece a milhões de graus até que o disco de matéria em queda brilhe em raios X. Um buraco negro sem nada para devorar não produz esse brilho. Ele existe, pesa, curva o espaço ao redor, mas é, para todos os efeitos observacionais, uma ausência. Até a Gaia, a única outra forma de flagrar um objeto assim era o microlenteamento gravitacional, e esse método havia rendido um único caso robusto, um buraco negro isolado de cerca de sete massas solares.

Há um segundo motivo para a importância de Gaia BH3, e ele vem de uma contradição que incomoda os astrofísicos desde 2015. Naquele ano, os detectores LIGO captaram pela primeira vez ondas gravitacionais, produzidas pela fusão de dois buracos negros a mais de um bilhão de anos-luz. Desde então, as colaborações LIGO, Virgo e KAGRA acumularam dezenas de eventos semelhantes, e um padrão ficou claro: muitos dos buracos negros que se fundem lá fora têm mais de 30 massas solares, chegando a 85. Na Via Láctea, nada parecido havia sido visto. Todos os buracos negros estelares confirmados ou candidatos da nossa galáxia têm massas em torno de dez sóis ou menos, e o recordista, Cygnus X-1, fica na casa das 20 massas solares. Ou o Universo distante fabrica buracos negros de um jeito que a nossa galáxia desconhece, ou simplesmente não estávamos olhando no lugar certo.

A história dos buracos negros galácticos começou no início dos anos 1970, quando o brilho irregular em raios X de Cygnus X-1 e o balanço da supergigante azul que o acompanha convenceram os astrônomos de que ali havia um objeto compacto pesado demais para ser uma estrela de nêutrons. Durante meio século, praticamente toda a lista de buracos negros estelares da Via Láctea foi montada do mesmo jeito, por meio de binárias de raios X e, mais tarde, de novas de raios X, sistemas que passam décadas apagados e entram em erupção quando o disco de acreção se torna instável. A amostra que resultou disso é inevitavelmente enviesada: só vemos os buracos negros que se alimentam. A Gaia abriu a primeira janela para os outros, e Gaia BH1, em órbita de uma estrela parecida com o Sol a cerca de 480 parsecs, e Gaia BH2, com uma gigante vermelha a cerca de 1.200 parsecs, foram os primeiros a atravessá-la.

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Posição de Gaia BH3 (losango vermelho) no diagrama cor-magnitude da Gaia, comparada com Gaia BH1 (círculo verde) e Gaia BH2 (quadrado amarelo) sobre o fundo de estrelas de baixa extinção do DR3. A companheira luminosa de BH3 está no ramo das gigantes, acima da sequência principal.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Os modelos de evolução estelar tomam o partido da segunda hipótese, a de que não estávamos olhando no lugar certo, mas com uma condição. Uma estrela que nasce com mais de 30 massas solares é um objeto violento: sua luminosidade é tão intensa que a pressão da radiação arranca as camadas externas em ventos estelares contínuos, e a estrela chega ao fim da vida bem mais leve do que começou. Nos cálculos tradicionais, o resto que colapsa raramente passa de 20 massas solares. A saída para explicar os gigantes do LIGO é a metalicidade. Numa estrela pobre em elementos mais pesados que o hélio, a radiação encontra menos átomos para empurrar, o vento enfraquece, a estrela retém sua massa, mantém um raio menor durante a evolução e, ao colapsar, tende a receber um chute natal mais fraco, o que preserva o par binário. Estrelas pobres em metais seriam as mães dos buracos negros mais pesados.

Gaia BH3 reúne, num único sistema a menos de 600 parsecs do Sol, exatamente os dois ingredientes dessa receita: um buraco negro de 32,70 ± 0,82 massas solares e uma estrela companheira com um teor de ferro de apenas 1/360 do teor solar. É como encontrar, no quintal de casa, um exemplar vivo de uma espécie que só se conhecia por fósseis trazidos de outro continente. A massa do objeto escuro coloca-o na mesma faixa dos buracos negros que o LIGO vê colidir, e muito perto do pico da distribuição de massas desses eventos. A pobreza química da estrela, por sua vez, é justamente o que a teoria exige para que um buraco negro tão pesado possa nascer de uma única estrela.

