Enquanto você lê esta frase, algo em torno de 65 bilhões de neutrinos nascidos no núcleo do Sol atravessam cada centímetro quadrado da ponta do seu dedo, a cada segundo, e praticamente todos seguem viagem sem esbarrar em um único átomo do seu corpo. São as partículas de matéria mais numerosas do cosmos e também as mais esquivas, capazes de cruzar um planeta inteiro como a luz cruza uma vidraça. Durante décadas, os físicos acreditaram que elas não tinham massa nenhuma. Estavam errados, e o erro abriu uma fresta no edifício teórico mais bem testado da ciência moderna. Por essa fresta, os teóricos passaram a enxergar uma família de parentes pesadíssimos dos neutrinos, partículas que nunca foram vistas e talvez jamais sejam.

Esses parentes podem guardar a resposta para uma das perguntas mais antigas que a humanidade já formulou: por que existe alguma coisa, em vez de nada. Um deles, o mais pesado e o mais solitário, costuma ser simplesmente apagado das contas. Um estudo publicado em 8 de setembro de 2026 na Physical Review Letters, uma das revistas mais prestigiadas da física, editada pela Sociedade Americana de Física, sugere que essa borracha pode ter apagado, junto com ele, um capítulo inteiro da infância do Universo. O trabalho, de acesso aberto, é assinado por Rishav Roshan, da Escola de Física e Astronomia da Universidade de Southampton, no Reino Unido, e por Sudipta Show, do Departamento de Física do Instituto Indiano de Tecnologia de Kanpur, na Índia.

A tese central cabe numa frase. O terceiro neutrino pesado do chamado mecanismo de gangorra mínimo, aquele que quase todos os estudos tratam como irrelevante, pode ter dominado o conteúdo de energia do Universo durante uma fase muito precoce e, com isso, alterado o ritmo da expansão cósmica. Essa mudança de andamento, mostram os autores, atrasa o momento em que certas interações entre partículas entram em equilíbrio no plasma primordial, e o atraso mexe nas regras de um dos cenários mais estudados para explicar a origem da matéria. O artigo chegou à revista em 6 de novembro de 2025, foi revisado em 19 de junho de 2026 e aceito em 12 de agosto, depois de mais de nove meses de escrutínio por especialistas independentes.

Para entender por que uma partícula descartada pode ter tanta importância, é preciso voltar ao problema que ela ajuda a resolver. O Modelo Padrão da física de partículas, a teoria que descreve quarks, elétrons, fótons e o bóson de Higgs e que sobreviveu a meio século de testes cada vez mais exigentes, foi construído com neutrinos sem massa. Durante muito tempo, isso pareceu razoável. Então vieram os detectores subterrâneos. Em 1998, o japonês Super-Kamiokande, um tanque com 50 mil toneladas de água ultrapura instalado a um quilômetro de profundidade, mostrou que os neutrinos produzidos pelos raios cósmicos na atmosfera mudavam de identidade no caminho até o instrumento.

Poucos anos depois, o Observatório de Neutrinos de Sudbury, no Canadá, confirmou que os neutrinos vindos do Sol faziam o mesmo. Esse fenômeno, batizado de oscilação, só é possível se os neutrinos tiverem massa, e a descoberta rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2015 ao japonês Takaaki Kajita e ao canadense Arthur McDonald. A massa existe, mas é minúscula. Em 2025, o experimento KATRIN, instalado no Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, estabeleceu que a massa efetiva do neutrino associado ao elétron não passa de 0,45 elétron-volt, enquanto o próprio elétron tem 511 mil elétrons-volt. A diferença ultrapassa um fator de um milhão.

Nenhuma outra partícula de matéria conhecida chega perto dessa leveza, e isso incomoda os teóricos. No Modelo Padrão, as partículas ganham massa ao interagir com o campo de Higgs, cada uma com uma intensidade própria, medida por números chamados acoplamentos de Yukawa, em homenagem ao físico japonês Hideki Yukawa, Nobel de 1949. Se os neutrinos obtivessem massa da mesma maneira, seus acoplamentos teriam de ser da ordem de um trilionésimo, milhões de vezes menores que o do elétron, que já é o mais fraco entre as partículas carregadas. Para muitos físicos, um número tão pequeno e sem explicação é sintoma de física nova operando em energias muito acima do alcance dos laboratórios.

A saída mais elegante para esse descompasso foi formulada entre 1977 e 1982, em trabalhos independentes de Peter Minkowski, Tsutomu Yanagida, Murray Gell-Mann, Pierre Ramond, Richard Slansky, Rabindra Mohapatra, Goran Senjanović, Joseph Schechter e José Valle. A ideia é acrescentar ao Modelo Padrão uma nova família de partículas, os neutrinos de mão direita, que podem ter massas gigantescas. Feitas as contas, a massa do neutrino leve que observamos surge do quadrado de uma massa comum, do tipo que o Higgs confere às outras partículas, dividido pela massa enorme do parceiro pesado. Como numa gangorra de parquinho, quanto mais sobe um lado, mais desce o outro, e daí vem o nome inglês do mecanismo, seesaw, que significa justamente gangorra.

