Com o espectrógrafo MUSE, no deserto do Atacama, equipe mede as distâncias de 223 objetos e separa lentes verdadeiras de impostoras em um lote de 76 candidatas descobertas por aprendizado de máquina
No alto do Cerro Paranal, no deserto do Atacama, existe um tipo de noite que os grandes programas científicos rejeitam. O céu está um pouco turvo demais, a turbulência do ar borra demais as estrelas, a Lua ilumina demais o fundo escuro. Para os projetos de ponta, que exigem condições perfeitas, essas horas são descartadas. Foi justamente nessas sobras que, entre 2022 e 2024, um dos quatro telescópios de 8,2 metros do Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul (ESO), apontou repetidamente para borrões minúsculos escolhidos por uma rede neural. Eram 76 candidatos a lentes gravitacionais, objetos em que a gravidade de uma galáxia dobra a luz de outra, muito mais distante, e a transforma em arcos, anéis e cruzes de luz. Ao fim do tempo que sobrou, a conta fechou em 55 lentes confirmadas, 15 que ainda esperam veredito e 6 impostoras desmascaradas.
Os resultados foram publicados em 13 de agosto de 2026 no The Astrophysical Journal Supplement Series, em um artigo de 74 páginas liderado por Emerald Lin, da Universidade da Califórnia em Berkeley, com colegas do Observatório Gemini e do NOIRLab no Chile, da Universidade de São Francisco, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, da Universidade do Havaí, da Universidade de Pittsburgh, da Universidade da Califórnia em Los Angeles e do Instituto Kavli da Universidade de Tóquio. É o quarto capítulo da série DESI Strong Lens Foundry, uma espécie de fundição de lentes cósmicas em que a descoberta por inteligência artificial é seguida pela confirmação, uma a uma, com os melhores instrumentos disponíveis. Os números resumem a escala do trabalho: 92 apontamentos, 223 espectros extraídos e analisados, 55 sistemas com as distâncias da lente e da fonte medidas.
Para entender por que tanta gente dedica tanto tempo de telescópio a esses borrões, é preciso voltar a uma das previsões mais estranhas da relatividade geral. Einstein mostrou que a massa deforma o espaço-tempo e que a luz segue essa deformação. Quando uma galáxia massiva se coloca quase exatamente na linha de visada entre a Terra e outra galáxia situada bilhões de anos-luz atrás, a luz da galáxia de fundo contorna a da frente por vários caminhos ao mesmo tempo. O observador vê a fonte distante multiplicada, esticada e ampliada: um arco aqui, um contra-arco ali, às vezes quatro imagens dispostas em cruz, às vezes um anel quase completo. A galáxia da frente funciona como uma lente, por isso o nome, e o fenômeno se chama lente gravitacional forte, porque a distorção é grande o bastante para produzir imagens múltiplas.
Essas lupas naturais são ferramentas de precisão para a cosmologia. A posição e a forma dos arcos dependem diretamente de quanta massa existe na região central da galáxia que faz a lente, incluindo a matéria escura, que não emite luz e só se revela pela gravidade. Lentes fortes são a única maneira de detectar pequenos aglomerados de matéria escura, as subestruturas, a distâncias cosmológicas. E há um prêmio ainda maior. Quando a fonte de fundo é um quasar ou uma supernova, cada imagem múltipla recebe a luz com um atraso diferente, porque os caminhos têm comprimentos distintos. Medir esses atrasos permite calcular a constante de Hubble, a taxa de expansão do universo, de forma independente das escadas de distância baseadas em estrelas variáveis. Em tempos de tensão de Hubble, com medições locais e cosmológicas que insistem em discordar, qualquer método independente vale ouro.
O problema sempre foi a raridade. Lentes fortes exigem um alinhamento quase perfeito, e até poucos anos atrás os catálogos somavam algumas centenas de sistemas conhecidos em todo o céu. A situação mudou com o DESI Legacy Imaging Surveys, um mapeamento fotográfico de cerca de 14 mil graus quadrados feito para selecionar os alvos do Dark Energy Spectroscopic Instrument (DESI), no Observatório de Kitt Peak, no Arizona. Em vez de procurar arcos a olho nu, a equipe de Xiaosheng Huang treinou uma rede neural residual, uma arquitetura de aprendizado profundo conhecida pela sigla ResNet, para reconhecer o padrão de uma galáxia avermelhada cercada por um arco azulado. O resultado, publicado em três artigos entre 2020 e 2024, foi uma colheita de cerca de 3 mil novos candidatos a lentes, aos quais se somaram 436 candidatos a quasares lenteados, encontrados por um algoritmo de autocorrelação, num total aproximado de 3.500 objetos.