A descoberta nasceu de uma rotina burocrática. Antes de liberar o DR4, a equipe do consórcio de processamento da Gaia, o DPAC, executou uma rodada preliminar da cadeia de estrelas não únicas, batizada internamente de NSS 4.1, sobre 10,4 milhões de fontes mais brilhantes que magnitude 14 na banda do espectrógrafo de velocidades radiais. O objetivo era checar a qualidade das soluções orbitais e caçar falsos positivos, sobretudo entre os sistemas que pareciam ter companheiros muito massivos, os mais suspeitos de erro. A rodada usou cerca de 64 meses de astrometria, de outubro de 2014 a janeiro de 2020, e produziu quase 1,5 milhão de órbitas. Uma delas se destacou de todas as outras por uma margem que não deixava dúvida sobre a necessidade de olhar de perto.

Para cada órbita, os pesquisadores calcularam a chamada função de massa, uma grandeza que combina o tamanho aparente do balanço da estrela, o período orbital e a paralaxe, e que funciona como um limite inferior garantido para a massa do companheiro. A lógica é a de um casal de dançarinos numa valsa em que só um dos dois é visível. Quanto maior o círculo que o dançarino visível descreve, e quanto mais rápido ele o completa, mais pesado precisa ser o parceiro que o conduz. No caso de Gaia BH3, o parceiro invisível não contribui com luz, e a função de massa se simplifica: o companheiro tem no mínimo a massa que ela indica. O valor obtido foi de 32,03 ± 0,64 massas solares, com uma significância estatística de 48 desvios-padrão. Nenhuma outra das 1,5 milhão de soluções passou de 20.

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A função de massa astrométrica (equação 1) combina o semieixo angular da órbita do fotocentro, a paralaxe e o período; para um companheiro invisível (equação 2), ela se reduz a um limite inferior garantido para a massa do objeto escuro.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

A órbita recuperada pela astrometria é alongada e lenta. O período é de 4.253 dias, cerca de 11,6 anos, com uma excentricidade de 0,73, o que significa que a distância entre os dois corpos varia por um fator de mais de seis ao longo de uma volta. O semieixo maior da órbita da estrela em torno do centro de massa é de 16,17 unidades astronômicas, maior que a distância de Saturno ao Sol, enquanto o buraco negro, por ser 43 vezes mais pesado, mal se desloca: seu balanço em torno do mesmo centro de massa não chega a 0,4 unidade astronômica. No ponto de maior aproximação, o periastro, os dois ficam a cerca de 4,5 unidades astronômicas um do outro; no ponto mais distante, perto de 29. O plano orbital está inclinado em cerca de 110 graus em relação ao plano do céu, o que torna a elipse bem visível em projeção.

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Elementos orbitais de Campbell do sistema Gaia BH3 e parâmetros astrométricos do baricentro, para a solução puramente astrométrica e para a solução combinada com as velocidades radiais do RVS. A função de massa supera 31 massas solares nas duas.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Visto da Terra, todo esse movimento cabe num ângulo de 27 milissegundos de arco, o semieixo maior aparente da órbita do fotocentro. É o tamanho angular de uma moeda de um real observada a cerca de 200 quilômetros de distância. A Gaia mede esse tipo de ângulo com folga. Quando a equipe tenta ajustar aos dados o modelo de uma estrela solitária, os resíduos, as diferenças entre a posição prevista e a observada em cada passagem pelos detectores, oscilam entre mais e menos 15 milissegundos de arco e desenham no tempo uma curva claramente periódica. Quando o modelo passa a incluir a órbita, os resíduos caem para cerca de 0,2 milissegundo de arco e viram ruído puro, sem estrutura alguma. A diferença entre um gráfico e outro é a diferença entre uma estrela que anda sozinha e uma que carrega um buraco negro consigo.

