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Dois gigantes estão escondidos atrás de uma parede de gás

Por Sérgio Sacani·outubro 28, 2026
BURACOS NEGROS • RAIOS X • GALÁXIAS

NuSTAR e XMM-Newton iniciam uma campanha para observar dois buracos negros supermassivos quase invisíveis e descobrir por que cada um deles muda com o tempo.

LEITURA: 14 MIN • SPACE TODAY
Imagem óptica de MCG +04-48-002 e NGC 6921 com contornos vermelhos de raios X do NuSTAR
Imagem óptica de Kitt Peak mostrando MCG +04-48-002 e NGC 6921. Os contornos vermelhos representam a emissão de raios X de alta energia observada pelo NuSTAR em 2013. A galáxia 2MASX J202837.6+254318 está inativa e não integra o estudo. Crédito: Koss et al. (2016).
2 núcleosgalácticos ativos ≈ 82 milanos-luz de separação projetada 3–79 keVfaixa de energia do NuSTAR
Em uma região relativamente próxima do Universo, duas galáxias guardam um sistema extraordinário: dois buracos negros supermassivos em atividade, ambos escondidos atrás de quantidades imensas de gás. Eles ocupam os centros de MCG +04-48-002 e NGC 6921, galáxias separadas no céu por apenas 91 segundos de arco e por aproximadamente 25,3 mil parsecs — cerca de 82 mil anos-luz — em distância projetada.

Cada buraco negro está devorando matéria e produzindo radiação intensa. Ainda assim, observá-los é uma tarefa difícil. O material acumulado ao redor dos núcleos bloqueia boa parte dos raios X de menor energia e mascara a verdadeira potência das fontes. Na luz visível, um deles pode até parecer dominado pela formação de estrelas, enquanto o motor central permanece praticamente escondido.

Em outubro de 2026, o telescópio espacial NuSTAR, da NASA, iniciou uma campanha coordenada com o XMM-Newton, da Agência Espacial Europeia. Os observatórios retornarão várias vezes ao sistema durante os meses seguintes. Em vez de produzir apenas uma fotografia isolada, os astrônomos querem montar uma espécie de filme em raios X.

As mudanças de brilho e absorção poderão revelar se nuvens individuais passam diante dos buracos negros. A equipe também tentará descobrir se o material que encobre essa dupla em interação é diferente daquele encontrado ao redor de núcleos isolados.

Uma dupla revelada em raios X

O sistema era conhecido como a fonte de raios X duros SWIFT J2028.5+2543. O telescópio Swift/BAT detectava emissão energética naquela direção, mas sua resolução angular não permitia determinar com clareza qual das duas galáxias produzia o sinal. Duas fontes próximas apareciam como uma única mancha.

Para quem está acostumado às imagens detalhadas do Hubble ou do James Webb, vale lembrar que observar em raios X é um desafio diferente. Esses fótons não podem ser focalizados por espelhos comuns da mesma maneira que a luz visível. Além disso, instrumentos que varrem grandes áreas do céu podem encontrar fenômenos energéticos sem necessariamente separar objetos muito próximos.

A situação mudou com uma observação feita pelo NuSTAR em maio de 2013. Em vez de uma única fonte, o telescópio identificou dois pontos distintos acima de 10 quiloelétron-volts, associados aos núcleos de MCG +04-48-002 e NGC 6921. O resultado foi publicado em 2016 no The Astrophysical Journal Letters como a primeira resolução espacial de um núcleo galáctico ativo duplo acima de 10 keV.

As duas fontes contribuíam de maneira comparável para a detecção que antes parecia pertencer a um único objeto. O NuSTAR havia aberto uma janela através da cortina de gás e mostrado que os dois centros galácticos estavam ativos.

Concepção artística da região interna de um núcleo galáctico ativo com disco, gás e jato
Concepção artística da região interna de um núcleo galáctico ativo. Gás e poeira ao redor do disco podem esconder o motor central. Crédito: ESO/M. Kornmesser e L. Calçada.

O que significa “Compton-thick”?

As medições indicaram colunas de gás da ordem de 1 a 2 vezes 10²⁴ átomos de hidrogênio por centímetro quadrado. Esse nível de absorção coloca os dois núcleos na fronteira — ou já dentro — do regime conhecido como Compton-thick.

