Físicos japoneses vasculharam uma década de registros do observatório escocês de Eskdalemuir, encontraram 65 sinais persistentes ainda sem explicação e tornaram até cem vezes mais rigoroso o limite do experimento CAST, do CERN, para os áxions

Durante pouco mais de dez anos, entre setembro de 2012 e novembro de 2022, duas bobinas de indução instaladas num vale isolado do sul da Escócia fizeram uma única coisa: escutar o planeta. Cem vezes por segundo, uma delas registrava as variações do campo magnético na direção norte-sul, enquanto a outra fazia o mesmo na direção leste-oeste. Quase tudo o que chegou até esses sensores foi ruído — o eco de relâmpagos caindo do outro lado do globo, a agitação provocada por tempestades geomagnéticas, pulsos de meio minuto tão intensos que saturavam o equipamento. Três físicos japoneses decidiram vasculhar essa década de barulho atrás de algo que ninguém jamais registrou: uma nota única, finíssima e perfeitamente estável, que nenhum fenômeno atmosférico conhecido produziria. Se essa nota existir, será a voz de uma partícula hipotética chamada áxion, e o instrumento que a captou terá sido, na prática, a própria Terra.

O estudo foi publicado em 8 de junho de 2026 na revista científica Progress of Theoretical and Experimental Physics, editada em nome da Sociedade de Física do Japão, e é assinado por Atsushi Nishizawa, da Universidade de Hiroshima e do Centro de Pesquisa do Universo Primordial da Universidade de Tóquio, Atsushi Taruya, do Instituto Yukawa de Física Teórica da Universidade de Kyoto, e Yoshiaki Himemoto, da Universidade Nihon. A equipe analisou os registros magnéticos do Observatório de Eskdalemuir e chegou a dois resultados de pesos diferentes.

Um deles é uma lista de 65 sinais persistentes, com razão sinal-ruído superior a 3 — picos pelo menos três vezes mais altos que a flutuação típica do ruído ao redor —, que nenhum dos critérios disponíveis conseguiu descartar. O outro, mais sólido, é um novo teto para a intensidade com que os áxions podem interagir com a luz: cerca de 4 × 10−13 GeV−1 para partículas com massa próxima de 3 × 10−14 elétron-volts (eV), uma restrição até cem vezes mais apertada, nessa faixa de massas, que a do experimento CAST, do CERN.

Para entender por que alguém passaria anos garimpando um zumbido magnético, é preciso voltar a um dos maiores constrangimentos da ciência moderna. Em 1933, o astrônomo suíço Fritz Zwicky notou que as galáxias do aglomerado de Coma se moviam depressa demais para serem mantidas unidas apenas pela matéria visível. Nos anos 1970, a americana Vera Rubin mediu a rotação de galáxias espirais e descobriu que suas bordas giravam como se estivessem presas a uma massa invisível muito maior que a das estrelas. Desde então, lentes gravitacionais, a radiação cósmica de fundo e a formação das grandes estruturas do Universo contam a mesma história: cerca de 85% de toda a matéria do cosmos não emite, não absorve e não reflete luz. Ela só se manifesta pela gravidade. Os físicos a chamam de matéria escura, e o nome resume praticamente tudo o que se sabe sobre ela.

Nenhuma das partículas conhecidas serve para o papel. O Modelo Padrão da física de partículas, teoria que descreve com precisão notável os quarks, os elétrons, os neutrinos e as forças que agem entre eles, não tem um candidato à altura. Durante décadas, a aposta favorita recaiu sobre partículas massivas de interação fraca, as weakly interacting massive particles, conhecidas pela sigla WIMPs, e enormes tanques de xenônio líquido foram instalados no subsolo profundo para flagrá-las. Nenhum desses experimentos registrou até hoje uma detecção convincente. O silêncio teve um efeito colateral saudável: deslocou parte da atenção da comunidade para o outro extremo da escala de massas, onde vive um candidato muito mais leve, nascido não da cosmologia, mas de um enigma interno da própria física das partículas.

Esse enigma atende pelo nome de problema CP forte. A cromodinâmica quântica, teoria que explica como os quarks se mantêm presos dentro de prótons e nêutrons, admite em suas equações um termo capaz de tratar de modo diferente a matéria e sua imagem espelhada com as cargas trocadas, uma violação da chamada simetria CP. A intensidade desse termo é governada por um parâmetro que funciona como um ângulo e que, em princípio, poderia assumir qualquer valor. Se ele fosse grande, o nêutron teria um momento de dipolo elétrico, uma leve separação entre cargas positivas e negativas em seu interior. As medições mais precisas nunca encontraram nada disso e indicam que o ângulo é menor que um décimo de bilionésimo. É como achar um ponteiro que poderia apontar para qualquer posição do mostrador cravado exatamente no zero, sem que nenhuma lei conhecida o obrigue a ficar ali.

Em 1977, os físicos Roberto Peccei e Helen Quinn propuseram uma saída elegante: transformar esse ângulo fixo num campo dinâmico, capaz de evoluir e de rolar naturalmente até o valor que minimiza a energia, que é justamente o zero. No ano seguinte, Steven Weinberg e Frank Wilczek perceberam, de forma independente, que o mecanismo implicava a existência de uma nova partícula. Wilczek a batizou de áxion, inspirado numa marca de detergente, porque ela “limpava” um problema da teoria. Em 1983, três grupos de pesquisadores mostraram que o áxion poderia fazer muito mais. Como um pêndulo que se acomoda no ponto mais baixo mas nunca para de balançar por completo, o campo do áxion teria permanecido oscilando desde o Universo primordial, e essas oscilações residuais, espalhadas por todo o cosmos, se comportariam exatamente como a matéria escura.