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Astrometria de Gaia BH3. À esquerda, em cima, o movimento do fotocentro no céu em cada trânsito pelos CCDs (pontos), comparado com o modelo de estrela única (vermelho tracejado) e com o modelo binário (azul); embaixo, a órbita astrométrica após a subtração da paralaxe e do movimento próprio, com o baricentro e o periastro marcados por cruzes. À direita, os resíduos das medidas na direção de varredura para o modelo de estrela única (em cima) e para o modelo binário (embaixo); a linha vertical tracejada marca o periastro.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Há uma sutileza técnica que a equipe faz questão de registrar. A Gaia mede posições com precisão máxima apenas ao longo da direção em que varre o céu, a chamada direção along-scan, de varredura; a posição completa de cada passagem só é reconstruída depois, combinando a medida unidimensional com a própria solução orbital. E as paralaxes da Gaia carregam um pequeno viés sistemático, já conhecido dos lançamentos anteriores, que para essas soluções preliminares ainda não pôde ser quantificado. Como a função de massa depende do cubo da razão entre o tamanho da órbita e a paralaxe, qualquer erro na paralaxe se amplifica. A saída foi recorrer a um segundo relógio independente: a velocidade com que a estrela se aproxima e se afasta de nós, medida pelo espectrógrafo de bordo, o RVS.

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Primeiras linhas da tabela de astrometria de época de Gaia BH3: cada registro corresponde ao trânsito da estrela por um dos CCDs do campo astrométrico, com a posição medida na direção de varredura, o fator de paralaxe e o ângulo de varredura. A tabela completa está disponível no CDS.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

O RVS registrou 17 velocidades radiais válidas de Gaia BH3 entre 2014 e 2020, processadas com a versão do DR4 da cadeia de redução espectroscópica, que inclui pela primeira vez a correção pelo movimento orbital astrométrico. A curva resultante é um retrato do periastro. Entre o fim de 2017 e outubro de 2018, enquanto a estrela passava pelo ponto mais próximo do buraco negro e era arremessada de volta, sua velocidade na linha de visada saltou de cerca de 290 para 405 quilômetros por segundo de aproximação, uma variação de 115 quilômetros por segundo em menos de um ano. Em seguida, a curva relaxa lentamente ao longo da década seguinte, rumo ao próximo periastro, que só ocorrerá por volta do fim de 2029. O centro da oscilação, a velocidade do sistema como um todo, é de 357 quilômetros por segundo em nossa direção.

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Evolução da velocidade radial de Gaia BH3. Em cima, a curva prevista pela solução combinada astrométrica-espectroscópica (azul) comparada às 17 medidas do RVS da Gaia (círculos pretos) e às observações de solo com HERMES/Mercator, SOPHIE/OHP e UVES/VLT. Embaixo, os resíduos em relação à solução binária, com a faixa de incerteza de 1σ. A linha tracejada marca o periastro, no início de 2018.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Combinando astrometria e espectroscopia num único ajuste, no qual apenas o período, a excentricidade e o instante do periastro são obrigatoriamente comuns às duas partes, a equipe obteve a chave para contornar o viés da paralaxe. O semieixo maior da órbita espectroscópica, medido em unidades astronômicas, pode ser comparado diretamente com o semieixo angular da órbita astrométrica, e a razão entre os dois é a própria paralaxe, agora livre da calibração problemática: 1,6933 ± 0,0164 milissegundos de arco, o que corresponde a uma distância de 590,6 ± 5,8 parsecs. O fato de as duas órbitas serem compatíveis confirma também que o companheiro não contribui com luz nenhuma. A função de massa recalculada por essa via dá 31,23 ± 0,81 massas solares, e o ajuste combinado tem qualidade estatística melhor que o puramente astrométrico.

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Espectro combinado do RVS da Gaia para Gaia BH3, no referencial de repouso (preto), comparado com o espectro sintético usado como molde (vermelho). As três linhas profundas são o tripleto do cálcio ionizado; as linhas mais fracas pertencem ao ferro neutro.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Um resultado desse porte, obtido de dados preliminares, exigia confirmação independente, e a equipe foi buscá-la em terra. Em 17 de julho e 7 de setembro de 2023, o espectrógrafo HERMES, instalado no telescópio Mercator de 1,2 metro, no Observatório do Roque de los Muchachos, em La Palma, registrou duas exposições de 45 minutos em cada noite. Em 4 de setembro do mesmo ano, o espectrógrafo SOPHIE, no telescópio de 1,93 metro do Observatório de Haute-Provence, na França, acumulou uma exposição de 100 minutos. E uma busca nos arquivos do Observatório Europeu do Sul revelou que a estrela já havia sido observada em 5 de novembro de 2020 pelo UVES, no Very Large Telescope, dentro de um programa dedicado ao inventário químico de estrelas de eventos de acreção galáctica, com uma exposição de 15 minutos e uma razão sinal-ruído de 100.