A expressão pode ser traduzida livremente como “espesso para o espalhamento Compton”. Ela não descreve o buraco negro, mas a barreira de matéria existente entre o núcleo e o observador. Quando a coluna de gás se aproxima de 1,5 × 10²⁴ átomos por centímetro quadrado, até fótons de raios X têm grande probabilidade de interagir com elétrons antes de escapar.

É como tentar observar uma lâmpada extremamente potente através de uma parede. Parte da radiação é absorvida; outra parte muda de direção ou perde energia antes de chegar ao telescópio. O espectro detectado deixa de ser um retrato direto do motor central e passa a misturar luz transmitida, espalhada e refletida pelo ambiente.

A região obscurecedora costuma ser representada como um toro — uma estrutura parecida com uma rosquinha — ao redor do disco de acreção. Entretanto, as observações indicam que esse meio provavelmente não é liso. Ele deve conter nuvens, filamentos e regiões com densidades muito diferentes. É justamente essa irregularidade que a campanha deseja testar.

Abaixo de aproximadamente 10 keV, a absorção fotoelétrica remove grande parte da emissão direta. Fótons mais energéticos conseguem atravessar colunas moderadamente Compton-thick com maior eficiência. Por isso, observar acima de 10 keV é essencial para encontrar alguns dos buracos negros em crescimento mais escondidos do Universo.

“Uma única observação mostra o estado do sistema. Uma sequência de observações revela sua dinâmica.”

Dois observatórios, duas peças do quebra-cabeça

O NuSTAR foi lançado em 2012 e se tornou o primeiro telescópio em órbita capaz de focalizar e produzir imagens do céu na faixa de raios X de alta energia entre 3 e 79 keV. Sua sensibilidade acima de 10 keV permite detectar uma parcela da radiação que atravessa o gás espesso e estimar melhor a emissão produzida perto do buraco negro.

Essa capacidade foi decisiva para separar os componentes de SWIFT J2028.5+2543. O instrumento não apenas detectou raios X duros: ele mostrou de qual núcleo cada parcela da emissão vinha.

Concepção artística do telescópio espacial NuSTAR com seu mastro estendido
Concepção artística do NuSTAR. O mastro de cerca de 10 metros separa os módulos ópticos dos detectores. Crédito: NASA/JPL-Caltech.
O XMM-Newton, lançado pela ESA em dezembro de 1999, tem uma enorme área coletora e instrumentos muito sensíveis aos raios X de menor energia. Suas câmeras EPIC produzem imagens e espectros, enquanto outros instrumentos ampliam o diagnóstico da fonte.

Quando os dois observatórios trabalham juntos, a cobertura espectral se torna muito mais completa. O XMM-Newton mede com grande sensibilidade a região em que a absorção e as linhas de emissão deixam marcas intensas. O NuSTAR acompanha a radiação que sobrevive em energias maiores, onde é possível estimar melhor o contínuo original.

Essa parceria ajuda a separar duas explicações concorrentes para uma mudança observada. O buraco negro pode realmente ter alterado sua produção de energia, ou uma nuvem pode simplesmente ter bloqueado uma fração diferente da radiação. Sem cobertura simultânea, uma mudança real da fonte poderia ser confundida com uma diferença entre instrumentos ou épocas.

Representação artística do observatório de raios X XMM-Newton acima da Terra
Representação artística do XMM-Newton, observatório de raios X da ESA que participa da campanha coordenada. Crédito: ESA/C. Carreau.

Nuvens atravessando nossa visão

Imagine uma lâmpada distante cercada por nuvens opacas. Mesmo sem distinguir cada nuvem, seria possível descobrir algo sobre elas acompanhando as variações do brilho. Uma queda rápida poderia indicar um obstáculo compacto cruzando a linha de visão; uma mudança lenta poderia apontar para uma estrutura maior ou mais distante.

A mesma lógica é aplicada aos núcleos galácticos ativos, embora a “lâmpada” seja uma região extremamente quente perto de um buraco negro supermassivo. A variável central é a densidade de coluna na linha de visão, normalmente representada por Nₕ. Se Nₕ mudar enquanto a emissão de alta energia permanecer semelhante, a interpretação mais natural será o movimento do material obscurecedor.

O tempo de duração de um evento, combinado com estimativas da velocidade orbital e da massa do buraco negro, pode impor limites ao tamanho e à distância da nuvem. Os astrônomos usam mudanças em escalas de dias, semanas, meses e anos para investigar material próximo ao disco de acreção e estruturas maiores existentes no núcleo da galáxia.