Com o tempo, o áxion original ganhou uma família inteira de parentes. A teoria de cordas prevê uma profusão de partículas semelhantes, as chamadas partículas do tipo áxion, que compartilham as mesmas propriedades básicas mas podem ter massas espalhadas por mais de vinte ordens de grandeza, de 10−23 a 1 eV. Os físicos costumam reuni-las sob o mesmo nome, e o novo estudo segue essa convenção. Observações da estrutura do Universo em pequenas escalas já tornam improváveis massas abaixo de alguns 10−22 eV, caso essas partículas respondam pela maior parte da matéria escura. A busca japonesa mira uma faixa intermediária, entre 10−15 e 10−13 eV. Para dar uma ideia do que isso significa, um áxion de 10−14 eV seria cerca de 50 quintilhões de vezes mais leve que um elétron, a partícula com carga elétrica mais leve que se conhece.

Partículas tão leves deixam de se comportar como bolinhas e passam a agir como ondas. Na vizinhança do Sol, a matéria escura deve ter uma densidade de cerca de 0,3 gigaelétron-volt (GeV) por centímetro cúbico, o equivalente a um terço da massa de um próton em cada cubinho de um centímetro de lado, e se desloca a velocidades da ordem de um milésimo da velocidade da luz. Com essas características, o comprimento de onda associado a um áxion de 10−14 eV chega à escala da distância entre a Terra e o Sol. O planeta inteiro fica, assim, contido numa única ondulação do campo, que sobe e desce em sincronia de um polo ao outro, como a superfície de um lago atravessada por uma onda muito mais longa que o próprio lago. Essa coerência dura bastante: dividindo aquela distância pela velocidade típica das partículas, chega-se a quase seis dias para essa massa.

É aqui que o áxion se torna, ao menos em princípio, detectável. A teoria prevê um acoplamento muito fraco entre essa partícula e o eletromagnetismo, medido por um número chamado constante de acoplamento áxion-fóton e expresso em GeV−1: quanto menor o valor, mais tímida a interação. Na presença de um campo magnético, o campo oscilante do áxion modifica as equações de Maxwell e passa a funcionar como uma corrente elétrica alternada que flui ao longo das linhas do campo. Toda corrente alternada irradia ondas eletromagnéticas, e esta não seria exceção. A frequência da onda é fixada pela massa do áxion: cerca de 2,4 hertz para uma partícula de 10−14 eV. Como as partículas de matéria escura se movem devagar, a onda resultante seria extremamente pura, com largura de apenas uma parte em um milhão da própria frequência — algo como a nota de um diapasão soando no meio do chiado de um rádio mal sintonizado.

A ideia de usar ímãs para converter áxions em sinais eletromagnéticos tem mais de quarenta anos. Em 1983, o físico Pierre Sikivie propôs os haloscópios, cavidades metálicas expostas a campos magnéticos intensos e sintonizadas para ressoar na frequência correspondente à massa procurada. O experimento ADMX, nos Estados Unidos, leva essa receita ao extremo, com cavidades resfriadas perto do zero absoluto, e varre frequências da ordem de centenas de megahertz, sensíveis a áxions cerca de cem milhões de vezes mais pesados que os buscados agora. Outra estratégia, a dos helioscópios, aponta ímãs para o Sol à espera de áxions produzidos no núcleo da estrela. O mais conhecido deles, o CAST, sigla em inglês de Telescópio Solar de Áxions do CERN, aproveitou um protótipo de ímã do Grande Colisor de Hádrons e fixou um limite para o acoplamento áxion-fóton válido numa faixa muito ampla de massas.

O novo estudo troca o ímã de laboratório pelo maior ímã disponível nas redondezas: o campo magnético da própria Terra. Gerado pelos movimentos do ferro líquido no núcleo externo do planeta, ele tem a forma aproximada de um dipolo, como o de uma barra imantada, e intensidade típica entre 25 e 65 microteslas na superfície. Trata-se de um campo centenas de milhares de vezes mais fraco que o de um ímã supercondutor de laboratório, mas que ocupa um volume do tamanho de um planeta. Usá-lo nessa busca não é algo inédito. Em 2022, um grupo liderado por Ariel Arza recorreu aos dados de uma rede mundial de magnetômetros, a SuperMAG, para restringir áxions com massas entre 2 × 10−18 e 7 × 10−17 eV. Em 2024, uma nova análise, com dados amostrados a cada segundo, estendeu a busca até cerca de 4 × 10−15 eV.

Subir para frequências entre décimos de hertz e alguns hertz, como fizeram Nishizawa e seus colegas, muda a natureza do problema. Nessa faixa, o comprimento das ondas eletromagnéticas se torna comparável à circunferência da Terra, e o espaço entre o solo e a ionosfera, a camada eletricamente carregada da alta atmosfera, passa a funcionar como uma caixa de ressonância. O fenômeno foi previsto em 1952 pelo físico alemão Winfried Otto Schumann e confirmado por medições no início da década seguinte. As ressonâncias de Schumann são alimentadas sem descanso pelos relâmpagos, que caem no planeta a um ritmo de dezenas por segundo, e aparecem no espectro como uma série de picos, o primeiro deles perto de 7,8 hertz. Boa parte dessa energia nasce nas grandes regiões de tempestades tropicais, entre elas a Amazônia, o que faz do céu brasileiro uma das fontes do ruído que os pesquisadores precisaram domar.

Calcular o sinal de um áxion dentro dessa cavidade exige saber, em detalhe, como a condutividade elétrica do ar muda com a altitude. Perto do solo, a atmosfera é quase um isolante perfeito, com condutividade da ordem de 10−12 siemens por metro. Em torno de 100 quilômetros de altura, na base da ionosfera, o valor salta para cerca de 10−2 siemens por metro, um aumento de dez ordens de grandeza. O interior da Terra conduz ainda melhor, perto de 10 siemens por metro, a ponto de sua superfície poder ser tratada, nos cálculos, como um condutor perfeito. Acima da baixa ionosfera, as ondas se dissipam rapidamente, e os autores impõem que, ali, só existam ondas subindo, sem reflexão de volta. O resultado lembra o corpo de um violão de proporções planetárias, que reforça certas notas e abafa outras.