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Espectro UVES de Gaia BH3 em quatro regiões: o tripleto do magnésio (em cima), a região das linhas H e K do cálcio ionizado (no meio) e as linhas Hβ (embaixo, à esquerda) e Hα (embaixo, à direita). A escassez de linhas metálicas é a assinatura de uma estrela muito pobre em metais.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

As três velocidades radiais obtidas em terra coincidem com a curva prevista pela solução da Gaia dentro de 0,5 quilômetro por segundo, uma concordância melhor que a própria incerteza da órbita, embora nenhuma delas tenha sido usada para calcular essa órbita. A medida do UVES, feita dois anos antes das demais, caiu sobre a parte descendente da curva, em 383 quilômetros por segundo, enquanto HERMES e SOPHIE, em 2023, encontraram o sistema a 363 e 364 quilômetros por segundo. Os espectros, de altíssima resolução, tampouco mostram qualquer traço de uma segunda estrela, nem linhas de emissão que denunciariam gás sendo acretado, nem o preenchimento de linhas de absorção que uma fonte de luz adicional produziria. A órbita é real, a companheira é escura, e a precisão da Gaia ficou demonstrada por telescópios que nada devem a ela.

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Velocidades radiais de Gaia BH3 obtidas em observatórios terrestres com o UVES (VLT), o HERMES (Mercator) e o SOPHIE (OHP). Nenhuma delas entrou no cálculo da órbita, e todas concordam com a previsão da Gaia dentro de 0,5 km/s.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Quem é, afinal, a estrela que dança com o buraco negro? No catálogo da Gaia ela é a fonte DR3 4318465066420528000; em registros mais antigos, LS II +14 13 e 2MASS J19391872+1455542. Brilha com magnitude 11,2, na constelação da Águia, e já era conhecida como uma estrela de alto movimento próprio: desloca-se pelo céu a cerca de 155 milissegundos de arco por ano, ritmo típico de objetos que não pertencem ao disco tranquilo da galáxia. É uma gigante de tipo espectral G, com temperatura superficial de 5.212 ± 80 kelvins, pouco mais fria que o Sol, e raio de 4,94 raios solares. Sua luminosidade, de cerca de 16 vezes a solar, é a de uma estrela que começou a subir o chamado ramo das gigantes, inflando-se depois de esgotar o hidrogênio do núcleo.

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Propriedades básicas de Gaia BH3 no catálogo Gaia DR3: coordenadas, paralaxe, movimento próprio, magnitudes e os parâmetros atmosféricos do GSP-Spec, que já apontavam uma gigante extremamente pobre em metais com velocidade radial de −333 km/s.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

A massa dessa estrela importa porque entra diretamente no cálculo da massa do buraco negro, e ela foi estimada por comparação com isócronas, as curvas teóricas que descrevem onde estrelas de uma dada idade e composição devem cair num diagrama de cor e brilho. Duas bibliotecas de modelos independentes, PARSEC e BaSTI, para idades entre 12 e 14 bilhões de anos, convergiram para 0,76 ± 0,05 massa solar. Estrelas de uma idade tão avançada e de uma massa tão baixa são as sobreviventes da primeira infância da Via Láctea. O trabalho exigiu ainda corrigir a extinção pela poeira interestelar, de 0,71 magnitude, nada trivial numa região a apenas 3,5 graus abaixo do plano galáctico, onde a quantidade de poeira muda rapidamente com a distância.

