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A água da Terra pode ter surgido de uma forma muito mais surpreendente do que imaginávamos. Por décadas, a explicação mais popular sugeriu que cometas e asteroides teriam trazido boa parte da água do nosso planeta durante os seus primeiros estágios de formação. Mas uma nova pesquisa propõe um cenário diferente: a própria Terra em crescimento poderia ter produzido grandes quantidades de água em sua atmosfera primordial, sem depender exclusivamente de visitantes vindos das regiões geladas do Sistema Solar.

Há cerca de 4,5 bilhões de anos, nosso planeta era um mundo infernal, coberto por um vasto oceano de magma e envolto por uma atmosfera extremamente quente, densa e rica em hidrogênio. Enquanto a jovem Terra acumulava material do disco de poeira e gás ao redor do Sol, uma verdadeira chuva de pequenos seixos rochosos caía através dessa atmosfera. Esses seixos, formados principalmente por silicatos e ricos em óxido de ferro, permaneciam expostos a temperaturas intensas durante a queda. Segundo os experimentos, o hidrogênio quente da atmosfera podia reagir com o óxido de ferro presente nas rochas, retirando seu oxigênio e transformando-o em ferro metálico. O oxigênio liberado, então, se combinava com o hidrogênio, formando vapor d’água.

Em outras palavras, pedras aparentemente secas poderiam ajudar a fabricar água em uma escala gigantesca. Em testes de laboratório, pesquisadores aqueceram amostras de rochas silicáticas entre 1.200 °C e 1.400 °C em correntes de hidrogênio e observaram que quase 80% do óxido de ferro podia ser convertido em ferro metálico, com vapor d’água sendo produzido em poucas horas — ou até minutos nas condições mais extremas. Ao extrapolar esse mecanismo para a Terra em formação, os cientistas estimam que ele poderia gerar água equivalente a dezenas ou até centenas de oceanos terrestres. Isso não significa que cometas e asteroides não tenham contribuído com água em algum momento da história do planeta, mas reforça a possibilidade de que a Terra já possuísse um mecanismo interno e poderoso para criar parte essencial de seus próprios oceanos.

Se esse processo foi comum durante a formação de planetas rochosos, ele também pode ter acontecido em mundos parecidos com a Terra ao redor de outras estrelas, ampliando as possibilidades de existirem planetas com água líquida — e talvez condições favoráveis à vida — em toda a galáxia. A origem da água na Terra continua sendo um dos maiores mistérios da ciência, mas essa hipótese mostra que os oceanos podem ter começado em meio a uma chuva de pedras incandescentes, vapor e magma, em um planeta que ainda estava nascendo.