A solução desse problema foi detalhada num artigo teórico complementar, assinado pelo mesmo trio, e resumida no novo trabalho. O campo geomagnético entra nos cálculos por meio do modelo internacional de referência IGRF-13, que descreve sua forma até harmônicos de grau 13. A atmosfera é fatiada em camadas de condutividade constante, as equações são resolvidas em cada uma delas com o auxílio de harmônicos esféricos vetoriais, e as soluções são costuradas nas fronteiras entre as camadas. O cálculo mostra que o campo magnético induzido pelo áxion cresce em proporção direta à constante de acoplamento e aponta numa direção paralela à superfície do planeta. A equipe optou por procurar o sinal magnético, e não o elétrico, porque campos magnéticos são mais fáceis de medir e porque observatórios espalhados pelo mundo mantêm registros públicos de longa duração.

O que essa conta prevê para Eskdalemuir cabe num único gráfico. Para um acoplamento de 10−10 GeV−1, valor próximo do limite estabelecido pelo CAST, a amplitude esperada fica em algumas centésimas de picotesla nas massas mais baixas, sobe em picos que coincidem com as ressonâncias de Schumann e despenca acima de cerca de 10−13 eV. O primeiro pico, perto de 7,8 hertz, corresponde a um áxion de aproximadamente 3 × 10−14 eV, e é ali que a cavidade atmosférica funciona como um amplificador natural. A queda nas massas mais altas reflete a forma do campo da Terra: dominado por um dipolo, com contribuições muito pequenas de componentes mais complexas, ele responde mal às frequências mais elevadas.

Figura 1: Amplitude do campo magnético que os áxions induziriam no Observatório de Eskdalemuir, no Reino Unido, em função da massa da partícula (eixo inferior) e da frequência da onda gerada (eixo superior), para um acoplamento áxion-fóton de 10⁻¹⁰ GeV⁻¹. Os picos perto de 8 Hz são as ressonâncias de Schumann
Figura 1 Amplitude do campo magnético que os áxions induziriam no Observatório de Eskdalemuir, no Reino Unido, em função da massa da partícula (eixo inferior) e da frequência da onda gerada (eixo superior), para um acoplamento áxion-fóton de 10−10 GeV−1. Os picos perto de 8 Hz são as ressonâncias de Schumann; acima de cerca de 10−13 eV, a resposta despenca.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. 1 do artigo original

Uma estimativa de ordem de grandeza ajuda a dimensionar o desafio. Com a densidade local de matéria escura, um acoplamento de 10−10 GeV−1 e um campo geomagnético de 50 microteslas, o sinal chegaria a cerca de 0,3 picotesla, aproximadamente 170 milhões de vezes mais fraco que o próprio campo terrestre. Parece pouco, e é. Ainda assim, fica na faixa dos campos magnéticos gerados pela atividade elétrica do cérebro humano, que os equipamentos de magnetoencefalografia registram rotineiramente, e está ao alcance de magnetômetros de alta precisão vendidos no mercado. O obstáculo verdadeiro não é a sensibilidade dos aparelhos, mas o ruído de fundo, formado por uma superposição aleatória de ondas transitórias. A esperança dos autores reside numa diferença de comportamento: o ruído vai e vem, enquanto o sinal de um áxion permaneceria lá, imutável, ano após ano.

Restava saber se a própria atmosfera, que muda o tempo todo, não estragaria a previsão. A condutividade varia entre o dia e a noite, com as estações do ano e com o clima espacial. No artigo teórico, os pesquisadores verificaram que a diferença entre os perfis diurno e noturno altera o sinal magnético em menos de 10% para massas abaixo de 3 × 10−13 eV. Em altitudes próximas de 100 quilômetros, a condutividade pode variar várias vezes ao longo das décadas, acompanhando a atividade solar, mas a região que mais pesa no resultado fica entre 50 e 110 quilômetros e sofre pouco com o clima espacial. Os autores estimam que essas mudanças de longo prazo também alterem o resultado em menos de 10%. A variação secular do campo geomagnético, que se manifesta em escalas superiores a um ano e costuma ficar abaixo de 1%, foi desprezada.

Para testar tudo isso, o grupo precisava de dados excepcionais, e os encontrou nas colinas de Dumfries e Galloway, no sul da Escócia. O Observatório de Eskdalemuir, situado a 55,31° de latitude norte e 3,21° de longitude oeste, começou a funcionar no início do século 20 justamente para fugir da interferência elétrica: os registros magnéticos feitos nas proximidades de Londres vinham sendo contaminados pela eletrificação dos transportes da capital britânica, e era preciso um lugar remoto e eletricamente quieto. Hoje, as medições geomagnéticas do observatório estão a cargo do Serviço Geológico Britânico, que mantém em acesso público os dados de um sistema de bobinas capaz de registrar variações magnéticas rápidas, até 100 hertz. Foi o pesquisador Ciaran Beggan, responsável por esses dados, quem os forneceu aos autores e comentou a análise.

O conjunto analisado cobre o intervalo de 1º de setembro de 2012 a 4 de novembro de 2022 e vem de duas bobinas de indução do modelo CM11E1, uma alinhada no eixo norte-sul e outra no eixo leste-oeste, ambas amostradas a 100 hertz. Os números brutos saem em unidades do digitalizador e precisam ser convertidos para picotesla com fatores de 3,491 × 10−6 volt por contagem, no primeiro canal, e 3,475 × 10−6 volt por contagem, no segundo, além de uma tabela de calibração que muda com a frequência entre 0,001 e 100 hertz. A resposta das bobinas enfraquece nas frequências mais baixas, com perda de 5% em 0,01 hertz e de mais de 90% em 0,001 hertz, o que levou os autores a usar os dados apenas entre 0,001 hertz e 50 hertz. Este último valor é a frequência de Nyquist, metade da taxa de amostragem e o limite máximo que ela permite reconstruir.