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Comparação entre a posição de Gaia BH3 (ponto preto com barras de erro) e isócronas PARSEC (quadrados) e BaSTI (círculos) de 12 e 14 bilhões de anos no diagrama cor-magnitude; a cor dos símbolos indica a massa estelar. É dessa comparação que sai a massa de 0,76 ± 0,05 massa solar da estrela.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0
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Extinção na direção de Gaia BH3 em função da distância, segundo os mapas de poeira de Vergely et al. (2022) com comprimentos de correlação de 10 pc (preto) e 25 pc (vermelho tracejado). A faixa vertical marca a distância do sistema, perto de 590 pc, numa região de gradiente acentuado.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Como verificação adicional, os pesquisadores compararam a distribuição espectral de energia prevista para uma estrela com esses parâmetros com o espectro de baixa resolução da própria Gaia, obtido pelos prismas BP e RP, e com a fotometria infravermelha do levantamento 2MASS. A concordância é excelente em toda a faixa, do ultravioleta próximo aos dois micrômetros, com um pequeno desvio apenas na extremidade azul, onde o espectro da Gaia é mais ruidoso. Uma estimativa independente da temperatura, baseada no equilíbrio de excitação das linhas de ferro, resultou em cerca de 5.100 kelvins, ainda mais fria, o que afasta a possibilidade de a temperatura ter sido subestimada. Cada peça do quebra-cabeça foi checada por mais de um caminho.

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Distribuição espectral de energia modelada para Gaia BH3, comparada com o espectro XP da Gaia (vermelho) e com a fotometria do 2MASS. A linha fina mostra o modelo sem avermelhamento; a linha grossa, o modelo com extinção A0 = 0,71 mag. A concordância só piora na extremidade azul, onde o espectro XP é mais ruidoso.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0
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Parâmetros estelares da companheira luminosa derivados no trabalho: temperatura de 5.212 K, gravidade superficial, metalicidade de −2,56, luminosidade, massa de 0,76 massa solar e raio de 4,94 raios solares.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

O espectro do UVES, o de melhor qualidade entre os disponíveis, permitiu dissecar a composição química da estrela. O resultado central é o teor de ferro: 223 linhas de ferro neutro deram uma abundância de −2,56 ± 0,11 na escala logarítmica usada pelos astrônomos, em que zero equivale ao Sol. Traduzindo, para cada átomo de ferro em Gaia BH3 há cerca de 360 no Sol. Os espectros do SOPHIE e do HERMES, com 121 e 156 linhas, deram valores idênticos dentro das incertezas. Pelo critério clássico da área, qualquer estrela abaixo de −2 é classificada como muito pobre em metais, e Gaia BH3 fica confortavelmente dentro dessa categoria. Os elementos chamados alfa, como magnésio e cálcio, aparecem enriquecidos em relação ao ferro, assinatura típica de uma estrela nascida quando as supernovas de colapso de núcleo dominavam a química galáctica.

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Abundâncias químicas de Gaia BH3 derivadas do espectro UVES, com o número de linhas usadas, as incertezas e as correções de equilíbrio não local. O ferro está cerca de 360 vezes abaixo do solar; os elementos alfa aparecem enriquecidos; o európio se destaca.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

Dois detalhes químicos contam uma história sobre o passado do sistema. Não há traço de carbono-13 no espectro, e a abundância de bário é praticamente solar em relação ao ferro. Se a estrela tivesse recebido matéria da companheira numa fase anterior, quando a futura progenitora do buraco negro ainda era uma estrela gigante, essas assinaturas de material processado no ciclo CNO e no processo s estariam presentes. Elas não estão. A única peculiaridade é um leve excesso de európio, com razão de 0,52 em relação ao ferro, que coloca Gaia BH3 na classe r-I das estrelas ricas em elementos do processo r, produzidos em eventos explosivos. Esse európio pode ter vindo da supernova que deu origem ao buraco negro ou já estar na nuvem onde a estrela nasceu; os dados não permitem decidir.

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Trecho do espectro UVES de Gaia BH3 (preto) comparado com o espectro modelado (vermelho fino) na região da linha do európio, perto de 3.819,7 Å. O leve excesso do elemento classifica a estrela como r-I, rica em elementos do processo r.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

A velocidade de 357 quilômetros por segundo em nossa direção já sugeria que o sistema não é um morador comum da vizinhança solar, e a reconstrução de sua trajetória pela galáxia confirmou a suspeita. Usando o movimento próprio, a distância e a velocidade sistêmica num modelo do potencial gravitacional da Via Láctea, os pesquisadores descobriram que Gaia BH3 percorre uma órbita retrógrada e de alta energia: gira em torno do centro galáctico no sentido contrário ao da rotação do disco, com momento angular vertical de −2.300 quiloparsecs vezes quilômetros por segundo. É o comportamento de um objeto do halo, a componente antiga e esférica da galáxia, formada em boa parte por estrelas e aglomerados que a Via Láctea capturou e desmanchou ao longo de sua história.