Candidato, porém, não é confirmação. Uma fotografia, por mais nítida que seja, mostra apenas duas dimensões. Um braço espiral azulado, uma cauda de maré arrancada de uma galáxia em fusão ou uma galáxia pequena que por acaso se projeta ao lado de uma elíptica grande podem imitar com perfeição a geometria de um arco lenteado. A única prova definitiva é a terceira dimensão: a distância. Se o arco está de fato atrás da galáxia central, e muito atrás, a hipótese da lente se sustenta. Se estiver à mesma distância, ou mais perto, a lente não existe. Por isso a confirmação exige medir o desvio para o vermelho, o redshift, tanto da galáxia-lente quanto da fonte. O desvio para o vermelho é o quanto o comprimento de onda da luz foi esticado pela expansão do universo durante a viagem até nós, e serve como etiqueta de distância para cada objeto.
A série DESI Strong Lens Foundry foi concebida exatamente para transformar candidatos em sistemas confirmados. O primeiro artigo relatou as imagens de alta resolução obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble em um programa de instantâneos, chamado SNAP program, que aproveita brechas curtas na agenda do observatório para registrar alvos de oportunidade. O Hubble observou 51 dos candidatos mais promissores e confirmou a morfologia de lente em todos eles. O segundo artigo, ainda em preparação, usará o próprio DESI, capaz de coletar milhares de espectros ao mesmo tempo. O terceiro recorre ao telescópio Keck II, no Havaí, com espectroscopia no infravermelho próximo, necessária quando a fonte está tão distante que suas linhas características escapam da janela óptica. O quarto artigo, este, cuida de um pedaço do céu que os demais alcançam mal: o hemisfério sul.
A ferramenta escolhida foi o MUSE, sigla de Multi Unit Spectroscopic Explorer, um espectrógrafo de campo integral instalado na unidade UT4 do VLT, o telescópio batizado de Yepun. A diferença entre um espectrógrafo comum e um de campo integral é a diferença entre uma fenda e uma janela. O instrumento tradicional coleta a luz de uma fatia estreita do céu e a decompõe em cores. O MUSE faz isso para cada ponto de um campo de 60 por 60 segundos de arco, amostrado em pixels de 0,2 segundo de arco, e entrega um cubo de dados com duas dimensões espaciais e uma espectral. É como empilhar milhares de fotografias da mesma cena, cada uma registrada em uma cor ligeiramente diferente, de 4.750 a 9.350 angstroms, com resolução espectral entre 2.000 e 4.000. De cada pixel dessa imagem sai um espectro completo.
Essa arquitetura cai como uma luva para lentes gravitacionais. Num único apontamento, o MUSE captura o espectro da galáxia-lente, dos arcos, das galáxias vizinhas que pertencem ao mesmo grupo e dos intrusos que apenas se projetam na linha de visada. Não é preciso decidir de antemão onde colocar a fenda, nem voltar ao telescópio quando se descobre que havia uma segunda fonte escondida. A sensibilidade do instrumento a linhas fracas de absorção e emissão permite medir desvios para o vermelho além de 1,5 mesmo em casos difíceis, como a equipe de Aleksandar Cikota já havia demonstrado em 2023. Sistemas com múltiplas fontes de fundo, com galáxias interpostas ou com lentes em escala de grupo ou aglomerado, que seriam pesadelos para um espectrógrafo de fenda, viram rotina.
O MUSE, contudo, é um instrumento disputadíssimo, e a equipe não tinha noites inteiras reservadas. A solução foi recorrer aos chamados filler programs, programas de preenchimento, que o ESO executa quando as condições do céu não atendem às exigências dos projetos prioritários. Ao todo foram cinco programas, somando 175 horas nominais: dois liderados por Bian, com 15 e 10 horas, e três liderados por Cikota, com 50 horas cada. Como o tempo de preenchimento só existe quando sobra, dos 175 blocos de observação planejados apenas 100 foram executados, cobrindo 76 alvos diferentes, alguns repetidos em semestres distintos por causa da qualidade ruim da primeira tentativa. Desses 100, 92 renderam sinal útil e 8 foram perdidos para o mau tempo. Cada observação consistiu em quatro exposições de 700 segundos, pouco menos de 47 minutos de luz acumulada por alvo.
