Lua minguante, Vênus e o aglomerado das Híades se encaixam, num campo de visão de apenas 18,4 graus, no céu da madrugada de 22 de julho de 1889 em Saint-Rémy, dizem pesquisadores sul-coreanos
O céu de “A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh, corresponde ao céu real da madrugada de 22 de julho de 1889, com a Lua minguante, Vênus e as Híades reunidos num campo de visão de só 18,4 graus, segundo um novo estudo publicado em 22 de outubro.
A conclusão contraria a datação de junho de 1889, aceita há décadas, e muda a leitura do quadro: em vez de fantasia nascida da crise do pintor, a tela seria a transformação de um céu que ele viu pela janela do asilo.
Van Gogh pintou a obra em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França, internado no asilo de Saint-Paul-de-Mausole. A única carta que a menciona com clareza é de 18 de junho de 1889 e fala só de “um novo estudo de céu estrelado”, sem dizer quando ele o terminou.
Leituras astronômicas anteriores se contradiziam: em 1984, Albert Boime apostou na madrugada de 19 de junho e viu Áries no centro da tela; em 1986, Charles Whitney descartou esse dia e chamou o quadro de “compósito celeste”.
O novo trabalho é de Elijah Jeong-hyun Kim, Suna Kang e Jungwoo Song, da empresa SLLAB, em Yongin, na Coreia do Sul, e de Ho Jin, da Universidade Kyung Hee. Kim já havia proposto a data num livro em coreano de 2025.
O método lembra sobrepor um desenho em papel vegetal a um mapa de estrelas: o papel pode deslizar, girar e mudar de escala, mas nunca ser esticado numa direção só. O desencaixe que sobra vira um índice de fidelidade em porcentagem, chamado ρCS.
A técnica foi testada numa tela de Millet e calibrada em duas que Van Gogh pintou em Arles, em 1888, diante de lugares conhecidos. Na “Noite Estrelada sobre o Ródano”, a Ursa Maior encaixou no céu real com erro de 6,54%; no “Terraço do Café à Noite”, o Triângulo de Verão ficou em 5,46%.
Para “A Noite Estrelada”, faltava saber que fatia de céu ele enquadrou. A pista veio do desenho F1541v, que mostra o mesmo vilarejo e a mesma igreja da tela; em 2019, a equipe achou na serra o ponto que corresponde a ele, a 1,96 quilômetro da igreja, quase vinte campos de futebol.
Fotografias feitas ali mostram que o desenho cobre um campo de só 18,4 graus na diagonal, o equivalente a uma teleobjetiva de 134 milímetros: um retângulo onde cabem cerca de 37 Luas cheias enfileiradas, mas não a Ursa Maior inteira.
No céu de 1889, a moldura vira peneira: com a Lua acima de Vênus, os dois só cabem juntos no retângulo em 23 de junho e em 22 e 23 de julho, às 3 da manhã. Em 22 de julho, as Híades, a face em V do Touro, ocupam o centro, com a Lua e Vênus em cantos opostos.
Uma Lua que não batia com o calendário
A data de junho tropeça na própria Lua. Em 19 de junho de 1889, o disco lunar estava 63,1% iluminado, uma Lua gibosa, nada parecida com a foice fina do quadro. Em 22 de julho, a iluminação cai para 28,4%, e a fase combina com a pintura.
Os cinco pontos centrais da tela encaixam no esqueleto das Híades com erro de 8,17%, a melhor entre as 120 maneiras de rotular essas estrelas; a réplica a traço que Van Gogh fez do quadro encaixa ainda melhor, com 6,62%.
“Como poderia um céu inventado se encaixar tão bem no céu de uma data específica?”, escreveram os autores no artigo. Para eles, o ônus da prova agora recai sobre quem defende a leitura puramente imaginativa.
O próprio Vincent chamou essas telas de “exageros do ponto de vista do arranjo”, numa carta de setembro de 1889. “O exagero pressupõe um objeto real para ser amplificado”, escreveram os autores no artigo.
Havia um obstáculo biográfico: a crise epiléptica que teria derrubado o pintor em meados de julho. Numa carta de Theo, porém, o médico do asilo fala em “um dia ou dois”, e a menção de Vincent a “um dia de vento”, cruzada com os registros meteorológicos, desloca a crise para 27 a 29 de julho, dias de mistral persistente.
O calor também pesa: em junho de 1889, Avignon teve só quatro dias com 30 graus ou mais; em julho foram dezoito, quinze deles seguidos, cenário que combina com as cigarras e o calor que o pintor descreveu ao agrupar o quadro com outras telas do verão.
O estudo tem limites: o ajuste de forma não identifica uma constelação sozinho, pois Áries, Lira e Cocheiro também encaixam e só caem por outros critérios; os registros meteorológicos do século XIX têm lacunas; não há prontuário médico da crise; e a conclusão vale para a correspondência com o céu, não para a data em que a tela foi começada.
Três dos quatro autores trabalham na SLLAB, que declara poder explorar comercialmente o resultado; a pesquisa não teve financiamento externo, e o código e as coordenadas estão abertos no Zenodo e no GitHub.
Se a leitura se sustentar, o próximo passo é aplicar a mesma receita a outras pinturas noturnas da história da arte, cujos céus nunca foram testados.
O estudo foi publicado na revista Scientific Reports.
Saiba mais: https://doi.org/10.1038/s41598-026-73025-5



