Nascida de uma operadora de celular e batizada em homenagem às 1.440 voltas do Sputnik, a Buro 1440 lançou dois lotes operacionais em 2026 — mas enfrenta sanções, escassez de foguetes, um cronograma que escorrega e um terminal de usuário que pesa 60 quilos

Mil quatrocentas e quarenta voltas. Foi quanto o Sputnik 1 girou em torno da Terra entre o lançamento, em 4 de outubro de 1957, e a reentrada que o consumiu na atmosfera, no começo de janeiro de 1958 — 92 dias de um bipe que mudou o século. Quase sete décadas depois, uma empresa privada de Moscou escolheu esse número como nome e como ambição. A Buro 1440 quer colocar centenas de satélites em órbita baixa e oferecer à Rússia aquilo que o Starlink, da SpaceX, já oferece a milhões de pessoas: internet rápida vinda do céu, sem cabo, sem torre, sem fronteira. Em 2026, a ambição ganhou corpo. Trinta e dois satélites operacionais já circulam a cerca de 800 quilômetros de altitude. O problema é tudo o que ainda falta.

A urgência por trás do projeto não nasceu em um laboratório, mas em um campo de batalha. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em escala total, em fevereiro de 2022, as deficiências das comunicações militares tradicionais do exército russo ficaram expostas em semanas. Do outro lado da linha de frente, dezenas de milhares de terminais Starlink chegaram às forças ucranianas e se tornaram a espinha dorsal da guerra de drones: coordenação de ataques, transmissão de vídeo, artilharia corrigida por imagem em tempo real. Uma constelação comercial americana, concebida para vender banda larga a clientes rurais, virou infraestrutura de combate. Em Moscou, a lição foi lida sem rodeios: quem não tem a própria internet orbital depende da internet orbital de alguém.

Para entender por que isso pesa tanto, é preciso olhar a geometria do problema. Durante meio século, a internet via satélite dependeu de aparelhos geoestacionários, estacionados a 35.786 quilômetros de altitude sobre o equador. A essa distância, um sinal de rádio gasta cerca de um quarto de segundo apenas para subir e descer, e uma troca completa de pergunta e resposta se arrasta por mais de meio segundo — o atraso que torna uma ligação por telefone satelital tão desconcertante. Em órbita baixa, a algumas centenas de quilômetros da superfície, a viagem cai para poucos milissegundos. A Buro 1440 promete latência de 70 milissegundos, dentro do que uma videochamada tolera sem travar. A contrapartida é que um satélite baixo cruza o céu em minutos e precisa de centenas de irmãos para que sempre haja um deles acima de qualquer ponto do território.

Essa lógica de enxame foi provada em escala industrial pela SpaceX, que começou a lançar lotes de sessenta satélites Starlink em maio de 2019 e hoje opera mais de sete mil deles a cerca de 550 quilômetros de altitude. A britânica OneWeb colocou seu primeiro lote em órbita no mesmo ano, apoiada justamente em foguetes russos Soyuz. A Amazon entrou na disputa com o projeto Kuiper, a China iniciou duas megaconstelações próprias e a União Europeia aprovou a sua. Em um mercado assim, chegar em 2026 com 32 satélites parece pouco. Mas a questão russa não é de mercado. É de soberania: a capacidade de manter uma rede de comunicações que nenhum governo estrangeiro possa desligar com uma ordem administrativa.

A história começa em outubro de 2020, quando a Megafon, uma das maiores operadoras de telefonia celular da Rússia, anunciou o projeto Megafon 1440 — cerca de um ano e meio depois de os primeiros lotes da OneWeb e do Starlink terem subido. A operadora planejava investir seis bilhões de rublos e trouxe um sócio de peso, a IKS Holding, que prometeu emprestar os recursos de sua subsidiária Yadro, fabricante de equipamentos de tecnologia da informação. Em 2021, o banco VTB, controlado pelo Estado, injetou mais dois bilhões de rublos em troca de 15% do empreendimento. Os órgãos federais de comunicações e desenvolvimento digital deram respaldo e, dado o significado militar de um sistema desse tipo, algum apoio do Ministério da Defesa esteve sempre no campo do possível.

Em novembro de 2021, a Comissão Estatal de Radiofrequências alocou ao projeto faixas nas bandas Ka e Ku dentro do território russo, e a empresa anunciou que pediria permissões equivalentes no plano internacional. A banda Ku, entre 12 e 18 gigahertz, é a mesma da TV por assinatura; a Ka, acima de 26 gigahertz, oferece mais largura de banda ao preço de maior sensibilidade à chuva. No verão de 2022, o projeto mudou de nome. Megafon 1440 virou Buro 1440, e a palavra “buro” foi escolhida para evocar os escritórios de projeto da era soviética, os OKB de Korolev e Chelomei que conceberam os foguetes e as naves da URSS. A diferença é que a nova empresa nasceu registrada como sociedade limitada, uma OOO na sigla russa, e não como repartição de Estado.

