Concepção artística da sonda MMX em aproximação a Phobos, com Marte ao fundo. Depois de entrar em órbita marciana, a espaçonave vai estudar a lua interna por cerca de um ano, pousar nela e recolher amostras para trazer à Terra.Crédito: JAXA
Lançada no fim de 2026, a MMX pretende orbitar, pousar, soltar um rover e trazer de volta, em 2031, as primeiras amostras de Phobos — e decidir se as luas marcianas são asteroides capturados ou filhas de um impacto gigante.

Em algum dia de 2031, uma cápsula pouco maior que uma panela de pressão vai riscar o céu sobre o deserto australiano, abrir o paraquedas e pousar na poeira avermelhada do interior do país. Dentro dela, protegidos do calor da reentrada por um escudo térmico, viajarão cerca de dez gramas de um mundo que nenhuma mão humana, nenhum robô e nenhuma sonda jamais tocou: Phobos, a maior e mais estranha das duas luas de Marte. Dez gramas cabem numa colher de sopa. Pesam menos que uma folha de papel dobrada ao meio. E ainda assim essa pitada de regolito pode encerrar uma discussão que dura meio século sobre como Marte ganhou seus satélites e, de quebra, contar se o planeta vizinho sofreu, em miniatura, a mesma violência que deu à Terra a sua Lua.

O programa Apollo, da NASA, foi a maior excursão geológica já realizada. Seus seis pousos tripulados trouxeram de volta 382 quilos de solo lunar, o material solto e pulverizado que os cientistas chamam de regolito, e com ele capítulos inteiros do passado profundo da Terra. Sem aquelas rochas, ninguém saberia que um protoplaneta do tamanho de Marte colidiu com o nosso planeta há cerca de 4,5 bilhões de anos. O choque derreteu os dois corpos e lançou em órbita uma quantidade colossal de detritos, que acabaram se aglutinando para formar a Lua. Esse evento deixou uma assinatura mineralógica específica, preservada na superfície antiga e sem atmosfera do nosso satélite natural. Os astronautas recolheram esses registros e os trouxeram para casa, onde continuam a ser estudados até hoje.

O mesmo princípio, visitar uma lua para entender o planeta que ela orbita, guia agora a missão mais ambiciosa da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial, a JAXA. A Martian Moons Exploration, ou MMX, tem como alvo as duas pequenas luas de Marte, Phobos e Deimos, dois corpos com formato de batata que até hoje permanecem intocados por qualquer espaçonave. Os cientistas discordam sobre a origem desses objetos. Para alguns, são asteroides capturados pela gravidade marciana. Para outros, nasceram de um impacto gigantesco, uma versão em escala reduzida da colisão que formou a Lua terrestre. A MMX pretende pousar em Phobos, recolher amostras e trazê-las à Terra para que a resposta saia de um laboratório, e não de um debate.

Marte é um dos destinos preferidos da exploração planetária há décadas, mas suas luas ficaram quase sempre à margem. A maior parte do que se sabe sobre elas vem de olhadelas laterais de sondas ocupadas com o planeta, em sobrevoos ocasionais. O mais recente ocorreu em 2023, quando a sonda Hope, da Missão Marciana dos Emirados Árabes Unidos, fez uma série de passagens próximas por Deimos e produziu alguns dos melhores retratos já obtidos da lua menor. A europeia Mars Express, em órbita desde 2003, acumulou ao longo dos anos sequências de imagens de Phobos tomadas a distâncias cada vez menores, que ajudaram a reconstruir a forma tridimensional do satélite. Nenhuma dessas aproximações, porém, substitui o contato direto com a superfície.

Phobos fotografada pela Mars Express, da ESA, em passagens cada vez mais próximas ao longo de várias órbitas. As vistas sucessivas ajudam a reconstruir a forma tridimensional da lua.Crédito: ESA / DLR / FU Berlin (G. Neukum), CC BY-SA 3.0 IGO

As luas marcianas são minúsculas e esquisitas. Phobos mede apenas 27 quilômetros ao longo do eixo mais comprido, cerca de 150 vezes menos que o diâmetro da nossa Lua, e por causa de sua porosidade tem massa ainda menor do que o tamanho sugere. Ela gira em torno de Marte mais depressa do que o planeta gira em torno do próprio eixo, completando uma volta a cada 7 horas e 39 minutos. O resultado é um céu de ponta-cabeça: vista da superfície marciana, Phobos nasce no oeste, atravessa o firmamento em 4 horas e 15 minutos e se põe no leste, na contramão do Sol e de Deimos, repetindo o percurso três vezes a cada dia marciano. Um astronauta em Marte veria a lua maior correr contra a corrente de tudo o mais que cruza o céu.