Equação 1: lagrangiana do mecanismo de gangorra do tipo I
Equação 1

A lagrangiana do mecanismo de gangorra do tipo I. Os três neutrinos de mão direita se ligam aos léptons de mão esquerda e ao Higgs pela matriz de acoplamentos de Yukawa, e cada um carrega uma massa própria, que não depende do Higgs.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

A expressão “de mão direita” se refere à quiralidade, uma propriedade quântica que, para partículas muito leves, coincide na prática com o sentido em que elas giram em torno de si mesmas em relação à direção do movimento. Todos os neutrinos já detectados são canhotos: giram no sentido oposto ao de um parafuso comum que avança. Os de mão direita nunca apareceram em nenhum detector, e há um bom motivo para isso. No jargão técnico, eles são singletos do grupo de simetria do Modelo Padrão, o que significa que não têm carga elétrica, não sentem a força nuclear forte e não sentem nem mesmo a força fraca, a única que permite flagrar os neutrinos comuns.

Comunicam-se com o resto do mundo apenas pela gravidade e por um fio muito fino, o acoplamento de Yukawa com o bóson de Higgs e com os léptons de mão esquerda. Nem por isso são uma invenção ad hoc, criada só para tapar um buraco. Aparecem naturalmente em teorias de grande unificação, como as baseadas nos grupos de simetria SO(10) e E6, que tentam reunir as forças fundamentais numa única estrutura, e se tornam obrigatórios em extensões do modelo com simetrias adicionais, nas quais são necessários para cancelar inconsistências quânticas conhecidas como anomalias. Essa coerência teórica explica por que a gangorra, em sua versão mais simples, chamada de tipo I, é uma das explicações preferidas para a massa dos neutrinos.

Na versão completa da teoria existiriam três neutrinos pesados, batizados de N1, N2 e N3, em ordem crescente de massa. Os experimentos de oscilação, porém, medem apenas duas diferenças entre os quadrados das massas dos neutrinos leves, e nunca a massa absoluta de nenhum deles. Isso abre um atalho: com apenas dois neutrinos pesados já é possível reproduzir todos os dados disponíveis. Esse é o mecanismo de gangorra mínimo, estudado extensivamente desde o ano 2000. Nele, o terceiro neutrino pesado não desaparece da natureza, mas sai de cena, seja porque tem massa extremamente grande, seja porque seus acoplamentos com as partículas comuns são quase nulos, seja pelas duas razões juntas.

Uma consequência direta dessa arquitetura é que um dos três neutrinos leves fica praticamente sem massa. Na prática, os físicos riscaram o pesado esquecido das equações, partindo do princípio de que sua contribuição para as massas e para a história do cosmos seria desprezível. Para mantê-lo fora do jogo, a matriz de acoplamentos usada pelos autores tem uma terceira coluna formada por números minúsculos, chamados ϵ1, ϵ2 e ϵ3, todos muito menores que 1, enquanto as duas primeiras colunas, ligadas a N1 e N2, cuidam de explicar as oscilações observadas. É uma partícula quase invisível até para as outras partículas invisíveis.

Equação 2: matriz de acoplamentos de Yukawa com terceira coluna quase nula
Equação 2

A estrutura da matriz de acoplamentos adotada no estudo. As duas primeiras colunas, ligadas a N1 e N2, explicam as oscilações; a terceira, ligada a N3, é formada por números minúsculos (ϵ1, ϵ2 e ϵ3, muito menores que 1), o que deixa o neutrino pesado quase desligado do resto da física.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

Roshan e Show resolveram fazer a pergunta que quase ninguém tinha feito: o que essa partícula estava fazendo nos primeiros instantes do cosmos? A resposta depende de duas propriedades que, à primeira vista, deveriam reforçar a ideia de irrelevância. N3 é muito pesado e interage muito pouco. Partículas que interagem pouco demoram a decair. Partículas pesadas, quando deixam de se mover a velocidades próximas à da luz, comportam-se como matéria comum, e matéria, num Universo em expansão, perde energia mais devagar que radiação. Juntando as duas coisas, os autores mostram que N3 pode sobreviver o suficiente para se tornar o componente dominante da energia do Universo, inaugurando uma era de dominação da matéria muito anterior à que os livros de cosmologia descrevem.

