Rocha ígnea de 798,5 gramas esfriou nas profundezas de Marte, foi alterada por fluidos quentes pouco depois de nascer e revela uma fonte do manto que nenhum outro meteorito tinha amostrado

No extremo norte do Mali, onde o Saara apaga quase todas as referências, ficam as ruínas de Teghaza, cidade que durante séculos abasteceu de sal as caravanas que cruzavam o deserto. Em meados do século XIV, o viajante marroquino Ibn Battuta passou por lá e registrou que as casas e a mesquita eram erguidas com blocos de sal. Em 2022, prospectores que vasculhavam aquela mesma areia recolheram oito pedras acastanhadas, de aspecto banal, que juntas pesavam 798,5 gramas. Nada nelas denunciava uma viagem pelo espaço. Hoje se sabe que vieram de Marte e que carregam um dos capítulos mais antigos da história do planeta vermelho, escrito há pelo menos 4,1 bilhões de anos.

O conjunto recebeu o nome de Teghaza 001, ou Teg 001, e acaba de ganhar sua descrição completa num artigo publicado em 29 de outubro de 2026 na revista Science, na modalidade de publicação antecipada que a revista chama de First Release. A equipe liderada pela cientista planetária Yang Liu, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), centro da NASA administrado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), mostra que a rocha é ígnea, esfriou devagar nas profundezas de Marte e se formou há pelo menos 4,1 bilhões de anos. Mais do que a idade, pesa a origem: Teg 001 seria um pedaço da crosta primitiva marciana, nascido de uma porção do manto com composição primordial que nenhum outro meteorito havia amostrado.

A importância do achado aparece quando se olha para o acervo disponível. Marte não tem tectônica de placas em escala global, e por isso sua superfície conserva registros geológicos de mais de quatro bilhões de anos. Pela quantidade e pelo tamanho das crateras, os geólogos planetários estimam que a maior parte do terreno marciano se formou há mais de 3 bilhões de anos, numa mistura de rochas sedimentares e ígneas. Os meteoritos marcianos que chegam à Terra contam outra história. Quase todos são rochas ígneas jovens, e as três grandes famílias, reunidas sob a sigla SNC, de shergottitos, nakhlitos e chassignitos, têm idades de formação de 2,4 bilhões de anos ou menos.

É como tentar escrever a história de uma cidade colonial olhando apenas para os prédios erguidos nas últimas décadas. Os nomes dessas famílias vêm de quedas célebres: Shergotty, na Índia, em 1865; Nakhla, no Egito, em 1911; e Chassigny, na França, em 1815. Até agora, só dois meteoritos antigos de Marte tinham sido identificados. Um é Allan Hills 84001, encontrado na Antártida em 1984, rocha formada quase toda por um único mineral e cristalizada há 4,1 bilhões de anos. O outro é Northwest Africa 7034, com suas pedras irmãs, uma brecha, isto é, uma mistura de minerais e fragmentos de rochas de origens diferentes, alguns formados há mais de 4,3 bilhões de anos.

Os dois ficaram famosos por motivos distintos. Allan Hills 84001 virou notícia no mundo inteiro em 1996, quando uma equipe da NASA anunciou ter encontrado nele estruturas que poderiam ser microfósseis, leitura que a maioria dos pesquisadores hoje atribui a processos sem participação de vida. Northwest Africa 7034, apelidado de Black Beauty (Beleza Negra), foi descrito em 2013 na própria Science por uma equipe liderada por Carl Agee, do Instituto de Meteorítica da Universidade do Novo México, que também assina o novo estudo. Os dois ajudaram a reconstruir a juventude de Marte, mas deixam lacunas: um tem pouca variedade mineral, e o outro é um mosaico de pedaços soldados, que não preserva uma rocha original inteira.