Quem é dono da Buro 1440 nunca ficou inteiramente claro. A Megafon prometeu seguir apoiando o projeto de alguma maneira, mas o quadro completo dos investidores privados jamais foi divulgado. No fim de 2022, sabia-se que o fundo de gestão de investimentos Mercury Capital Thrust, de Moscou, detinha 33% das ações, enquanto Timofei Kotenev, presidente do conselho da petroleira Petrosibir AB, e Dmitry Stepanov, executivo da Yandex, o maior buscador russo, pareciam controlar juntos 45,51%. Outro empresário, Dmitry Kuznetsov, tinha 8,99%. O balanço de 2021 mostrava prejuízo superior a cem milhões de rublos, o que é esperado para uma empresa que ainda não vendeu um único megabit, mas indica que a conta é paga por bolsos fundos.

O aspecto mais estranho do projeto talvez seja justamente esse caráter privado. A Buro 1440 nasceu em concorrência direta com o Sfera, programa federal anunciado em 2018, financiado pelo orçamento e tocado pela Roscosmos, que pretende oferecer banda larga, internet das coisas e observação da Terra com uma família de constelações. O primeiro satélite experimental do Sfera, o Skif-D, subiu de Vostochny em outubro de 2022. Enquanto o programa estatal avançava no ritmo de uma repartição pública, a empresa de Moscou contratava gente, montava fábrica e lançava protótipos. Em um país onde o setor espacial é quase sinônimo de Estado, uma startup — a empresa jovem de base tecnológica que cresce depressa com capital de risco — disputando a mesma missão do governo é uma anomalia.

A anomalia cresceu depressa. Em 2023, a Buro 1440 informava ter 500 funcionários e seguia contratando, oferecendo, segundo relatos, salários até duas vezes maiores que os praticados no setor. O quadro de vagas pedia projetistas de espaçonaves, desenvolvedores de software, engenheiros de comunicações e especialistas em controle de voo. A empresa inaugurou instalações próprias de montagem e uma sala de controle de missão abertamente inspirada na da SpaceX, na Califórnia, com planos de ampliar a infraestrutura em solo. Para um setor que viu a maioria de suas empresas nascentes dos anos 2010 fracassar ou mal arranhar o mercado, era o sinal de que alguém, em algum lugar, havia decidido que o projeto não podia falhar.

Satélites Rassvet-1 em montagem nas instalações da Buro 1440, por volta de 2023, com os painéis solares abertos sobre a
Satélites Rassvet-1 em montagem nas instalações da Buro 1440, por volta de 2023, com os painéis solares abertos sobre a bancada e o corpo central ainda recoberto pela manta térmica dourada.Crédito: Buro 1440 · via RussianSpaceWeb.com

O primeiro teste real veio em 27 de junho de 2023. Às 14h34 de Moscou, um Soyuz-2.1b com estágio superior Fregat decolou do complexo 1S do cosmódromo de Vostochny, no Extremo Oriente russo, levando como carga principal o satélite meteorológico Meteor-M nº 2-3 e, na carona, dezenas de cargas secundárias. Entre elas estavam três satélites experimentais Rassvet-1, de 80 quilos cada — “rassvet” significa amanhecer em russo. Fotos da Roscosmos mostram os três cubos brancos presos ao Fregat, cercados pelo dourado das mantas térmicas. Os aparelhos haviam sido desenvolvidos em apenas três anos, aparentemente depois de uma tentativa inicial abortada, um prazo curtíssimo para os padrões recentes da indústria russa, em que programas se arrastam por uma década ou mais.

Os três Rassvet-1 fixados ao estágio superior Fregat durante os preparativos para o lançamento em Vostochny, em junho de
Os três Rassvet-1 fixados ao estágio superior Fregat durante os preparativos para o lançamento em Vostochny, em junho de 2023.Crédito: Roscosmos · via RussianSpaceWeb.com

Três meses depois, em outubro de 2023, a empresa anunciou a primeira chamada de internet da Rússia roteada por um satélite de órbita baixa. Os números eram de protótipo: 12 megabits por segundo no downlink, o enlace de descida do satélite para o usuário, e 7 megabits por segundo no uplink, o caminho de volta. É menos do que uma conexão doméstica medíocre, mas o objetivo da missão nunca foi velocidade. O trio testou as comunicações entre satélites e um novo sistema de propulsão para correção de órbita, as duas funções sem as quais nenhuma constelação de banda larga funciona. Os satélites operacionais, prometia a empresa, entregariam de 50 megabits a 1 gigabit por segundo.