Na história cósmica tradicional, a matéria só passou a dominar o orçamento energético dezenas de milhares de anos depois do início da expansão, abrindo caminho para que a gravidade reunisse o gás em galáxias. A era proposta pelos autores teria acontecido muito antes de o Universo completar um bilionésimo de bilionésimo de segundo. Tudo começa no reaquecimento, quando a energia do campo que impulsionou a inflação, a expansão exponencial dos primeiríssimos instantes, se converte num plasma quente. Os autores supõem esse processo instantâneo, com o plasma a 1016 gigaelétrons-volt, ou GeV, unidade que os físicos de partículas usam tanto para energia quanto para temperatura, o equivalente a cerca de 1029 kelvin.

Eles assumem ainda que os três neutrinos pesados entraram em equilíbrio térmico com o plasma. Uma forma natural de garantir isso, apontam, é uma simetria extra conhecida como B menos L, a diferença entre o número de bárions e o número de léptons, cujas interações aproximariam os neutrinos pesados do banho térmico sem encurtar a longa vida de N3. A partir daí, o terceiro neutrino se desacopla, ou seja, deixa de trocar energia com o meio, porque seus acoplamentos com os léptons e com o Higgs são extremamente fracos, embora não nulos. E começa uma disputa regida por uma regra simples de contabilidade cósmica, que decide quem manda no Universo a cada momento.

Quando o tamanho do Universo dobra, o volume fica oito vezes maior, e tanto a matéria quanto a radiação ficam oito vezes mais rarefeitas. A radiação, porém, paga um imposto extra: o comprimento de onda de cada uma de suas partículas também dobra, e a energia de cada uma cai pela metade. Resultado: a densidade de energia da matéria cai oito vezes; a da radiação, dezesseis. Enquanto o plasma é quente o bastante para que N3 se mova perto da velocidade da luz, ele paga os dois impostos. Quando a temperatura cai abaixo de sua massa, a partícula fica lenta, passa a se comportar como matéria e sua fatia no orçamento cósmico começa a crescer.

Para acompanhar essa disputa com precisão, os autores resolveram numericamente um par de equações de Boltzmann, ferramentas que descrevem como a energia de cada componente evolui à medida que o Universo cresce. Uma delas acompanha a densidade de energia de N3, que perde a cada instante a parcela que decai. A outra acompanha a radiação, que recebe exatamente essa parcela, porque os produtos do decaimento, léptons e bósons de Higgs, se juntam ao plasma. O ritmo da expansão, medido pelo parâmetro de Hubble, depende da soma das duas. O caso de referência usa N3 com massa de 1014 GeV e uma massa de 5 × 10−12 elétron-volt para o mais leve dos três neutrinos comuns.

Equação 5: equações de Boltzmann para N3 e para a radiação
Equação 5

As equações de Boltzmann que acompanham a energia de N3 e a da radiação: o que N3 perde ao decair é exatamente o que o plasma ganha. O fator F vale 4 enquanto N3 é relativístico e 3 quando ele fica lento, e a razão entre a largura de decaimento e a taxa de expansão regula a transferência.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

O resultado aparece na primeira figura do artigo. No início, as curvas de energia de N3 e da radiação descem quase paralelas. Quando o Universo cresce cerca de cem vezes em relação ao momento do reaquecimento, a temperatura cai até a casa da massa de N3, e a curva do neutrino pesado muda de inclinação, passando a cair mais devagar. Depois de um crescimento de alguns milhares de vezes, ela cruza a curva da radiação. A partir desse ponto, o Universo entra numa era dominada por N3, que se estende enquanto o tamanho do cosmos se multiplica por mais alguns milhares. Só quando N3 termina de decair a radiação volta ao comando, e a história retoma o roteiro dos livros-texto.

Gráfico log-log das densidades de energia do neutrino pesado N3 e da radiação em função do fator de escala, mostrando a era dominada por N3 entre duas eras de radiação
Figura 1

Evolução das densidades de energia do neutrino pesado N3 (vermelho) e da radiação (preto) conforme o Universo cresce, medido a partir do reaquecimento. Enquanto se move perto da velocidade da luz, N3 perde energia no mesmo ritmo do plasma; ao ficar lento, por volta de um crescimento de cem vezes, passa a cair mais devagar, cruza a curva da radiação e inaugura uma era dominada por ele, que só termina com o seu decaimento. Caso de referência: N3 com 1014 GeV e neutrino mais leve com 5 × 10−12 eV.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

Há um detalhe engenhoso nessa construção. Os acoplamentos de N3 com as partículas comuns são justamente o que confere ao mais leve dos neutrinos comuns a sua massa minúscula, mas diferente de zero. Para reconstruir a matriz completa a partir dos dados de oscilação, os autores usam a parametrização de Casas-Ibarra, criada em 2001 pelos físicos Alberto Casas e Alejandro Ibarra, alimentada com os melhores valores medidos dos ângulos de mistura, da fase que distingue matéria de antimatéria e das diferenças entre os quadrados das massas. Eles assumem o ordenamento normal, em que o neutrino mais leve é o primeiro da fila, e lembram que a mesma relação vale para o ordenamento invertido com uma escolha apropriada dos parâmetros.