Teg 001 chega para ocupar parte desse vazio. Segundo o artigo, as pedras foram encontradas no Saara malinês em 2022 e registradas no Boletim Meteorítico, o catálogo oficial da Sociedade Meteorítica, que batiza cada meteorito com o nome do lugar onde ele foi achado. A origem marciana foi confirmada pela proporção entre os isótopos de oxigênio, uma espécie de impressão digital química: rochas da Terra, de Marte, da Lua e de diferentes asteroides ocupam linhas próprias num gráfico que compara o oxigênio-17 e o oxigênio-18 com o oxigênio-16, o mais comum. As oito pedras somam 798,5 gramas, e a maior, de 442 gramas, mede cerca de 10 centímetros de largura, mais ou menos o tamanho de uma toranja.

Fotografia de uma pedra acastanhada de superfície lisa e arredondada, a massa principal do meteorito Teghaza 001
A maior das oito pedras de Teghaza 001, com 442 gramas e cerca de 10 centímetros, hoje no Museu de Minerais e Gemas do Maine.Crédito: Liu et al. 2026, Science · © 2026 os autores, licença exclusiva AAAS

A massa principal e outras pedras do conjunto pertencem ao Museu de Minerais e Gemas do Maine, em Bethel, nos Estados Unidos, e uma amostra de 22 gramas usada na classificação fica no Instituto de Meteorítica da Universidade do Novo México. Cientistas interessados podem pedir acesso às duas instituições, que avaliam cada pedido pelo mérito científico. Para decifrar a rocha, os 14 autores, do JPL, do Caltech, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), da Universidade do Maine e da Universidade do Novo México, combinaram imagens de microscópio eletrônico, mapas químicos de alta resolução, análises de isótopos com microssonda iônica, cálculos de modelagem e três métodos de datação.

Por dentro, Teg 001 é uma rocha ígnea de grão médio, feita principalmente de silicatos de cálcio. Medido pela área numa lâmina polida, 68% do material é plagioclásio, um feldspato de cálcio e sódio, e 25,5% é clinopiroxênio, dividido entre a pigeonita, pobre em cálcio, com 20%, e a augita, rica em cálcio, com 5,5%. O restante inclui vidro rico em potássio e silício, fosfatos, uma matriz de sílica, óxidos de ferro e titânio como a ilmenita, grãos de zircão e outros minerais acessórios. As proporções calculadas a partir da química de um pedaço diferente batem com as medidas na lâmina, sinal de que a amostra analisada representa bem a rocha.

Três painéis: duas fotografias do meteorito e um mapa químico em verde, vermelho e roxo de uma lâmina polida
Figura 1. O meteorito Teghaza 001. (A) A massa principal, de 442 gramas. (B) A superfície cortada de um pequeno fragmento. (C) Mapa químico em cores falsas de uma lâmina polida, com silício em vermelho, sódio em verde e cálcio em azul; as setas indicam augita, pigeonita, maskelynita, ilmenita, fosfatos, mesóstase e carbonato de cálcio.Crédito: Liu et al. 2026, Science · © 2026 os autores, licença exclusiva AAAS

Os piroxênios guardam um detalhe revelador, lamelas finíssimas que se formam quando um cristal já sólido se separa lentamente em duas fases. Pela estimativa adotada no estudo, a rocha esfriou a cerca de 0,01 °C por ano, um grau por século. Nesse ritmo, perder cem graus leva dez mil anos, algo que só acontece longe da superfície, com o magma isolado pelas rochas ao redor. Teg 001 é, portanto, uma rocha intrusiva, nascida de um magma que se cristalizou dentro da crosta. Pelos esquemas de classificação desse tipo de rocha, ela é um leucogabro, termo em que o prefixo leuco indica que há mais plagioclásio, claro, do que piroxênio, escuro.

A pedra também traz as cicatrizes de uma pancada violenta. O choque transformou o plagioclásio cristalino em maskelynita, um vidro que se forma sem que o mineral derreta, só pela compressão, e converteu parte de um grão de zircão em reidita, a versão de alta pressão do mesmo mineral. Formar reidita exige um pico de pressão de 10 a 20 gigapascals, de 100 mil a 200 mil vezes a pressão do ar ao nível do mar, ou até 180 vezes a pressão no fundo da Fossa das Marianas. O calor depois do choque ficou abaixo de 1.200 °C, porque, acima disso, a reidita voltaria a ser zircão e a rocha mostraria bolsões de material fundido, que não aparecem.