As duas funções merecem explicação, porque são elas que separam um satélite de um sistema. Os enlaces entre satélites — na Buro 1440, feitos a laser — permitem que os dados viajem de um aparelho ao vizinho pelo vácuo, sem descer a uma estação terrestre a cada salto. Para um país que se estende por onze fusos horários e tem vastidões sem fibra óptica nem estação de rastreio, isso é a diferença entre cobrir o território e apenas sobrevoá-lo. A propulsão elétrica, por sua vez, é o que mantém cada satélite em sua posição na formação e o que o retira de órbita no fim da vida útil. A Rússia tem tradição nesse campo: os propulsores de efeito Hall do escritório Fakel, de Kaliningrado, equiparam por duas décadas satélites comerciais ocidentais antes que as sanções fechassem esse mercado.

Vista em órbita registrada por um dos Rassvet-1: o painel solar estendido contra o escuro do espaço e, abaixo, o brilho
Vista em órbita registrada por um dos Rassvet-1: o painel solar estendido contra o escuro do espaço e, abaixo, o brilho ofuscante da Terra iluminada.Crédito: Buro 1440 · via RussianSpaceWeb.com

Os três Rassvet-1 continuaram em serviço muito depois do teste inicial. Em 1º de março de 2024, a empresa divulgou uma imagem granulada em preto e branco: um dos satélites fotografado por outro, durante operações de proximidade a uma distância de até 160 metros. Na foto, o corpo central aparece como um borrão luminoso com dois painéis solares estendidos, e o que ela documenta é mais relevante do que a imagem sugere. Para fotografar um companheiro de formação a 160 metros, é preciso manobrar com precisão, conhecer a própria órbita e a do outro, e manter a orientação estável — tudo o que a propulsão e o controle de atitude precisavam provar. Na ocasião, os três aparelhos estavam operacionais e manobrando.

Um satélite Rassvet fotografado por outro aparelho da mesma série durante operações de proximidade, a uma distância de a
Um satélite Rassvet fotografado por outro aparelho da mesma série durante operações de proximidade, a uma distância de até 160 metros. A imagem foi divulgada em 1º de março de 2024, quando os três satélites estavam operacionais e manobrando.Crédito: Buro 1440 · via RussianSpaceWeb.com

O segundo passo veio em 17 de maio de 2024, às 00h21 de Moscou, quando outro Soyuz-2.1b com Fregat partiu, desta vez do cosmódromo de Plesetsk, no norte da Rússia, pela plataforma 4 do complexo 43. A carga principal era um satélite militar — catalogado como Kosmos-2576 — e a carona levou os três Rassvet-2, aparelhos experimentais prometidos desde 2023 para novos ensaios das comunicações entre satélites. A escolha do cosmódromo não era detalhe. Plesetsk é a base de lançamentos das Forças Aeroespaciais russas, e os dois lotes operacionais que viriam em 2026 sairiam da mesma plataforma.

Os dois cosmódromos contam, cada um, uma parte da história russa no espaço. Plesetsk nasceu nos anos 1950 como base de mísseis balísticos e se tornou o local de lançamento mais usado do planeta durante a Guerra Fria, escondido na taiga a 800 quilômetros ao norte de Moscou. Vostochny foi inaugurado em 2016 na região do Amur, perto da fronteira chinesa, como a aposta civil da Rússia para reduzir a dependência de Baikonur, alugado do Cazaquistão. Que a Buro 1440 tenha estreado no cosmódromo novo e civil e migrado para o velho e militar diz algo sobre quem passou a dar prioridade ao projeto — ou sobre onde sobrava plataforma.

Os lançamentos operacionais chegaram em 2026, com um ano de atraso em relação ao cronograma anunciado em 2023. Em 23 de março, às 20h24 de Moscou, um Soyuz-2.1b sem o estágio Fregat levou de Plesetsk os dezesseis primeiros satélites Rassvet-3, numerados de 1 a 16. Em 19 de julho, da mesma plataforma, subiram os de número 17 a 32. Quatro lançamentos, quatro sucessos, e uma constelação embrionária de 32 aparelhos. Sem o Fregat, a tarefa de alcançar a órbita final recai, ao que tudo indica, sobre os propulsores iônicos dos próprios satélites, que sobem lentamente a partir da órbita de inserção — a receita que a SpaceX adotou para o Starlink e que troca semanas de espera por um lançamento mais simples e mais barato.