Os dados anteriores apontam comportamentos diferentes para os dois membros da dupla. Em MCG +04-48-002, há interesse especial em mudanças do obscurecimento. NGC 6921, por sua vez, apresentou fortes variações associadas ao brilho intrínseco em análises consideradas pela equipe. Distinguir esses mecanismos é uma das metas centrais da nova campanha.

Uma história mais complicada

O estudo de 2016 já havia encontrado variabilidade significativa em MCG +04-48-002. Comparações entre observações feitas por Swift, XMM-Newton, Suzaku e NuSTAR indicavam que a fonte estava mais brilhante em 2005–2007 do que em 2013. Naquele conjunto histórico, porém, a cobertura acima de 10 keV era limitada, o que enfraquecia as restrições sobre possíveis mudanças na absorção.

Para NGC 6921, a mesma análise não encontrou variação significativa entre aquelas épocas. Isso não contradiz necessariamente a motivação da campanha atual. Novos dados, modelos mais avançados e intervalos temporais maiores podem revelar comportamentos que não eram mensuráveis com as observações disponíveis anteriormente.

Essa é uma demonstração importante de como a ciência funciona. A classificação de uma fonte não é uma etiqueta definitiva, e um objeto variável não precisa repetir o mesmo padrão durante décadas. Aquilo que parece uma simples mudança de brilho pode, com cobertura espectral melhor, ser separado em variações da luminosidade, da absorção e da reflexão.

Há ainda uma terceira galáxia visível na região, 2MASX J202837.6+254318. Ela apresenta redshift semelhante, mas é uma galáxia elíptica inativa e não foi detectada pelo NuSTAR. Portanto, não faz parte da dupla de núcleos ativos. Sua presença, entretanto, reforça a imagem de um ambiente de grupo, no qual interações gravitacionais podem influenciar a evolução dos membros.

Galáxias em interação

NGC 6921 e MCG +04-48-002 possuem velocidades radiais separadas por apenas cerca de 140 quilômetros por segundo. Somado à distância projetada de 25,3 mil parsecs, esse pequeno deslocamento favorece uma associação física, não um alinhamento casual. O estudo de 2016 concluiu que a chance de dois núcleos brilhantes em raios X duros aparecerem tão próximos e com redshifts semelhantes seria extremamente pequena.

Simulações e levantamentos observacionais indicam que encontros entre galáxias podem conduzir gás para suas regiões centrais. O material perde momento angular por meio de perturbações gravitacionais, alimenta surtos de formação estelar e pode alcançar os buracos negros centrais. Ao mesmo tempo, esse combustível cria a cortina capaz de esconder a acreção. A interação pode aumentar tanto a atividade quanto a dificuldade de observá-la.

O sistema está em uma etapa relativamente ampla da interação quando comparado a duplas mais compactas. A existência de forte obscurecimento enquanto os núcleos ainda estão separados por cerca de 25 mil parsecs sugere que uma fase enterrada pode começar muito antes da fusão final das galáxias.

Encontrar sistemas assim é importante para reconstruir a evolução conjunta de galáxias e buracos negros. Se as duplas mais obscurecidas forem subcontadas, as estimativas sobre a frequência dos núcleos duplos, a duração da atividade e a taxa de crescimento dos buracos negros permanecerão incompletas.

Dois buracos negros supermassivos

As galáxias estão em redshift próximo de 0,014. Dependendo da cosmologia e do método utilizados, MCG +04-48-002 é colocada a aproximadamente 60–64 megaparsecs, algo em torno de 200 milhões de anos-luz da Terra. Isso significa que a radiação agora registrada pelos observatórios começou sua viagem quando os dinossauros ainda existiam em nosso planeta.

A partir da dispersão de velocidade das estrelas nos bojos galácticos, o artigo de 2016 estimou massas de aproximadamente 400 milhões de massas solares para o buraco negro de NGC 6921 e 70 milhões de massas solares para o de MCG +04-48-002. As estimativas dependem de relações empíricas e possuem incertezas, mas deixam claro que ambos são supermassivos.