Ao lado dessas marcas aparecem sinais mais raros. Os grãos de plagioclásio têm bordas ricas em sódio, de 5 a 10 micrômetros de espessura, mais ou menos o diâmetro de uma hemácia, com um contato nítido com o interior rico em cálcio, e há zonas sódicas ao longo de fraturas. Isso indica que as bordas surgiram depois da cristalização do mineral, por reação com algum fluido. O interior da pigeonita, rico em magnésio, foi fortemente alterado por fluidos, enquanto as bordas ricas em ferro continuam quase intactas. Uma alteração parecida, ocorrida ainda em Marte, já tinha sido vista no interior de grãos de olivina do shergottito NWA 7042.

Os fosfatos surgem em três formas, como agregados grandes de vários cristais, como veios e como cristais únicos e delgados. Os espaços entre os grãos minerais estão preenchidos por sílica amorfa, sem estrutura cristalina, algo atípico num leucogabro. Textura, mineralogia e composição colocam Teg 001 fora do padrão dos meteoritos marcianos conhecidos. Parte da alteração, porém, é terrestre. Nas fraturas, a temporada no deserto depositou carbonato de cálcio e sulfato de bário, e o sulfeto de ferro foi corroído até virar óxido de ferro. Esse intemperismo mexeu nas concentrações de bário e estrôncio, mas deixou intactos os demais elementos-traço, de acordo com as análises da equipe.

Os protagonistas da história são os zircões, cristais de silicato de zircônio que a geologia usa como cronômetros naturais. Em Teg 001 eles aparecem de duas formas. Há grãos parcialmente formados, de até cerca de 5 por 10 micrômetros, espalhados pela matriz, e há o que os pesquisadores chamam de zircão em fio (string zircon), filamentos com menos de 1 micrômetro de espessura e até cerca de 500 micrômetros de comprimento, que acompanham as bordas de grãos de ilmenita. São dezenas de vezes mais finos que um fio de cabelo. Esse formato é atípico para um zircão que cristaliza diretamente de um magma, o que já sugere uma origem diferente.

As duas variedades estão chocadas e contêm regiões ricas em sódio, com 0,3% a 2% de óxido de sódio em massa, um teor incomum em zircões. A explicação mais provável, segundo o artigo, é que o sódio seja um subproduto, em escala nanométrica, de uma alteração ocorrida em Marte, incorporado depois à estrutura do zircão pelo aquecimento do impacto. Algo semelhante já tinha sido observado no NWA 7034, cujos zircões abrigam nanocristais de magnetita. Parece um detalhe de laboratório, mas é dessa química miúda que depende a interpretação da idade da pedra, como se verá adiante.

Quatro imagens de microscópio eletrônico e de mapa químico mostrando grãos minerais, bordas ricas em sódio e zircões
Figura 2. Detalhes de Teg 001 ao microscópio eletrônico. (A) Textura dos minerais principais; o destaque mostra a borda rica em sódio da maskelynita e a matriz de sílica. (B) Mapa químico da mesma área, com sílica entre os grãos. (C) O zircão A6Zrn1, com regiões convertidas em reidita; o círculo vermelho marca o ponto datado. (D) Um zircão em fio (contorno tracejado) junto a um grão de ilmenita, com regiões mais e menos ricas em sódio.Crédito: Liu et al. 2026, Science · © 2026 os autores, licença exclusiva AAAS

A composição global de Teg 001 também destoa das outras amostras ígneas de Marte. Os geoquímicos comparam as rochas com os condritos carbonáceos do tipo CI, meteoritos que preservam a composição inicial do Sistema Solar e servem como régua comum. Os chamados elementos incompatíveis, que não cabem bem na estrutura dos minerais silicatados e por isso se concentram no líquido magmático, aparecem em Teg 001 em teores de 10 a 60 vezes maiores que nesses condritos. As exceções são o césio, com cerca de 1,6 vez, o rubídio, com cerca de 7 vezes, e o chumbo, com cerca de 0,3 vez. Em termos absolutos, os elementos-traço da rocha superam os de todos os outros meteoritos ígneos marcianos, menos o NWA 7034.

