O desgaste pode ter passado de 10 metros e alcançado camadas preservadas da radiação que o visitante enfrentou entre as estrelas.

3I/ATLAS perto do Sol, com jatos e duas caudas
Concepção artística de 3I/ATLAS perto do Sol, com jatos de gás e poeira saindo do núcleo e as duas caudas: a de poeira, amarelada, e a de gás ionizado, azul. (Ilustração: Space Today)

O Sol arrancou entre 18 e 58 milhões de toneladas de gás do cometa interestelar 3I/ATLAS durante sua passagem pelo Sistema Solar, o suficiente para raspar de 1,7 a 5,2 metros de toda a sua superfície, segundo um novo estudo.

Com a poeira na conta, o desgaste passa de 10 metros e pode chegar a quase 27, a altura de um prédio de nove andares. Se isso aconteceu, o Sol pode ter exposto camadas que a radiação do espaço entre as estrelas não chegou a alterar.

Descoberto em 1º de julho de 2025 pelo telescópio ATLAS, no Chile, o 3I/ATLAS é só o terceiro objeto de outro sistema estelar já flagrado por aqui. Os outros dois foram ʻOumuamua, em 2017, e 2I/Borisov, em 2019. Ele passou pelo ponto mais próximo do Sol no fim de outubro de 2025, a 1,36 unidade astronômica (UA), por dentro da órbita de Marte; cada UA equivale à distância média entre a Terra e o Sol.

Cometas interestelares são sobras da formação de planetas em torno de outras estrelas, e o gás que soltam revela a química desses sistemas distantes. O problema é que 3I/ATLAS vagou por bilhões de anos exposto aos raios cósmicos, partículas de alta energia que alteram os gelos da superfície.

Cometa a caminho do Sol
Concepção artística do cometa a caminho do Sistema Solar interior, depois de bilhões de anos vagando entre as estrelas. (Ilustração: Space Today)

Um estudo de 2025 estimou que essa radiação converteu monóxido de carbono em dióxido de carbono até 15 a 20 metros de profundidade. Ou seja, a “casca” do cometa pode não refletir a receita original do sistema onde ele nasceu.

Para descobrir quanto dessa casca o Sol removeu, Tessa Frincke e Darryl Seligman, da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, reuniram todas as taxas de produção de gás já publicadas para o cometa. A tabela traz medições do Telescópio Espacial James Webb, do SPHEREx, do SOHO, da sonda JUICE e de cerca de uma dúzia de observatórios em solo.

Cada medição informa quantas moléculas escapavam por segundo em um certo dia. A dupla converteu esses números em quilos por segundo, somou tudo ao longo da trajetória e calculou a espessura da camada perdida.

É como estimar quanto gelo uma geleira perdeu no verão medindo a vazão do rio que nasce dela, em dias espaçados e com réguas diferentes. O tamanho do corpo pesa muito na conta: a mesma perda que mal arranha um núcleo grande pode desmanchar um pequeno. Para 3I/ATLAS, a equipe usou um raio de 1,3 quilômetro e a densidade típica de um cometa, metade da densidade da água.

Na conta final, a perda só em gás ficou entre 0,40% e 1,25% da massa do cometa. Água, monóxido de carbono e dióxido de carbono responderam pela maior parte dela. Antes do periélio, a água dominou; depois, o monóxido de carbono ganhou peso.

Espalhada pela superfície, essa massa corresponde a uma camada de 1,71 a 5,24 metros, da altura de uma pessoa à de um sobrado. Parece muito, mas é no máximo 0,4% do raio do núcleo.

A poeira muda a conta

Cometas não perdem só gás. Um modelo publicado em 2026 estimou que 3I/ATLAS chegou a expelir até 18 toneladas de poeira por segundo, com uma massa de poeira entre uma e quatro vezes a de gás.

Com a poeira incluída, a erosão chega a 10,5 metros quando poeira e gás pesam o mesmo, e a 26,65 metros no cenário mais extremo, com quatro vezes mais poeira do que gás. Uma estimativa independente, feita com dados do Webb, encontrou valores entre 2,5 e 56,5 metros.

Núcleo do cometa em corte, com crosta escura e gelo claro
Concepção artística do núcleo em corte: por fora, a crosta escura alterada pelos raios cósmicos; por dentro, o gelo que o Sol pode ter exposto ao raspar metros da superfície. (Ilustração: Space Today)

Esses valores ficam perto da profundidade que os raios cósmicos teriam alterado. Só com o gás, a erosão não atravessaria a crosta processada; com a poeira, pode ter atravessado.

“É possível que a superfície tenha sido desgastada até camadas de material não alterado”, escreveram os autores no artigo.

A química do cometa combina com essa ideia. Na chegada, a coma, a nuvem de gás em volta do núcleo, era rica em dióxido de carbono e pobre em monóxido, o perfil que se espera de uma crosta irradiada. Depois do periélio, o monóxido de carbono virou o gás dominante, uma virada que, segundo os autores, ainda precisa de mais dados para ser confirmada.

Os pesquisadores tratam os números com cautela. As medições vêm de instrumentos e técnicas diferentes e cobrem a trajetória com lacunas, por isso eles apresentam os cálculos “como aproximações e limites inferiores”. A perda real, portanto, tende a ser maior.

O método vale para qualquer pequeno corpo que perca massa, de cometas comuns a asteroides ativos. E 3I/ATLAS não será o último visitante: o Observatório Vera C. Rubin deve encontrar novos objetos interestelares nos próximos anos. Com sorte, algum deles será menor ou ficará mais tempo perto do Sol e mostrará ainda mais do que guarda por baixo da casca.

O estudo foi publicado em versão antecipada na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Saiba mais: Frincke & Seligman (2026), “Assessment of the Mass Loss and Radius Change of 3I/ATLAS Based on Observed Production Rates”, MNRAS