As características cinemáticas do sistema são compatíveis com as da subestrutura do halo conhecida como Sequoia, um conjunto de estrelas retrógradas interpretado como os restos de uma galáxia anã engolida há bilhões de anos. Mas elas combinam igualmente bem com as de uma estrutura descoberta pouco antes, a corrente ED-2, um stream, ou fluxo estelar, identificado em 2023 como o provável rastro de um aglomerado globular despedaçado pelas marés gravitacionais da Via Láctea. A química desempata. A metalicidade média da Sequoia fica em torno de −1,7, bem acima da de Gaia BH3, enquanto a de ED-2, de −2,6 ± 0,2, é praticamente idêntica. A estrela que orbita o buraco negro parece ser uma órfã de um aglomerado que já não existe.

Esse detalhe transforma uma coincidência em argumento. Entre todas as fontes da rodada NSS 4.1 que produziram uma solução binária, apenas 0,4% têm metalicidade abaixo de −2 segundo o DR3. No halo inteiro, as estrelas tão pobres em metais quanto essa não passam de 5%. Mesmo assim, o único buraco negro com mais de 20 massas solares que a Gaia encontrou em toda a sua amostra está justamente em órbita de uma delas. Se a massa do buraco negro nada tivesse a ver com a química da estrela progenitora, a probabilidade de uma associação dessas seria pequena. Os autores são cautelosos: não se pode excluir que o objeto seja o produto da fusão de dois buracos negros menores. Mas a leitura mais natural é que a descoberta sustenta com força o cenário em que os buracos negros pesados nascem de estrelas pobres em metais.

O resultado aperta também uma questão aberta: até que metalicidade uma estrela ainda consegue formar um buraco negro desse porte? Um dos modelos de referência, publicado em 2016, fixava o limite em torno de um décimo da metalicidade solar. Gaia BH3 está mais de dez vezes abaixo disso, e os autores sugerem que o resultado pode indicar que os buracos negros de alta massa se formam apenas em ambientes muito pobres em metais, e não em ambientes moderadamente pobres. Outros grupos defendem o oposto, com modelos em que mesmo estrelas de metalicidade solar poderiam, sob certas condições, deixar restos de 30 massas solares. Um único sistema não decide a disputa. Mas ele é o primeiro ponto de dados galáctico nessa faixa de massa, e pontos de dados pesam mais que argumentos.

Antes de chamar o objeto de buraco negro, a equipe eliminou as alternativas. Uma estrela normal de 33 massas solares brilharia dezenas de milhares de vezes mais que a gigante visível, e mesmo duas estrelas de sequência principal numa órbita apertada entre si seriam detectadas sem dificuldade; a luminosidade do sistema é ordens de grandeza baixa demais para isso. Estrelas de nêutrons, por sua vez, não passam de duas ou três massas solares, e nem um par delas chegaria perto do valor medido. Sobram três possibilidades: um único buraco negro, um par de buracos negros orbitando um ao outro bem perto, ou um buraco negro acompanhado de outro objeto compacto. A hipótese mais simples, a de um único buraco negro, foi adotada como a mais provável, mas as outras ainda não foram descartadas.

Há uma forma de testar isso, e ela é engenhosa. Se o objeto escuro for na verdade um par interno de buracos negros, a estrela, ao passar pelo periastro, sentiria o campo gravitacional de dois corpos em vez de um, e sua velocidade radial sofreria pequenas perturbações além das previstas para a órbita de dois corpos. Para um par interno de massas iguais em órbita circular, com o maior período que a estabilidade dinâmica permite, de 126 dias, a amplitude dessas perturbações seria da ordem de 0,2 quilômetro por segundo. É pouco demais para o espectrógrafo da Gaia, mas está ao alcance dos melhores espectrógrafos terrestres, como o próprio SOPHIE, cuja medida de 2023 tem incerteza de apenas 0,02 quilômetro por segundo. O teste exigirá paciência: o próximo periastro ainda está a alguns anos de distância.