Os cubos de dados foram reduzidos com a versão 2.2 do pipeline oficial do MUSE, a cadeia automatizada de calibração do instrumento, executada por meio da ferramenta ESOREX, e as linhas de emissão do céu noturno, que no infravermelho próximo são uma floresta de picos, foram atenuadas com o programa ZAP, uma técnica de purga atmosférica desenvolvida em Zurique. A partir de cada cubo, a equipe gerou imagens sintéticas nas bandas V, R e I do sistema Johnson-Cousins, convolvendo os espectros com as curvas de transmissão dos filtros, e as combinou em composições coloridas em que o V aparece em amarelo, o R em magenta e o I em ciano. Essas composições servem para identificar e rotular cada componente do sistema. As posições e os brilhos nas bandas g, r, i e z vieram diretamente dos catálogos do Legacy Surveys, sem calibração fotométrica independente.
Extrair o espectro de um arco exige mais cuidado do que extrair o de uma galáxia redonda. Para as lentes e as fontes compactas, a equipe usou aberturas circulares. Para os arcos, escreveu uma ferramenta própria em Python que exibe a imagem média do cubo e devolve as coordenadas de cada spaxel, o pixel espacial do cubo, selecionado manualmente com o cursor. O exemplo mostrado no artigo é o sistema DESI J245.7514+21.6226, em que um contorno irregular acompanha a curva de um arco e dois círculos marcam as galáxias L1 e L2, com o alerta de que o objeto a sudoeste de L1 é apenas uma estrela da nossa Galáxia. Os espectros de todos os pixels dentro de cada região foram promediados para aumentar a razão sinal-ruído.
A medição do desvio para o vermelho seguiu em duas etapas. Primeiro, os espectros promediados foram inspecionados a olho, em busca das linhas de emissão e absorção mais evidentes, para obter um valor inicial. Depois, os espectros foram levemente suavizados com um filtro de Savitzky-Golay e as linhas principais foram ajustadas por mínimos quadrados com perfis gaussianos amarrados aos comprimentos de onda de repouso. Para a maioria das fontes, o ajuste recaiu sobre as linhas de absorção H e K do cálcio ou sobre o dubleto de oxigênio ionizado em 3.726 e 3.729 angstroms, modelado com duas gaussianas que compartilham o mesmo desvio para o vermelho. Quando a cobertura espectral exigia, entraram alternativas como as linhas de carbono C IV e [C III], o dubleto de magnésio Mg II ou a linha Lyman-alfa do hidrogênio.
Cada valor recebeu uma etiqueta de confiança, o índice Qz. O nível 1, robusto, foi atribuído quando as linhas eram claras e inequívocas, o caso da grande maioria dos espectros. O nível 2, provável, marca espectros em que as feições são reconhecíveis, mas o sinal é fraco ou há alguma ambiguidade. O nível 3, possível, indica que o ruído impediu até o ajuste gaussiano e que o valor é apenas uma estimativa grosseira a partir de feições tênues. Essa honestidade metodológica é um dos pontos fortes do catálogo: em vez de esconder a incerteza, o artigo a exibe caso a caso, com a incerteza estatística extraída da matriz de covariância de cada ajuste e, para cada sistema, a lista das linhas efetivamente usadas.
Os espectros das galáxias-lentes contam, quase sempre, a mesma história. Elas são elípticas massivas e velhas, sem formação estelar relevante, e sua luz carrega as marcas de populações estelares envelhecidas: a quebra em 4.000 angstroms, um degrau abrupto no brilho, e uma coleção de linhas de absorção de Fraunhofer. As mais comuns são o par H e K do cálcio ionizado, em 3.968 e 3.934 angstroms, a banda G em 4.308, a linha H-beta do hidrogênio em 4.862, o tripleto Mg b do magnésio em 5.175 e o dubleto D do sódio em 5.892 angstroms. A regra da equipe foi exigir pelo menos três dessas assinaturas para fixar o desvio para o vermelho de uma lente. Reconhecer esse padrão é como identificar uma impressão digital: cada linha sozinha poderia ser confundida, mas o conjunto não deixa dúvida.
As fontes de fundo falam outra língua. São em geral galáxias jovens, azuis, cheias de gás ionizado por estrelas recém-nascidas, e sua assinatura mais frequente é o dubleto do oxigênio, que aparece como um pico duplo inconfundível quando ampliado. Para as fontes mais distantes, o desvio para o vermelho empurra essa linha para fora da janela do MUSE, e o que entra no lugar é o ultravioleta de repouso, esticado até o visível: linhas de absorção de silício, carbono, ferro, alumínio e magnésio, produzidas pelo gás que envolve as regiões de formação estelar, mais a emissão semiproibida do carbono [C III] em 1.909 angstroms. Acima de um desvio para o vermelho de aproximadamente 3, a própria linha Lyman-alfa entra em cena. Esse jogo de linhas que entram e saem da janela explica por que alguns sistemas precisaram do Keck para serem fechados.