Equação 3: parametrização de Casas-Ibarra
Equação 3

A parametrização de Casas-Ibarra, que reconstrói os acoplamentos a partir dos dados de oscilação. U é a matriz de mistura dos neutrinos, as matrizes diagonais trazem as raízes quadradas das massas leves e pesadas, e v = 246 GeV é a escala definida pelo Higgs.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

Nessa receita, os acoplamentos de N3 crescem com a raiz quadrada do produto entre a massa do neutrino mais leve e a massa do próprio N3. Quanto menor a massa do neutrino leve, mais fracos os acoplamentos, mais lento o decaimento e mais longa a era de matéria. A pequenez dos acoplamentos também poderia vir de uma rotação adicional na matriz de parâmetros, com resultados equivalentes, e o comportamento de N3 é praticamente insensível ao restante da matriz. O que aconteceu no primeiro instante do cosmos fica, assim, amarrado a um número que pertence à física de baixas energias: a massa de uma partícula que atravessa o seu corpo neste momento.

Equação 4: matriz ortogonal complexa R
Equação 4

A matriz ortogonal complexa R escolhida pelos autores, que depende de um ângulo complexo com parte real a e parte imaginária b. No caso de referência, a = 0,6 e b = −0,8.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

Para medir as consequências da era de N3, os autores escolheram um fenômeno sutil, mas decisivo: o instante em que as interações de Yukawa dos léptons carregados entram em equilíbrio. Em cosmologia, dizer que uma interação está em equilíbrio significa que ela acontece com frequência suficiente para acompanhar a expansão. Imagine uma pista de dança que cresce sem parar. Se os dançarinos esbarram uns nos outros muitas vezes antes que o salão aumente de forma apreciável, eles trocam energia e informação o tempo todo, e o baile se mantém homogêneo. Se o salão cresce depressa demais, os encontros rareiam e cada dançarino segue isolado. O critério dos físicos compara a taxa da interação com o parâmetro de Hubble.

Os léptons carregados, primos dos neutrinos que carregam carga elétrica, são três: o elétron, o múon, cerca de 207 vezes mais pesado, e o tau, cerca de 3.477 vezes mais pesado que o elétron. Como as demais partículas do Modelo Padrão, eles devem suas massas ao Higgs, e quanto mais pesado o lépton, mais forte o acoplamento e mais frequente a interação correspondente. No plasma primordial, a reação que importa é o decaimento do bóson de Higgs, e o processo inverso, envolvendo os léptons de mão esquerda e os de mão direita. O Higgs adquire ali uma massa térmica, efeito do próprio calor do meio, de cerca de 0,6 vez a temperatura.

Quando a interação é mais rápida que a expansão, a razão entre as duas taxas passa de 1, e a interação se considera em equilíbrio. Como essa razão cresce à medida que o Universo esfria, cada lépton tem sua temperatura de equilíbrio, mais baixa quanto mais fraco o acoplamento. Num cosmos dominado o tempo todo pela radiação, as contas dão cerca de 5 × 1011 GeV para o tau, perto de 6 × 1024 kelvin, cerca de 109 GeV para o múon e cerca de 5 × 104 GeV para o elétron. Os números estão na segunda figura do artigo, onde uma linha horizontal marca o valor 1 e cada lépton cruza essa linha no seu próprio tempo.

Equação 6: condição de equilíbrio da interação de Yukawa do tau
Equação 6

A condição de equilíbrio da interação de Yukawa do tau num Universo dominado pela radiação. De um lado, a taxa de decaimento e de decaimento inverso do Higgs, com massa térmica de cerca de 0,6 vez a temperatura; do outro, a taxa de expansão. A igualdade dá 5 × 1011 GeV.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

É aqui que o neutrino esquecido mostra a sua força. O ritmo da expansão depende de toda a energia contida no Universo, e não apenas da energia do plasma. Durante a era dominada por N3, existe um reservatório extra de energia que não entra na conta da temperatura, mas acelera a expansão. Para uma mesma temperatura do plasma, o cosmos cresce mais depressa do que cresceria no cenário padrão. A corrida entre interação e expansão fica mais difícil para os léptons, e o equilíbrio só chega mais tarde, a temperaturas mais baixas. É como tentar atravessar uma esteira rolante no sentido contrário: se a esteira acelera, quem caminha no mesmo passo demora mais para chegar ao fim.

Para quantificar o efeito, os autores calculam a temperatura do plasma a partir da energia da radiação obtida nas equações de Boltzmann e refazem a corrida com a expansão modificada. Com N3 de 1014 GeV e neutrino mais leve de 5 × 10−12 eV, a curva do tau se afasta da curva padrão quando começa a era de matéria e só volta a coincidir com ela quando N3 termina de decair. O equilíbrio, antes atingido a 5 × 1011 GeV, passa a acontecer a 7 × 1010 GeV, uma temperatura cerca de sete vezes menor. Reduzindo a massa do neutrino mais leve para 5 × 10−13 eV, o desvio começa no mesmo ponto, mas dura mais, porque acoplamentos mais fracos alongam a vida de N3.