Quadro da reportagem original: vista da superfície de Marte, Phobos nasce no oeste, cruza o céu em 4 horas e 15 minutos e se põe no leste, repetindo o trajeto três vezes a cada dia marciano.Crédito: Sky & Telescope (novembro de 2026)

As órbitas das duas luas evoluem em sentidos opostos. Phobos circula a cerca de 6.000 quilômetros acima da superfície, mais de 60 vezes mais perto de Marte do que a Lua está da Terra, e desce lentamente, quase dois centímetros por ano. Em dezenas de milhões de anos, ela vai se chocar contra o planeta, a menos que a gravidade marciana a despedace antes. Isso porque Phobos já orbita dentro do chamado limite de Roche, a distância abaixo da qual as forças de maré de um planeta superam a coesão interna de um satélite e começam a esticá-lo até o rompimento. As protuberâncias de maré que Marte ergue em sua própria crosta funcionam como um freio gravitacional, puxando Phobos para baixo a cada volta. Deimos, com apenas 15 quilômetros em seu ponto mais largo e muito mais distante, faz o caminho inverso e se afasta devagar do planeta, exatamente como a nossa Lua faz em relação à Terra.

Phobos orbita tão perto de Marte, dentro do limite de Roche, que o puxão das protuberâncias de maré do planeta a arrasta para baixo a cada volta (torque para dentro). Deimos, além da órbita síncrona, recebe o efeito oposto e se afasta lentamente.Crédito: Gregg Dinderman / Sky & Telescope; fonte: E. Asphaug, Nature Geoscience (2016)

A origem desses dois corpos continua sendo um enigma. Depois que a Mariner 9 enviou as primeiras imagens em close, em 1971, os pesquisadores concluíram que os satélites poderiam ser asteroides ou cometas capturados, com base em sua cor escura e em suas superfícies cobertas de crateras. Os espectros das luas, isto é, a maneira como refletem a luz em diferentes comprimentos de onda, não apresentam feições distintivas e se parecem com os de asteroides primitivos comuns na parte externa do cinturão principal, entre Marte e Júpiter. Durante décadas, essa semelhança bastou para que a hipótese da captura fosse tratada como a explicação mais natural para a presença de duas pedras escuras em torno do planeta vermelho.

Phobos vista pela Mars Reconnaissance Orbiter, da NASA. A lua tem diâmetro cerca de 150 vezes menor que o da nossa e, por ser porosa, massa menor ainda. Os sulcos que partem da cratera Stickney, à direita, podem ser sinais da tensão de maré que ameaça rompê-la.Crédito: NASA / JPL-Caltech / University of Arizona

A ideia tem defensores até hoje, mas também tem problemas sérios. Luas capturadas existem em outros pontos do Sistema Solar, como Tritão, em Netuno, ou Febe, em Saturno, e elas percorrem órbitas inclinadas em relação ao eixo de rotação do planeta, muitas vezes retrógradas e alongadas. Phobos e Deimos, ao contrário, circulam o equador marciano em trajetórias quase perfeitamente redondas. Há ainda um obstáculo de física básica. Para que a gravidade de um planeta aprisione um asteroide que passa por perto, o visitante precisa primeiro perder velocidade, senão simplesmente segue adiante. As espaçonaves acionam motores para frear ao entrar em órbita, “mas um asteroide não tem foguetes”, resume o cientista planetário Sébastien Charnoz, do Instituto de Física do Globo de Paris.

Charnoz aponta uma segunda dificuldade, ainda maior. “O principal problema da captura é que você não capturou apenas um objeto; você capturou dois, Phobos e Deimos, e eles estão exatamente no mesmo plano orbital”, diz ele. “Explicar isso é muito difícil.” Aprisionar um asteroide já exigiria uma coincidência rara, talvez a ajuda de uma atmosfera primitiva muito mais densa para frear o intruso. Aprisionar dois e deixá-los alinhados no equador, em órbitas circulares, parece pedir sorte demais à natureza. Foi esse incômodo dinâmico, somado à constatação de que grandes impactos eram frequentes no Sistema Solar jovem, que levou parte da comunidade a buscar outra explicação para os satélites de Marte.