Para datar a rocha, a equipe recorreu aos zircões. O urânio preso nesses cristais decai em chumbo em ritmos conhecidos, por dois caminhos independentes: o urânio-238 vira chumbo-206, com meia-vida de cerca de 4,5 bilhões de anos, e o urânio-235 vira chumbo-207, com meia-vida de cerca de 700 milhões de anos. Quando as duas idades coincidem, o resultado é chamado de concordante, e a confiança aumenta muito. É como ter duas ampulhetas de tamanhos diferentes que, viradas no mesmo instante, marcam o mesmo tempo. Se uma delas tiver vazado ou recebido areia de fora, a discordância denuncia o problema.

Foram feitas dez medidas de isótopos de urânio e chumbo em seis grãos de zircão chocados, de formatos diferentes. Seis delas são concordantes e resultam numa média ponderada de 4.114 milhões de anos, com incerteza de 17 milhões de anos, cerca de 0,4%. Equivale a estimar a idade de uma pessoa de 80 anos com erro de quatro meses. As outras quatro medidas destoam, segundo os autores, porque a área analisada incluiu também minerais vizinhos. As dez idades calculadas apenas pela razão entre chumbo-207 e chumbo-206, um relógio derivado do mesmo par de decaimentos, dão uma média de 4.113 milhões de anos, com incerteza de 14 milhões de anos.

Um terceiro cronômetro, independente, veio do rubídio-87, que decai em estrôncio-87. Medidas feitas diretamente no plagioclásio, no piroxênio e na matriz, 137 pontos ao todo, se alinham numa isócrona, a reta cuja inclinação revela a idade: 4.238 milhões de anos, com uma incerteza bem maior, de 208 milhões, e razão inicial entre estrôncio-87 e estrôncio-86 de 0,70270. Antes disso, oito idades de chumbo medidas em fosfatos da mesma rocha já tinham dado 4.124 milhões de anos, com incerteza de 28 milhões. Todos os métodos convergem para cerca de 4,1 bilhões de anos. Num zircão mostrado em detalhe no artigo, o A6Zrn1, as idades pontuais são de 4.000 e 4.110 milhões de anos, com margens de 310 milhões.

Três gráficos de datação isotópica: concórdia urânio-chumbo, diagrama chumbo-chumbo e isócrona rubídio-estrôncio
Figura 5. A idade de Teg 001 por três métodos. (A) Urânio-chumbo nos zircões: seis medidas cruzam a curva de concórdia em 4.114 ± 17 milhões de anos. (B) Chumbo-chumbo nos zircões (quadrados vermelhos) e em outros minerais, ao lado da reta de referência de 4,1 bilhões de anos. (C) Isócrona de rubídio e estrôncio com 137 medidas: 4.238 ± 208 milhões de anos.Crédito: Liu et al. 2026, Science · © 2026 os autores, licença exclusiva AAAS

Concordância, porém, não encerra a discussão. Uma data assim pode marcar a cristalização do magma ou um evento posterior que reiniciou a contagem, como um impacto ou um episódio de alteração. Os autores testaram as duas possibilidades. O aquecimento do choque foi limitado, como mostram a reidita preservada e a ausência de material fundido, e não bastaria para arrancar todo o chumbo de vários zircões de tamanhos diferentes, porque esse elemento se difunde muito devagar no mineral. Experimentos de choque em laboratório e rochas lançadas por impactos na Terra também mostram que a deformação provocada pelo choque, sozinha, não altera os sistemas de urânio e chumbo dos zircões.

O que resta é a água. Como o sódio da alteração aparece tanto no zircão quanto no plagioclásio, os pesquisadores concluem que os cerca de 4,1 bilhões de anos datam um episódio de alteração hidrotermal, provocado por fluidos quentes que circularam pela rocha. E, como as idades obtidas pelo urânio-235 e pelo urânio-238 concordam entre si, esse episódio ocorreu pouco depois da cristalização primária. Teg 001, portanto, se formou há pelo menos 4,1 bilhões de anos, talvez um pouco antes. Isso a coloca no período que os geólogos planetários chamam de pré-Noeico, a fase mais antiga e menos conhecida da história marciana, da qual quase não há amostras.