O balanço final aparece em um mosaico de 55 recortes do Legacy Surveys, com o norte para cima e o leste para a esquerda, e em dois gráficos que resumem a amostra. As galáxias-lentes se distribuem entre desvios para o vermelho de 0,22 e 1,09, com forte concentração entre 0,3 e 0,5, o que corresponde a luz emitida entre 3,5 e 5 bilhões de anos atrás. As fontes vão de 0,58 a 3,46, com a maioria entre 1 e 2, o que significa luz que partiu quando o universo tinha entre um quarto e menos da metade da idade atual. No diagrama que cruza as duas distâncias, linhas verticais vermelhas marcam os sistemas em que uma mesma lente amplia fontes situadas em distâncias diferentes, os chamados planos de fonte múltiplos, que são os mais valiosos para a cosmologia.
Alguns sistemas merecem apresentação individual, a começar pelo DESI J031.7781–27.4454, que o próprio artigo descreve como deslumbrante. Uma galáxia amarela, com desvio para o vermelho de 0,35451, transforma a luz de uma galáxia de fundo em um arco azul brilhante que quase fecha um anel completo. A fonte está em 1,67711, e a equipe extraiu separadamente o espectro de um nó luminoso na extremidade oeste do arco e o do restante da curva. Os dois valores coincidem, mas as intensidades das linhas não: o nó exibe absorções mais fortes de silício, alumínio, ferro e magnésio, enquanto o arco mostra emissões mais vigorosas de carbono. Ao que parece, a lente está ampliando regiões fisicamente distintas da mesma galáxia, com gás e populações estelares diferentes, algo que só um instrumento de campo integral consegue separar.
Duas cruzes de Einstein figuram na lista. Nessa configuração, a fonte se alinha tão bem com o centro da lente que surgem quatro imagens dispostas em cruz, como no célebre sistema Q2237+0305, descoberto por John Huchra em 1985. O DESI J220.4549+14.6891 já era conhecido desde 2009 pelo levantamento CASSOWARY, sob o nome CSWA 20, mas a equipe de Max Pettini só havia medido o desvio para o vermelho de duas das quatro imagens. O MUSE mediu as quatro, todas em torno de 1,433, com valores entre 1,43338 e 1,43357, e os picos duplos do oxigênio alinhados com perfeição; a lente está em 0,7421. O segundo exemplo, DESI J253.2534+26.8843, publicado por Cikota em 2023, tem a lente em 0,63632 e quatro imagens azuis de uma fonte em 2,5964, identificada por absorções de carbono, silício e ferro.
O sistema mais extraordinário da amostra é o DESI J090.9854–35.9683, apelidado de Lente Carrossel pela equipe de William Sheu em 2024. Em vez de uma galáxia, a lente é um pequeno aglomerado, com galáxias L1 e L2 em 0,4883 e 0,48835, e em vez de uma fonte há sete, distribuídas em distâncias diversas e multiplicadas ao redor do centro. O artigo destaca apenas uma delas, cujas quatro imagens azuis, rotuladas de A a D, formam um arco e revelam o dubleto do oxigênio apesar do brilho fraco, com desvio para o vermelho em torno de 1,432. Sistemas assim, com vários planos de fonte, permitem comparar as razões entre as distâncias e, com isso, restringir os parâmetros cosmológicos, análise que F. Urcelay e colegas publicaram em 2026 a partir dessa mesma lente.
Outro veterano ganhou um capítulo novo. O DESI J335.5354+27.7596 já havia sido estudado pelas equipes de Dahle, em 2013, e de Acebron, em 2022: três galáxias-lentes, em 0,49016, 0,49278 e 0,4910, triplicam a imagem de um quasar azul situado em 2,79791, identificado pela coincidência exata das linhas de carbono C IV e [C III] nos três espectros. Quasares lenteados são justamente os objetos usados nas medições de atraso temporal da constante de Hubble. O que o MUSE acrescentou foi um arco ao sul, nunca confirmado espectroscopicamente, que se revelou uma galáxia em 2,29167, com absorções de silício, carbono e ferro e emissões de oxigênio e carbono. Mesmo em sistemas famosos, o campo integral ainda encontra fontes escondidas.