A hipótese do impacto propõe que um objeto de bom tamanho atingiu Marte e ejetou um disco de detritos que, com o tempo, se aglutinou em luas, as quais se formariam naturalmente ao longo do equador, tal como aconteceu com a nossa. A colisão, contudo, teria sido muito menor do que a que criou o satélite da Terra. Um corpo semelhante ao planeta anão Ceres, com cerca de 940 quilômetros de diâmetro, teria sido suficiente. “A Lua da Terra tem 1% da massa da Terra, e para fabricar um objeto com 1% da massa da Terra o impacto precisa ser gigantesco”, explica Charnoz. “Mas Phobos tem cerca de um sessenta-milionésimo da massa de Marte.” E Deimos é ainda mais leve. Para produzir luas tão pequenas, basta um golpe modesto na escala dos cataclismos planetários.

Um impacto desse porte ajudaria a explicar outros traços intrigantes de Marte, como a diferença de elevação entre os hemisférios sul e norte, uma das assimetrias mais marcantes de qualquer planeta rochoso. Vários pesquisadores defendem que uma grande colisão escavou a metade setentrional do planeta e abriu ali a vasta bacia de terras baixas que domina o norte marciano. Dependendo da geometria do choque, o golpe também poderia ter acelerado a rotação de Marte até o ritmo atual, um dia de 24 horas e 39 minutos. Nesse cenário, as duas luas, a dicotomia dos hemisférios e a duração do dia seriam cicatrizes diferentes de um mesmo evento ocorrido na infância do planeta.

Proposta em 1994 por Robert Craddock, da Smithsonian Institution, a hipótese do impacto enfrentou anos de ceticismo. Só em 2011 um periódico com revisão por pares aceitou publicar o trabalho. Desde então, outros grupos ampliaram o modelo. Alguns sugerem que a colisão teria gerado satélites adicionais, destruídos depois pelas forças de maré. Phobos e Deimos seriam, assim, as últimas sobreviventes, ou então luas de segunda geração, formadas a partir dos destroços de uma antecessora maior. Deimos talvez tenha sido a única a nascer além da órbita síncrona, a distância em que o período orbital de um satélite coincide com a rotação do planeta. Dentro dessa fronteira, as marés puxam a lua para baixo; fora dela, empurram-na para cima. Por estar do lado de fora, Deimos vem se afastando de Marte desde então.

Phobos e Deimos vistas do solo de Marte pelo rover Curiosity, da NASA. Instantes depois desta imagem, Phobos passou diante de Deimos e escondeu a lua menor.Crédito: NASA / JPL-Caltech / Malin Space Science Systems / Texas A&M University

É aí que as amostras entram em cena. O material que a MMX trouxer de Phobos tem o potencial de resolver a questão para as duas luas de uma vez. Se a amostra contiver materiais escuros e argilosos, semelhantes aos encontrados no asteroide Ryugu, visitado pela sonda Hayabusa2, os cientistas saberão que Phobos é um asteroide capturado. Se, em vez disso, aparecerem vidro fundido e minerais secos como piroxênio ou olivina, essa será a prova definitiva de um impacto em alta velocidade, capaz de derreter rocha e varrer dela qualquer vestígio de água. Ou talvez nada disso. “Pode ser outro cenário em que ninguém pensou”, admite Charnoz. “A única maneira de progredir nessa questão é ter um pedaço de Phobos num laboratório.”

Chegar a Phobos, porém, tem um histórico que não anima. As tentativas anteriores de pousar na lua fracassaram de maneira notória. Em 1988, a União Soviética lançou as ambiciosas missões Phobos 1 e Phobos 2. A primeira foi perdida ainda a caminho de Marte, por causa de um erro de comando enviado da Terra, que desligou os sistemas de orientação da sonda. A segunda chegou a entrar em órbita e a fotografar a lua, mas o contato se perdeu quando ela se preparava para a fase final da aproximação, que a levaria a pairar a apenas 50 metros da superfície e a soltar dois pequenos módulos de pouso. Em 2011, a Rússia tentou de novo com a Phobos-Grunt, projetada para trazer amostras à Terra, e a sonda nem sequer conseguiu deixar a órbita terrestre. Phobos acumulou, assim, a fama de cemitério de ambições.