A cronologia de Marte se apoia em crateras e em grandes eventos. O período Noeico (Noachian, em inglês), batizado a partir da região de Noachis Terra, começa por volta de 4,1 bilhões de anos, mais ou menos na época do impacto que escavou a bacia de Hellas, uma das maiores crateras do Sistema Solar, com cerca de 2.300 quilômetros de diâmetro. Depois vêm o Hesperiano e o Amazônico, que se estende até hoje. Antes do Noeico fica o pré-Noeico, quase sem rochas conhecidas. Se toda a história de Marte coubesse num único dia, Teg 001 teria nascido pouco depois das duas da manhã, e as rochas SNC mais velhas, só depois das onze.

Na Terra, rochas intactas tão velhas são raríssimas. O Gnaisse Acasta, no norte do Canadá, um dos registros mais antigos aceitos, tem cerca de 4 bilhões de anos. Os minerais mais antigos do planeta, zircões das colinas de Jack Hills, na Austrália, chegam a 4,4 bilhões, mas estão soltos, reciclados dentro de rochas muito mais jovens. A tectônica de placas e a erosão apagaram quase toda a crosta original terrestre. Marte, sem placas em movimento, conservou na superfície terrenos dessa idade, mas sem acesso direto a eles a ciência dependia de um punhado de amostras. Teg 001 soma ao punhado uma rocha ígnea inteira, com a textura original preservada.

Com essas peças, os autores reconstroem a biografia da pedra. Primeiro, um magma vindo do manto marciano cristalizou e esfriou lentamente dentro da crosta, como mostram as lamelas dos piroxênios. Nessa fase podem ter surgido os zircões em fio, pela reação entre o que restava do líquido magmático e o zircônio que escapava, por difusão, dos grãos de ilmenita, processo já observado em intrusões máficas acamadas na Terra, grandes corpos de magma que se cristalizaram em camadas. Depois veio pelo menos um episódio de alteração rica em sódio, ainda em Marte. A ordem dos acontecimentos é lida nos próprios cristais, como numa sequência de camadas sobrepostas.

O sódio está presente nas duas formas de zircão, o que indica que a alteração veio depois da formação dos fios. Também aparece na reidita, sinal de que a alteração aconteceu antes do choque que transformou parte do zircão. A contaminação durante a estada no Saara é improvável, argumentam os pesquisadores, porque o zircão resiste ao intemperismo superficial, e alteração rica em sódio não é um produto típico desse intemperismo na Terra. As bordas sódicas do plagioclásio podem ter nascido no mesmo evento. Já a alteração no interior da pigeonita tem data incerta e pode resultar de outro processo, ainda sem explicação fechada.

A química do oxigênio conta o mesmo enredo por outro ângulo. Os geoquímicos medem o excesso do isótopo pesado oxigênio-18 em relação a um padrão, num índice chamado delta-oxigênio-18 (δ¹⁸O), expresso em partes por mil. A média de Teg 001 é de 6,35 por mil, com desvio-padrão de 0,15, cerca de 2 por mil acima da média dos meteoritos SNC e de Allan Hills 84001, que é de 4,46 por mil. Parece pouco, mas é uma diferença enorme nessa escala. A cristalização fracionada de um magma basáltico seco eleva o δ¹⁸O do líquido residual em menos de 1 por mil, e a liberação de dióxido de enxofre, água ou gás carbônico o reduz em até 0,35 por mil.

Nem a cristalização nem a perda de gases explicam, portanto, a diferença de 2 por mil. Para os autores, o valor alto reflete a assimilação de material da crosta que já tinha reagido com fluidos de superfície ricos em oxigênio-18, ou a reação direta do magma com fluidos desse tipo. As medidas pontuais são compatíveis com a segunda hipótese. Na sílica amorfa e no vidro rico em potássio, os valores vão de 7 a 10 por mil, e nos zircões vão de 7,0 a 16,3 por mil, com incertezas de até 2,8. Valores altos e tão variáveis combinam com reações diretas com fluidos, que não se espalham de modo uniforme pela rocha.

