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UM PLANETA QUE NASCEU DAS CINZAS DE UMA ESTRELA
Pela primeira vez, astrônomos encontraram ao redor de uma anã branca fortes indícios de um planeta de segunda geração: um mundo que não nasceu junto com a sua estrela, mas depois que ela morreu, a partir do próprio material que ela expulsou. A descoberta foi publicada na revista Nature Astronomy e envolve a estrela HS 0209+0832, a cerca de 270 anos-luz da Terra.
Neste episódio, mostro como uma equipe internacional liderada por Jamie T. Williams e Boris T. Gänsicke, da Universidade de Warwick (Reino Unido), resolveu um mistério que durava mais de 25 anos.
O MISTÉRIO
HS 0209+0832 é uma anã branca jovem e extremamente quente: cerca de 35.800 K na superfície e apenas 5 milhões de anos de resfriamento. Ela concentra 61% da massa do Sol em um corpo com cerca de 1,6 vez o tamanho da Terra. Em 1999, o Telescópio Espacial Hubble revelou metais em sua atmosfera e cerca de 100 linhas espectrais que ninguém conseguia identificar. Havia também hélio, algo estranho: nessa temperatura, ele deveria afundar para o interior da estrela em poucos meses. Ou seja, alguma coisa está alimentando essa estrela agora.
A DESCOBERTA
Reanalisando dados do Hubble, do satélite FUSE e do Very Large Telescope (VLT), os pesquisadores decifraram as linhas misteriosas: eram de cobre e nióbio. O nióbio foi confirmado por 62 linhas espectrais e não aparece em nenhuma das outras 33 anãs brancas comparáveis do arquivo do FUSE.
O material que cai na estrela não se parece com nada do Sistema Solar:
– é rico em zinco, cobre e nióbio, elementos mais pesados que o ferro;
– em relação ao cálcio, o nióbio é mais de mil vezes mais abundante do que no Sol;
– quase não há silício e não há ferro detectável, justamente os ingredientes principais dos planetas rochosos (juntos, cerca de 48% da massa da Terra);
– a razão níquel/ferro passa de 2, contra cerca de 0,05 na Terra e nos meteoritos mais primitivos.
POR QUE “SEGUNDA GERAÇÃO”?
O nióbio é fabricado pelo processo s, a captura lenta de nêutrons que ocorre em estrelas gigantes na fase AGB, o fim da vida de estrelas como o Sol. A estrela que originou HS 0209+0832 tinha cerca de 1,34 vez a massa do Sol. Ao morrer, ela expulsou suas camadas externas, ricas em carbono e em elementos do processo s. A hipótese dos autores: uma companheira próxima provocou uma fase de “envelope comum”, e parte desse material formou um disco ao redor da estrela moribunda. Nesse disco, um novo planeta gigante teria surgido, feito literalmente das cinzas da estrela. Outra possibilidade é que um planeta menor, da primeira geração, tenha capturado ali uma nova atmosfera.
UM PLANETA SENDO EVAPORADO
O hélio e a ausência de elementos rochosos indicam que a anã branca está engolindo a atmosfera de um planeta gigante que evapora sob sua radiação intensa. Só em metais, ela recebe cerca de 430 toneladas por segundo. O satélite TESS detectou uma variação de brilho de apenas 0,12% a cada 4,4 dias, que pode vir do ciclo dia-noite de um planeta gigante superaquecido ou de uma cauda de gás, como a de um cometa, passando na frente da estrela.
POR QUE ISSO IMPORTA
Até agora, os detritos planetários vistos em anãs brancas lembravam corpos do Sistema Solar. HS 0209+0832 mostra algo novo: planetas podem se formar depois da morte de uma estrela, com uma química própria. Carbono elevado e excesso de elementos do processo s passam a ser a “impressão digital” para encontrar outros mundos assim.
Importante: é um candidato. O planeta não foi visto diretamente; sua existência é deduzida pela química e pelo brilho da estrela.
ARTIGO CIENTÍFICO
Williams, J. T., Gänsicke, B. T., Stone, N. C. et al. Discovery of a second-generation planet candidate accreting onto a white dwarf. Nature Astronomy (2026).
DOI: https://doi.org/10.1038/s41550-026-02983-7
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