Mas os satélites de 2026 ainda não eram a versão definitiva. Segundo relatos, os primeiros aparelhos operacionais não saíram de uma linha de produção em série propriamente dita e continuavam recebendo modificações a caminho do projeto final. Postagens não oficiais no fórum da revista Novosti Kosmonavtiki, tradicional ponto de encontro de observadores do programa espacial russo, indicavam entre 30 e 40 satélites em produção no início de 2026 e apontavam que a versão plenamente operacional só apareceria com o terceiro lote. Em outras palavras, os 32 aparelhos em órbita são, ao mesmo tempo, o começo da rede e o fim de uma fase de prototipagem.

Provável configuração do satélite Rassvet-3, destinado à produção em série, suspenso em um dispositivo de manuseio nas i
Provável configuração do satélite Rassvet-3, destinado à produção em série, suspenso em um dispositivo de manuseio nas instalações da Buro 1440.Crédito: Buro 1440 · via RussianSpaceWeb.com

O satélite que a Buro 1440 descreve para a constelação pesa cerca de 370 quilos, quatro vezes e meia a massa de um Rassvet-1. Nas ilustrações conhecidas, uma torre de quatro painéis solares articulados ergue-se sobre uma plataforma achatada que concentra o equipamento: a antena de varredura eletrônica, ou phased array, que direciona os feixes de rádio aos usuários sem nenhuma peça móvel, apenas ajustando a fase do sinal em centenas de pequenos elementos; o sistema de comunicação a laser com os vizinhos; o propulsor iônico com seu tanque de propelente; o rastreador estelar que fixa a orientação pelas estrelas; as rodas de reação que giram o aparelho; e duas antenas voltadas às estações terrestres. É, item por item, a lista de componentes de um Starlink.

Esquema do satélite da constelação Buro 1440 com os subsistemas conhecidos: a torre de painéis solares, o rastreador est
Esquema do satélite da constelação Buro 1440 com os subsistemas conhecidos: a torre de painéis solares, o rastreador estelar, o mecanismo de liberação do veículo lançador, as duas antenas para estações terrestres, a roda de reação do controle de atitude, o propulsor iônico com seu tanque de propelente, a antena de varredura eletrônica e o sistema de comunicação a laser entre satélites.Crédito: Anatoly Zak / RussianSpaceWeb.com, 2026 · todos os direitos reservados

A arquitetura da rede foi desenhada com a geografia russa em mente. Os satélites devem circular a aproximadamente 800 quilômetros de altitude, em órbitas inclinadas 82,6 graus em relação ao equador — quase polares —, distribuídas em doze planos orbitais com cerca de vinte aparelhos operacionais em cada um, mais reservas. A inclinação quase polar garante cobertura permanente do Ártico, onde os satélites geoestacionários mal aparecem acima do horizonte e por onde passa a Rota Marítima do Norte, prioridade estratégica de Moscou. A altitude, maior que os 550 quilômetros do Starlink, amplia o campo de visão de cada satélite e reduz o número necessário para cobrir o globo. O preço é pago em latência e em permanência: a 800 quilômetros, um satélite morto pode levar mais de um século para cair.

Esse desenho não foi o primeiro. Nos registros iniciais apresentados à União Internacional de Telecomunicações, a UIT, órgão da ONU que coordena o uso do espectro e das órbitas, a Buro 1440 descreveu três arquiteturas possíveis: uma rede Rassvet-1 com 1.350 satélites a 600 quilômetros, uma Rassvet-2 com 500 satélites a 800 quilômetros e uma Rassvet-3 com 252 satélites, também a 800 quilômetros. A multiplicidade não é indecisão. Registrar várias configurações é prática corrente para garantir precedência regulatória sobre frequências e órbitas, uma espécie de reserva de lugar na fila, enquanto a engenharia e o dinheiro decidem o que de fato será construído.

O que o dinheiro decidiu foi encolher. O conceito original previa uma rede de 900 satélites concluída em 2035. Já em 2023, as descrições da constelação passaram a citar 737 aparelhos, corte que sugere esforço para conter custos. Em agosto de 2024, Kseniya Lazarenko, diretora de desenvolvimento dos terminais a laser da empresa, afirmou que a cobertura global seria possível com apenas 292 satélites, o que exigiria cerca de vinte lançamentos de Soyuz — ainda que a meta de 737 unidades até 2030 continuasse, aparentemente, nos planos. A ficha técnica consolidada do sistema hoje fala em algo entre 737 e 900 satélites, com um mínimo de 292. É um intervalo largo demais para ser chamado de projeto fechado.