Havia um problema à espreita. O sistema de indução de Eskdalemuir era antigo: as bobinas funcionavam desde a década de 1970, o digitalizador desde os anos 1990, e o conjunto parou de vez em agosto de 2023. Os fatores de calibração disponíveis haviam sido medidos muito tempo antes e não foram conferidos durante o período estudado. Como não existe no observatório outro registro independente a 100 hertz, os pesquisadores compararam os dados das bobinas com os de um magnetômetro diferente, ligado à rede internacional INTERMAGNET, que registra o campo a cada minuto. Na faixa de frequências em que os dois instrumentos se sobrepõem, as amplitudes espectrais deveriam coincidir. O primeiro teste usou o dia 1º de janeiro de vários anos, entre 2013 e 2021, com cada dia dividido em 24 trechos de uma hora.

Figura 2: Teste de calibração
Figura 2 Teste de calibração: amplitude espectral registrada pelas bobinas de 100 Hz (laranja) comparada à de um magnetômetro independente da rede INTERMAGNET, com amostragem de um minuto (azul), no dia 1º de janeiro de 2013 a 2021 (sem dados em 2014). Cada curva usa o quantil de 3/24 a partir do mínimo, para evitar ruídos transitórios.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. A1 do artigo original

Escolher qual espectro comparar exigiu um ajuste fino. A média seria inflada por ruídos transitórios fortes, e o valor mínimo seria dominado por flutuações aleatórias, produzindo uma curva serrilhada. Os autores ficaram com o quantil de 3/24 contado a partir do mínimo, o que equivale, grosso modo, ao terceiro valor mais baixo entre os 24 trechos de cada dia. As curvas dos dois instrumentos se mostraram compatíveis. Para completar a verificação, a comparação foi repetida com um dia de cada mês nos anos de 2020, 2021 e 2022, a fase final do conjunto de dados, menos de um ano antes da pane definitiva do equipamento. Mais uma vez, as amplitudes concordaram.

Figura 3: A mesma comparação entre os dois instrumentos, agora com um dia de cada mês de 2020
Figura 3 A mesma comparação entre os dois instrumentos, agora com um dia de cada mês de 2020: as curvas permanecem compatíveis.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. A2 do artigo original

Esse cuidado não é preciosismo. Toda a conversão entre o que os sensores registram e a intensidade da interação procurada passa pela calibração. Se as bobinas estivessem medindo, digamos, metade do campo real sem que ninguém percebesse, o limite obtido para o acoplamento áxion-fóton estaria errado na mesma proporção, e um sinal verdadeiro poderia ser subestimado. A concordância entre os dois instrumentos, ano após ano e mês após mês, permite afirmar que os dados de 2012 a 2022 estão bem calibrados, e é sobre essa base que todo o restante da análise se apoia. Há também uma lição sobre o valor dos arquivos científicos: um aparelho que já não funciona continua a render pesquisa de ponta enquanto seus registros estiverem guardados, documentados e abertos.

Figura 4: A mesma comparação para um dia de cada mês de 2021.
Figura 4 A mesma comparação para um dia de cada mês de 2021.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. A3 do artigo original

Nem todo o registro pôde ser aproveitado. Para buscar uma linha espectral fina, os dados precisam ser longos e estáveis, e os autores só usaram trechos contínuos com mais de um mês de duração. Cada trecho foi dividido em segmentos de oito horas, num total de 9.909 segmentos, o equivalente a pouco mais de nove anos de gravação acumulada. A distribuição ao longo do tempo é irregular: 2012 contribuiu com apenas 176 segmentos, já que a série só começa em setembro, e 2014 com 581, enquanto 2016, 2020 e 2021 passaram de 1.090 cada. Como cada segmento recebe um peso inversamente proporcional ao quadrado do nível médio de ruído entre 1,1 e 9,9 hertz, os anos mais silenciosos pesam mais: 2021 e 2018 respondem, juntos, por cerca de 30% do peso total, embora 2018 tenha fornecido menos segmentos que outros cinco anos.

Tabela 1: Número de segmentos de oito horas usados em cada ano e o peso relativo de cada ano na análise, definido pelo nível de ruído. Ao todo, 9.909 segmentos.
Tabela 1 Número de segmentos de oito horas usados em cada ano e o peso relativo de cada ano na análise, definido pelo nível de ruído. Ao todo, 9.909 segmentos.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Tabela 1 do artigo original

A duração de oito horas não foi escolhida ao acaso. Ela define a resolução em frequência da análise, de cerca de 3,5 × 10−5 hertz, valor que coincide com a largura esperada para um sinal de áxion em 35 hertz e garante que, abaixo de 30 hertz, a linha procurada caiba inteira numa única fatia do espectro. Segmentos mais longos seriam preferíveis nas frequências mais baixas, em que o sinal permanece coerente por mais tempo, mas havia um obstáculo prático: os registros são salpicados por eventos transitórios de cerca de 30 segundos, tão intensos que saturam o equipamento em valores próximos de 108 picotesla. Para escapar dessas contaminações, os pesquisadores fixaram o tamanho dos segmentos e aceitaram abrir mão de parte da sensibilidade justamente onde ela poderia ser maior.