Quadro da reportagem original: Phobos 1 e Phobos 2, lançadas pela União Soviética em 1988, e a russa Phobos-Grunt, de 2011 — três tentativas de alcançar a lua, três fracassos.Crédito: Sky & Telescope (novembro de 2026)

A MMX quer encerrar essa série de frustrações. A espaçonave deve deixar a Terra no fim de 2026, a partir do Centro Espacial de Tanegashima, no sul do Japão, a bordo de um foguete H3, o novo lançador pesado japonês cujos problemas iniciais adiaram a missão, originalmente prevista para 2024. Com cerca de quatro toneladas, a sonda levará aproximadamente um ano para chegar ao planeta vermelho, com chegada programada para 2027. A partir daí começa uma coreografia de quase cinco anos entre Marte e suas luas, planejada etapa por etapa, em que cada manobra depende do sucesso da anterior e em que não há espaço para improviso.

A espaçonave vai se adaptar a cada fase da viagem, descartando componentes à medida que deixam de ser necessários, como um foguete que abandona estágios. O módulo de propulsão, responsável por frear a sonda e colocá-la em órbita marciana, será ejetado logo após a chegada. O módulo de exploração, que abriga a maior parte dos instrumentos científicos e as pernas de pouso, fará o grosso das observações e a coleta das amostras, mas também será deixado para trás no fim. O material recolhido ficará guardado no módulo de retorno, que leva os equipamentos de comunicação e é impulsionado por um conjunto menor de motores. Exploração e retorno decolarão juntos de Phobos e continuarão a investigar o sistema marciano por mais um ano e meio, com sobrevoos próximos de Deimos. Só então o módulo de retorno se desprenderá para trazer a carga preciosa à Terra.

Os três módulos da MMX, mostrados separados: o de propulsão (à esquerda) leva a sonda à órbita de Marte; o de retorno (centro) carrega energia, comunicações e a cápsula que trará a amostra à Terra; o de exploração (à direita) reúne o trem de pouso, os coletores e boa parte dos instrumentos.Crédito: JAXA

Cada passo da missão é cuidadosamente ensaiado. Ao chegar às vizinhanças de Phobos, a sonda manobrará para acompanhar a trajetória do satélite. Phobos quase não tem gravidade e está tão perto de Marte que a atração do planeta sobrepuja por completo a da lua. A MMX, portanto, orbitará Marte, e não Phobos, ainda que a siga de perto. “O que fazemos se chama órbita quase-satélite: entramos em órbita em torno de Marte, mas numa órbita elíptica”, explica Charnoz. Como a lua tem rotação síncrona e mostra sempre a mesma face ao planeta, o descompasso entre as duas trajetórias fará parecer que a sonda dá voltas em torno de Phobos. É como dois carros que percorrem a mesma pista em ritmos ligeiramente diferentes: visto de um deles, o outro parece avançar, recuar e dar a volta ao redor, sem que nenhum dos dois saia da estrada.

A órbita quase-satélite em quatro instantes: a MMX circula Marte numa trajetória elíptica (em cinza), ajustada à órbita quase circular de Phobos (em laranja). Vista da lua, a sonda parece dar voltas ao redor dela. Fora de escala.Crédito: JAXA / NAOJ

Durante cerca de um ano, a MMX vai estudar Phobos da órbita com um nível de detalhe inédito. Uma câmera grande-angular e um altímetro a laser mapearão a superfície em três dimensões, para que a equipe escolha um local de pouso ao mesmo tempo seguro e cientificamente interessante. Três espectrômetros começarão a desvendar a composição elementar e a mineralogia da superfície, entre eles um instrumento de infravermelho fornecido pela agência espacial francesa e um espectrômetro de raios gama e nêutrons construído pela NASA, enquanto um sensor de poeira monitorará as partículas que escapam de Marte e de Phobos. Esses dados orbitais dirão muito sobre a composição da lua, talvez o bastante para revelar a origem dos satélites e cumprir o objetivo principal da missão antes mesmo do pouso.

“É claro que o retorno de amostras será o ponto alto da missão, não há dúvida”, reconhece Charnoz. Mas as observações remotas revelam coisas que as amostras não conseguem contar, como a densidade e a estrutura interna da lua. Da órbita, medindo com precisão o campo gravitacional e a forma do satélite, a MMX poderá determinar se Phobos tem um núcleo sólido ou se é um amontoado de pedaços frouxamente agregados, uma pilha de entulho mantida junta por uma gravidade ínfima. “A estrutura interna vai dizer muito sobre o processo de formação”, acrescenta o pesquisador. Um corpo compactado em camadas conta uma história; um aglomerado poroso de fragmentos conta outra, bem diferente.