Equação 7: temperatura em função da densidade de energia da radiação
Equação 7

A relação entre a temperatura do plasma e a densidade de energia da radiação, usada para traduzir a solução das equações de Boltzmann no calendário térmico do Universo.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

Com N3 de 1015 GeV, o decaimento fica mais rápido, porque a taxa cresce com a massa, e o efeito se desloca para temperaturas mais altas. O tau entra em equilíbrio a cerca de 9,2 × 1010 GeV com o neutrino mais leve em 5 × 10−12 eV, e a 4,2 × 1010 GeV com 5 × 10−13 eV, quase doze vezes abaixo do valor padrão, um deslocamento de uma ordem de grandeza. Deslocamentos semelhantes, observam os autores, podem ser obtidos para o múon e o elétron. O calendário dos léptons no Universo primordial passa a depender de um personagem que ficava fora do elenco. Resta saber por que alguém deveria se importar com a data em que um lépton começa a conversar com o Higgs.

Gráfico da razão entre a taxa de interação e a taxa de expansão para tau, múon e elétron em função da temperatura, com curvas modificadas pela era de N3
Figura 2

Razão entre a taxa das interações de Yukawa dos léptons carregados e a taxa de expansão, em função da temperatura. As linhas cheias mostram o cenário padrão para o tau (azul), o múon (verde) e o elétron (vermelho), e a linha horizontal marca o limiar de equilíbrio. As curvas tracejadas e traço-ponto mostram como a era de N3 empurra o equilíbrio do tau para temperaturas mais baixas, até 4,2 × 1010 GeV no caso mais extremo, ampliado no quadro inferior.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

A resposta está na pergunta mais incômoda da cosmologia. As leis da física tratam matéria e antimatéria de forma quase simétrica. Um Universo nascido do calor deveria ter produzido quantidades praticamente iguais de partículas e antipartículas, que se aniquilariam umas às outras e deixariam para trás um cosmos feito apenas de luz. Não foi o que aconteceu. As medições da radiação cósmica de fundo feitas pelo satélite Planck, da Agência Espacial Europeia, indicam que sobrou um pequeno excesso de matéria, de cerca de seis bárions, partículas como prótons e nêutrons, para cada dez bilhões de fótons. Na grandeza usada pelos autores, essa assimetria vale 8,75 × 10−11. Tudo o que existe é feito dessa sobra.

Em 1967, o físico soviético Andrei Sakharov listou as três condições para que um excesso desse tipo surja: processos que violem o número de bárions, uma diferença de comportamento entre matéria e antimatéria, conhecida como violação de CP, por envolver as simetrias de carga e de paridade, e um afastamento do equilíbrio térmico. Em 1986, os japoneses Masataka Fukugita e Tsutomu Yanagida mostraram que os neutrinos pesados da gangorra cumprem as três exigências. Nasceu a leptogênese. Nela, o mais leve dos neutrinos pesados, N1, decai fora do equilíbrio e produz um pouco mais de léptons que de antiléptons, graças à violação de CP embutida nos acoplamentos.

Equação 9: assimetria de CP no decaimento de N1
Equação 9

A assimetria de CP no decaimento de N1, que nasce da interferência com processos em que N2 atua como intermediário virtual. Para neutrinos pesados de massas bem separadas, a função F se aproxima de 3M1/(2M2).

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

O excesso de léptons, por si só, não basta. Processos do próprio Modelo Padrão chamados esfalerons, que atuam enquanto o Universo está acima de cerca de 130 GeV, convertem parte dele em excesso de bárions, a matéria de que somos feitos. O mesmo ingrediente que explicaria a leveza dos neutrinos explicaria, assim, a existência de estrelas, planetas e pessoas. É uma das ideias mais econômicas da física teórica, e por isso mesmo uma das mais estudadas. Por muito tempo, porém, os cálculos ignoraram um detalhe que se revelou determinante, a identidade dos léptons produzidos, aquilo que os físicos chamam de sabor.

Os léptons vêm em três sabores, elétron, múon e tau. Quando N1 decai, o lépton produzido não nasce com um sabor definido, mas numa superposição quântica coerente dos três, como um acorde em que três notas soam juntas numa proporção fixada pelos acoplamentos de N1. Enquanto nenhuma interação do plasma distingue os sabores, o acorde se mantém íntegro e a assimetria pode ser calculada como se houvesse um único tipo de lépton. Esse é o regime sem sabor. Quando a interação de Yukawa do tau está em equilíbrio, os léptons recém-nascidos colidem com tanta frequência com os taus de mão direita do plasma que o meio, na prática, mede o seu sabor. A coerência se rompe.