Figura 5: A mesma comparação para 2022, último ano do conjunto analisado, menos de um ano antes da pane definitiva do sistema de indução, em agosto de 2023.
Figura 5 A mesma comparação para 2022, último ano do conjunto analisado, menos de um ano antes da pane definitiva do sistema de indução, em agosto de 2023.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. A4 do artigo original

Outra decisão conservadora diz respeito à direção do campo. A teoria prevê um padrão específico de orientação para o sinal do áxion, e essa informação ajudaria a separá-lo do ruído. O problema é que o erro de orientação das bobinas de Eskdalemuir chega a alguns graus, e não há dados de calibração angular disponíveis. Os autores preferiram deixar a direção de lado e trabalhar apenas com a densidade espectral de potência, uma medida de quanta energia o sinal carrega em cada frequência, calculada a partir dos dois canais. A análise perde uma ferramenta de discriminação, mas ganha em robustez, porque deixa de depender de suposições sobre o alinhamento exato dos sensores.

O coração do método lembra a técnica dos astrofotógrafos que somam centenas de exposições de uma galáxia tênue: o objeto, sempre no mesmo lugar, se reforça a cada nova imagem, enquanto o ruído aleatório tende a se cancelar. Para cada segmento de oito horas, os pesquisadores calcularam o espectro de potência do campo magnético e uma versão suavizada dele, obtida com um filtro de Butterworth de segunda ordem e frequência de corte de 2,5 hertz. Subtraindo uma do outro, sobra o espectro diferencial, no qual as corcovas largas das ressonâncias de Schumann são em boa parte removidas e apenas as estruturas estreitas sobrevivem. Os espectros diferenciais de todos os segmentos foram então somados, cada um com seu peso, e divididos pela soma dos pesos. O resultado é o estimador do sinal de áxion, a grandeza em que toda a busca se baseia.

Figura 6: Fluxograma da análise
Figura 6 Fluxograma da análise: a série temporal do campo magnético é dividida em segmentos; de cada espectro de potência subtrai-se uma versão suavizada, e as diferenças são somadas com pesos definidos pelo nível de ruído, formando o estimador do sinal de áxion.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. 2 do artigo original

Esse procedimento tem uma aritmética própria. Os autores mostram que a razão sinal-ruído cresce com a raiz quarta do número de segmentos, a regra padrão para buscas desse tipo. Na prática, dobrar a sensibilidade exige dezesseis vezes mais dados, e é por isso que uma década inteira de registros faz tanta diferença. Antes de olhar para os resultados, a equipe também eliminou frequências sabidamente problemáticas. A documentação do servidor de dados registra linhas artificiais, de origem desconhecida, que surgem de forma irregular nas frequências de valor inteiro, e os pesquisadores descartaram uma faixa de 0,0347 hertz acima e abaixo de cada uma delas, o equivalente a mil fatias do espectro para cada lado.

O espectro resultante tem uma paisagem reconhecível. Abaixo de 1 hertz, a amplitude cresce em direção às frequências mais baixas, marcada pelas escalas de tempo das tempestades geomagnéticas. Entre 1 e cerca de 100 hertz, o fundo é quase plano, ondulado pelos picos de Schumann que a subtração atenuou sem eliminar por completo. Sobre essa paisagem despontam dezenas de linhas finas, concentradas acima de 1 hertz. Abaixo dessa frequência, as linhas mais proeminentes aparecem em múltiplos exatos de 0,1 hertz, valores que, como se verá adiante, os autores tratam com desconfiança.

Figura 7: Espectro diferencial médio ponderado do campo magnético, empilhado sobre todos os segmentos de oito horas (azul), e o desvio-padrão do ruído (laranja). Os losangos ciano marcam os candidatos a sinal
Figura 7 Espectro diferencial médio ponderado do campo magnético, empilhado sobre todos os segmentos de oito horas (azul), e o desvio-padrão do ruído (laranja). Os losangos ciano marcam os candidatos a sinal; os painéis do meio e de baixo ampliam as faixas de 1 a 44 Hz e de 0,1 a 1 Hz.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. 3 do artigo original

Para medir a significância de cada linha, os pesquisadores compararam a altura do estimador com a flutuação típica do ruído nas vizinhanças, calculada a partir de 200 fatias de frequência de cada lado, com exceção das três centrais. Excluir as fatias centrais impede que o próprio candidato infle a estimativa do ruído e, de quebra, elimina linhas largas demais para serem um áxion. O estimador pode ser positivo ou negativo, e só um valor positivo indica excesso real de potência. A busca cobriu o intervalo entre 0,01 hertz, abaixo do qual faltariam fatias para estimar o ruído, e 44 hertz, acima do qual a proximidade da frequência de Nyquist torna o espectro pouco confiável. As razões sinal-ruído mais altas tendem a surgir nas frequências maiores, onde o ruído é menor, e se concentram entre 1 e 6 hertz.

Figura 8: Razão sinal-ruído em função da frequência, equivalente à massa do áxion, para o conjunto completo de dados. As linhas horizontais marcam SNR = 2 (contínua) e SNR = 0 (tracejada)
Figura 8 Razão sinal-ruído em função da frequência, equivalente à massa do áxion, para o conjunto completo de dados. As linhas horizontais marcam SNR = 2 (contínua) e SNR = 0 (tracejada); os painéis inferiores ampliam as faixas de 1 a 44 Hz e de 0,1 a 1 Hz.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. 4 do artigo original

Com o limiar fixado em 3, a varredura devolveu 821 candidatos, quase todos ocupando uma única fatia de frequência, como se espera de um áxion. Começou então um processo de peneiramento. Se algum desses sinais fosse real, ele teria de estar presente durante todo o período, e não apenas em alguns anos. Os autores exigiram que, em cada ano isolado, a razão sinal-ruído superasse uma fração do limiar proporcional ao peso daquele ano no conjunto. O teste é eficaz porque, depois da subtração do espectro suavizado, o ruído oscila entre valores positivos e negativos de um ano para o outro, enquanto o excesso produzido por um áxion permaneceria sempre positivo. O critério de persistência derrubou a lista de 821 para 375 candidatos.