Um mistério persistente é a ausência de feições espectrais nítidas nas duas luas, sobretudo no infravermelho próximo. Os pesquisadores suspeitam que o intemperismo espacial, o bombardeio incessante de vento solar e micrometeoritos, escureceu tanto os materiais da superfície que a composição verdadeira ficou indetectável a distância. Observando a lua de muito perto, o espectrômetro de infravermelho próximo da sonda pode enxergar o que os telescópios e as sondas de passagem não enxergaram. Para registrar imagens de alta qualidade ao longo de toda a missão, a emissora pública japonesa NHK forneceu um par de câmeras de vídeo de altíssima resolução que filmarão Marte e suas luas em detalhe. Parte dessas imagens será transmitida à Terra durante a missão, mas o grosso desse material, pesado demais para o enlace de rádio, ficará armazenado na cápsula de retorno, para ser recuperado fisicamente junto com as amostras.

Pegando carona até Phobos vai um rover de quatro rodas projetado para explorar o terreno antes do pouso da nave-mãe. É uma caixa preta com cerca de 50 centímetros de lado e um conjunto de painéis solares dobrados sobre o teto, algo que lembra um brinquedo de criança, mas que está prestes a embarcar numa jornada selvagem. Batizado de Idefix, em homenagem ao cachorrinho carismático dos quadrinhos franceses de Asterix, o veículo foi desenvolvido pelas agências espaciais da França e da Alemanha, a CNES e o DLR, e é herdeiro direto do módulo MASCOT, que as mesmas instituições enviaram ao asteroide Ryugu a bordo da Hayabusa2.

Um protótipo do rover Idefix em teste de condução sobre um terreno que simula a superfície de Phobos, em 2025. O veículo de 25 quilos foi desenvolvido pela CNES e pelo DLR.Crédito: DLR

A nave-mãe soltará o Idefix sobre Phobos de uma altitude de 40 metros. “Cair de 40 metros num corpo de baixa gravidade não é tão ruim”, diz Stephan Ulamec, do Centro Aeroespacial Alemão, o DLR, investigador principal do rover. “Você ainda chega à superfície a uma velocidade muito baixa.” Na gravidade frágil da lua, o veículo atingirá o chão a cerca de 1 metro por segundo, menos que o ritmo de uma caminhada normal. Mesmo assim, deve quicar várias vezes e percorrer talvez uma dúzia de metros antes de parar. Então terá de se virar sozinho até a posição de condução e desdobrar os painéis solares para recarregar as baterias. “Se isso não funcionar, a missão do rover acabou”, resume Ulamec.

A baixa gravidade cria outros desafios. Com 25 quilos de massa, o Idefix será leve como uma pena em Phobos, o que reduz a tração que permite às rodas empurrar o veículo adiante. A velocidade ficará limitada a quase cômicos 1 milímetro por segundo. Nesse ritmo, o rover leva um minuto inteiro para avançar 6 centímetros, e uma lesma de jardim o deixaria para trás sem esforço. Ainda assim, com uma vida útil prevista de pelo menos 100 dias, haverá tempo para percorrer centenas de metros a partir do ponto de pouso, o que, na escala de uma lua de 27 quilômetros, equivale a uma expedição respeitável.

Os comandos de condução chegarão da Terra usando a nave-mãe como retransmissora, mas os operadores só conseguirão falar com o rover a cada 8 horas, aproximadamente, por causa da revolução de Phobos em torno de Marte, que interrompe periodicamente o contato. Eles enviarão uma instrução, talvez para avançar alguns centímetros, e esperarão para ver o resultado antes do passo seguinte. “Não é um carro de corrida”, brinca Ulamec, “mas será o carro mais rápido de Phobos.” Um recurso de condução autônoma está disponível, mas apenas como demonstração tecnológica; a decisão sobre cada movimento continuará nas mãos da equipe em solo.

O Idefix é um laboratório sobre rodas. Duas câmeras de navegação olham para a frente, enquanto outras duas apontam para baixo, para observar como as rodas interagem com o regolito, informação crucial não só para dirigir, mas também para estudar as propriedades físicas do solo. Um radiômetro medirá as temperaturas da superfície e, a partir de como o terreno esquenta e esfria ao longo do dia, determinará as propriedades térmicas da lua, que revelam indiretamente detalhes sobre a densidade e o interior. O instrumento mais sofisticado a bordo é um espectrômetro Raman, projetado para identificar a composição mineralógica do regolito pela forma como as moléculas espalham a luz de um laser.