Os números financeiros ajudam a entender o encolhimento. Cada satélite é orçado em 1,18 bilhão de rublos, cerca de 12 milhões de dólares ao câmbio de 2025. O custo total do programa foi estimado em 445 bilhões de rublos, perto de 4,9 bilhões de dólares em 2024. Basta multiplicar para ver que as contas não fecham para a rede grande: 737 satélites a 1,18 bilhão cada passariam de 860 bilhões de rublos só em aparelhos, quase o dobro do orçamento integral. Já 292 unidades somam uns 345 bilhões, o que deixa cem bilhões para foguetes, estações e terminais. O orçamento oficial, portanto, parece descrever a constelação mínima, não a prometida. Para dar escala, a SpaceX já declarou fabricar seus satélites por menos de um milhão de dólares cada.

A cronologia das promessas conta a mesma história sob outro ângulo. Em agosto de 2023, Aleksei Shelobkov, diretor-geral da Buro 1440, dizia que a operação “industrial” começaria em 2027, e o Ministério do Desenvolvimento Digital, citado pela agência TASS, projetava internet em toda a Rússia e em até 75 países estrangeiros. Em 2024, o ministro Maksut Shadaev anunciou que o sistema daria Wi-Fi a bordo de aviões de passageiros e trens de longa distância até 2028; em maio daquele ano, a empresa assinou acordos com a ferrovia estatal RZhD e com a companhia aérea Aeroflot. Mas o mesmo ministro já falava em início da implantação em 2026, um ano depois do primeiro lançamento operacional que a própria empresa havia citado em 2023.

Dali em diante, cada autoridade trouxe uma data nova. Lazarenko situou a “produção em série” dos satélites em 2027, o que empurrava ainda mais a operação plena. Em outubro de 2024, o primeiro-ministro Mikhail Mishustin afirmou que quase 300 satélites da constelação estariam lançados até o fim de 2027, sem detalhar ritmo nem data de início da campanha. Em dezembro, Yuri Borisov, então chefe da Roscosmos, prometeu um equivalente russo do Starlink disponível até 2030. No começo de 2025, Shelobkov falou em mais de 250 satélites até 2027, e Dmitry Grigorenko, vice-primeiro-ministro e chefe do aparato do governo, prometeu o início da operação experimental entre o fim de 2026 e o começo de 2027.

A documentação do projeto, naquele momento, traduzia essas falas em um calendário concreto. Em 2025, haveria dezesseis satélites no sistema, fruto de um único lançamento. Em 2026, o número saltaria para 156, com cerca de dez lançamentos acumulados. Em 2027, a rede chegaria a 292 aparelhos com dezenove voos e, em 2028, a 318 com 21. O calendário real descolou do papel logo na primeira linha: o voo previsto para 2025 só aconteceu em março de 2026 e, até outubro, foram dois lançamentos, não dez. Alcançar 156 satélites até dezembro exigiria oito voos de Soyuz em pouco mais de dois meses, um ritmo que a Rússia não sustenta desde a era soviética.

O gargalo dos foguetes é o mais fácil de quantificar. No auge da implantação, a Buro 1440 precisaria de dez a doze lançamentos de Soyuz por ano, cada um com cerca de quinze satélites. A plataforma do Soyuz em Vostochny tem capacidade oficial para até dez voos anuais, que precisam ser divididos com todos os usuários civis do foguete. Em 2021, no melhor ano de sua campanha, a OneWeb conseguiu oito lançamentos de Soyuz em doze meses, usando Baikonur e Vostochny. Naquele mesmo ano, toda a família Soyuz voou 22 vezes. Para uma constelação privada tomar metade desse fôlego nacional, algo precisaria ceder — missões tripuladas, satélites militares, cargas científicas — ou a Rússia precisaria de outro foguete.

A comparação com a OneWeb também revela a massa dos satélites russos. Um Soyuz levava entre 34 e 36 satélites OneWeb de 150 quilos cada, dependendo do cosmódromo de partida. Se a mesma capacidade de carga acomoda apenas quinze ou dezesseis Rassvet-3, cada um deve pesar em torno de 300 quilos — estimativa que a ficha técnica da empresa confirma com folga, ao citar aproximadamente 370 quilos. Mais massa por satélite costuma significar mais potência, mais antenas e mais capacidade de dados, mas também menos aparelhos por voo. Com 32 satélites em órbita, a Buro 1440 usou dois foguetes; para chegar a 292, faltariam outros dezesseis ou dezessete.