Essa assinatura conversa com um trabalho anterior do mesmo grupo. Em junho de 2026, Lee Saper, que fazia parte do JPL e hoje está no Centro de Pesquisa Ames da NASA, publicou com Liu e colegas, na revista Science Advances, medidas de água e da razão entre deutério e hidrogênio em fosfatos de Teg 001. O estudo identificou uma mistura entre a água do magma, pobre em deutério, e um componente rico em deutério, herdado da hidrosfera marciana. A estimativa mínima para essa razão, há 4,1 bilhões de anos, é o dobro da medida na água do mar terrestre, resultado que apoia os modelos em que Marte perdeu hidrogênio rapidamente para o espaço ainda na juventude.

Em algum momento posterior, que o estudo não consegue precisar, um impacto arrancou a rocha de Marte e a lançou ao espaço. Foi esse golpe, com pico de cerca de 20 gigapascals e aquecimento abaixo de 1.200 °C, que produziu a reidita e a maskelynita. Para escapar da gravidade marciana, um fragmento precisa sair a cerca de 5 quilômetros por segundo, umas 20 vezes a velocidade de cruzeiro de um avião comercial. Depois de uma viagem de duração desconhecida, Teg 001 caiu na Terra e ficou no Saara até ser recolhido. Cada etapa deixou uma marca diferente nos minerais, e a sobreposição dessas marcas é o que torna a leitura delicada.

De onde, em Marte, veio a pedra? Meteoritos não trazem endereço, mas a química ajuda a reduzir as opções. A razão entre potássio e tório de Teg 001 é de 4.960, com incerteza de 329, em massa, próxima da média da crosta marciana, estimada em 5.300 a partir do espectrômetro de raios gama da sonda Mars Odyssey, que mapeou de órbita a composição da superfície. Os autores compararam as medidas de potássio, tório, silício e ferro da rocha com esses mapas e concluíram que a origem mais provável está nas terras altas do sul, terrenos do período Noeico que cobrem boa parte do hemisfério meridional do planeta.

A região que melhor combina com a assinatura química fica a noroeste da cratera Hellas, onde observações orbitais já haviam identificado rochas ricas em plagioclásio. Outros levantamentos feitos de órbita mostram que as rochas magmáticas da crosta Noeica são dominadas justamente por plagioclásio e por piroxênio pobre em cálcio, a mesma combinação de Teg 001. Por isso os autores tratam o meteorito como uma amostra da crosta antiga. É uma inferência, não uma certeza: o artigo aponta a região mais provável, não uma cratera de origem, e outras áreas com química parecida não podem ser descartadas só com esses dados.

Teg 001 também amplia a diversidade geoquímica conhecida das rochas ígneas de Marte, tanto a dos meteoritos quanto a das rochas examinadas por sondas e jipes-robôs. Num diagrama clássico de classificação, que cruza a soma de sódio e potássio com o teor de sílica, Teg 001, os meteoritos SNC jovens e duas rochas do período Noeico analisadas pelo Curiosity na cratera Gale caem no campo subalcalino. As demais rochas ígneas da superfície, estudadas pelos jipes Spirit e Opportunity, pelo próprio Curiosity e pelo Perseverance, na cratera Jezero, são alcalinas. O padrão reforça a ideia, já proposta antes, de que a crosta primitiva marciana evoluiu por dois caminhos.

Três gráficos de composição química que comparam Teg 001 com outros meteoritos marcianos e com rochas analisadas por jipes-robôs
Figura 3. A química de Teg 001 (estrela vermelha) comparada à de outros meteoritos marcianos e de rochas analisadas por jipes-robôs. (A) Classificação pela soma de sódio e potássio em função da sílica; a curva grossa separa as rochas alcalinas das subalcalinas. (B) Razão zircônio/titânio em função do índice de magnésio. (C) Razão nióbio/ítrio em função de zircônio/ítrio, com curvas de fusão parcial de um manto com espinélio (azul) ou com granada (rosa).Crédito: Liu et al. 2026, Science · © 2026 os autores, licença exclusiva AAAS

Na Terra, rochas alcalinas costumam estar ligadas ao magmatismo de plumas, colunas de material quente que sobem do manto profundo, enquanto as subalcalinas surgem em zonas de subducção ou em fusões ricas em água. Em outros elementos químicos, Teg 001 fica a meio caminho entre as duas famílias. Há aqui uma correção de rota. Desde abril, quando os resultados apareceram como pré-impressão, ainda sem revisão por pares, parte da cobertura internacional descreveu a rocha como parecida com granito, por causa da riqueza em sílica. A versão publicada é mais contida: no diagrama de classificação, Teg 001 fica perto da fronteira entre gabro e diorito gabroico, longe do campo dos granitos.