Como o instrumento tem alcance curto, o rover precisará executar uma manobra desajeitada de agachamento, baixando o chassi até que o sensor fique rente ao chão. O processo é lento e consome muita energia, de modo que a equipe terá de ser seletiva sobre onde fazer as varreduras. Essas medições são valiosas sobretudo para investigar duas regiões distintas de Phobos com cores globais ligeiramente diferentes, uma mais avermelhada e outra mais azulada, cuja diferença pode se dever à composição ou apenas à textura. A espectroscopia Raman também pode determinar o quanto as amostras recolhidas pela nave-mãe representam a constituição geral da lua. “Você não consegue obter nenhuma dessas informações da órbita ou das amostras”, diz Ulamec.

Mesmo que o Idefix funcione por mais tempo do que o previsto, sua missão terminará quando a MMX deixar Phobos e o enlace de comunicação se romper. O rover ficará sozinho na superfície, sem poder ligar para casa, como um explorador deixado numa ilha sem rádio. Até lá, porém, ele terá cumprido um papel que nenhum outro componente da missão pode cumprir: ser os olhos e as mãos da equipe no chão, testando a firmeza do terreno e a cor das pedras antes que a nave-mãe, muito maior e muito mais cara, arrisque o próprio pouso.

A coleta de amostras é o ponto alto da missão, mas também uma manobra de tirar o fôlego de engenheiros e cientistas. Missões anteriores a asteroides usaram procedimentos de touch-and-go, o toque e vai: a sonda encostava na superfície por poucos segundos, recolhia o regolito e se afastava de imediato, como fizeram a Hayabusa2 em Ryugu e a OSIRIS-REx em Bennu. A MMX vai de fato pousar em Phobos e permanecer na superfície por várias horas antes de recolher a amostra. Nenhuma agência jamais tentou um pouso assim, prolongado e apoiado em pernas, num corpo tão pequeno, e a MMX ainda terá de decolar de novo depois, com a carga a bordo.

O risco aumenta pelo pouco que se conhece do terreno. As melhores imagens disponíveis hoje têm resolução de vários metros por pixel, insuficiente para dizer se existem áreas planas e lisas onde seja seguro pousar, ou se o lugar inteiro “é só penhasco e pedregulho”, nas palavras de Ulamec. Os planejadores contam com as imagens colhidas durante o ano em órbita para traçar a descida. Independentemente do tamanho das rochas, o regolito de Phobos deve ser solto, como areia seca de praia, segundo Isabel Herreros, membro da equipe científica da MMX no Centro de Astrobiologia, na Espanha. E areia solta, num mundo quase sem gravidade, se comporta de maneiras que ninguém observou de perto.

Esse material deve estar sujeito a um cabo de guerra permanente entre forças concorrentes: a gravidade fraca da própria lua, sua rotação e as marés marcianas. A configuração dessas forças varia conforme o lugar. No ponto sub-Marte, a região de Phobos que encara diretamente o planeta, a gravidade marciana puxa “para cima”, na direção de Marte, e a força centrífuga da rotação da lua faz o mesmo, enquanto a gravidade de Phobos puxa de volta para o chão. Nos polos, a força centrífuga desaparece, restando apenas a atração de Marte e a da lua. No lado oposto a Marte, as duas gravidades se somam para puxar os grãos em direção ao centro de Phobos, enquanto a força centrífuga “empurra” para cima. Um grão de poeira pesa, na prática, quantidades diferentes dependendo de onde está.

Essa dança gravitacional se complica ainda mais com a órbita de Phobos, ligeiramente excêntrica e quase síncrona. À medida que a lua circula Marte, a direção da atração do planeta “balança”, fazendo Phobos oscilar para a frente e para trás num movimento de libração que desestabiliza o regolito nas encostas. Os grãos rastejam pela superfície numa migração lenta, porém constante. O estresse térmico das variações bruscas de temperatura, as fraturas internas e a chuva permanente de micrometeoritos desestabilizam ainda mais o terreno, mantendo o regolito em movimento. Phobos, vista de perto, não é um mundo estático: é um deserto cujas dunas se deslocam ao ritmo das marés de um planeta inteiro.