O passo seguinte atacou as chamadas frequências redondas, ou neat frequencies, como dizem os autores: múltiplos de 0,05 hertz, com tolerância de 0,001 hertz. Segundo informação do responsável pelos dados de Eskdalemuir, citada no artigo, linhas nessas posições costumam ser produzidas pelos filtros analógicos ou pelo digitalizador. Com elas fora do caminho, restaram 65 candidatos acima do limiar de 3. A peneira se mostra mais severa nos patamares altos. Dos cinco sinais com razão sinal-ruído acima de 14, todos passaram no teste de persistência e nenhum sobreviveu à exclusão das frequências redondas. Dos 46 acima de 10, apenas um resistiu às duas etapas. No extremo oposto, os 26.912 picos acima de 2 caíram para 660 com a exigência de persistência e para 342 depois do último filtro.

Tabela 2: O funil dos candidatos
Tabela 2 O funil dos candidatos: quantos sinais passam em cada limiar de razão sinal-ruído no conjunto completo, quantos resistem ao teste de persistência ano a ano e quantos sobram depois da exclusão das frequências “redondas”.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Tabela 2 do artigo original

Há ainda uma armadilha estatística que os físicos chamam de efeito de olhar em outro lugar, o look-elsewhere effect. Quem testa muitas hipóteses ao mesmo tempo acaba encontrando, por puro acaso, resultados que pareceriam significativos se examinados isoladamente, do mesmo modo que, entre milhões de apostadores, alguém sempre acerta a loteria. A busca percorreu cerca de 1,3 milhão de fatias de frequência. Para que a chance de um alarme falso em todo esse conjunto ficasse em 5%, cada fatia precisaria atingir, individualmente, uma probabilidade de 4 × 10−8, o que corresponde a uma razão sinal-ruído de 5,5 num ruído gaussiano. Por esse critério mais rigoroso, sobram 25 candidatos. Os autores decidiram, ainda assim, manter todos os 65, para não descartar um sinal verdadeiro de significância modesta.

O candidato mais forte está em 15,6250 hertz, com razão sinal-ruído de 13,342, e é o único acima de 10. Em seguida vêm 1,9167 hertz, com 9,374, 23,4375 hertz, com 8,704, e 1,3333 hertz, com 8,580. Postos lado a lado com quatro sinais vigorosos que foram descartados por cair em frequências redondas — 31,25 hertz, com razão de 14,932, 26,25 hertz, com 14,460, 2,5 hertz, com 12,152, e 4,1 hertz, com 12,073 —, os candidatos não exibem nenhuma diferença marcante de forma. Todos ocupam uma ou duas fatias de frequência, compatíveis com a largura esperada de um áxion, e todos aparecem ladeados por pequenas depressões, efeito colateral da subtração do espectro suavizado. Nada no formato desses picos permite separar, por enquanto, o que seria física nova do que seria um artefato do equipamento.

Figura 9: À esquerda, os quatro candidatos de maior razão sinal-ruído (1,3333
Figura 9 À esquerda, os quatro candidatos de maior razão sinal-ruído (1,3333; 1,9167; 15,6250 e 23,4375 Hz); à direita, quatro sinais fortes descartados por caírem em frequências “redondas”, múltiplas de 0,05 Hz (2,5; 4,1; 26,25 e 31,25 Hz). Em azul, o estimador do sinal; em laranja, o desvio-padrão do ruído.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. 5 do artigo original

Uma conta simples, feita por esta reportagem a partir da tabela publicada pelos autores, reforça essa cautela. Dos 51 candidatos situados entre 0,9 e 5,4 hertz, 49 coincidem, até a quarta casa decimal, com múltiplos inteiros de 1/60 de hertz, isto é, com harmônicos de alguma perturbação que se repete uma vez por minuto. Se as frequências fossem aleatórias, seria de esperar que menos de um candidato caísse sobre essa grade por puro acaso. Os 14 sinais acima de 7 hertz pertencem a outra família curiosa: 12 deles, ao lado dos dois candidatos de 1,9531 e 3,9062 hertz que destoavam do primeiro grupo, ficam exatamente sobre múltiplos de 0,390625 hertz, o resultado de dividir a taxa de amostragem de 100 hertz por 256, uma potência de 2 típica dos blocos de dados digitais.

O campeão de 15,625 hertz está nessa segunda família, assim como o candidato de 7,8125 hertz, que coincide com a região do primeiro pico de Schumann e com a faixa de maior sensibilidade da busca. Apenas 2 dos 65 sinais escapam das duas grades, em 16,2052 e 25,3073 hertz, e ambos estão entre os mais fracos da lista, com razão sinal-ruído pouco acima de 3. Os próprios autores registram que muitos candidatos se alinham em múltiplos de 0,33 e de 0,0033 hertz e admitem que esses valores parecem ter causa artificial, embora ainda desconhecida. A regularidade não prova que os sinais sejam instrumentais, mas indica com clareza onde procurar a explicação mais provável e convida a uma leitura bem mais sóbria do número 65.

Tabela 3: As frequências e as razões sinal-ruído dos 65 candidatos persistentes que sobreviveram a todos os filtros.
Tabela 3 As frequências e as razões sinal-ruído dos 65 candidatos persistentes que sobreviveram a todos os filtros.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Tabela 3 do artigo original

Abaixo de 1 hertz, o quadro é mais modesto. Os autores listam cinco candidatos persistentes com razão sinal-ruído acima de 2 nessa região, em 0,4339, 0,4764, 0,5275, 0,8851 e 0,9167 hertz, este último o único acima de 5. A comparação tinha interesse especial porque a análise de 2024 com dados de um segundo da rede SuperMAG havia apontado três candidatos de significância modesta nessa faixa. Nenhum deles reapareceu em Eskdalemuir. Em 0,2630 hertz, uma das frequências suspeitas do estudo anterior, a nova análise não encontrou nada e conseguiu excluir, com 95% de confiança, acoplamentos maiores que 1,3 × 10−11 GeV−1, mesmo com uma sensibilidade ligeiramente inferior à daquele trabalho naquela frequência.