O passo seguinte foi olhar para o manto que deu origem ao magma. As razões entre elementos incompatíveis funcionam como impressões digitais da fonte, porque quase não mudam quando os primeiros minerais, como olivina e ortopiroxênio, se cristalizam e se acumulam. Elementos de raio iônico pequeno e carga alta, como nióbio, tântalo, zircônio, titânio e háfnio, resistem melhor à alteração e ao metamorfismo do que os que viajam com os fluidos, como césio, rubídio e estrôncio. Teg 001 tem razões zircônio/titânio, zircônio/ítrio, zircônio/háfnio, nióbio/tântalo, cério/chumbo e urânio/chumbo mais altas que as dos outros meteoritos marcianos, sinal de que veio de uma fonte diferente.

Para identificar essa fonte, a equipe simulou a fusão parcial de um manto com a composição estimada para o conjunto dos silicatos de Marte, testando dois tipos de rocha mantélica. Uma fusão de apenas 5% reproduz o padrão de elementos-traço de Teg 001, e o melhor ajuste aparece quando a fonte contém granada, mineral estável no manto marciano entre cerca de 2 e 9 gigapascals. Isso significa que o magma se formou a 160 quilômetros de profundidade ou mais, o equivalente a 18 montes Everest empilhados. Uma fusão tão pequena funciona como o primeiro café que pinga do coador: pouco líquido, mas concentrado naquilo que se solta com mais facilidade.

Dois gráficos de abundância de elementos-traço normalizados pelos condritos, com Teg 001 marcado por estrelas vermelhas
Figura 4. Elementos-traço de Teg 001 (estrelas vermelhas), normalizados pelos condritos CI, ao lado de outros meteoritos marcianos e de Allan Hills 84001. (A) Terras raras. (B) Outros elementos-traço, em ordem decrescente de tendência a ficar no líquido magmático. As linhas cinza são cálculos de fusão parcial de um manto com granada, com o grau de fusão em porcentagem.Crédito: Liu et al. 2026, Science · © 2026 os autores, licença exclusiva AAAS

O resultado mais importante desse exercício é que a fonte de Teg 001 tinha composição primordial, com elementos incompatíveis que não tinham sido empobrecidos por extrações anteriores de magma. Estudos de Allan Hills 84001 e dos meteoritos SNC propõem que o oceano de magma que cobria o Marte recém-formado se solidificou em três a cinco reservatórios no manto por volta de 4,52 bilhões de anos, cada um com um grau diferente de empobrecimento. A fonte de Teg 001 já existia antes de 4,1 bilhões de anos e não coincide com nenhum desses reservatórios. Para os autores, os processos de diferenciação inicial produziram um manto muito heterogêneo.

Essa heterogeneidade complica uma narrativa que parecia simples. Observações orbitais de rochas ígneas com menos de 3,7 bilhões de anos mostram que a sílica diminui e o tório aumenta com o tempo, tendência atribuída a fusões cada vez mais profundas, à medida que o planeta esfriava e que a crosta e a parte rígida do manto engrossavam. Se a tendência valesse para trás, as rochas com mais de 3,7 bilhões de anos teriam ainda mais sílica e menos tório. As medidas de Teg 001 não confirmam essa extrapolação. A rocha mais antiga do conjunto não se encaixa na ponta da reta traçada a partir das mais jovens.