A cratera Stickney, a maior feição de Phobos, com a poeira fina deixada por blocos que deslizaram pelas encostas. Esta região muda mais do que o restante da lua ao longo do tempo.Crédito: NASA / JPL-Caltech / University of Arizona

Herreros mapeou como esse material se moveria e onde se acumularia, e o resultado é uma espécie de carta de mobilidade da lua, com regiões de intenso trânsito de grãos e regiões onde quase nada se mexe. Seu trabalho pode ajudar a MMX a evitar zonas de pouso arriscadas e oferece contexto para qualquer amostra coletada. Um grão recolhido num vale pode ter rolado de um penhasco próximo, enquanto áreas despojadas de material podem expor camadas mais frescas, enterradas por éons. Em torno da cratera Stickney, a maior feição de Phobos, com cerca de 9 quilômetros de diâmetro, boa parte da superfície aparece no mapa como terreno de alta mobilidade, cortado por sulcos que podem ser sinais da tensão de maré que ameaça romper a lua.

Mapa de mobilidade do regolito de Phobos: em vermelho, as regiões onde o material migra muito; em azul, onde quase não se move. A cratera Stickney fica logo à esquerda do centro. As áreas verdes, onde os grãos nem escapam nem se acumulam, podem ser os melhores locais de amostragem.Crédito: I. Herreros & S. Charnoz / EPSC-DPS 2025, CC BY 4.0

As áreas onde o material se acumula têm mais chance de conter uma mistura diversificada de grãos, inclusive ejeta arrancados da superfície de Marte por impactos de asteroides ao longo da história, fragmentos do planeta que teriam cruzado os 6.000 quilômetros até Phobos e ali se depositado. Mas esses pedaços de Marte podem ser mais fáceis de encontrar onde os grãos nem escapam nem se acumulam. “Se você quer material marciano, é melhor ir a uma zona estável”, explica Herreros. Num lugar assim, o intemperismo espacial pode ter degradado os ejeta marcianos, mas pelo menos as peças não estarão soterradas sob o regolito itinerante de Phobos. A missão, portanto, pode voltar com uma amostra dupla: um pedaço da lua e, misturados a ele, pedaços do próprio planeta vermelho.

Como as propriedades físicas da superfície permanecem desconhecidas, se dura, arenosa ou pulverulenta, a MMX leva dois sistemas de amostragem diferentes. O C Sampler, cuja letra vem de core, o testemunho de perfuração, consiste em uma broca montada num braço robótico, projetada para perfurar até 10 centímetros abaixo da superfície e recuperar material relativamente intocado, protegido do intemperismo espacial. Essas amostras podem ser representativas dos blocos de construção originais da lua. O P Sampler, por sua vez, é um sistema pneumático que usa um jato de gás para recolher material solto da superfície. Esse regolito superficial é fortemente alterado pela radiação e, como sugere a pesquisa de Herreros, provavelmente contém uma mistura de grãos nômades vindos de toda a superfície da lua.

Os pesquisadores da MMX esperam recolher aproximadamente 10 gramas de material de Phobos. Para efeito de comparação, a Hayabusa2 tinha a expectativa de coletar apenas 0,1 grama do asteroide Ryugu e voltou com 5,4 gramas, mais de cinquenta vezes o planejado. Alguns membros da missão estão otimistas de que a MMX possa superar as próprias metas de forma semelhante. Diante dos 382 quilos do Apollo, dez gramas parecem pouco, mas a ciência de amostras mudou de escala desde os anos 1960: hoje um único grão de poeira de Ryugu rende dezenas de análises isotópicas e mineralógicas, e os laboratórios trabalham rotineiramente com quantidades que um microscópio comum mal enxerga.

Depois que a amostra for coletada, a espaçonave decolará de novo e voltará à órbita, onde continuará as observações por mais cerca de um ano. Resta saber se a MMX tentará um segundo pouso para recolher material de outra região; os planejadores da missão preferem ver como tudo corre na primeira tentativa antes de decidir. Quando a amostragem terminar e a campanha de observação orbital for considerada concluída, talvez em algum momento de 2029, a MMX começará a se afastar de Marte em espiral, fazendo uma visita a Deimos pelo caminho. Se será um sobrevoo apressado ou um encontro mais demorado dependerá de quanto propelente restar nos tanques.