O acorde se separa então em notas distintas, uma componente de tau e uma combinação de elétron e múon, e cada uma passa a ter a sua própria história de produção e apagamento. Os físicos descrevem a situação em termos de regimes. Acima da temperatura de equilíbrio do tau, a leptogênese é de sabor único. Entre essa temperatura e a do múon, vale o regime de dois sabores. Abaixo da do múon, os três precisam ser acompanhados separadamente. A distinção não é um preciosismo. Como cada sabor é apagado com eficiência diferente pelos processos que destroem a assimetria, o resultado final pode mudar de forma significativa conforme o regime em que a leptogênese acontece.

No cenário padrão, um N1 com massa de 1011 GeV decai num ambiente em que o tau já está em equilíbrio, e os cálculos precisam levar os sabores em conta. Apenas um N1 mais pesado que 5 × 1011 GeV preservaria a coerência entre os estados dos léptons, permitindo usar a versão mais simples da teoria, a mesma dos trabalhos pioneiros. Com o neutrino esquecido em cena, esse mapa se desloca. Como a era de matéria empurra a temperatura de equilíbrio do tau para baixo, um N1 de 1011 GeV pode decair num Universo em que o tau ainda não se equilibrou. A coerência quântica sobrevive, e o sistema permanece no regime sem sabor.

Para mostrar o efeito na prática, os autores resolveram ao mesmo tempo as equações de N3 e da radiação e as da leptogênese, que acompanham a energia de N1 e a densidade do número B menos L, a grandeza que os esfalerons convertem, no fim, em excesso de bárions. A assimetria nasce da interferência quântica entre o decaimento direto de N1 e processos em que N2 participa como intermediário virtual. N1 e N2 decaem depressa demais para dominar a energia do cosmos, de modo que toda a mudança de calendário é obra de N3. Certos espalhamentos que alteram o número de léptons em duas unidades podem ser desprezados, porque os acoplamentos de N1 são muito menores que 1.

Equação 8: equações de Boltzmann da leptogênese
Equação 8

As equações de Boltzmann da leptogênese. A primeira acompanha a energia de N1 em relação ao equilíbrio; a segunda, a densidade do número B − L, alimentada pela assimetria de CP ε1 e corroída pelos processos inversos.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

O caso escolhido para ilustrar o resultado tem N1 com 1011 GeV, N2 dez vezes mais pesado, com 1012 GeV, N3 com 1014 GeV e um ângulo complexo, um dos parâmetros da matriz, com parte real 0,6 e parte imaginária −0,8, valores ajustados para que a conta reproduza a assimetria observada de 8,75 × 10−11. A terceira figura do artigo mostra a evolução da assimetria enquanto o Universo cresce, para três valores da massa do neutrino mais leve: 5 × 10−12, 5 × 10−13 e 5 × 10−14 eV. A história tem dois atos, e o segundo é o que torna o resultado relevante.

No primeiro ato, os decaimentos de N1 alimentam o excesso de léptons, que cresce até um pico no momento em que a população de N1 se torna exponencialmente rara, o que os físicos chamam de supressão de Boltzmann. As três curvas sobem praticamente juntas até ali, e o pico fica cerca de duas ordens de grandeza acima do valor observado hoje. No segundo ato, N3 decai tardiamente e injeta entropia no plasma, aquecendo-o e diluindo o excesso acumulado. É como preparar um suco muito concentrado e depois despejá-lo numa jarra de água cujo volume depende de um parâmetro da física de neutrinos. Com o neutrino mais leve em 5 × 10−12 eV, o valor final coincide com o observado.

Gráfico da assimetria bariônica em função do fator de escala para três massas do neutrino mais leve, com subida, pico e diluição
Figura 3

Evolução da assimetria entre matéria e antimatéria enquanto o Universo se expande, para três massas do neutrino mais leve. O excesso cresce com os decaimentos de N1, atinge um pico e depois é diluído pela entropia liberada no decaimento tardio de N3; com 5 × 10−12 eV, o valor final coincide com o observado (linha tracejada). Parâmetros: N1 com 1011 GeV, N2 dez vezes mais pesado e N3 com 1014 GeV.

Crédito: R. Roshan e S. Show, Physical Review Letters 137, 111802 (2026) · CC BY 4.0

Quanto menor a massa do neutrino mais leve, mais longa a era de N3, mais entropia é liberada no seu decaimento e mais o excesso é diluído. As curvas de 5 × 10−13 e 5 × 10−14 eV terminam em patamares abaixo do observado, ordenados pela massa do neutrino. Os autores apresentam o exemplo como uma demonstração de princípio, não como uma previsão fechada. O que ele mostra é que a história modificada da expansão atrasa o equilíbrio dos léptons carregados e permite que um neutrino pesado relativamente leve, de 1011 GeV, produza a assimetria preservando a coerência quântica entre os sabores, um regime que o cenário padrão reservava a partículas pelo menos cinco vezes mais pesadas.