Em compensação, outras tendências se confirmam. A fração de piroxênio pobre em cálcio no total de piroxênios, cerca de 0,8 em volume, e o teor de potássio, de 0,4% em massa, combinam com a queda desses dois parâmetros nas rochas ígneas marcianas ao longo do tempo, observada quando Teg 001 é comparado aos meteoritos SNC mais jovens. As mudanças podem refletir fusões mais profundas, menos água nas regiões-fonte, fontes de composição diferente ou variações no grau de fusão. Mas a existência de reservatórios distintos no manto antes de 4,1 bilhões de anos não combina com uma evolução temporal simples do interior do planeta, concluem os autores.

Os próprios dados pedem cautela. Toda a argumentação se apoia numa única rocha, de menos de um quilo, e o local de origem é uma inferência feita a partir de mapas orbitais. O geoquímico James Day, do Instituto Scripps de Oceanografia, que não participou do trabalho, lembrou ao site Live Science, em agosto, que as conclusões vinham de uma só pedra pequena. A isócrona de rubídio e estrôncio tem margem larga, de 208 milhões de anos, e uma dispersão maior que a esperada pelos erros de medida. Quatro das dez medidas de urânio e chumbo ficaram fora da média, e o intemperismo no deserto alterou bário e estrôncio, o que exige filtrar os dados químicos.

O artigo também deixa perguntas em aberto. O tempo de viagem de Teg 001 pelo espaço e a época em que caiu na Terra não são discutidos no texto principal, e a data da alteração da pigeonita segue incerta. A revisão foi longa: o manuscrito chegou à Science em 6 de junho de 2025 e foi aceito em 2 de outubro de 2026. Os dados de composição dos minerais, as datações e os cálculos de fusão estão no material suplementar, que reúne 26 figuras e 11 tabelas, e a própria rocha pode ser requisitada por pesquisadores nas instituições que a guardam, como prevê a declaração de disponibilidade de dados do estudo.

Enquanto isso, ter rochas marcianas em laboratório continua dependendo de que elas caiam do céu. O programa de retorno de amostras da NASA, que buscaria os tubos coletados pelo Perseverance na cratera Jezero, ficou de fora do orçamento americano de 2026, aprovado em janeiro, e hoje não tem data. A China mantém a missão Tianwen-3, com lançamento previsto para 2028 e retorno à Terra por volta de 2031, trazendo cerca de 500 gramas de material. É menos do que os 798,5 gramas de Teg 001, mas com uma vantagem decisiva: as amostras chinesas virão com endereço conhecido, com cada grão ligado a um ponto mapeado da superfície.

As duas abordagens se completam. Amostras trazidas por missões têm contexto geológico preciso, mas saem de poucos lugares. Meteoritos chegam de pontos desconhecidos, mas cobrem, em conjunto, uma variedade maior de terrenos e de épocas. Teg 001 mostra o valor dessa loteria natural: num punhado de pedras recolhidas no deserto, a ciência ganhou acesso ao período pré-Noeico, a um manto primordial que nenhum outro meteorito havia revelado e a fluidos que circulavam pela crosta há 4,1 bilhões de anos. Cada nova busca nos desertos quentes e nos campos de gelo da Antártida pode trazer outra página desse capítulo.

Há uma ironia geográfica nessa história. Teghaza prosperou cortando o sal do chão em blocos e mandando-o em caravanas para o sul do Saara, onde ele era trocado por ouro. A pedra que hoje leva o nome da antiga cidade guarda outro sódio, o que a água de Marte deixou nas bordas dos feldspatos e dentro de zircões mais finos que um fio de cabelo, há cerca de 4,1 bilhões de anos. Ninguém sabe se ela já estava na areia quando as caravanas passavam ou se caiu depois. Os cientistas, agora, sabem ler nela o tempo em que Marte ainda tinha água para alterar as próprias rochas.

Referência

Liu, Y., Saper, L. M., Bell, E. A., Ma, C., Li, H., Hu, J., Guan, Y., Melton, H., Cruz-Uribe, A. M., Yap, T. E., Tissot, F. L. H., Bucholz, C. E., Ziegler, K. e Agee, C. B. (2026). A Martian meteorite that formed ≳4.1 billion years ago samples Mars’ early crust and mantle. Science, First Release, 29 de outubro de 2026. DOI: 10.1126/science.adz5646. Submetido em 6 de junho de 2025 e aceito em 2 de outubro de 2026.