Transformar a ausência de sinal num limite exige conhecer bem o ruído, e os pesquisadores dedicaram um apêndice inteiro a isso. Eles examinaram como os valores do estimador se distribuem em diferentes faixas de frequência e compararam os histogramas com uma curva gaussiana, a conhecida forma de sino. Nas frequências baixas, entre 0,08 e 0,95 hertz, o ajuste é bom. Acima de 5,1 hertz, a distribuição se torna praticamente indistinguível de uma gaussiana com média zero. A exceção fica entre 1,1 e 3,9 hertz, onde a abundância de linhas fortes alarga o ajuste. A rigor, a distribuição correta seria uma qui-quadrado deslocada, mas o grande número de amostras torna a aproximação gaussiana adequada para os cálculos.

Figura 10: Distribuição de amplitude do ruído em faixas de baixa frequência, entre 0,08 e 0,95 Hz. À esquerda, o estimador em cada faixa
Figura 10 Distribuição de amplitude do ruído em faixas de baixa frequência, entre 0,08 e 0,95 Hz. À esquerda, o estimador em cada faixa; à direita, o histograma comparado a uma curva gaussiana (laranja), com a média e os percentis de 2,3% e 97,7%.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. B1 do artigo original

Com o ruído caracterizado, o limite superior nasce de uma pergunta direta: qual é o maior acoplamento compatível com o que foi observado? Para cada frequência, os autores construíram a distribuição de valores que o estimador teria se houvesse um áxion presente, somando um sinal artificial ao ruído medido nas 200 fatias vizinhas de cada lado, e procuraram a intensidade a partir da qual o valor efetivamente observado se tornaria improvável, com 95% de confiança. Como o ruído é aproximadamente gaussiano, esse limite corresponde, grosso modo, a duas vezes o desvio-padrão. As 342 fatias com excesso acima de 2 ficaram de fora, assim como as vizinhanças das frequências redondas, e o resultado vale para o intervalo entre 0,01 e 43,97 hertz.

Figura 11: A mesma análise em frequências mais altas, de 1,1 a 29,9 Hz. Entre 1,1 e 3,9 Hz, linhas fortes alargam a distribuição
Figura 11 A mesma análise em frequências mais altas, de 1,1 a 29,9 Hz. Entre 1,1 e 3,9 Hz, linhas fortes alargam a distribuição; acima de 5,1 Hz, o ruído é praticamente gaussiano.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · Fig. B2 do artigo original

O resultado mais sólido do trabalho está resumido na última figura do artigo. Em torno de 3 × 10−14 eV, onde a primeira ressonância de Schumann amplifica o sinal esperado, o limite chega a cerca de 4 × 10−13 GeV−1, aproximadamente cem vezes abaixo do patamar do CAST. Nessa região, a nova restrição também supera as obtidas por observações em raios X dos telescópios espaciais Chandra e NuSTAR. E preenche uma lacuna: entre a área excluída pelos dados da SuperMAG, nas massas mais baixas, e a região descartada por um estudo que cruzou mapas da radiação cósmica de fundo do satélite Planck com o catálogo de galáxias unWISE, nas massas mais altas, havia uma janela que agora se fecha, ainda que as restrições astrofísicas de Chandra e NuSTAR já a cobrissem. Em toda a faixa entre 10−15 e 10−13 eV, segundo os autores, trata-se do limite mais rigoroso já obtido por meios observacionais diretos.

Figura 12: Limite superior, com 95% de confiança, para o acoplamento áxion-fóton obtido com os dados de Eskdalemuir (azul, “This work”), comparado às regiões excluídas por SuperMAG, SNIPE, CAST e Planck × unWISE, às restrições astrofísicas de Chandra e NuSTAR e às sensibilidades projetadas para Athena, DANCE e cavidades twisted anyon. Áreas preenchidas vêm de medições diretas
Figura 12 Limite superior, com 95% de confiança, para o acoplamento áxion-fóton obtido com os dados de Eskdalemuir (azul, “This work”), comparado às regiões excluídas por SuperMAG, SNIPE, CAST e Planck × unWISE, às restrições astrofísicas de Chandra e NuSTAR e às sensibilidades projetadas para Athena, DANCE e cavidades twisted anyon. Áreas preenchidas vêm de medições diretas; curvas sem preenchimento, de métodos astrofísicos dependentes de modelos.Crédito: Nishizawa, Taruya e Himemoto (2026), Progress of Theoretical and Experimental Physics, 073E02 · CC BY 4.0 · dados de comparação: C. O’Hare, AxionLimits · Fig. 6 do artigo original

Fora desse ponto ideal, a restrição perde força por motivos distintos. Nas massas mais baixas, o enfraquecimento vem da escolha dos segmentos de oito horas e da resolução em frequência correspondente, que não acompanha o tempo de coerência dos áxions mais leves. Os autores observam que otimizar o tamanho dos segmentos, ou a resolução, para cada massa poderia tornar o limite comparável aos da SuperMAG. Nas massas acima de 10−14 eV, a perda decorre da própria física do problema, já que a resposta do campo magnético terrestre ao áxion cai rapidamente, como mostrava a curva teórica. Parte da margem de melhora, portanto, depende apenas de reprocessar os mesmos dados com outra estratégia, sem instalar um único sensor novo.