A pergunta mais difícil não é o que o objeto é, mas como o sistema chegou a existir. A resposta mais óbvia, a de que as duas estrelas nasceram juntas e evoluíram em paz, esbarra na física da evolução estelar. A progenitora do buraco negro, com dezenas de massas solares, teria passado por uma fase de supergigante vermelha, inchando até raios enormes; os modelos preveem esse inchaço mesmo para estrelas de 150 massas solares. Como a separação mínima atual entre os dois corpos é da ordem de mil raios solares, a gigante teria engolfado a companheira pequena numa fase de envelope comum, em que as duas orbitam dentro de uma mesma atmosfera e o atrito encolhe drasticamente a órbita. O resultado seria um sistema muito mais apertado do que o observado. A órbita larga de hoje é, nesse raciocínio, um sobrevivente que não deveria existir.

O mesmo paradoxo já havia aparecido em Gaia BH1, Gaia BH2 e no sistema Gaia NS1, que combina uma estrela de nêutrons massiva com uma companheira pobre em metais, e a química de Gaia BH3 reforça o incômodo, pois a estrela não mostra nenhum sinal de ter recebido matéria da progenitora. A alternativa é que os dois corpos não tenham nascido juntos. Em ambientes densos como aglomerados globulares, encontros gravitacionais entre estrelas e sistemas binários são frequentes, e um buraco negro pode trocar de parceira, capturando uma estrela de baixa massa e expulsando a companheira original. Simulações recentes mostram que esse mecanismo de troca dinâmica produz binárias largas e excêntricas parecidas com as três encontradas pela Gaia. A provável origem de Gaia BH3 em ED-2, o resto de um aglomerado globular, encaixa-se nesse cenário como uma luva.

Com isso, Gaia BH3 ocupa uma posição singular no mapa dos buracos negros conhecidos. De um lado estão os sistemas que o LIGO, o Virgo e o KAGRA detectam: pares de buracos negros em órbitas tão apertadas que se fundem numa fração de segundo, emitindo ondas gravitacionais, a centenas de milhões ou bilhões de anos-luz. Do outro estão os sistemas que a Gaia vem revelando: buracos negros em órbitas largas, de anos, acompanhados de estrelas comuns, aqui mesmo na nossa galáxia. São as duas extremidades de uma mesma população, e Gaia BH3 é o primeiro objeto da extremidade galáctica com a massa típica da extremidade distante. Estudados juntos, os dois conjuntos podem finalmente compor uma visão coerente de como nascem os buracos negros estelares e de como suas progenitoras evoluem.

Curiosamente, a Gaia já tinha visto o cambaleio de Gaia BH3 antes. Durante a preparação do DR3, a cadeia de processamento chegou a produzir para essa estrela uma solução de aceleração e uma solução espectroscópica de uma única linha, mas ambas foram descartadas por baixa significância. O motivo é instrutivo: os 34 meses de dados do DR3 cobriam menos de um terço do período orbital e não incluíam a passagem pelo periastro, de fevereiro de 2018, justamente o trecho em que a estrela mais acelera e em que a assinatura do companheiro é mais forte. Os 64 meses da rodada preliminar do DR4, ao contrário, abarcam o periastro inteiro, e isso fez toda a diferença. A descoberta é, nesse sentido, um produto direto do tempo: a Gaia precisou observar por mais tempo para ver o que estava diante dela desde o início.

Quantos sistemas como esse existem? Os autores admitem que não sabem. A função de seleção da rodada NSS 4.1, o conjunto de critérios e limiares que decide quais órbitas sobrevivem ao processamento, é complicada demais para permitir uma estimativa de frequência. Um exercício dá uma ideia da dificuldade. Se Gaia BH3 fosse empurrado para 3,3 quiloparsecs, a distância em que atingiria o limite de magnitude da rodada, sua órbita ainda teria um tamanho aparente de 4,8 milissegundos de arco, muito maior que a precisão da Gaia nessa faixa de brilho; mas, como o DR4 cobre só metade do período, a significância poderia cair abaixo do limiar de aceitação. Já um sistema idêntico com período inferior a 2.000 dias passaria pelo filtro em praticamente qualquer configuração. O DR4 final, com uma lista de entrada bem maior e sem o corte de brilho da rodada preliminar, deve ampliar bastante a rede.