Mesmo com dinheiro e foguetes, resta a pergunta que ronda qualquer projeto russo de alta tecnologia desde 2022: de onde vem o conhecimento técnico — o know-how, no jargão da indústria, o saber acumulado de como se faz — para construir um sistema de ponta sob sanções pesadas? Os satélites de banda larga dependem de chips de radiofrequência, processadores de sinal e componentes resistentes à radiação cuja fabricação se concentra em países que fecharam as portas à Rússia. Não por acaso, circularam rumores de que a Buro 1440 poderia tentar a engenharia reversa dos satélites da OneWeb retidos em Baikonur quando a Roscosmos cancelou o 14º lançamento da empresa britânica, em março de 2022, no rastro da invasão. Eram 36 aparelhos novos, já montados no foguete, retidos em um cosmódromo sob controle russo.

O outro desafio é fabril. Uma constelação exige linhas de montagem para satélites, para equipamentos de solo e para terminais de usuário, com capacidade de produção muito acima de qualquer coisa já construída na Rússia. A empresa começou a atacar o problema por partes. No início de 2025, a Buro 1440 anunciou uma linha automatizada de produção em massa de painéis solares, cada conjunto com 4.000 watts de potência de entrega, e prometeu uma capacidade total de 750.000 watts por ano. Nas contas simples, isso dá pouco menos de 190 conjuntos anuais — suficiente, no papel, para o ritmo de implantação planejado, e um indicador de que a fábrica foi dimensionada para centenas de satélites, não para dezenas.

O argumento civil para tudo isso é geográfico. Segundo estatísticas da GPKS, a operadora estatal de satélites de comunicação da Rússia, o país tinha em 2024 cerca de 27.300 localidades com população entre 26 e 100 habitantes, muitas delas fora do alcance de cabos ou de outras redes. Para esses lugarejos espalhados pela Sibéria e pelo Extremo Norte, não há alternativa ao satélite em nenhum horizonte previsível, e a constelação de uso dual — civil e militar ao mesmo tempo — foi apresentada como a resposta. O serviço comercial para clientes estrangeiros também entrou na propaganda. O potencial militar, depois do que o Starlink fez na Ucrânia, dispensava anúncio.

E é no chão, não no céu, que o projeto enfrenta sua contradição mais visível. Quase tão importante quanto os satélites é a disponibilidade em massa de terminais de usuário baratos e portáteis, que decidem para que a constelação servirá na prática. A ficha técnica da Buro 1440 promete um terminal de 15 quilos, e a empresa já exibiu protótipos de antenas parecidas, em tamanho e massa, com as ocidentais — uma placa plana sobre um pé articulado, quase um Starlink de sotaque russo. As especificações reais e os modelos operacionais, porém, continuavam em segredo no fim de 2026. O que escapou do segredo veio de um lugar improvável: um edital de compras públicas.

Demonstração de uma antena de terminal de usuário para a rede da Buro 1440, por volta de 2025: uma placa plana sobre tri
Demonstração de uma antena de terminal de usuário para a rede da Buro 1440, por volta de 2025: uma placa plana sobre tripé articulado, no estilo das antenas ocidentais.Crédito: Buro 1440 · via RussianSpaceWeb.com

O Departamento de Desenvolvimento Digital de Chukotka, a região mais oriental da Rússia, separada do Alasca pelo estreito de Bering, publicou um pedido de compra de estações terrestres para o sistema Rassvet. O documento descrevia uma cúpula radiotransparente, o radome que protege a antena do clima, com quase um metro de diâmetro, cobrindo um terminal de 60 quilos que consome 2,5 quilowatts de energia, ao custo de dois milhões de rublos, cerca de 23 mil dólares. Para dar escala: a antena padrão do Starlink pesa menos de três quilos, consome em torno de cem watts e custa algumas centenas de dólares; a versão Mini cabe numa mochila e pesa pouco mais de um quilo. O terminal de Chukotka é uma estação, não um aparelho.

Preço cai com escala, e um terminal de edital não é necessariamente o terminal de consumo. Mas 60 quilos e 2,5 quilowatts restringem severamente os usos móveis — justamente os que a guerra mostrou serem decisivos. Um soldado carrega um Starlink nas costas e o liga a uma bateria portátil; um drone de reconhecimento transmite vídeo por ele. Uma cúpula de um metro exige veículo, gerador e tempo de instalação. A empresa chegou a demonstrar um terminal para trens, uma caixa branca e achatada apresentada ao lado de uma miniatura de locomotiva, pensada para o acordo com a RZhD. Entre o demonstrador de feira e o produto que uma prefeitura ártica consegue comprar, há um abismo que a Buro 1440 ainda precisa cruzar.