Para economizar ainda mais combustível, o módulo de retorno se separará então do módulo de exploração, deixando para trás a maior parte dos instrumentos e o trem de pouso, antes de acionar os motores para iniciar a longa viagem de volta. Como nas missões anteriores da agência, a JAXA planeja fazer a cápsula de retorno cair em segurança no interior desértico da Austrália, onde já desceram as cápsulas da Hayabusa, em 2010, e da Hayabusa2, em 2020. O pouso deve ocorrer em 2031. De lá, a cápsula viajará ao Centro de Curadoria de Amostras Extraterrestres em Sagamihara, no Japão, que já guarda as amostras de Itokawa, Ryugu e Bennu. Apenas um grama será compartilhado com cientistas japoneses e internacionais para análise imediata; o restante ficará armazenado para estudo posterior.

“Uma vez que você tem a amostra, ela é guardada para a geração futura”, diz Charnoz. Mantê-la preservada em segurança garante que, quando a tecnologia avançar, daqui a décadas, os cientistas possam fazer análises “que hoje não conseguimos nem imaginar”. A lógica é a mesma que fez a NASA guardar lacradas, por quase cinquenta anos, algumas das amostras do Apollo, abertas apenas em 2022 com instrumentos que não existiam quando os astronautas as recolheram. Cada grão de Phobos será, nesse sentido, uma carta enviada ao futuro, para ser lida por pessoas que ainda não nasceram e por máquinas que ainda não foram inventadas.

À medida que a data do lançamento se aproxima, a equipe finaliza os preparativos. Por anos, esses pesquisadores forçaram a vista em imagens de baixa resolução das luas, tomadas de longe. A MMX representa uma nova era de descoberta, a era de enxergar com clareza. “Você imagina as coisas de um jeito”, diz Herreros. Agora, acrescenta, “eu quero ir lá e ver”. Charnoz compartilha a expectativa. “Minha esperança é que, quando chegarmos bem, bem perto, Phobos finalmente se revele”, afirma. “Há água? Há carbono? Talvez finalmente vejamos a assinatura espectral verdadeira” que a superfície escurecida esconde.

Outro momento crítico será o primeiro contato, liderado pelo rover Idefix, se ele sobreviver ao pouso. “Aqueles primeiros dados além do puro housekeeping, a telemetria de rotina que informa a saúde do veículo, aquelas primeiras imagens, serão os mais emocionantes”, diz Ulamec. “Como está o rover? Está funcionando? Como é o terreno? Há rochas ao redor?” A torrente de perguntas continua. “A empolgação vai continuar à medida que você dirige e vê como a condução funciona, e você obtém os primeiros espectros. Serão cem dias absolutamente cativantes.” Para quem já esperou décadas por uma lua, cem dias de respostas são uma eternidade comprimida.

Para todos eles, a missão é mais do que imagens e dados; é a possibilidade de passar da teoria e das ideias à evidência concreta sobre a história das luas, sobretudo se finalmente puderem estudar uma amostra cara a cara. “É uma questão de curiosidade”, diz Herreros. “Para mim, será espetacular se em algum momento eu puder ver de verdade uma amostra que trouxemos de lá. Será uma experiência que vai muito além da ciência.” A frase resume o que move uma missão que levará mais de uma década entre o projeto e a abertura da cápsula, e que depende de uma sucessão de manobras em que cada erro pode ser o último.

Phobos atravessa o céu de Marte na direção errada três vezes por dia, condenada a cair, um dia, sobre o planeta que a mantém presa. Sondas passaram por ela, fotografaram-na, falharam diante dela e seguiram adiante. Agora, uma caixa preta do tamanho de uma mala vai rolar sobre sua poeira a um milímetro por segundo, uma espaçonave de quatro toneladas vai se apoiar em suas encostas por algumas horas, e uma cápsula vai trazer de volta dez gramas de um mundo que a humanidade nunca segurou nas mãos. Se dentro dela houver argila escura, Marte capturou um visitante; se houver vidro, Marte criou uma lua a partir da própria ferida. De um jeito ou de outro, a resposta estará numa sala limpa em Sagamihara, cabendo numa colher, esperando que alguém a leia.

Fonte: Javier Barbuzano, “On Approach to Phobos”, Sky & Telescope, edição de novembro de 2026, p. 34–40 (seção Moon Rendezvous). Entrevistados na reportagem original: Sébastien Charnoz (Instituto de Física do Globo de Paris), Stephan Ulamec (DLR) e Isabel Herreros (Centro de Astrobiologia, Espanha).