O que dá peso ao trabalho é a economia de ingredientes. Eras de dominação da matéria no Universo primordial não são uma ideia nova, e os cosmólogos costumam invocá-las postulando um campo ou uma partícula de vida longa criada especificamente para esse fim, com propriedades ajustadas à mão. No cenário de Roshan e Show, nada disso é necessário. Dentro do mecanismo de gangorra tipo I mínimo, sem nenhum campo, setor ou simetria novos, o mais pesado dos neutrinos de mão direita é automaticamente uma partícula de vida longa capaz de comandar uma era de matéria. E um único acoplamento fixa ao mesmo tempo o seu tempo de vida, a duração e a entropia da era e a massa do neutrino mais leve.

A era primordial deixa de ser um parâmetro livre e passa a estar amarrada a algo mensurável. Daí sai a previsão mais concreta do estudo: a massa do neutrino mais leve precisa estar na faixa entre 10−12 e 10−14 eV, valor tão próximo de zero que, para efeitos práticos, equivale a um neutrino sem massa. Os autores apontam que isso torna a proposta falseável caso experimentos em andamento ou futuros consigam sondar esse regime, citando o KATRIN e a colaboração Project 8, que pretende pesar o neutrino captando a radiação emitida por elétrons que giram em espiral num campo magnético, técnica chamada espectroscopia de emissão de radiação de cíclotron.

Na prática, nenhum instrumento em operação ou em projeto mede diretamente uma massa de um trilionésimo de elétron-volt, e o teste possível é indireto. O que esses experimentos podem fazer é fixar a escala absoluta das massas dos neutrinos. Se ela se revelar bem acima do mínimo compatível com as oscilações, o neutrino mais leve terá de ser pesado demais para o cenário, e a proposta cai. Se os dados continuarem apontando para o espectro mais hierárquico possível, a hipótese sobrevive. Os autores sublinham que essa correlação entre a era primordial e um observável de baixa energia não existe nas construções genéricas, em que a partícula de vida longa não se conecta a nada que se possa medir.

O céu, curiosamente, vem empurrando os números nessa direção. Em 2025, a combinação dos dados do levantamento DESI, que mapeia milhões de galáxias e quasares para reconstruir a história da expansão, com a radiação cósmica de fundo levou o limite superior da soma das massas dos três neutrinos para cerca de 0,064 elétron-volt. O valor já encosta no mínimo de aproximadamente 0,06 elétron-volt exigido pelas oscilações no ordenamento normal, justamente o esperado quando o neutrino mais leve tem massa praticamente nula. Esses limites dependem do modelo cosmológico adotado e não testam a proposta diretamente, mas indicam que um neutrino quase sem massa está longe de ser uma hipótese exótica.

O segundo caminho para testar a ideia passa pelas ondas gravitacionais, ondulações no tecido do espaço-tempo previstas por Albert Einstein em 1916 e detectadas diretamente pela primeira vez em 2015, pelo LIGO. O artigo não calcula essas assinaturas em detalhe, mas aponta onde procurá-las. Partículas pesadas que decaem no Universo primordial podem emitir ondas gravitacionais por bremsstrahlung, palavra alemã que significa radiação de frenagem, o mesmo mecanismo que faz elétrons desacelerados emitirem raios X. Defeitos topológicos, como paredes e cordas que se formam quando uma simetria se quebra espontaneamente, também podem colapsar e produzir ondas. Detectar um sinal desses demonstraria sem ambiguidade que partículas massivas nasceram e decaíram no cosmos primordial.

Existe ainda um fundo de ondas gravitacionais que o próprio plasma primordial deve ter emitido simplesmente por estar quente. As partículas em agitação térmica produzem um zumbido gravitacional contínuo, apelidado de fundo cósmico de micro-ondas gravitacional, numa analogia com a radiação cósmica de fundo eletromagnética descoberta em 1965. Esse sinal, em frequências de gigahertz ou mais altas, funcionaria como um termômetro do instante mais quente da história cósmica. Uma era de matéria comandada por N3 modificaria todos esses espectros, inclusive o térmico, porque a forma como as ondas se diluem e se esticam depende da história da expansão. Encontrar essas marcas, observam os autores, mostraria que partículas pesadas um dia dominaram o Universo.

Talvez a assinatura mais promissora venha das cordas cósmicas. Se a massa dos neutrinos pesados for gerada pela quebra espontânea de uma simetria de calibre simples, do tipo chamado abeliano, como a própria B menos L, essa quebra pode ter deixado uma rede de cordas cósmicas, filamentos de energia concentrada que atravessariam o Universo oscilando e emitindo ondas gravitacionais ao longo de bilhões de anos. O espectro dessas ondas é praticamente plano, com intensidade semelhante numa faixa enorme de frequências. Uma era de matéria primordial deixaria nele uma quebra, uma mudança de inclinação numa frequência ligada ao momento em que a era terminou. Seria a impressão digital de N3 gravada no ruído de fundo do espaço-tempo.