A relação com os limites astrofísicos merece atenção. As restrições de Chandra e NuSTAR dependem da conversão entre fótons e áxions nos campos magnéticos de galáxias e aglomerados de galáxias, que deixaria marcas no espectro de raios X de fontes distantes. O método é poderoso, mas depende fortemente da intensidade e da estrutura desses campos ao longo da linha de visada, grandezas difíceis de medir, e os autores ressaltam que é complicado estimar a incerteza dessas restrições. O candidato mais forte da lista, com razão sinal-ruído próxima de 13, só seria compatível com elas se esses limites fossem dez vezes menos rigorosos do que se acredita. Os candidatos típicos, com razão sinal-ruído de algumas unidades, ficam compatíveis com as restrições astrofísicas dentro de um fator de poucas vezes na intensidade do acoplamento.

Faltava enfrentar uma objeção técnica, o chamado efeito estocástico. Como o campo do áxion resulta da soma de muitas ondas com fases aleatórias, sua amplitude local flutua de um intervalo de coerência para outro, e uma medição curta demais pode flagrar o campo num momento de baixa, o que tornaria o limite otimista em excesso. O efeito só pesa quando o tempo de medição é menor que o tempo de coerência. Os 9.909 segmentos de oito horas, com uma fração de dados de boa qualidade estimada em cerca de 10%, somam um tempo efetivo de medição de aproximadamente 300 dias, mais de dez vezes o tempo de coerência na faixa de massas mais sensível. Acima de 2 × 10−15 eV, ou 0,4 hertz, o efeito é desprezível, e o avanço em relação à SuperMAG e ao CAST não é afetado por ele.

O que fazer, então, com os 65 candidatos? Os autores são diretos: não há informação adicional disponível para vetá-los, e por isso todos devem ser mantidos como possíveis sinais em buscas futuras. O caminho para separar física de artefato passa por duas frentes. A primeira é estudar a fundo as propriedades do ruído do próprio instrumento de Eskdalemuir. A segunda, talvez a mais poderosa, é conferir os candidatos nos registros de outros observatórios magnéticos. Um áxion de verdade não teria preferência por um vale escocês: sua frequência seria a mesma em qualquer ponto do globo, porque é ditada pela massa da partícula, e sua amplitude seguiria o padrão previsto pela teoria para cada local. Um defeito de um digitalizador antigo, por sua vez, dificilmente se repetiria do outro lado do mundo.

Experimentos dedicados também entram nessa conta. Os autores citam o DANCE, uma cavidade óptica em anel desenvolvida no Japão que procura a minúscula rotação que o áxion provocaria na polarização da luz; as cavidades twisted anyon, ressonadores de geometria torcida desenvolvidos na Austrália, nos quais certos modos alinham os campos elétrico e magnético, a configuração que interage diretamente com o áxion; e o observatório de raios X Athena, da Agência Espacial Europeia, hoje reformulado sob o nome NewAthena e previsto para a década de 2030. As curvas de sensibilidade projetadas para esses projetos descem muito abaixo da nova restrição e cobrem a região dos candidatos. Se algum dos 65 sinais tiver origem física, esses instrumentos terão condições de confirmá-lo; se nada aparecer, a lista poderá ser aposentada com segurança.

O alcance da ideia vai além do áxion. A mesma metodologia pode ser adaptada para outros tipos de matéria escura ultraleve que interajam com o eletromagnetismo, como os fótons escuros, versões invisíveis da partícula de luz que se misturariam fracamente com os fótons comuns, ou partículas dotadas de cargas elétricas minúsculas, frações ínfimas da carga do elétron. Campos magnéticos terrestres já vêm sendo usados para limitar essa mistura dos fótons escuros, inclusive num trabalho recente que reúne os três autores e o pesquisador K. Nomura. Cada novo candidato à matéria escura que acople com a luz ganha, assim, um laboratório pronto, com dimensões planetárias, à espera apenas de modelos teóricos adequados e de dados de qualidade.

Há algo de exemplar na economia desse experimento. Ele não exigiu ímãs supercondutores, cavidades resfriadas a temperaturas próximas do zero absoluto nem novos telescópios no espaço. O ímã é o planeta, a caixa de ressonância é a atmosfera, a fonte de ruído são as tempestades, e o detector é um par de bobinas que já existia, instalado décadas atrás para estudar o próprio campo magnético da Terra. O que fez diferença foi um modelo teórico capaz de prever como o sinal se comportaria nessa cavidade natural e a paciência de processar dez anos de dados, segmento por segmento. Observatórios magnéticos espalhados por todos os continentes, muitos com séries históricas longas, formam um patrimônio científico que pode ganhar uma segunda vida nessa busca.

Pode ser que nenhum dos 65 candidatos sobreviva ao confronto com outros observatórios, e que a regularidade suspeita de suas frequências revele, no fim, apenas os tiques de um digitalizador envelhecido. Mesmo nesse cenário, o trabalho deixa uma conquista duradoura: uma região inteira de possibilidades para a matéria escura foi riscada do mapa, e uma nova maneira de procurá-la entrou para o repertório da física. Enquanto houver tempestades, a Terra continuará vibrando perto de 7,8 hertz, como um sino tocado sem pausa pelos relâmpagos. Se a matéria escura for feita de áxions, ela também pode estar soando nesse coro, numa nota tão grave e tão pura que só um planeta inteiro, escutado com paciência durante uma década, seria capaz de revelar.

Fonte: Nishizawa, A.; Taruya, A.; Himemoto, Y. “Axion Dark Matter Search from Terrestrial Magnetic Fields at Extremely Low Frequencies”. Progress of Theoretical and Experimental Physics, 2026, 073E02 (27 p.), publicado em 8 de junho de 2026. DOI: 10.1093/ptep/ptag108.