Versão demonstrativa do terminal de comunicação por satélite da Buro 1440 projetado para o transporte ferroviário, exibi
Versão demonstrativa do terminal de comunicação por satélite da Buro 1440 projetado para o transporte ferroviário, exibido ao lado de uma miniatura de trem, com o esquema do satélite e do terminal de assinante ao fundo.Crédito: Buro 1440 · via RussianSpaceWeb.com

A dificuldade dos terminais não é acidental. Uma antena plana de varredura eletrônica é, por dentro, um tapete de centenas de pequenos elementos irradiantes, cada um ligado a um circuito que atrasa o sinal numa fração de bilionésimo de segundo; somadas, essas defasagens inclinam o feixe para onde está o satélite, que cruza o céu em minutos. Isso exige chips de radiofrequência projetados sob medida e fabricados aos milhões a baixo custo, a especialidade que fez da SpaceX uma empresa de eletrônica tanto quanto de foguetes. Sem acesso às fundições de semicondutores de Taiwan, da Coreia do Sul ou dos Estados Unidos, a saída russa tende a ser uma antena maior, mais pesada e mais faminta por energia. O edital de Chukotka parece descrever exatamente isso.

Enquanto os terminais se resolvem em solo, no espaço a empresa já olha além do Rassvet-3. Na conferência Satcomrus 2026, em Nijni Novgorod, no fim de setembro, o representante da Buro 1440 Dmitry Agafonov confirmou que uma nova geração de satélites vinha sendo desenvolvida com base na experiência dos primeiros aparelhos e no retorno dos usuários. Relatos não oficiais atribuem a essa quarta geração — contando as duas versões experimentais — uma massa de duas toneladas. Se o número se confirmar, trata-se de um projeto inteiramente novo, com capacidades muito maiores, mas também com um problema muito maior de transporte: o Soyuz que hoje leva dezesseis satélites de 370 quilos levaria dois ou três de duas toneladas.

O paralelo com a SpaceX é inevitável e desconfortável. A empresa americana também engordou seus satélites — da primeira geração, de pouco mais de 250 quilos, para os V2 Mini, de cerca de 800 quilos, e para uma terceira versão da ordem de duas toneladas —, mas o fez porque tinha o Falcon 9 reutilizável e porque construía o Starship para carregá-los. A Rússia não tem foguete reutilizável nem um lançador pesado em produção corrente que sirva a esse fim: o Angara-A5 voa raramente e caro, e o Soyuz-5 acumula anos de adiamentos. Satélites de duas toneladas obrigariam a Buro 1440 a escolher entre dividir a constelação em lançamentos pequenos e lentos ou apostar o cronograma em um foguete que ainda não existe.

A distância para o líder é medida em ordens de grandeza. Quando a Buro 1440 colocou seu 32º satélite em órbita, em julho de 2026, a SpaceX já passava de sete mil Starlinks ativos, atendia milhões de assinantes em dezenas de países e lançava dezenas de satélites por semana. A OneWeb, hoje parte da europeia Eutelsat, completou sua constelação de mais de 600 aparelhos. Nenhuma dessas empresas é o alvo real da Buro 1440. O alvo é a dependência. Um país que não controla a própria rede orbital pode ter o serviço cortado, limitado por região ou monitorado — e a Rússia aprendeu isso observando o que o Starlink fez pelo adversário, não o que fez pelos clientes.

Há uma ironia histórica nessa corrida. A União Soviética foi pioneira na comunicação por satélite com a série Molniya, lançada a partir de 1965 em órbitas alongadas que pairavam horas sobre o hemisfério norte, resolvendo justamente o problema das altas latitudes que uma constelação polar resolve hoje. Durante meio século, o país manteve a própria frota de satélites geoestacionários Express, operada pela GPKS, e o sistema Gonets de mensagens em órbita baixa. O que a Rússia nunca teve foi uma rede de banda larga de baixa latência para milhares de usuários simultâneos — e nunca precisou tanto de uma. Que a resposta venha de uma sociedade limitada em Moscou, e não da Roscosmos, diz muito sobre o estado da indústria espacial estatal.

O Sfera, programa que deveria ocupar esse espaço, segue com ambições reduzidas e cronograma elástico: a constelação Skif, de banda larga em órbita média, foi concebida com cerca de uma dúzia de satélites, e a Marafon, de internet das coisas, com perto de 260 aparelhos pequenos a 750 quilômetros. Nenhuma delas oferece o que a Buro 1440 oferece no papel — gigabit por segundo, 70 milissegundos, terminal plano —, e nenhuma tem 32 satélites operacionais em órbita. A convivência entre os dois projetos nunca foi explicada oficialmente. Ao que parece, o governo decidiu apoiar quem anda mais rápido, sem desmontar o programa que já estava no orçamento.