Os autores defendem a sinergia entre observações em baixas frequências, sensíveis às cordas, e futuras medições em gigahertz ou acima, capazes de iluminar ao mesmo tempo a história da leptogênese, a era de matéria e o deslocamento das temperaturas de equilíbrio. Os instrumentos estão em estágios muito diferentes. Redes que cronometram pulsares, como o NANOGrav, anunciaram em 2023 evidências de um fundo de ondas gravitacionais de nanohertz, cuja origem ainda é debatida. A missão LISA, da Agência Espacial Europeia, adotada em 2024 e com lançamento previsto para 2035, terá sensibilidade para fundos produzidos por cordas cósmicas. Na faixa dos gigahertz, ainda não existe detector capaz de alcançar sinais cosmológicos.

O artigo se encaixa numa linha de pesquisa que Roshan vem construindo há alguns anos. Em 2021, com os colegas Datta e Sil, ele usou na mesma revista uma estrutura parecida de acoplamentos para ligar a gangorra à matéria escura de interação muito fraca. Em 2024, o trio mostrou, também na Physical Review Letters, que um reaquecimento prolongado depois da inflação podia alterar o equilíbrio dos léptons carregados. Em 2025, com Graham White, Roshan assinou na Reviews of Modern Physics uma revisão sobre o uso de ondas gravitacionais para enxergar o primeiro segundo do Universo. A pesquisa atual contou com financiamento britânico, europeu e indiano, e parte dela foi feita na Universidade de Salamanca, na Espanha.

O novo estudo junta essas peças, e as implicações vão além dos léptons. Uma era de matéria primordial altera a relação entre tempo e temperatura durante toda a sua vigência, e qualquer processo que dependa dessa relação sente o efeito. A produção de matéria escura é o exemplo mais evidente, porque muitos modelos calculam a abundância atual dessa substância invisível a partir da taxa de expansão no momento em que suas partículas deixam de interagir com o plasma. O mesmo vale para outros mecanismos de geração da assimetria entre matéria e antimatéria e para as ondas gravitacionais primordiais. Segundo os autores, o mecanismo é geral e deve motivar novas investigações teóricas.

Convém dimensionar com cuidado o alcance do trabalho. Trata-se de um estudo teórico, publicado no formato de carta, com sete páginas, que resolve numericamente as equações para alguns casos de referência escolhidos para ilustrar o fenômeno. Os próprios autores admitem que não tratam explicitamente das assinaturas experimentais, limitando-se a apontar os caminhos para testá-las. O cenário depende de hipóteses específicas, como o equilíbrio térmico inicial dos três neutrinos pesados, e, nos casos em que o deslocamento das fronteiras ainda deixe a leptogênese num regime com sabor, exigiria ferramentas mais sofisticadas, as equações de transporte quântico. Nada disso diminui o resultado, mas o coloca no lugar certo.

Há uma lição maior escondida nesse resultado. As energias envolvidas na história de N3 estão completamente fora do alcance de qualquer acelerador. Uma partícula de 1014 GeV concentra uma energia de repouso mais de sete bilhões de vezes maior que a das colisões do LHC, o maior acelerador do planeta, que chegam a 13,6 mil GeV. O único laboratório capaz de alcançar essas energias foi o próprio Universo em seus primeiros instantes, e a única forma de consultá-lo é procurar as marcas que aquela época deixou em grandezas ainda mensuráveis. Uma conta feita com o pressuposto equivocado sobre a expansão pode classificar a leptogênese no regime de sabor errado e interpretar mal um eventual sinal gravitacional.

Na física, como na literatura, personagens secundários às vezes carregam a trama sem que ninguém perceba. O terceiro neutrino pesado foi riscado das contas porque não parecia necessário para explicar o que os detectores medem hoje. O estudo sugere que ele pode ter sido, durante um intervalo brevíssimo, a coisa mais importante do Universo: a forma de energia dominante, o regente do ritmo da expansão, o fiel da balança entre os sabores dos léptons e um dos responsáveis pela quantidade exata de matéria que sobrou para formar estrelas, planetas e leitores. Se existiu, desapareceu há quase 14 bilhões de anos. Mas, em cosmologia, os mortos deixam testemunho, talvez na leveza extrema de um neutrino que ainda não conseguimos pesar, ou num zumbido gravitacional que ainda não sabemos ouvir.

Fonte: Rishav Roshan e Sudipta Show, “Delayed Charged Lepton Yukawa Equilibration in Minimal Seesaw”, Physical Review Letters 137, 111802, publicado em 8 de setembro de 2026. DOI: 10.1103/nfkx-q6z7.