A descoberta tem também uma ponta brasileira. Entre as centenas de autores da carta estão pesquisadores de duas instituições do país, o Grupo de Dinâmica Orbital e Planetologia da Unesp, em Guaratinguetá, e o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, e a missão agradece explicitamente ao programa de intercâmbio Brasil-França mantido pela Fapesp e pela Capes com o comitê francês Cofecub. A Gaia é uma missão da Agência Espacial Europeia, mas o consórcio que transforma seus dados brutos em catálogos reúne centenas de cientistas e engenheiros de dezenas de países, e a astrometria, a arte de medir posições no céu com precisão extrema, tem no Brasil uma tradição consolidada, sobretudo no IAG.

Fiéis ao espírito de um lançamento antecipado, os autores disponibilizaram tudo o que usaram: as medições astrométricas individuais de cada passagem pelos detectores, as 17 velocidades radiais do RVS e um código público que mostra como reconstruir a órbita a partir deles. O convite é explícito. Com magnitude 11 e a menos de 600 parsecs, Gaia BH3 é um alvo fácil para quase qualquer observatório profissional, e a expectativa é que a comunidade o acompanhe de perto nos próximos anos, buscando desde as perturbações de velocidade radial que denunciariam um par interno até sinais em raios X ou rádio de uma acreção mínima do vento estelar da gigante, que até agora nenhum observatório espacial flagrou, simplesmente porque nenhum deles apontou para lá.

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As 17 velocidades radiais de época medidas pelo RVS da Gaia entre 2014 e 2020. A queda abrupta de cerca de −295 para −405 km/s entre o fim de 2017 e o fim de 2018 registra a passagem da estrela pelo periastro.Crédito: Gaia Collaboration, Panuzzo et al., 2024, Astronomy & Astrophysics 686, L2 · CC BY 4.0

A carta termina com uma promessa discreta: a descoberta deve ser vista como um aperitivo do que o DR4 vai conter. O lançamento, marcado para 2 de dezembro de 2026, trará os dados de época de cinco anos e meio de observações para quase dois bilhões de fontes, e a cadeia de estrelas não únicas será aplicada a uma amostra muito maior e mais profunda que a da rodada preliminar. Se um buraco negro de 33 massas solares apareceu numa busca restrita a 10 milhões de estrelas brilhantes, a aposta de que outros virão não é temerária. A missão já encerrou suas observações, em janeiro de 2025, e a sonda foi desligada dois meses depois, mas, pela natureza do método, suas descobertas mais profundas ainda estão por vir, escondidas em medições que aguardam processamento.

Resta a imagem do sistema em si. Uma estrela mais velha que o disco da Via Láctea, nascida num aglomerado que a galáxia desmanchou, carregando no espectro o ferro escasso das primeiras gerações estelares, gira a cada 11,6 anos em torno de um abismo de 33 massas solares que ninguém jamais verá diretamente. Ela faz isso há bilhões de anos, na constelação da Águia, a uma distância que a luz atravessa em menos de dois milênios. Nós só percebemos porque aprendemos a medir, do outro lado do abismo, um cambaleio menor que a largura de uma moeda vista a 200 quilômetros. É um lembrete do que a astronomia faz de melhor: tornar visível o invisível pelo simples expediente de olhar com cuidado, e por tempo suficiente.

Fonte: Gaia Collaboration; Panuzzo, P.; Mazeh, T.; Arenou, F.; Holl, B.; Caffau, E. et al. “Discovery of a dormant 33 solar-mass black hole in pre-release Gaia astrometry”. Astronomy & Astrophysics, 686, L2 (2024), carta ao editor, 23 páginas. DOI: 10.1051/0004-6361/202449763. Pré-impressão: arXiv:2404.10486.