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O Starship chegou à órbita pela primeira vez. No dia 28 de setembro de 2026, exatamente 18 anos depois de o Falcon 1 salvar a SpaceX em Kwajalein, o Booster 21 e a Ship 41 deixaram a plataforma 2 de Starbase às 7h48 da manhã no Texas, 9h48 em Brasília, e fizeram o que treze voos de teste nunca tinham feito: uma volta completa em torno da Terra, entregando de quebra a primeira carga real do programa, 26 satélites Starlink V3. E quase não aconteceu. Neste vídeo eu conto o Voo 14 do começo ao fim, com todos os números.

Você vai ver por que a SpaceX passou treze voos evitando a órbita de propósito, com uma nave de 52 metros de comprimento, 9 metros de diâmetro e 160 toneladas que não pode ficar lá em cima sem controle. Vai entender o que os Voos 12 e 13 ensinaram sobre o Block 3 e os motores Raptor 3, do Booster 20 que explodiu no golfo por ingestão de gelo até a Ship 40 que amerissou inteira no Índico e cedeu duas telhas do escudo térmico para voar de novo na Ship 41.

Depois vem o lançamento em detalhe: o atraso de 31 minutos para ter luz do dia nas zonas de amerissagem, o motor central do propulsor que apagou na subida, a separação a quente com ignição assimétrica, o obturador rolante que deixa o som do foguete visível nas câmeras, a foto do Space Scout com as ondas de choque cruzando o disco do Sol, a queima de retorno com 31 motores e o pouso suave do Booster 21 na água com 11 dos 13 motores previstos, seguido da destruição intencional pelo sistema de terminação de voo.

O coração do vídeo é a decisão. Faltando menos de um minuto para o fim da queima de subida, um Raptor Vacuum da Ship 41 desligou. A nave ficou numa trajetória suborbital e a SpaceX tinha quinze minutos para escolher. Primeiro veio o não, anunciado ao vivo. Um minuto depois, a equipe voltou a olhar os dados. Oito minutos depois, go para a órbita. Explico o que provavelmente aconteceu na sala de controle, por que um motor a vácuo apagado não deveria impedir a inserção orbital e por que, mesmo assim, a pergunta certa era outra.

Aos 25 minutos e 20 segundos de voo, um único Raptor de nível do mar queimou por cerca de 20 segundos, acrescentou uns 90 metros por segundo e colocou a nave numa órbita de 262 por 277 quilômetros, com 32 graus de inclinação. De lá saíram 26 satélites Starlink V3, os primeiros operacionais dessa geração, um por minuto, pela primeira vez à luz do dia e pela primeira vez filmados pelas câmeras dos próprios satélites. Mostro os detalhes que dá para reconhecer nessas imagens, das molas do mecanismo de liberação aos tanques de argônio e terminais de laser, e explico a mecânica orbital que faz um satélite empurrado para trás aparecer abaixo e à frente da nave minutos depois. Cada V3 entrega cerca de 1 terabit por segundo, é grande demais para o Falcon 9 e, segundo a SpaceX, os 26 juntos somam dez vezes a capacidade que um Falcon 9 carregado de V2 Mini adiciona à rede.

Também está no vídeo a decisão de voltar cedo, com a nota da SpaceX sobre a cautela diante do problema no motor, o furacão Polo de categoria 5 visto do espaço, a manobra fina com propulsores de gás frio para passar por baixo dos Starlinks antes de frear, a queima de saída de órbita em T+2:12:18 e a amerissagem ao norte do Havaí em T+3:08:30, numa missão três vezes mais longa que qualquer voo anterior. E o que vem depois: o Booster 22 como candidato à captura pela torre no Voo 15, a licença da FAA que vale só para este voo e o fim dos lançamentos Starlink do Falcon 9 na Flórida. O 28 de setembro, que em 2008 salvou a empresa com o Falcon 1, virou o dia da órbita da SpaceX.

Fontes usadas na apuração: transmissão oficial da SpaceX, NASASpaceflight, Spaceflight Now, NPR, Payload, Teslarati e a análise de Scott Manley.

Você acha que a SpaceX acertou ao encurtar a missão para menos de duas órbitas ou deveria ter arriscado as seis voltas completas? Deixe sua opinião nos comentários.

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