Apesar dessas massas, os núcleos não parecem operar perto do limite máximo teórico de acreção, o limite de Eddington. A análise original estimou razões de Eddington de cerca de 0,001 para NGC 6921 e 0,009 para MCG +04-48-002. São buracos negros ativos, mas não quasares brilhando no auge de sua capacidade.

O obscurecimento pode fazer a luminosidade observada parecer muito menor do que a real. Sem os dados de alta energia e os modelos de absorção, seria fácil subestimar a potência dos dois motores centrais.

O que a campanha quer descobrir

1. Existem nuvens individuais diante dos núcleos?

Se a coluna de gás variar entre as visitas enquanto a emissão mais energética permanecer compatível, os pesquisadores terão evidência de um obscurecedor irregular. A duração das mudanças poderá limitar o tamanho das nuvens e indicar onde elas orbitam.

2. NGC 6921 muda por dentro?

Se seu espectro variar de maneira coerente em diferentes energias, sem a assinatura de absorção adicional, a mudança poderá ser atribuída ao próprio fluxo de acreção. Isso ajudará a medir como a região emissora responde à chegada de matéria.

3. Uma interação galáctica muda o obscurecimento?

Uma colisão pode criar uma distribuição de gás mais extensa, turbulenta ou assimétrica que o toro idealizado. Os astrônomos querem comparar esta dupla com núcleos Compton-thick encontrados em galáxias isoladas.

4. Qual geometria explica os espectros?

Modelos diferentes podem prever inclinações, coberturas e densidades distintas. A combinação de XMM-Newton e NuSTAR, repetida ao longo do tempo, fornece mais condições independentes e ajuda a quebrar ambiguidades entre luminosidade, absorção e reflexão.

Por que isso importa

Buracos negros obscurecidos são uma peça essencial do inventário cósmico. Parte do crescimento desses objetos acontece atrás de gás e poeira, especialmente em galáxias ricas em material e em sistemas perturbados por interações. Se os astrônomos observarem somente a luz visível ou os raios X menos energéticos, verão uma versão incompleta da história.

Os núcleos Compton-thick também ajudam a explicar o fundo cósmico de raios X, a radiação difusa produzida pela soma de inúmeras fontes ao longo da história do Universo. Os modelos precisam estimar quantos desses objetos existem e quanta energia eles emitem. A incerteza permanece grande porque os membros mais enterrados são justamente os mais difíceis de encontrar.

MCG +04-48-002 e NGC 6921 oferecem uma oportunidade rara de estudar dois casos simultaneamente e com separação suficiente para o NuSTAR. A campanha não quer apenas confirmar que existem dois buracos negros escondidos. Ela pretende mapear indiretamente o material que os encobre, determinar por que cada um varia e descobrir se o encontro entre as galáxias deixou uma assinatura mensurável no gás.

Se nuvens realmente passarem diante dos núcleos, os astrônomos usarão essas ocultações naturais como sondas. Se o brilho intrínseco mudar, acompanharão a alimentação dos buracos negros quase em tempo real. Em ambos os cenários, aquilo que parece um obstáculo — a cortina de matéria — transforma-se em uma ferramenta para explorar regiões que nenhum telescópio consegue fotografar diretamente.

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FONTES E LEITURA COMPLEMENTAR
NuSTAR/Caltech — A Pair of Hidden Black Holes
Koss et al. (2016) — NuSTAR Resolves the First Dual AGN Above 10 keV
ESA — XMM-Newton Factsheet
Assuntos: Agência Espacial Europeia · AGN · AGN Compton-thick · AGN DUPLO · Astrofísica · Astronomia · ASTRONOMIA DE RAIOS X · Buracos Negros · Buracos Negros Escondidos · Buracos Negros Supermassivos · Colisão de Galáxias · descobertas astronômicas · Disco de Acreção · dupla de buracos negros · ESA · Espaço · Fusão de Galáxias · Galáxias Em Interação · gás e poeira cósmica · MCG +04-48-002 · NASA · NGC 6921 · núcleo galáctico ativo · Núcleos Galácticos Ativos · NuSTAR · Raios-X · SWIFT J2028.5+2543 · Telescópios Espaciais · Universo · XMM-Newton

Sobre Sérgio Sacani

Formado em geofísica pelo IAG da USP, mestre em engenharia do petróleo pela UNICAMP e doutor em geociências pela UNICAMP. Sérgio está à frente do Space Today, o maior canal de notícias sobre astronomia do Brasil.

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