A imitação declarada da SpaceX vai além da sala de controle fotogênica. Está no ritmo — três anos do papel ao primeiro lançamento —, nos salários dobrados para atrair engenheiros jovens, na cultura de protótipo que aceita lançar satélites ainda não definitivos para aprender em voo. É a lógica do desenvolvimento iterativo, estranha à tradição russa de projetos longamente amadurecidos e raramente alterados. Se vai funcionar, ninguém sabe. Mas é notável que, sob sanções e em guerra, uma empresa russa tenha conseguido reproduzir ao menos a forma do que faz a concorrente americana — e que o Estado tenha permitido.

O que 32 satélites conseguem fazer hoje? Pouco, em termos de serviço. Com apenas dois dos doze planos orbitais previstos ocupados, a cobertura de qualquer ponto é, em princípio, intermitente: um satélite aparece, atende por alguns minutos e some atrás do horizonte, e podem passar dezenas de minutos até o próximo. Serve para testes, para demonstrações a autoridades e para que RZhD e Aeroflot comecem a certificar equipamentos. A operação experimental prometida por Grigorenko para a virada de 2026 para 2027 significa isso: um serviço que existe em janelas. A cobertura contínua, aquela em que ninguém percebe os satélites se revezando, só chega com os 292 aparelhos que Lazarenko citou — e com os vinte lançamentos que ainda faltam.

Os próximos doze meses dirão se a Buro 1440 é um programa ou uma promessa. Três marcos merecem atenção. O terceiro lote de Rassvet-3, que deveria trazer a versão definitiva do satélite e, com ela, o início real da produção em série prevista para 2027. A cadência de lançamentos, que precisa sair de dois por ano para perto de um por mês, em um cosmódromo militar que também atende às Forças Aeroespaciais. E o terminal de usuário, cuja versão de consumo — os 15 quilos prometidos, não os 60 do edital — ainda não foi mostrada em operação. Se os três avançarem, a meta de Mishustin, quase 300 satélites até o fim de 2027, deixa de ser retórica. Se um deles travar, 2030 vira a nova data.

Há ainda a pergunta sobre quem, fora da Rússia, compraria o serviço. O ministério fala em 75 países, uma lista que só pode ser composta por nações dispostas a contrariar o regime de sanções ocidental ou já fora dele — e que, em muitos casos, serão cortejadas ao mesmo tempo pelas constelações chinesas Guowang e Qianfan, lançadas em ritmo acelerado desde 2024 e apoiadas por uma indústria sem os gargalos russos. O Starlink russo, se existir, disputará o mercado de quem não pode ou não quer o Starlink americano. É um nicho real, mas estreito, e a China chega nele com mais satélites, mais foguetes e mais chips.

Resta uma consequência que nenhum comunicado russo menciona: a faixa dos 800 quilômetros é das mais congestionadas e das mais lentas a se limpar. Um Starlink desativado a 550 quilômetros reentra em cerca de cinco anos pelo atrito residual da atmosfera; um satélite morto a 800 quilômetros pode permanecer lá por mais de cem anos. A OneWeb, a 1.200 quilômetros, enfrenta crítica semelhante. Centenas de aparelhos russos de 370 quilos — ou de duas toneladas, na geração seguinte — dependerão de que seus propulsores iônicos funcionem até o fim da vida útil para descer de forma controlada. Em um ambiente orbital que já abriga mais de dez mil satélites ativos, a confiabilidade desse último empurrão é tão importante quanto a do primeiro.

O Sputnik completou suas 1.440 voltas em três meses e morreu queimando, sem ter transmitido nada além de um bipe — e isso bastou para mudar o mundo. A empresa que tomou aquele número emprestado quer que seus satélites durem anos e transmitam gigabits, e sabe que ninguém mais se espanta com um objeto russo em órbita. O espanto, se vier, será de outra natureza: o de ver uma sociedade limitada de Moscou, sob sanções, com foguetes contados e chips escassos, conseguir o que o Estado russo não conseguiu em décadas. “Rassvet” quer dizer amanhecer. Por enquanto, o que há no céu são 32 pontos de luz passando em janelas de poucos minutos. Se vai amanhecer de verdade, a resposta está nos vinte foguetes que ainda não decolaram.

Fonte principal: Anatoly Zak, “A private new comer builds ‘Russian Starlink’”, RussianSpaceWeb.com, última atualização em 15 de outubro de 2026 (edição de página: Alain Chabot). russianspaceweb.com/protected/buro1440.html