O DESI J345.8606+23.4757 reúne, em um só campo, duas fontes de naturezas diferentes. A lente está em 0,27653. A fonte A, duplicada em dois arcos, apresenta dubletos de oxigênio fortíssimos e desvios para o vermelho de 1,29593 e 1,29552. A fonte B, quadruplicada e muito mais azul, exibe algo que nenhum outro sistema do artigo mostra: uma absorção Lyman-alfa larga e profunda em 1.215 angstroms, acompanhada de absorções metálicas de oxigênio, silício, carbono, ferro e alumínio de intensidade rara, tudo em torno de 3,010. A equipe interpreta a fonte B como uma provável galáxia de quebra de Lyman, em que a largura da absorção reflete uma coluna enorme de hidrogênio na frente da radiação, embora admita que o padrão também lembra o espectro de uma explosão de raios gama ou de um quasar. Os arcos, em vez de se curvarem ao redor da lente, se alinham numa reta de norte a sul, geometria que o artigo classifica como inesperada.
Essas falhas não desmerecem a rede neural; elas definem o que ela é. Um algoritmo treinado em imagens aprende morfologia, e um braço espiral iluminado tem a mesma geometria de um arco lenteado. A taxa de impostoras, 6 em 76, é baixa, e a maior parte dos alvos restantes se revelou lente de verdade. Os 15 sistemas que ficaram no meio do caminho têm apenas o desvio para o vermelho da galáxia-lente, medido a partir das linhas H e K do cálcio, com valores entre 0,20793 e 0,88994, mas suas fontes eram fracas demais ou simplesmente não apareceram nos cubos, prejudicados pelo tempo ruim. Para esses, o artigo apresenta recortes de 50 por 50 segundos de arco do Legacy Surveys e os espectros das lentes, e os coloca na fila de uma nova rodada de observações.
Todo o material tem valor de legado. Os cubos brutos do MUSE estão disponíveis no arquivo científico do ESO sob os identificadores dos cinco programas, os espectros extraídos acompanham o artigo em formato legível por máquina, e a equipe pretende carregar os resultados no banco de dados SLED, o repositório de lentes gravitacionais fortes mantido pelo Museu Americano de História Natural. Uma lente confirmada, com os dois desvios para o vermelho medidos, é matéria-prima para a modelagem de massa. Combinada com imagens nítidas do Hubble, do James Webb ou do Euclid, ela permite reconstruir o perfil do halo de matéria escura da galáxia-lente, medir a razão entre massa e luminosidade das estrelas e contar as subestruturas invisíveis que perturbam os arcos, testando previsões da cosmologia padrão sobre a abundância de pequenos halos.
A segunda fronteira é o tempo. Quando a fonte lenteada é uma supernova ou um quasar, a variação do brilho chega a cada imagem em momentos diferentes, e a diferença, de dias a anos, depende da geometria do sistema e da expansão do universo. Supernovas como a Refsdal e a H0pe já forneceram medições da constante de Hubble por esse caminho, e as colaborações de quasares lenteados acumulam resultados cada vez mais precisos. O grupo do DESI Strong Lens Foundry conduz buscas dedicadas por transientes lenteados nas imagens do Legacy Surveys, e cada lente confirmada neste artigo é um lugar onde um evento desses pode ser reconhecido assim que acontecer, com a distância da lente já conhecida.
O contexto mais amplo é uma avalanche anunciada. O Observatório Vera Rubin, no mesmo Chile, iniciou seu levantamento de uma década, o Euclid, da ESA, mapeia um terço do céu com nitidez espacial, e o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da NASA, é o próximo da fila. Juntos, devem elevar o número de candidatos a lentes fortes das milhares atuais para as centenas de milhares. O gargalo não será mais encontrá-las, mas confirmá-las. Espectrógrafos de campo integral como o MUSE, alimentados por listas de prioridade geradas por aprendizado de máquina e encaixados nas horas que os grandes programas dispensam, são um modelo de como transformar essa enxurrada em ciência. O artigo de Lin e colegas é, nesse sentido, um ensaio geral.
Há algo de poético no fato de que as noites rejeitadas tenham produzido um catálogo desse porte. Cada uma das 55 lentes é uma galáxia que, por acaso de alinhamento, se colocou no lugar exato para que a gravidade fizesse o trabalho de um telescópio maior do que qualquer um que a humanidade saiba construir, ampliando galáxias cuja luz partiu há 8, 10 ou 12 bilhões de anos. A rede neural as encontrou nas fotografias, o Hubble confirmou as formas, e o MUSE, nas horas que sobraram no Paranal, mediu as distâncias que provam que o truque é real. O universo fabrica lupas há bilhões de anos. Nós só agora aprendemos a catalogá-las em escala.




